‘FARSA’ e o financiamento da cultura
Ao pensar na produção cultural e artística do Brasil, poucos idealizadores parecem preocupar-se com o que, no futuro, representa a própria garantia de manutenção dos produtos culturais que se empenham em divulgar - a formação de um público que se interesse por suas produções e de outros tantos artistas em construção que se interessem em levar adiante essa reunião imaterial de conhecimentos a que chamamos cultura. Em diversos países, esse reavivar cultural dá-se por meio de financiamentos públicos, invariavelmente mantidos por meio de isenção fiscal a empresas privadas que cooperem por meio de patrocínio a espetáculos e eventos artísticos. No Brasil, também foi esse o caminho encontrado para que o governo se eximisse dos encargos de financiar a cultura diretamente - e diversas leis surgiram com esse propósito, das quais as mais aplicadas são a Lei Rouanet e a Lei de Incentivo à Cultura (LIC).
Infelizmente, como tantas outras coisas em nosso país de descontroles, também as leis de financiamento cultural sofrem terríveis distorções. Sem definições precisas sobre o tipo de evento cultural ou artístico que interessaria ao governo incentivar, as verbas da Lei Rouanet e da LIC têm sido aplicadas para financiar produções que se pagariam facilmente por conta de seu forte apelo comercial ou por seu público cativo; mais que isso, as mesmas verbas que são tão difíceis de obter para a sustentação de projetos importantes são dirigidas a eventos e produções cujo caráter cultural é altamente questionável. Exemplos não faltam: verbas da LIC e da Lei Rouanet foram aplicadas no megaespetáculo do canadense Cirque du Soleil, nas últimas turnês da cantora Ana Carolina e da dupla Chitãozinho e Xororó e até mesmo na produção dos mais recentes filmes de Renato Aragão e Xuxa. Tristemente, os desmandos não param por aí: os esportistas, que já contam com dinheiro oriundo dos Bingos e de outras fontes de patrocínio, também conseguiram no Congresso Nacional uma fatia da isenção fiscal das leis de incentivo e, pasmemos todos, há um projeto de lei em andamento naquelas casas legislativas que prevê uma lei de incentivo fiscal para empresas que patrocinem…grupos religiosos!
Felizmente, há exceções. Marcos Breda, Luiz Arthur Nunes e sua Caravana Produções lançaram, em 07 de maio de 2007, seu terceiro projeto cultural com patrocínio exclusiva da Refinaria Alberto Pasqualini (REFAP), da Petrobrás, intitulado FARSA Trata-se da montagem de quatro textos curtos de autores famosos - Miguel de Cervantes, Tchékov, Moliére e o brasileiro Martins Pena - que se dedicaram ao gênero cômico nos textos dramáticos e, mais específicamente, à farsa. O projeto, contudo, não se limita à montagem das peças teatrais: em uma perfeita compreensão do espírito das leis de incentivo cultural, a Caravana Produções preocupa-se, desde suas primeiras montagens - Arlequim, Servidor de Dois Patrões (2002) e A Maldição do Vale Negro (2004) - em oferecer ao público a oportunidade de acompanhar todo o processo de montagem do espetáculo. No dia 07 de maio de 2007, o início do projeto Farsa foi feito em uma primeira leitura dramática aberta para convidados, na qual o elenco - Bianca Byngton, Marcos Breda e Luciana Braga, entre outros - apresentou os quatro textos que serão estreados na primeira semana de agosto em Porto Alegre, no Teatro São Pedro. O melhor do projeto, contudo, é a chance que os interessados em teatro terão ao participar, entre os dias 12 e 15 de junho de 2007, de uma série de mesas redondas e conferências sobre o gênero teatral farsesco e de uma oficina para atores sobre atuação cômica. Em outras palavras, Breda e Nunes estarão abrindo para o público as reuniões preparatórias e as oficinas que muitos outros espetáculos também realizam, mas a portas fechadas. O projeto Farsa, contudo, traz um importante diferencial: a qualidade de seus palestrantes. A conferência de abertura, intitulada “A Farsa no Teatro”, será ministrada por Eric Bentley, uma das maiores autoridades em textos dramáticos, responsável pela introdução e divulgação da obra de Bertold Brecht nos EUA. O evento contará, ainda, com mesas redondas nas quais especialistas na área das artes dramáticas falraão sobre o gênero farsesco e sobre os autores; dentre os debatedores, nomes de peso como Graça Nunes (UFRGS), Beti Rabetti (UNIRIO), Vilma Arêas (UNICAMP), Elena Vassina (USP) e Bella Josef (UFRJ). Além disso, estão programadas leituras dramáticas de outros textos dos autores estudados em “Farsa”: Cervantes e Moliére, sob direção de Adriane Mottolo, e Tchékov e Martins Pena, sob direção de Julio Conte.
Não faltam leis no Brasil, e nossa legislação, em algumas áreas, acompanha o que há de mais moderno no pensamento legislativo mundial. O que nos falta é parcimônia na aplicação do dinheiro público, uma certa visão de futuro e uma consciência de que em um país com tamanhas necessidades sociais, verbas como as das leis de incentivo a cultura devem ser revertidas, centavo por centavo, em iniciativas que efetivamente tenham uma preocupação em construir, como esta belíssima proposta da Caravana Produções. Mirando no desejo de montar espetáculos teatrais de elogiada qualidade, Marcos Breda e Luiz Arthur Nunes acertaram no alvo ao multiplicar a verba obtida pelo patrocínio oriundo da renúncia fiscal do Estado brasileiro na forma de ingressos mais baratos para suas apresentações, democratizando o acesso do público às montagens, bem como levando aos homens e mulheres da área cultural o bom exemplo de compartilhar conhecimento e formar platéias para o futuro.