Wednesday, April 11, 2007

Socorro

'Retrato' - tela do pintor brasileiro Alberto GuignardA coitada não tinha mais forças. Socorro. Todo domingo era a mesma agonia. Meu sono leve me fazia despertar a qualquer pequeno ruído.  Os domingos de manhã tornaram-se um sofrimento anunciado. Socorro. Ela devia acordar muito cedo, ou talvez nem dormisse, esperando pela manhã de domingo. Era o dia em que ela gozava de algum descanso, eu imagino, ou talvez o único momento da semana em que contava com algumas horas somente suas, sem a desagradável cobrança de patrões e clientes. Só isso podia explicar aquele rito dominical, que invariavelmente me despertava e destruía minha manhã de ócio absoluto. Socorro. Era sempre a mesma coisa, coitada. Eu ouvia a cama dela ranger, as chinelas arrastando no chão e o irritante som da vassoura com que ela parecia acariciar o piso do pequeno quarto. De tão leve que ela passava aquela áspera piaçava pelo cimento pintado, talvez na ilusão de que assim não incomodasse ninguém, ela conseguia me irritar de um modo absoluto. Mas, coitada, de tão pobre e sem atrativos, ela me enchia de pena e eu aturava a tortura de todos os domingos sem reclamar com a dona da pensão. No fundo eu sabia que Dona Amparo iria despejar Socorro assim que eu fizesse caso por conta do sono perdido. E a menina não teria para onde ir, eu sabia disso, se Dona Amparo resolvesse expulsá-la por conta de minhas manhãs de domingo mal dormidas. Eu era o melhor pagador, por isso tinha a melhor habitação do sobrado, que era em verdade o antigo quarto de Dona Amparo, como eu vim a descobrir. A velha avarenta cedeu-me seu quarto e foi viver nos fundos da casa diante da possibilidade de me cobrar o equivalente ao valor de três meses do aluguel que pagavam os outros moradores da pensão, como Socorro. Ah, Socorro. Um rosto sem grande apelo, mas uns olhinhos miúdos que me faziam imaginar o quanto de sofrimento aquela criatura já havia passado. Não tinha mais que uns vinte anos, talvez dois ou três mais que isso, mas tinha uns olhos sempre marejados, como se estivessem na iminência de desatar-se em lágrimas. E aquelas mãos pequenas, que eram tão hábeis para a costura – eu mesmo já havia usado seus serviços para cerzir um paletó –, eram quase sempre incapazes de abrir a única janela de seu quarto, que nem janela era. E todos os domingos era a mesma coisa: a cama que rangia, as chinelas arrastadas e a vassoura circulando pelo chão de cimento avermelhado e então, a mais agoniante parte do ritual de Socorro, suas mãos pequenas tentando abrir o basculante que dava para o corredor escuro do segundo pavimento. Ela subia em uma cadeira – eu conseguia ouvir o pequeno móvel sendo arrastado e o tamborilar da madeira no chão enquanto Socorro esticava-se, imagino, sobre a cadeira para alcançar o basculante, estranhamente posicionado quase junto ao teto. A cadeira rangia, a mãozinha de Socorro quase alcançava a alça da tal abertura, mas não devia ter forças para abri-la, ou talvez sequer alcançasse… Por tantas vezes pensei em levantar da cama, bater à porta e oferecer-lhe ajuda para abrir aquela infernal janelinha, mas alguma coisa me impedia de perturbar aquele momento de solidão da mocinha madrugadora. Eu ficava apenas escutando, ainda debaixo das cobertas, sua luta em busca de um pouco de ar que refrescasse aquela vida sufocada, ao menos, meu Deus, aos domingos pela manhã, no dia do Senhor… E eu torcia. Quase podia ouvir o ar que os braços de Socorro deslocavam a cada tentativa de alcançar o basculante, os suspiros de cansaço, o dedo que tocava a alça, sem forças para abri-la. E minha maior felicidade nas manhãs de domingo passou a ser o som da janela de Socorro abrindo-se ruidosamente para mim.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 20:46:04
Comments

One Response to “Socorro”

  1. Frizero says:

    Alberto Guignard, um dos grandes pintores brasileiros do século XX, fez este “Retrato” que aqui usei para ilustrar esta historieta.

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