Wednesday, May 2, 2007

Socorro e seus mais recônditos pensamentos

Djanira - 'Costureira'Socorro empurra a cadeira para trás sem emitir qualquer som. As demais pessoas à mesa continuam a refeição. Ninguém olha para ela ou murmura qualquer despedida. A moça recoloca o assento no lugar e, de cabeça baixa, dirige-se para a escada. Ainda com o pé esquerdo no primeiro degrau, ela vira a cabeça e olha para a pequena mesinha onde havia um telefone e alguns envelopes. Seu corpo debruça-se no corrimão e a mão direita levanta carta por carta.

O último envelope da pequena pilha traz um sobrescrito em letras grandes. Seu dedo indicador acompanha o desenho das palavras: “Arlindo Furtado”. Ela ergue-o até a altura dos olhos, abana-o no ar, sente o peso do conteúdo oculto. No verso, há um nome de mulher, “Glória”, e um endereço distante, de uma cidade portuária. Uma das letras do nome de mulher tem um pequeno coração no lugar do ponto característico. A mão de Socorro crispa-se sobre o papel amarelado. Sem amassá-la, ela devolve aquela carta à companhia das demais e sobe os degraus da escada rapidamente.

A chave da porta do quarto não entra na fechadura. Socorro tenta três vezes acertar o pequeno orifício, sem sucesso. A mão direita, a mesma que há instantes repetia as palavras de Glória sobre o amarelo do pequeno envelope, agora treme. A chave cai ao chão, junto dela uma lágrima escapa pela face esquerda da moça. Ela pega no assoalho a chave caída. Com a mesma mão, seca o olho marejado e tenta novamente entrar no quarto. O som da porta que abre e de seus pés adentrando o quarto é menor que o barulho da risada rouca de Dona Amparo no andar de baixo.

Senta-se para costurar e até faz alguns pequenos reparos em um par de meias brancas que trazia calçadas. Mas, em poucos minutos, abandona a agulha e pega sobre a mesa umas flores de papel recortadas. Separa-as por tamanhos e cores. Por fim, coloca de lado as três pilhas de retalhos de revistas e tira de uma pequena gaveta quatro folhas inteiras de papel de presente. Com o dedo, passa um pouco de cola no verso de uma enorme figura com rosas vermelhas estilizadas; a mão desenha demoradamente no retalho um nome. Sobre uma das letras de “Arlindo”, Socorro faz um coração e, em volta de todo o nome, ela fecha um círculo no qual seus dedos se demoram, rodeando e rodeando sem qualquer pressa.

Quando a voz de Mercedes chama seu nome do lado de fora do quarto, Socorro ainda mantém as mãos espalmadas sobre o papel já devidamente colado na parede sobre a cabeceira da cama. Seus olhos miram entorpecidos o vermelho das flores pintadas. A mão que acaricia o papel, evitando as bolhas de ar que surgiam nas bordas da folha, é a mesma que vez por outra conserta o olho úmido. Mas Socorro nada diz, mesmo quando a criada da pensão esmurra por três vezes a porta do quarto e faz estremecer por dentro o pequeno cômodo onde a moça guarda seus pedaços de vida privada longe dos olhos do mundo.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 21:20:13 | Permalink | Comments (1) »

Os jornalistas e os canalhas

Arnaldo Jabor

Todos sabemos que os nosso queridos deputados têm direito de receber de volta o dinheiro gasto com gasolina, seja indo para seus redutos eleitorais ou indo para o hotel com suas amantes ou seus amantes. A Câmara, ou melhor, você e eu, pagamos o custo, desde que eles levem notas fiscais para comprovar os gastos da gasosa. Será que o senhor Arlindo Chinaglia não vê isso ou só continua pensando no bem do PT? Quando é que vão prender esses canalhas? Ah, esqueci, eles têm imunidade, têm foro privilegiado, é isso aí amigos otários, otários como eu.

Arnaldo Jabor, em comentário à rádio CBN

A Câmara dos Deputados, na figura de seu presidente Arlindo Chinaglia (PT), deu início a um processo judicial contra Arnaldo Jabor, comentarista do Sistema Globo de Rádio e Televisão, por conta de comentários feitos pelo cineasta a respeito da imunidade parlamentar.  Segundo nota oficial daquela casa parlamentar, a medida partiu do uso do termo canalhas por Jabor para referir-se a parlamentares.

