Friday, May 11, 2007

Obrigado por tudo

Veermer - 'Mulher de azul lendo uma carta' Havia um certo poder que a palavra escrita sempre exercera sobre ela.  Era algo incontestável. Desde pequena, jamais gostara de ouvir sua mãe a ler os folhetins dos jornais, em voz alta, para a platéia improvisada de suas filhas e das vizinhas que não tinham sido apresentadas às letras.  Aquelas mulheres, ainda que pouco guardassem das histórias que lhes eram narradas, acabavam sempre chorando pelas entonações ora melífluas, ora dramáticas, que sua mãe emprestava àqueles pastiches afrancesados de velhos romances de costumes. Leonora sempre preferiu buscar seus próprios significados naqueles símbolos desenhados nas páginas amareladas dos jornais. 

Admirava os borrões em tinta negra e intensa.   Como não sabia ainda ler, buscava nos desenhos e curvas das letras as imagens antes relatadas com tanta intensidade. Nos traços e formas tipográficas, imaginava os vestidos de baile, o toalete refinado das coquetes francesas, as espadas em duelos mortais.  Podia até mesmo adivinhar os beijos apaixonados com que tais narrativas sempre terminavam pelo tracejado desta ou daquela palavra.  Aprenderia a ler pelas mãos de sua própria mãe, também muito afeita à palavra. Os exercícios exaustivos impostos à menina, para que ganhasse destreza na escrita e na leitura, quase lhe tiraram o encantamento que construíra. Mas o fascínio pela palavra escrita jamais lhe abandonara, em verdade.

Por conta de tal relação tão singular com as letras, Leonora não conseguia desvencilhar-se daquele roto pedaço de papel que lhe haviam posto nas mãos logo após a notícia desconcertante. Ela buscava, dentro de sua dor infinita, encontrar em cada traço da minúscula mensagem o significado real de tais palavras.

Obrigado por tudo. A caligrafia inconfundível de Pacífico, apesar das letras esmaecidas pelo tempo, ainda lhe gritava aos olhos a mensagem derradeira.  O pequeno pedaço de papel estava roto, tanto tempo estivera em suas mãos.  Ela manipulava-o diariamente desde aquele dia infausto em que o marido falecera misteriosamente.  As causas da morte eram desconhecidas, a medicina jamais pôde explicar com fidúcia científica o que acontecera, mas as três palavras soavam em seus ouvidos como se o fantasma de Pacífico ainda estivesse a rondar sua vida.  Eram, para ela, como uma cobrança por algo pendente que deixara entre os vivos. Que poderia ele estar agradecendo? Seu amor, sua dedicação de anos a fio na criação de seus filhos, na condução dos negócios do esposo à frente do balcão da loja de aviamentos? Leonora passeava os olhos por sobre a frase registrada em papel tão rústico e culpava-se, sem saber a razão, por aquela morte tão inesperada.

Talvez Pacífico tivesse partido por desgosto, cansado de suas acusações de esposa que sempre suspeitara de sua lealdade. Lembrou-se de seu esposo, encontrado derribado sobre sua escrivaninha, ainda com a pena em suas mãos, o mata-borrão horrivelmente imprensado sob o rosto defunto.  Dias antes, ela lançara contra ele, uma vez mais, um anátema que envolvia suas desconfianças em relação à amizade de Pacífico com uma de suas freguesas mais habituais. Leonora reprovava os sorrisos, a gentileza em excesso.  Por vezes interrompia rispidamente o trabalho de Pacífico quando lhe acreditava cordial demais com uma ou outra cliente. Agora, Leonora revia cada cena em sua mente.  Em seu peito, um suspiro de culpa que lhe sufocava e corroia.

Obrigado por tudo. A letra era firme, não havia tremor algum naquelas linhas.  Não eram escritas por alguém que pressentisse sua própria morte. Ele escolhera com cuidado e precisão aquelas palavras. Obrigado por tudo. Aquelas letras, por ele agrupadas de modo inequívoco, eram como uma condenação.  Três palavras de maldição lançadas por Pacífico, por tudo que ele estaria sofrendo ao seu lado.

