Socorro e a paixão sem fronteiras
A mesa estava posta. Na cabeceira, Dona Amparo sorvia, com o barulho costumeiro de sua dentadura inadequada, sua xícara de café amargo de todas as manhãs. Seu rosto redondo, ornado por um permanente par de olheiras, controlava a movimentação dos hóspedes da pensão. Tratava-os como crianças de internato: havia um número certo de roscas de polvilho, fatias de queijo minas e bisnagas de pão para cada um, e uma reprimenda áspera para quem não cumpria os regramentos da casa. À direita da obesa senhora, os que pagavam com mais regularidade o valor mensal por seus quartos. Era o lado mais próximo da copa. Por ordem velada de Dona Amparo, eles recebiam os ovos de duas gemas e as fatias de fiambrada frita mais generosas.
Na primeira cadeira à esquerda, ficava a mirradinha da Abigail, uma moça sem atrativos que passava os dias reclamando sobre como a vida era parada, parada… Ela era uma espécie de neta da velha – ao menos era assim que Dona Amparo a apresentava aos estranhos. Em verdade, a menina tinha dez anos quando foi entregue à dona da pensão, apenas três meses antes da mudança do estabelecimento – de casa de tolerância para pensão – e dois dias depois da morte da mãe da jovenzinha feiosa. A existência de Abigail era uma prova do passado pouco nobre de Dona Amparo e, assim, a menina foi sobrevivendo sob a proteção temerosa de sua quase cafetina.
Socorro sentava-se na última cadeira do lado esquerdo da mesa – aquele destinado aos sem importância, aos que atrasavam o mês e aos que chegavam depois do horário sagrado do café da manhã. Lá, ela evitava as conversas do meio da mesa e os olhares insistentes da senhora. Comia como um passarinho. Jamais pedia para a Mercedes, a servente, para trazer a gema dura ou a fiambrada sem fritar: engolia o que lhe traziam, não reclamava, sofria quieta. E não falava com ninguém, pois não havia quem lhe reparasse.
Mas quando vinha o Furtado, tudo era diferente. Marinheiro, sotaque estranho e indefinido, moreno mesmo em dias de chuva, o Furtado puxava assunto, insistia, elogiava, provocava. Uma vez, deu para ela seu ovo frito; na Páscoa, dividiu com ela uma barra de geléia de mocotó que sua mãe lhe mandara de Minas. O Furtado falava com todo mundo da mesa. Mas era o único que arrancava alguma ação de Socorro. Ela suspirava, arregalava os olhos, quase sorria. Ele era farto de dentes brancos, sempre mostrava para Socorro – e para as damas da mesa, como dizia – o sorriso que combinava com o uniforme que vestia em dias de partida.
Mercedes ria muito com os gracejos do Furtado, e ele ganhava dela o branco mais alvo das fardas todas do navio em que servia. Abigail ruminava por ele um amor adolescente, e Furtado sempre atrasava o mês sem receber qualquer reprimenda. Mas ele só existia para elas quando entrava na sala de jantar com seus sapatos brilhosos e o rosto de galanteador. Socorro amava-o ainda mais na ausência, esperava-o chegar de suas longas viagens com olhar de viúva. Sentava-se à mesa do café da manhã e comia distraída, absorta no prato vazio ao lado do seu, na xícara emborcada que não teria naquele dia os lábios carnudos do marinheiro, na rosca de polvilho que iria sobrar na cesta de pão. Por vezes, esquecia a presença dos demais e debruçava-se na mesa, a cabeça mergulhada nas mãos pálidas, murmurando palavras silenciosas…
– Tira o cotovelo da mesa, menina!
Sem as palavras e o riso de Furtado por perto, as palavras de Dona Amparo ressoavam como trovões. Ele ganhava os mares longínqüos e Socorro recolhia-se em sua cadeira, puxava para mais perto a xícara de café bem doce e brincava com a pequena colher, sem vontade alguma de bebê-lo. Quando estava ali o marinheiro, vinha sobre ela uma onda de calor indecente que lhe subia pelo corpo até deixar seu rosto em lava. O lugar vago ao lado era um mar gélido de distância que somente a esperança de revê-lo era capaz de aquecer.
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)