Curiosamente, os comentários de Arnaldo Jabor que deram origem à sua indignação - que o levou a usar a palavra pouco elogiosa em referência aos deputados - não se referiam aos parlamentares em geral, mas àqueles que estariam se locupletando das verbas destinadas aos gastos com combustíveis liberados para os deputados e senadores como forma de aumento indireto de salário.  Dados recentemente divulgados na imprensa dão conta que o valor gasto nos primeiros meses da atual legislatura com tal regalia seriam suficientes para financiar o combustível necessário para quarenta e quatro voltas em torno do globo terrestre.  Até onde se sabe, não há qualquer fiscalização sobre essa benesse, sendo o parlamentar obrigado, apenas, a apresentar notas fiscais dos gastos com combustível; tampouco se ouviu falar de qualquer medida do presidente do Congresso Nacional para coibir tal prática escandalosa.  Mas nada disso é importante quando um jornalista se dispõe a chamar de canalhas os senhores deputados.

Neste nosso país às avessas - cada vez mais nos aproximamos do que criava a imaginação da Idade Moderna, em que alguns criam que no hemisfério sul as pessoas andavam de cabeça para baixo… -, há até mesmo jornalistas que aplaudem e consideram acertada a medida do Congresso Nacional contra Arnaldo Jabor.  Para eles, “o que está em jogo, no caso do processo contra Jabor, não é o mérito de suas críticas ao mais do que reprovável comportamento dos deputados, a lambança que eles fazem com o meu, o seu, o nosso dinheiro. É a brutalidade mainardiana, ou reinaldo-azevediana, do protesto”.  As palavras são de Luiz Weis, um jornalista de vasta experiência profissional mas simpático ao atual governo, em artigo publicado no Observatório da Imprensa e reproduzido, curiosamente, no site do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).  Weis considera que chamar de canalhas os deputados que estão a ganhar milhares de reais com recibos fraudados de gastos com combustível - ou mesmo com comprovações verídicas de gastos que não foram feitos efetivamente em serviço - é uma “transgressão dos padrões elementares de civilidade”.

Reinaldo Azevedo Não por acaso, ele usa como adjetivação da atitude de Jabor as referências a dois outros jornalistas cujas críticas têm incomodado o governo petista desde o início de seu primeiro mandato - Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo.  Este último foi quase calado por um estratagema simples e sobre o qual não podem ser levantadas acusações contra o governo - sua revista Primeira Leitura teve que ser encerrada simplesmente porque, em um mesmo mês, toda a publicidade oriunda de bancos e instituições ligadas ao governo federal foi retirada sem prévio aviso.  Mainardi, por sua vez, respondeua processo por calúnia solicitado por Franklin Martins, hoje Ministro da Comunicação, ontem jornalista do jornal Hora do Povo - do MR-8;  além disso, recebeu uma ameaça de morte nada velada nas páginas desse mesmo jornal, conforme relatado no blog do Reinaldo Azevedo em 02 de maio de 2007.  Para Weis, o jeito Mainardi ou Reinaldo Azevedo de criticar o governo Lula é pouco civilizado - ainda que o mesmo Weis refira-se, em outros artigos, ao jornal Valor Econômico dizendo que “faz tempo que o jornal baba ovo diante de qualquer coisa que FHC diga”, termos não muito civilizados, a bem da verdade. 

Talvez a questão toda da ética e da civilidade no jornalismo brasileiro resida, enfim, nos alvos e não nos “atiradores”.  Não me recordo do Partido dos Trabalhadores em seus longos tempos de oposição como um partido muito preocupado com medir palavras.  Contudo, dentro da enorme culpa que trespassa o imaginário político e social brasileiro em relação aos desmandos dos anos de ditadura militar, o que vêm das esquerdas é perdoável e sempre feito dentro de um “bem comum”, em nome de uma “causa” cujos efeitos só podem ser benéficos.  Por isso a lei de imprensa que o governo Lula tentou implementar ao final de seu primeiro mandato foi defendida pelos mesmos políticos que lutaram contra a censura nos anos de governo militar.  Pela mesma razão é que os ativistas políticos que gritavam no Brasil por uma imprensa livre aplaudem a ameaça de Hugo Chávez de abandonar a Organização dos Estados Americanos caso sua atitude de fechamento da maior rede de televisão da Venezuela - cuja postura de oposição ao governo incomoda o caudilho venezuelano - siga sendo criticada nas reuniões daquela organização.  Em nome disso, relevam-se o mensalão, as denúncias de superfaturamento nas obras da Infraero, as provas do envolvimento do filho do presidente em tráfico de influências no setor de telecomunicações e até mesmo a farra dos gastos de combustível dos parlamentares sob o comando do presidente petista da Câmara dos Deputados. 

Será que é porque no Brasil ser canalha é ser contra a esquerda - seja lá o que ela pregue ou faça?

Posted by Frizero at 14:19:59 | Permalink | Comments (6)