Leonora tentava levar adiante a loja de aviamentos, mas com a morte do esposo os negócios começaram a claudicar.  Em grande parte, isso se dava pela antipatia que ela havia despertado em tantas freguesas antigas do estabelecimento. Talvez, pensava ela, esse fosse o resultado da praga subscrita por Pacífico contra ela.

Ela examinou o papel. Obrigado por tudo. A curva perfeita da letra que abria a frase maldita sugeria a Leonora, depois de tanto reler, mais um desabafo que uma vingança premeditada. Talvez ele estivesse revelando como se sentia em seu papel de esposo.  Vivia cercado das obrigações inúmeras que ela, como esposa, criava diariamente para o pobre homem. Sim, ele percebia a vida como uma eterna obrigação, que as exigências da esposa e as responsabilidades como pai apenas agravavam.

Mas foram felizes, sim. Leonora amava seu esposo, e esperava ansiosamente estar a seu lado todas as noites.  Juntos faziam suas orações antes de dividirem a mesma cama.  Gostava de sentir o calor do corpo robusto de Pacífico, a fortaleza de suas mãos envolvendo sua cintura, os beijos generosos que ele costumava depositar em sua face antes que o sono os vencesse de todo. Obrigado por tudo. Lembrou-se das tantas vezes em que eles trocaram juras de amor eterno.  As alegrias distintas no rosto do esposo no nascimento de cada filho.  A felicidade, o orgulho de seu sucesso, o trabalho árduo para manter a família. Obrigado por tudo. Leonora parecia ouvir os belos lábios de Pacífico entoando essas palavras generosas.  Ela presentearia-o, então, com o carinho que ele conquistara em seu coração.  De um matrimônio que nascera de um arranjo entre suas famílias, Pacífico transformara a união em um amor tranqüilo e benfazejo, cujos frutos agora ela vislumbrava com saudade e delícia.

As lágrimas de Leonora acabaram por borrar as palavras derradeiras, registradas naquele pedaço inútil de papel. Ela olhou a mancha negra que se espalhava lentamente pelo bilhete e sorriu, contente. Depois de beijar suavemente aquela última recordação de seu esposo bem amado, Leonora abriu a janela do quarto do casal e lançou o papel estéril ao vento.

Do volume de contos

(2006)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 19:55:43
Comments

9 Responses to “Obrigado por tudo”

  1. Frizero says:

    Obrigado por tudo, Tatiana. Obrigado por preencher minha vida, por nosso casamento que hoje completa onze anos.

    E perdoe-me por não ter sido ainda um esposo à tua altura.

    Obrigado por tudo, meu amor.

  2. Frizero says:

    O quadro é inconfundivelmente um Vermeer. Johannes Vermeer(1632-1675) foi um dos mais significativos pintores do século XVI e é sempre um nome lembrado na pintura ocidental e, mais especificamente, na pintura holenadesa. O país foi um celeiro de gênios da pintura, de Rembrandt ao “impressionista” Van Gogh, do renascentista Jan van Eyck ao próprio Vermeer. Este último deixou não mais que trinta e seis obras cuja autoria é confirmada. Quase todas são figuras humanas em interiores, não raro reproduzindo o mesmo ambiente do estúdio do pintor. Mas não, não há repetição, não há cansaço: cada obra tem sua poesia própria, sua aura particular, sua vida. Recentemente, Vermeer voltou à cena por conta de um excelente romance e sua adaptação cinematográfica: “Moça com Brinco de Pérola” recria o ambiente de produção do pintor, sua vida familiar e sugere uma resposta para a identidade desconhecida da personagem de um dos mais belos quadros de Vermeer, que dá título ao livro e ao filme.

