O quarto de Socorro conta histórias
Quando voltou ao andar de cima do sobrado, Mercedes não precisou mais ameaçar: a porta de Socorro estava aberta. Pude ouvir a mulata raivosa entrando no quarto ao lado, em silêncio de acusação.
Dona Amparo assentou Socorro no menor dos quartos da pensão. Papel de parede desbotado, sinteco gasto e opaco, um fio grosso que descia do teto e sustentava uma única lâmpada fraca e amarelada. Seria fácil culpar a moça pelo cenário miserável, mas o aposento fora destruído pelo próprio uso anterior do sobrado. Um tapete ornado de camélias vermelhas descoradas disfarçava os estragos do assoalho, mas eram ainda visíveis os arranhões. Os moradores antigos arranjavam o mobiliário ao seu gosto, riscando sem medo o chão da peça. Socorro respeitava as ordens de Dona Amparo. Desde que ali chegou, jamais saiu do lugar qualquer um dos móveis maiores sem o consentimento da amarga senhora. E mantinha o quarto limpo, imaculado.
Só mesmo um torso de manequim deixado em um canto do quarto pertencia à moça. Improvisado sobre um abajur alto, ele suportava um inacabado vestido de noiva que Socorro conservara consigo, sem desassossego. Soube disso pela própria Mercedes: a freguesa, ali da rua mesmo, repudiou a encomenda por conta de uma traição do quase esposo, e a costureira não conseguiu cobrar os gastos. Ficou com o vestido, e o brilho emprestado pelo bordado em pedraria enfeitava o cômodo, alegrava o coração. O resto da mobília era de Dona Amparo, do tempo em que apenas as moças habitavam a casa.
Na parede ao fundo, uma cama de casal, sempre enfeitada com colchas delicadamente bordadas com anagramas alheios – outros pedidos que clientes suas desistiram de buscar. Sob o móvel robusto, um par de chinelas acolchoadas contrastava com a vassoura mal escondida pelas franjas da coberta. Junto à parede, um sóbrio armário de madeira escura dificultava a entrada. Socorro guardava nele as roupas simples que cosia para si, os três pares de sapatos, os moldes, o travesseiro, a caixinha trançada em forma de coração.
Quase oculta pelo guarda-roupa, uma mesa pequena tomada pelo tumulto dos pequenos objetos: a caixa de sapatos que servia de cesta de costura, retalhos de tecido, tesouras, flores de papel recortadas de papéis de embrulho e de revistas que Socorro recolhia na confecção em que trabalhava. A um canto do móvel, uma pastorinha de porcelana, com seu cestinho de azaléias coloridas e seu cão alvíssimo, enchia de graça falseada a desordem da costureira.
Havia algum encanto naquele quarto escuro e úmido. O pequeno basculante nada iluminava – dava para o corredor, ficava bem no alto, escondido na parede da porta de entrada. Mas tudo ali tinha um brilho postiço qualquer, um inverídico ar primaveril. Socorro colara flores de papel pelas paredes, encobrindo as partes que o mofo e o tempo iam destruindo. A peça encheu-se de cores incertas, um estranho emaranhado de recortes. Sobre a cabeceira da cama, chamava a atenção um grande borrão vermelho: a costureira grudara uma folha inteira de papel de presente, rosas encarnadas de um brilho chamativo, onde antes havia apenas uma singela imagem da Imaculada Conceição.
O que mais me intrigava, contudo, era a parede ao lado da cama, na qual Socorro não encostara nenhum móvel. Quando abri uma fresta de minha porta, vi que não era apenas a mim que aquilo impressionava. Mercedes estava atônita, com um rosto de desdém que não se esforçava em esconder. Ela olhava aquela figura: uma grande janela, com um céu azul e cortinas vermelhas a emoldurar uma paisagem incompleta. Não havia sol, nem árvore, nem terra firme. O mar. Sobre a linha do horizonte, um pequeno desfile de barcos em absurda perspectiva. Socorro fizera aquele mosaico tosco com as pequenas rebarbas de papel colorido que fora juntando. De longe, a abertura inventada parecia encher de luz o quarto mal ventilado e o rosto da costureira. Uma brisa marinha quase saia da parede em busca do mundo. Em direção a Furtado, pensei.
Mas Mercedes tinha outros planos e não ficaria ali a ver navios.
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)
O quadro que ilustra o conto é “Pessoa à Janela”, de Salvador Dali.
Oi Frizero Amigo,
Antes de qualquer coisa – ao iniciar cada texto – faço-me sempre a mesma pergunta, mas no que chego aos comentários sempre esqueço: “Será que o Frizero já lançou algum livro?”.
Sua escrita nos deixa esse desejo. Além disso, parece – pelos tags e seguimentos – que sim, se está montando uma novela.
Caso tenha um livro publicado vale a divulgação para os amigos. Se estiver por vir não deixe de fazer uma noite de autógrafos no Rio de Janeiro.
Obrigado pelas constantes visitas e principalmente, comentários.
Abraços.
Rascunhos na Net
Amigo Carlos! Não, amigo, não lancei livro algum ainda. Tenho lá minhas obras registradas, à espera de oportunidades. Mas meus textos em prosa ainda não estão prontos, creio eu; preciso aprender, e muito.
Fico muito feliz em saber que eles despertam o teu interesse, e o de outros visitantes que vez por outra me presenteiam com seus comentários. Esse tipo de retorno - seja elogioso ou não, gostem ou não do que eu escrevo - são sempre uma ótima oportunidade de aprender, de saber como andam as coisas na minha prosa. Afinal, escrevemos para ser lidos…
Quem sabe esse dia chega? Não sonho com riqueza que advenha da literatura, quero mesmo é a oportunidade de ser lido por mais e mais pessoas que possam me dar esse retorno. Escrever, é hoje, meu maior - e quase único - divertimento.
Obrigado pela atenção e o carinho de sempre!
Você é demais! Fico lendo e imaginando as cenas, e hoje, imaginei estar ouvindo uma novela de rádio. rs
E quem surge primeiro? A escrita vem após a imagem do quadro, ou o quadro foi pesquisado, após a escrita?
Um abraço bem grandão, chieo de carinhos, meu amigo!
Neste texto específico, Luh, o quadro surgiu bem depois da escrita. Em verdade, não encontrei uma imagem que combinasse perfeitamente com o texto; esta “janela” de Dalí pareceu-me sugestiva, ainda que não fosse o que eu queria… Apenas um dos textos desta novela que provisoriamente intitulei “Socorro Furtado” - o título será explicado em breve, no decorrer dos capítulos - surgiu de uma imagem escolhida para ilustrá-lo aqui no “Locutório”.
A casa de pensão, Socorro, Dona Amparo e Abigalil estão bem claras em minha mente; o quarto de Socorro encaixou-se magicamente com um quadro de Djanira que eu descobri nas minhas pesquisas, e acabei incorporando elementos dele no texto; Mercedes foi-me presenteada por Di Cavalcanti.
Obrigado pela leitura, escreva sempre aqui teus comentários!
Amigo,
Tive a mesma impressão da Luh: “O que veio primeiro, o quadro ou o texto?”.
Aqui do outro lado, foi nítida – E MUITO FORTE - essa percepção.
O quadro se encaixou perfeitamente no texto.
Até passou pela cabeça a idéia de que fora mais um texto advindo de um dos exercícios propostos e às vezes citados: “Baseado no quadro escreva um conto….”.
Parabéns.
Abraços.
P.S.: Faz tempos que busco quadros de Di Cavalcanti que se encaixem nos textos do blog. Por enquanto nada. Ou quem sabe escreva algo olhando para um deles?