Socorro e seus mais recônditos pensamentos
Socorro empurra a cadeira para trás sem emitir qualquer som. As demais pessoas à mesa continuam a refeição. Ninguém olha para ela ou murmura qualquer despedida. A moça recoloca o assento no lugar e, de cabeça baixa, dirige-se para a escada. Ainda com o pé esquerdo no primeiro degrau, ela vira a cabeça e olha para a pequena mesinha onde havia um telefone e alguns envelopes. Seu corpo debruça-se no corrimão e a mão direita levanta carta por carta.
O último envelope da pequena pilha traz um sobrescrito em letras grandes. Seu dedo indicador acompanha o desenho das palavras: “Arlindo Furtado”. Ela ergue-o até a altura dos olhos, abana-o no ar, sente o peso do conteúdo oculto. No verso, há um nome de mulher, “Glória”, e um endereço distante, de uma cidade portuária. Uma das letras do nome de mulher tem um pequeno coração no lugar do ponto característico. A mão de Socorro crispa-se sobre o papel amarelado. Sem amassá-la, ela devolve aquela carta à companhia das demais e sobe os degraus da escada rapidamente.
A chave da porta do quarto não entra na fechadura. Socorro tenta três vezes acertar o pequeno orifício, sem sucesso. A mão direita, a mesma que há instantes repetia as palavras de Glória sobre o amarelo do pequeno envelope, agora treme. A chave cai ao chão, junto dela uma lágrima escapa pela face esquerda da moça. Ela pega no assoalho a chave caída. Com a mesma mão, seca o olho marejado e tenta novamente entrar no quarto. O som da porta que abre e de seus pés adentrando o quarto é menor que o barulho da risada rouca de Dona Amparo no andar de baixo.
Senta-se para costurar e até faz alguns pequenos reparos em um par de meias brancas que trazia calçadas. Mas, em poucos minutos, abandona a agulha e pega sobre a mesa umas flores de papel recortadas. Separa-as por tamanhos e cores. Por fim, coloca de lado as três pilhas de retalhos de revistas e tira de uma pequena gaveta quatro folhas inteiras de papel de presente. Com o dedo, passa um pouco de cola no verso de uma enorme figura com rosas vermelhas estilizadas; a mão desenha demoradamente no retalho um nome. Sobre uma das letras de “Arlindo”, Socorro faz um coração e, em volta de todo o nome, ela fecha um círculo no qual seus dedos se demoram, rodeando e rodeando sem qualquer pressa.
Quando a voz de Mercedes chama seu nome do lado de fora do quarto, Socorro ainda mantém as mãos espalmadas sobre o papel já devidamente colado na parede sobre a cabeceira da cama. Seus olhos miram entorpecidos o vermelho das flores pintadas. A mão que acaricia o papel, evitando as bolhas de ar que surgiam nas bordas da folha, é a mesma que vez por outra conserta o olho úmido. Mas Socorro nada diz, mesmo quando a criada da pensão esmurra por três vezes a porta do quarto e faz estremecer por dentro o pequeno cômodo onde a moça guarda seus pedaços de vida privada longe dos olhos do mundo.
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Não por acaso, ele usa como adjetivação da atitude de Jabor as referências a dois outros jornalistas cujas críticas têm incomodado o governo petista desde o início de seu primeiro mandato - Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo. Este último foi quase calado por um estratagema simples e sobre o qual não podem ser levantadas acusações contra o governo - sua revista Primeira Leitura teve que ser encerrada simplesmente porque, em um mesmo mês, toda a publicidade oriunda de bancos e instituições ligadas ao governo federal foi retirada sem prévio aviso. Mainardi, por sua vez, respondeua processo por calúnia solicitado por Franklin Martins, hoje Ministro da Comunicação, ontem jornalista do jornal Hora do Povo - do MR-8; além disso, recebeu uma ameaça de morte nada velada nas páginas desse mesmo jornal, conforme relatado no