A lição de Virgínia

Quase oito anos depois do terrível incidente ocorrido na escola secundária de Columbine, em Littleton, no estado norte-americano do Colorado, no qual dois alunos assassinaram a tiros doze colegas e um professor, além de ferir vinte e quatro outros estudantes, outra tragédia, de proporções ainda piores, deixa alarmados os pais, professores e alunos das escolas dos Estados Unidos da América. Na universidade Virginia Tech, uma das mais conceituadas universidades tecnológicas do país, um atirador matou mais de trinta pessoas, entre alunos e professores da instituição, e feriu outros tantos estudantes naquela que já é considerada a maior tragédia desse tipo na história dos Estados Unidos.
Apenas na manhã seguinte ao crime, ocorrido em 17 de abril de 2007, a polícia do estado da Virgínia conseguiu identificar o assassino serial que, após o crime cometido em dois ataques ocorridos em diferentes períodos do dia, suicidou-se em uma das salas de aula: Cho Seung-Hui era estudante de Língua Inglesa na Virginia Tech e estava às vésperas de se graduar na universidade; de cidadania sul-coreana, vivia legalmente nos Estados Unidos da América e é descrito pelos colegas como um “solitário”. Ao que indicam as investigações preliminares sobre o caso, o jovem estudante de vinte e três anos foi o responsável pelas duas ocorrências - pela manhã, assassinou dois estudantes em um dormitório e, na parte da tarde, enquanto a polícia ainda investigava o primeiro incidente, invadiu diversas salas de aula e matou a esmo outros vinte e oito estudantes e dois professores.
Como ocorreu à época do chamado massacre de Columbine, especialistas e pensadores buscam as causas de tamanha fúria. No caso de Seung-Hui, as suspeitas recaem em uma possível reação à recusa de sua ex-namorada, que pode estar entre as vítimas fatais, em reatar o namoro. Em momentos de dor e de espanto como este, é sempre algo questionável buscar as razões ou, mais que isso, as lições que podemos tirar de um episódio que, neste exato momento, é fonte de tristeza e agonia para tantas famílias que nãos serão consoladas por essas respostas. Mas a pergunta é inevitável: que força será essa que impele jovens como Cho Seung-Hui, Eric Harris e Dylan Klebold - os dois últimos, de dezoito e dezessete anos, respectivamente, os autores da tragédia de Columbine - a atacar seus pares de forma tão violenta e covarde?
Tenho pouco conhecimento de psicologia e nenhuma intenção de sobrepor minhas idéias às tantas análises de especialistas sobre ambos os episódios. Mas me permito levantar certas suspeitas. Estamos em uma época na qual os jovens são, desde a mais tenra idade, criados em um ambiente de absoluta proteção: todas as suas vontades são cumpridas pelos pais e adultos que os cercam, já que as negativas passaram a representar a construção de traumas futuros para as crianças… Em um mundo que só lhes diz sim, as crianças simplesmente não conseguem construir estratégias para lidar com a frustração, com a pressão de seus pares e com os revezes da vida. Em uma sociedade que impõe valores e exigências cada vez maiores e mais inumanas - seja de aparência exterior, de comportamento, de inclusão neste ou naquele grupo, de competição extrema e permanente -, não é difícil imaginar as razões pelas quais os jovens possam desenvolver o sentimento de inadequação, de exclusão, de ausência absoluta.
Diante da frustração - seja da perda de uma namorada ou da popularidade - e sem as ferramentas morais para suportá-la, como reagir em um mundo que parece louvar a violência de seus heróis e entender como valorosas as reações mais extremadas? Nunca os versos de Fernando Pessoa pareceram mais atuais: em seu Poema em Linha Reta, ele dizia que nunca conhecera “quem tivesse levado porrada”, e que todos os seus conhecidos tinham sido “campeões em tudo”. Em tempos nos quais os argumentos valem menos que os murros, que as armas sobrepõem a honra ou o valor pessoal, temo que massacres como os de Columbine e de Virginia Tech se repitam mais e mais.
Não há como negar a existência de uma situação de sociopatia ou psicopatia dentro de um jovem que meticulosamente prepara um ataque como esses a gente inocente. Quem atira a esmo em gente desconhecida, dizem alguns estudiosos, pode estar, em sua mente, perpetrando uma vingança contra a sociedade, essa entidade abstrata que o oprime e impede de experimentar todas as suas vontades. Mas ouso afirmar que nunca fez tanta falta na educação dos jovens a arte de levar desaforos para casa… Estar em sociedade é ter que engolir sapos. Ensinar aos nossos filhos a suportar a dor ao invés de esmurrar a parede é, ao longo da vida, prepará-lo para a vida.