Aqui jaz o Limbo
Na Divina Comédia, a obra-prima fundadora da Língua Italiana, o poeta Dante Alighieri situou pagãos virtuosos e grandes escritores e filósofos da Antiguidade, como Sócrates e Platão, no limbo - uma região do mundo de além-túmulo que em séculos de tradição religiosa era apontado como o lugar para onde eram encaminhadas as almas virtuosas que morreram ser receber o sacramento do batismo, incluindo nesse número as crianças recém-nascidas. Pois Bento XVI (Joseph Ratzinger), apontado como reacionário e radical por muitos, desde antes de sua eleição como papa, corroborou a decisão da Comissão Teológica Internacional da Igreja Católica de extirpar do imaginário católico as dúvidas que pairavam sobre a existência de tal lugar espiritual onde não havia sofrimento nem deleites para as almas não batizadas.
O catecismo católico já havia omitido as menções ao limbo desde a edição de 1992, mas o tema da salvação das crianças recém-nascidas que vinham a falecer antes de serem batizadas era ainda tema de discussão entre os teólogos. Em verdade, o limbo jamais fez parte da doutrina da Igreja, embora fosse amplamente divulgado e ensinado nos meios católicos, ao menos até as primeiras décadas do século XX. A decisão, aprovada por Bento XVI, é uma afirmação de que a Igreja Católica acredita haver indícios de que “Deus salvará as crianças que não foram batizadas”, ainda que as escrituras não tragam nenhuma referência explícita ao tema.
A morte do limbo - uma palavra latina que significa “fronteira” ou “limite” - não significa, contudo, o fim da crença no pecado original e na importância do batismo como sinal de aliança dos fiéis com Deus.
A idéia do limbo teria surgido na Idade Média. Na visão de alguns teólogos da Idade Média, seria um “estado ou lugar reservado aos bons e justos que não receberam o sagrado sacramento do batismo”, incluindo aqueles que viveram antes da vinda de Jesus à Terra. Sua existência teológica, contudo, foi sempre questionada. O próprio papa Bento XVI, antes ainda de ser escolhido líder da Igreja Católica, já havia declarado sua concepção de que o limbo seria “apenas uma hipótese teológica” e não “uma verdade definitiva no campo da fé” católica.
Um sinal dos tempos, ou mais ainda, da modernização da Igreja Católica? As questões teológicas e a visão do Vaticano sobre os problemas contemporâneos sempre tiveram uma grande visibilidade e foram alvo de inúmeras discussões. Muitos pensadores, boa parte deles não-católicos, discutem e criticam as posições teológicas de uma religião que permaneceu sempre no imaginário de todos os ocidentais, papistas ou não. Sem dúvida, a Igreja é detentora de uma grande influência sobre um grande número de fiéis e mesmo de pessoas que não professam a fé católica, dado o papel do Cristianismo na cultura ocidental. Em verdade, a Igreja Católica nunca esteve estagnada nas mesmas idéias. Mesmo na era medieval, que os Iluministas franceses nos fizeram ver como um “Tempo de Trevas”, as questões teológicas do catolicismo sempre estiveram sob discussão; se as mudanças não foram mais rápidas que uma certa fatia da intelectualidade esperava, é porque a matéria em debate não pode, de fato, render-se à urgência dos homens. Afinal, quem de nós pode ter certezas sobre a divindade e sua natureza?
Melhor preocuparmo-nos com nosso deus interior, aquele que nos rege em nossas decisões morais e que reflete a nossa relação com essa divindade de tantos nomes e imagens, mas cuja essência ainda seguirá oculta aos olhos humanos por muitos e muitos séculos. Que se ocupem com a teologia católica os próprios católicos e ninguém mais.
Pena não podermos mais deixar nossas questões teológicas no limbo…
As ilustrações de Gustave Doré (1832-1883) sempre me comoveram muitíssimo. Ele foi um dos mais solicitados ilustradores franceses da segunda metade do século XIX; seus trabalhos incluem as ilustrações do Novo Testamento (entre as mais cativantes que já vi), de ‘Don Quixote’ e dos contos de fada de Perrault, entre outros tantos. Sua obra mais interessante, para mim, são as ilustrações da “Divina Comédia”. Não por acaso seu trabalho ainda hoje influencia outros ilustradores e suas imagens são referência visual repetidas ‘ad nauseam’… Como toda obra-prima, seu trabalho comunica-se diretamente com o público, sem a necessidade de intermediações.
Beto, lendo “Aqui Jaz o Limbo” não pude deixar de concordar com suas colocações finais e lembrar-me de Solomon em seu livro “Espiritualidade para Céticos” , onde diz que já é hora de prestar mais atenção a ‘espiritualidade’ e quem sabe deixar de confundí-la com religião, por vezes, demasiadamente paroquiais e exclusivas. Já é hora de dedicar-nos a transformação do self, a algo mais ligado à alma, à constitução do self e expansão do ser humano como um modo concreto de enfrentar a vida e o mundo… ou não?!
Também gosto muito do Doré.
A idéia que as pessoas fazem da vida post-mortem foi muito influenciada pelo Dante, que era poeta, e uniu o conceito judeu de Inferno (Geena) e de Céu com o de Tártaro (o limbo) de Homero e ainda pespegou o Purgatório (invenção medieval). Na Bíblia, não tem essa de intermediários: só tem Céu e Inferno. Há um ótimo livro do Jacques Le Goff, medievalista, chama-se “A Invenção do Purgatório”.
