Amparo encontra Socorro
O barulho do basculante de Socorro, que a menina conseguira abrir depois de tamanho esforço, parecia ter despertado em Dona Amparo o pior dos seus humores. Eu prosseguia na cama, na preguiça dos primeiros raios de sol que rompiam a barreira das cortinas, mas sabia que era a dona da pensão que vinha pelas escadas do sobrado apenas pelo som pesado das chinelas em procissão, calcando ruidosamente cada degrau. Não tardava muito entre o ranger do corrimão no topo da escada e a invasão, pelas frestas da porta, do perfume enjoativo de alfazema que Dona Amparo usava para tentar disfarçar seus maus odores. Virando-me para a parede, era como se aquele cheiro de velhice descontente fizesse meus olhos enxergarem além dos tijolos a cena que se repetia na peça ao lado.
Três pancadas autoritárias. Os passos diminutos vinham abrir a porta para que a voz corroída por anos de nicotina começasse a ladainha de todas as manhãs de domingo. Um zumbido de bom dia vinha lá de dentro, e a senhora entrava sem cerimônia no quarto que era, afinal, sua propriedade. Dona Amparo visitava a moça de cima a baixo com seus impropérios – era pela indiscrição da senhora que eu sabia estar Socorro coberta de poeira, cabelos desgrenhados, roupas amarrotadas demais e chinelas de pano que eram um serrote sobre a cabeça da velha logo cedo no dia do Senhor. Seus lábios de moça deviam usar algum vermelho, sua pele precisava de um bom banho de sabão e água, suas unhas não demonstravam capricho algum, sua face pálida espantava os homens: Dona Amparo era rica em reprimendas à vida alheia. Os braços gordos da senhora regiam cada uma dessas frases de desdém e não raro suas mãos se chocavam com algum móvel ou mesmo com as coxas de velha obesa - estranhos sons que enchiam a cena de bizarra percussão. Depois vinham as flores a estragar o imóvel, recortadas de revistas e coladas nas paredes, a cama que rangia demais e o assoalho que parecia jamais ter sido varrido como se deve. As chinelas de Dona Amparo arrastavam-se e vinham perturbar-me à porta de entrada. Antes dos últimos minutos daquele sermão, seu pé inchado ressoava no assoalho por seguidas vezes, irritantemente. Por fim, a dona da pensão encerrava sua homilia. A matrona sem filhos adotava um tom maternal, que soava ameaçador naquela garganta áspera de licores caseiros e banha de porco. Aconselhava a moça a tomar cuidado com o barulho: ao lado “estava um rapaz de boa origem, trabalhador sério, desses que usam muito a cabeça a semana inteira e precisam descansar”. Havia então um silêncio de padre-nosso em Socorro, um murmurar tão recolhido que eu jamais conseguia distinguir, mas tudo compreendia, pois logo a voz rascante de Dona Amparo soltava seu que-isso-não-se-repita de sempre e a porta era fechada pelo gesto teatral de seu grosso braço esquerdo a puxar a maçaneta que lamentava mais alto que as desculpas esvaziadas da costureira.
Do meu quarto, eu pagaria três meses de aluguel para ouvir, um dia que fosse, a voz de Socorro clamando sua liberdade com a força descomunal de trinta revoluções, expulsando os vendilhões do templo, ordenando o ataque das tropas, proclamando a independência ou mesmo anunciando a morte com padecimentos de soprano. Mas o que se seguia era sempre o arrastar enjoativo, infindo, das chinelas de Dona Amparo em direção ao café amargo, às intragáveis roscas de polvilho. No quarto ao lado, um sossego soturno de igreja abandonada.
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)
Este esboço de conto retoma a personagem e a situação de “Socorro”, conto publicado também aqui no “Locutório” (http://locutorio.blog.com/1680363/).
O desenho que ilustra este “Amparo encontra Socorro” é de Mário Zanini (1907-1971), artista paulistano. Em vida, o pintor realizou apenas três exposições individuais, e apenas uma fora de sua cidade natal - curiosamente, aqui em Porto Alegre, em 1966, na Galeria Pancetti. Sua obra começou a ganhar mais destaque apenas após dua morte: em 1974, organizou-se uma retrospectiva de seus trabalhos e no mesmo ano, a família doou ao MAC-SP cento e oito obras de várias fases da carreira de Zanini. Seu trabalho, muito comparado com o do seu amigo pessoal Volpi, faz com que ele seja considerado um dos melhores “coloristas” brasileiros - o que muitos atribuem ao seu contato com o fauvismo francês.
Como de costume gostei do conto, não sei porque mas me lembrou Otto Lara - sem os “INs” que ele costumava inventar.
Estou com um novo conto no blog Erótico? (http://erotico.blog-se.com.br/)
Abraços, Carlos.