‘What good will it do?’
Às vésperas do aniversário de oito anos da tragédia ocorrida na Columbine High School, em Jefferson, Colorado, ocorrido em um 20 de abril - em que dois alunos armados causaram a morte de dez estudantes -, e apenas dois dias depois das mortes ocorridas na universidade Virginia Tech, a rede de televisão norte-americana NBC divulgou as imagens de um vídeo e de fotografias enviadas para aquela emissora de televisão por Cho Seung-Hui, o desequilibrado estudante de Letras que protagonizou o massacre de seus colegas de universidade e de dois professores.
As imagens chocaram o país e, mais ainda, os parentes e amigos das vítimas. Seung-Hui declara, na gravação enviada para a televisão poucos minutos depois dos dois primeiros assassinatos cometidos por ele naquele dia, que iria “morrer como um mártir, como Jesus Cristo” e outros dois mártires, Eric Harris e Dylan Klebold - os dois jovens do massacre de Columbine. Contudo, mais que as imagens de Seung-Hui portando as armas do massacre ou as palavras desconexas que pronuncia em sua “carta suicida” gravada em vídeo, a divulgação revoltou a sociedade americana e os policiais que investigam o caso. Eles temem que a divulgação do material produzido pelo assassino possa motivar outras pessoas com semelhante desequilíbrio a cometerem crimes inspirados pela ação doentia de Cho.
Um dia apenas depois de divulgadas as imagens, cinco escolas secundárias e universidades estadunidenses receberam ameaças. Em uma delas, o suposto agressor afirmava que iria promover “um massacre maior que o de Virginia Tech”, dando a entender que seu objetivo era superar o odioso recorde de mortes de Cho Seung-Hui. Como o jovem sul-coreano, que aparentemente promoveu a matança incentivado pelas histórias de Columbine - cujos assassinos também produziam vídeos em que falavam de seus instintos violentos e de seus planos de cometer um massacre em sua escola -, outros tantos jovens alimentados por uma cultura de violência cada vez mais forte em nossos dias receberam, via satélite, mais material para a construção de suas sociopatias.
“O que de bom pode vir disso?”, foi a pergunta do policial que chefia as investigações dos assassinatos em Virginia Tech. A sede da NBC em gerar um furo de reportagem - que certamente rendeu um lucro imenso para a empresa, a partir de sua divulgação em nível mundial - lançou nas emissoras de televisão e na rede mundial de computadores as palavras repletas de fúria e insanidade de um jovem cuja motivação maior pode ter sido justamente a idéia torta de se tornar uma celebridade póstuma. Colocar no ar as frases ditas por um louco, cuja última ação no mundo foi a de matar inocentes em nome de uma dita “vingança contra a sociedade”, é não só inconseqüente, mas temerária. E não é sem razão que os norte-americanos vivem em neurastenia perpétua: a violência tornou-se um negócio muito rentável para aquele país tão invejado e competitivo. Oxalá a irresponsabilidade dos jornalistas da NBC não seja o ponto de partida de mais uma competição: a de quem mata mais estudantes em uma terra onde munição e armamento são comprados no mercado mais próximo de sua casa.
