Não quero saber de Socorro!
Voz estridente tinha a Mercedes. Penetrava em meus ouvidos como uma ofensa. Era forte, esganiçada, e a mulher falava como se tivesse em seus gritos a única arma de defesa. Não era verdade. O longo tempo de serviços prestados à sisudez de Dona Amparo eram um trunfo que costumava anunciar sem cerimônia cada vez que se sentia ameaçada pela dona da pensão.
– A senhora já esqueceu de tudo o que eu fiz pela senhora?
A frase costumava calar a mesa do café da manhã. Dona Amparo respondia com um depois-conversamos entre dentes e engolia mais uma xícara de café amargo. Mercedes então ia cumprir o que a patroa havia determinado, mas com um sorriso indecifrável no rosto de mulata brejeira, ornado por inverídicos olhos verdes. Os poucos que sabiam do passado daquela casa compartilhavam um olhar cúmplice com a mulherzinha; os demais encolhiam-se em seus temores ou indiferenças.
– Eu sempre faço tudo que mandam, a senhora sabe.
Mas Mercedes era trabalhadeira. Não parava nunca. Lavava toda a roupa de Dona Amparo e da Abigailzinha com capricho. Mas não servia apenas à velha e sua descarnada neta. Por uns trocados, era capaz de engomar à moda antiga a camisa de um pensionista, de passar cera no chão de seu quarto ou mesmo de preparar uma média com pão e manteiga para confortar seu fim da tarde. Com astúcia de guerrilheira, era capaz de executar todas essas tarefas perigosas na clandestinidade, fugindo ao regimento rígido da pensão escrito na mente da patroa ranzinza. Para evitar enfrentamentos desnecessários, era capaz de cumprir as ordens mais absurdas de Dona Amparo, não sem antes recordá-la de sua fidelidade.
– Eu sou capaz de fazer de um tudo pela senhora.
E agora Mercedes berrava bem ao lado de meu quarto. Era impossível ignorá-la, até porque ela gritava e esmurrava a porta de Socorro com vontade. A mulata não gostava das mulheres que se hospedavam na pensão, sabe-se lá o porquê. Ao contrário do que fazia pelos homens, a quem servia revirando os olhos úmidos, pelas pensionistas não movia um dedo sequer, mesmo diante da promessa de alguns tostões. Trabalhar para outra mulher nas lidas domésticas era um desaforo e qualquer pedido desse tipo, uma ofensa grave para Mercedes. Dona Amparo era a patroa, era diferente; Abigail era doentinha, coitada.
– Tudo o que a senhora manda, eu faço.
Por isso os murros fortes e o nome de Socorro gritado com impaciência. Eu estava subindo as escadas quando Dona Amparo começou a reclamar. Alguém havia bulido em suas cartas, ela mugia. Eu não recebia cartas, jamais. Subi mais rápido e encolhi-me em meu quarto, mesmo sem ter culpa alguma. Mas os berros continuaram. A velha estava ofendida, via naquilo um desrespeito sem fim. Chamou Mercedes, e a mulata, única que deu pela falta de Socorro no final do café da manhã, apontou a moça como a responsável por aquele e outros males do mundo.
– Eu só faço o que a senhora manda, a senhora sabe, deve lembrar muito bem.
E agora Mercedes girava com força a maçaneta, fazia tremer a porta, batia os tamancos no chão. Mas Socorro não abria. A cozinheira bateu, pediu, fez que era querida, ameaçou de morte, fingiu que chorava, chutou. Nada.
– Dona Amparo, cansei. Deixa isso para lá. A senhora sabe que eu sempre faço o que a senhora manda. Mas o diacho da menina não quer sair.
Abigail deve ter dado um suspiro, dos longos. A patroa gritou para a Mercedes lá do sofá da sala. A mulher retrucou. Abigailzinha deve ter feito um muxoxo. A patroa levantou e veio até o pé da escada. Mercedes veio descendo e contorcendo os lábios de desdém. Dona Amparo xingou. A cozinheiro parou, colocando as mãos na cintura. Abigailzinha, coitada, deve ter reclamado da vida infeliz, quase morrendo a cada palavra. A velha então falou para Mercedes que não queria saber de nada e que se ela achasse uma carta da neta dela no quarto daquela moça lá que ela então daria três tostões para a Mercedes e ainda um dia de folga inteirinho só para ela e que ela só não quebrasse a porta que isso não era preciso e que ela também não queria ter prejuízo com pensionista muito menos com a imbecil da tal de Socorro.
Mercedes deu aquele meio sorriso enfeitado de esperteza.
– Mas só vou fazer isso porque eu faço tudo o que a senhora manda.
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)
Você e a Mercedes… rs
Beijo!