Wednesday, April 11, 2007

I wanna be MADE!

I wanna be MADE! A televisão aberta, com seu caráter eminentemente comercial, visa ao lucro e, para elas, isso é impulsionado pelo aumento da audiência, que valoriza sua programação e, por consegüinte, faz crescer o valor de seus intervalos comerciais, vendidos a peso de ouro para os anunciantes que já estão mais que convencidos do poder de penetração dessa mídia. Essa busca pelo interesse dos telespectadores faz com que as emissoras de televisão - e isso estende-se para os canais por assinatura - espelhem, muitas vezes, as tendências do pensamento da atualidade.

Não falo daquele pensar que povoa o meio acadêmico que, por vezes, tem sido lento para perceber os fenômenos de massa, mas o pensamento que permeia as relações humanas e o comportamento da atualidade. É certo, também, que muitas vezes os hábitos e atitudes são fortemente influenciados pela mídia, mas colocar em suas mãos virtuais toda a responsabilidade pelas mudanças no pensamento do homem contemporâneo seria uma forma simplista de eximir-nos da responsabilidade por nossos próprios atos e lançar na sarjeta séculos de crença na liberdade e no livre-arbítrio humanos.

Um exemplo curioso de como a televisão consegue captar as alterações do pensamento das massas é o programa MADE, exibido pela MTV brasileira. Importado da sede estadunidense da emissora, MADE (em inglês, “feito”) atende aos pedidos de telespectadores que desejam realizar algum sonho - de tornar-se uma lutadora de boxe, desejo de uma adolescente supreprotegida pela mãe e que sempre desistira de todas as atividades nas quais se engajara; de ganhar o título de “rei do baile de formatura”, desafio proposto por um obeso mórbido -, dando-lhes a assistência de um expert por seis semanas para que eles possam atingir seus - algo absurdos - objetivos. O programa é curiosíssimo e prende a atenção justamente por apostar nas situações mais bizarras - um jogador de futebol americano que quer se tornar bailarino clássico, uma menina masculinizada que quer se tornar miss, uma tímida incorrigível que quer se tornar atriz dramática, uma típica patricinha que quer se tornar jogadora de rúgbi… Olhando-se além das agruras naturais de sonhos tão difíceis - acompanhados minuto a minuto pelas câmeras de televisão, ao melhor estilo dos reality shows -, porém, o que se vê é um retrato triste do que se torna cada vez mais comum no comportamento dos jovens de hoje.

MADE, programa da MTVVivemos já uma época na qual boa parte dos adolescentes cresceram em um ambiente no qual todas as suas frustrações eram minimizadas, todas as suas vontades cumpridas sem questionamento por parte de seus pais e familiares adultos; o medo de traumatizar os filhos ou a necessidade de compensá-los pela ausência - não raro esses pais e mães passaram a empregar mais e mais tempo no trabalho para prover o lar com mais conforto e a família com mais status - fizeram com que os adolescentes não precisassem mais lutar para conquistar o que querem: eles vêm, na maioria das vezes, prontos e customizados. Essas mesmas pessoas, que acreditam ser a vida um jardim de delícias e o mundo uma paisagem humana que deve se adequar aos seus caprichos e direitos sem fim, cada vez menos se esforçam para conseguir seus objetivos. Quer-se muito; faz-se pouco. Não raro se observam hoje pessoas que, por exemplo, se matriculam em cursos, engajam-se em atividades diversas com os sonhos mais elevados e, por vezes, quase impossíveis – ser uma modelo de sucesso, conquistar a fama como músico, transformar-se em um escritor de renome, emagrecer e ter um corpo perfeito –, mas em nada se esforçam para construí-los. É como se o mero ato de matricular-se em um curso, em comprometer-se em uma atividade qualquer, fosse gerar neles a transformação necessária. Há uma espécie de preguiça intelectual que descambou em uma total desvalorização do estudo e da aplicação, do esforço e do aperfeiçoamento. As pessoas desejam ser descobertas, como em um passe de mágica, e sem que isso envolva maiores esforços pessoais - não por acaso a frase-símbolo do programa da MTV é “I wanna be MADE!” - em portugês, algo como “eu quero que alguém me faça me tornar” isso ou aquilo. Não se quer mais construir nada; o desejo maior é habitar um sonho que tenha sido construído para nós, sem esforço de nossa parte.