  3. Luh says:

    Que conto lindo!!!
    Fez-me refletir em relação ao meu cotidiano, aos momentos que, únicos, são deixados passar sem a devida admiração, sem a devida importância…
    Muito lindo. Obrigada, meu amigo.

  4. Luh says:

    Que conto lindo!!!
    Fez-me refletir em relação ao meu cotidiano, aos momentos que, únicos, são deixados passar sem a devida admiração, sem a devida importância…
    Muito lindo. Obrigada, meu amigo.

  5. Alessandro Caneda says:

    Olá Prof. Beto, não sei que tipo de opinião tu esperas - não sei qual o objetivo
    do livro.
    Se tua intenção é o teu prazer pessoal e o de alguns leitores
    que tu consideras importantes, penso que o conto está excelente.
    Particularmente gosto muito da maneira como a história foi construída. Desde a
    importância das palavras na vida da personagem e o impacto psicológico que o
    bilhete causou, até a escolha do vocabulário do conto, que situa o
    leitor em uma determinada época. A forma como a história é revelada também é
    inteligente. Seria um forte candidato a um concurso de literatura, minha
    pequena opinião. Tive a impressão de estar lendo algum clássico.

    Por outro lado, se o intento é ganhar dinheiro… sobre isso, se
    não queres uma crítica sincera, é bom pular para o “abraço” que antecede
    minha assinatura! :)

    Já que resolveste não pular esses parágrafos, explico. O Lauro
    Quadros tinha mais leitores do que o Rui Carlos Ostermann. Desculpe a
    comparação provavelmente injusta, mas para fim de explicar meu ponto de
    vista, acho que ela, a injustiça, pode ser relevada. O Rui escreveria, sobre
    uma partida de futebol, “Na tarde outonal de um domingo modorrento,
    obviamente a bola só seria movimentada de forma inesperada quando
    impulsionada por um craque. Esse garoto de alcunha Pato…”, enquanto que o Lauro
    quadros escreveria “Jogo lento ontem, o único que queria vencer era o
    Pato”.

    Os dois estilos se prestam (e bem) para públicos totalmente
    diferentes. Em tempos de internet, de abreviações mluks (malucas) das palavras,
    o estilo “Rui” não alcançaria um público que prefere textos mais óbvios e
    diretos. Se for o caso de tornar a leitura mais “pop”, acredito que o
    conto possa ser acelerado no início.

    Abraço,
    Alessandro Caneda

    P.S. E o final, hein? Tive a impressão que o gesto dela, de
    jogar o bilhete pela janela, livrou a personagem da culpa… queria ver ela
    engolindo o bilhete, guardando a culpa dentro dela. Muito Nelson
    Rodrigues?:)

  6. Walter Gonçalves Junior says:

    Melancólico, como costumam ser as recordações sobre a morte de alguém que deixou saudades.
    A leitura me deixou também com uma certa angústia - parece inevitável lermos o conto sem que alguma emoção seja por ele despertada.
    Em suma, excelente!
    Abs
    Walter

  7. Carolina Scherer says:

    Beto, eu adorei esse conto ! É, realmente, muito bonito !

  8. Alan Mendonça says:

    Caro amigo Beto, bah, muito legal o seu conto. Gostei mesmo. Você tem muita perfeição na construção das frases e no ritmo da história.

    Ou seja, existe fluidez e profundidade. Gosto muito disso.

    Meu amigo, tem sido uma grande honra ( e um orgulho) te conhecer.

    Além de ter aprendido muito com você agora aproveito a leitura dos seus contos, crônicas e poemas.

    Fico muito impressionado com a sua dedicação com as leituras e a escrita.

    Poxa, quero ler todos os contos do seu livro. Com certeza!

    Grande abraço.

  9. Frizero says:

    Este conto, como um Pokémon, evoluiu - ganhou novo arranjo, um contraponto entre passado e presente da protagonista. Gostei bem mais da nova versão, que estou guardando para um livro…

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