Em termos gregos, Purgatório não faz sentido pois para além do Tempo não há mudança. No Eterno está-se no imutável, portanto, não há como arrepender-se ou mudar. Essa era a concepção divindade/primeiro-motor do Aristóteles, e também de certa forma do seu mestre Platão. Para um grego, tudo que se move, que muda, pertence ao mundo da geração e da corrupção e, portanto, à mortalidade. A imortalidade é ato puro e não se move. Esse é o significado do tempo grego Aoristo (ato puro, não-determinado, pontual, uno) que o Russo depois fundiu com o Perfectivo (ato acabado, portanto, perfeito). Mas, ao mesmo tempo, para um Grego não há um lugar “fora do cosmo”. Não há o nada, o não-ser (eles não inventaram o zero, foram os judeus, os hindus e os árabes, não é?). Há matéria desordenada no princípio e matéria ordenada depois. A matéria, para eles, era eterna. O mundo era eterno. Não tinha essa de começo do nada. Isso é coisa de gente do Livro - judeu, cristão, árabe. Para os budistas, nada existe, é o oposto do grego. Os gregos (Ocidentais) optaram pelo Ser, os budistas (Orientais) pelo Não-Ser, eis a questão.
Na Odisséia, Homero retrata o post-mortem como um lugar em que não se sofria mas também não acontecia nada - perdia-se os prazeres da vida e vagava-se informe por um certo tempo. Mas no tempo de Péricles, havia várias crenças concorrentes, que acreditavam em reencarnação, ou em algum tipo de julgamento/recompensa: os ritos órficos, os mistérios de Elêusis, etc. etc. Como não havia dogma entre gregos, apenas costume, imagine a multiplicidade de crenças sobre o assunto. Quem quiser, leia por favor Jean-Pierre Vernant, “Mito e Religião na Grécia Antiga”.
Ou seja, o pessoal imagina a vida após a morte seguindo um poeta controverso que colocou vários papas no Inferno (não que eles não merecessem, e tenho convicção que Alexandre VI está lá em um dos piores lugares imagináveis, junto com o facínora do Torquemada) mas que nunca teve autoridade teológica nenhuma.
Em tempo: o dogma da infalibilidade papal em assuntos teológicos data de…1870! Em plena Era Contemporânea!
Os padres foram proibidos de casar….por volta do ano 1000! Durante mil anos padre podia casar (S. Pedro tinha sogra - está no Novo Testamento)!
Noivas nunca foram obrigadas a vestir-se de cor alguma - a cor favorita da noiva medieval era o vermelho! Casava-se com o melhor vestido e pronto! Quem introduziu o branco como símbolo de virgindade foram…os protestantes!! Em plena Idade Moderna! Leiam Michel Pastoreau, “Dicionário das Cores do Nosso Tempo”, outro grande medievalista. Ou assistam “A Rainha Margot”, também serve. Passa-se no Renascimento, e os puritanos e condenadores da sexualidade são os protestantes, os corruptos (inclusive no sentido sexual) os católicos.
Mas vá explicar isso para o cura da aldeia, para as velhas carolas, para o pessoal que passa na rua. Ninguém nem sabe direito o que é Cristianismo, muito menos as divergências entre suas diferentes denominações. Só sabem que é o culpado por tudo que acontece de pior no mundo, junto com o Capitalismo e o George Walker Bush…o Bush é mesmo burro, mas não faz diferença se ele morrer amanhã. O Capitalismo é mesmo cego, e é preciso ter cuidado com suas distorções, mas o dia em que o ser humano acordar altruísta por natureza passo a acreditar no Socialismo.
Em tempo: Jean-Jacques Rousseau, pai de todas as esquerdas, nunca disse que o homem era bom por natureza. Ele disse que o homem é solidário por natureza. Hobbes, que o homem é o lobo do homem. Locke, que o homem é aquilo que fazem dele - teoria da tábula rasa. Não concordo com nenhum dos três. Concordo com Ortega y Gasset: o homem é o homem e suas circunstâncias, e acrescentaria, suas escolhas (minha personalidade, não se nasce uma folha em branco + minhas condições de vida + o que o meu livre-arbítrio fará disso).
O catolicismo, no Brasil, é como o marxismo: um negócio no qual todo mundo dá palpite mas ninguém nunca leu nada. Pergunte a um católico brasileiro quais são os dez mandamentos ou a um esquerdista que defina o conceito de mais-valia. A resposta será a mesma: tela azul do Windows (“Você cometeu uma operação ilegal…”). Além disso, nenhum documento medieval fala em pecados capitais e sim em VÍCIOS capitais em oposição a VIRTUDES cardinais. Os ingleses pioraram ao traduzir por “Deadly”. É capital porque vem de cabeça: deles saem todos os outros. E a soberba é o pecado supra-capital: dele saem todos. “Suma Theologicae”, S. Tomás de Aquino. Mas também, pedir a um católico brasileiro que tenha passado os olhos na Suma quando nunca leu nem as cartas de S. Paulo…
O problema não é o pecado, todo mundo peca pelo menos uma vez na vida. O problema é o HÁBITO. Vício é um mau hábito; virtude é um bom hábito.
Vai explicar isso daí em cima para um universitário brasileiro semi-alfabetizado. Eu já nem discuto mais. Antes eu tentava esclarecer as pessoas. Não convertê-las; há excelentes motivos para não ser católico, sem que seja preciso ser mentiroso nem mal-informado. Basta ler Lutero, que não era nenhum dos dois.
Mas este é um país de não-leitores. Já desisti faz tempo.
== Abraços, Patrícia