Cena de 'MADE' Essa sensação de virada do destino, obtida meramente pelo acaso, é alimentada pela mídia, a quem interessa vender esse tipo de sonho. Há uma pletora de exemplos nos jornais, nas revistas e na televisão de pessoas que “surgiram do nada” e hoje são “ricas e famosas”, alimentando a idéia errônea de que esse fenômeno seja o mais natural da vida humana e de que histórias como essas ocorrem diariamente. As falsas esperanças que essa idéia cria nas pessoas em geral é muito útil para os que tiram seus lucros da cultura de massa: quantos são os cursos de modelo e manequim, os programas de televisão, as igrejas neo-pentecostais, as editoras de fundo de quintal e as revistas eróticas que se alimentam dessa falsa sensação de que o sucesso, a riqueza, a satisfação amorosa e a fama estão à espera, na próxima esquina, para saltar sobre nós de surpresa? Isso sem falar em todos os falsos ídolos e os famosos de quinze minutos dos quais se alimentam os programas de auditório na televisão e as revistas de fofoca…

Olha-se para os verdadeiramente famosos e bem-sucedidos e, em muitos casos, sua história de superação, seus reais esforços para obter aquela posição de destaque, são simplesmente ignorados. Parece ser mais fácil esperar que um expert - alguém que certamente não chegou àquela posição em um passe de mágica - bata à nossa porta e faça com que nos tornemos o que não conseguimos ser por nossa pouca vontade de enfrentar as frustrações, o cansaço e o sofrimento de aprender com os próprios erros. Afinal, quem de nós não prefere ser “feito” a efetivamente “fazer acontecer”?

Posted by Frizero at 16:11:01
Comments

3 Responses to “I wanna be MADE!”

  1. Vi uma vez esse programa, mas confesso que não cheguei ao final.
    No começo do texto achei que ia tomar um rumo sociológico e que teria um desfecho de que somos nós que verdadeiramente fazemos a programação da TV. E que quando reclamamos de uma grade ruim, temos que enxergá-la como um espelho de nossos <b>”votos”</b> igual àqueles do Planalto. Mas, foi bem mais crítico, esperamos acontecer… parece até “Para não dizer que não falei de flores”.

    Abraços, Carlos.
    http://naslinhas.blogspot.com/

  2. Frizero says:

    Pois é, amigo… parece-me que há cada vez menos gente que “faz na hora” as coisas,,, e muitos que apenas “esperam acontecer”. Talvez isso explique, por exemplo, o descompasso entre as reclamações de nossa população sobre a classe política e a atual configuração do nosso Congresso Nacional. Mas, pelo que mostra o “MADE”, o fenômeno não é apenas brasileiro - talvez aqui apenas esteja mais exacerbado ou, por estarmos nele inseridos, percebamos mais fortemente.
    Obrigado pela atenção e carinho!

  3. Roberto says:

    Caro Frizero,

    Descobri seu blog por esses dias, em alguma busca de palavras na net para o trabalho e, qual não foi minha surpresa ao deixar minha curiosidade explorar sua página e ler um texto. Eis que me vi preso e instigado a dar uma passada diária e ler mais algum tema interessante!

    Por duas vezes me contive de escrever um comentário ou outro, como nos textos sobre chavez, até me render e escrever aqui esse elogio à sua redação e coerência de idéias e opiniões.

    Como você, também já me peguei observando esses programas. Esses shows de bizarrice humana, que por vezes ofendem a inteligência e o esforço de outras pessoas. Programas que tem no difamado BBB seu maior ícone: um programa destinado a premiar mais um corpo bonito, vindo do anonimato, cujo maior objetivo de vida é se tornar o mais novo líder do BBB.

    Infelizmente nos vemos preso a uma cultura que privilegia o “espertinho”. Vivemos no país da “lei de Gérson”, onde se dá bem quem é esperto e tira vantagem dos outros. Cultura que é muito adequada ao próprio prgrama MADE que você descreveu…

    De toda forma, esse comentário vale mais para lhe parabenizar pelo excelente trabalho que está exposto nesse site, e que permite aos seus leitores um grato momento de reflexão sobre diversos temas que permeiam nossa realidade, nossa atualidade.

    Parabéns!

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