Crescimento sem milagres
Há um país no qual a carreira docente tem um prestígio equivalente aos dos advogados, médicos e engenheiros, e onde ser professor é uma das ocupações mais procuradas pelos jovens universitários. Ingressar nessa carreira é, por conseqüência, muito difícil, e estima-se que apenas 20% (vinte por cento) dos que aspiram a uma vaga na universidade nos cursos de licenciatura conseguem tal intento. Todos os professores em atividade nesse país, aliás, não importando se atuam no Ensino Fundamental, Médio ou Superior, passaram por um curso de formação universitária.
Assim sendo, não é por acaso que a Finlândia ocupa a primeira ocupação em avaliações internacionais sobre desenvolvimento escolar em língua e ciências, e o segundo em matemática, feitas recentemente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, ou OECD em inglês). O país tem atualmente um sistema educacional de excelência, que impulsionou a Finlândia de uma posição desfavorável em comparação aos demais países nórdicos antes da Segunda Guerra Mundial para o lugar de destaque como pólo tecnológico que ocupa atualmente, com produção per capita superior àquela de países como o Reino Unido, a Alemanha, a França e a Itália. Sem meios de produção agrícola, com exceção de diminutas culturas de subsistência, e sem grandes recursos naturais disponíveis, o país investiu em educação como a única forma de reverter seu quadro de estagnação econômica. E conseguiu.
As principais características que fazem do sistema educacional fnlandês um modelo de sucesso são a unidade e eqüidade de toda a estrutura escolar do país e, principalmente, a formação e a valorização dos professores. A sociedade finlandesa do pós-guerra comprometeu-se firmemente com a escola, e foi construída uma densa malha educacional que, atualmente, conta com quatro mil escolas e quinhentos e oitenta mil alunos que atendem à obrigatoriedade de nove anos de escolaridade totalmente gratuita. A rede de escolas é totalmente municipalizada e conta com forte apoio federal, o que fez com que a qualidade do ensino público se equiparasse à rede privada que, atualmente, responde por apenas cinco por cento da totalidade de alunos do Ensino Fundamental e Médio. No Ensino Superior, simplesmente não existem universidades particulares: todas as universidades finlandesas são estatais. Em todas as séries, as turmas são limitadas a não mais que vinte alunos.
Manter tal estrutura educacional custa aos cofres públicos finlandeses cerca de quatorze por cento de seu orçamento anual, aproximadamente seis por cento do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Mas é um esforço que vale cada centavo investido. Na mesma avaliação de 2003 em que seus alunos de quinze anos de idade foram classificados em primeiro lugar em leitura e conhecimento científico - superando países como a Austrália, Coréia do Sul, Nova Zelândia e Canadá - e segundo lugar em matemática - atrás apenas de Hong Kong -, os estudantes dos dois únicos países latino-americanos avaliados - Brasil e México - foram apontados como os de pior desempenho global.
As conclusões a que nos levam o exemplo finlandês são óbvias. O sistema educacional daquele país - como o de outros que conseguiram mudar seus destino de forma semelhante, como a Coréia do Sul - é unificado, ou seja, todos os estudantes recebem o mesmo programa, dentro de um mesmo currículo, o que, em outras palavras, significa dizer que todos vivem as mesmas possibilidades de crescimento e as mesmas oportunidades de aprendizado. Com isso, mesmo os alunos finlandeses que apresentam baixo rendimento escolar conseguem atingir um nível satisfatório de conhecimento, bem diferente da realidade brasileira, em que as escolas formam, anualmente, ao final do Ensino Fundamental, quarenta por cento de seus alunos sem condições de compreender textos ou efetuar operações matemáticas simples, ou seja, analfabetos funcionais. E a uniformidade do sistema educacional finlandês também reside em um fator que é ignorado por todos os governantes brasileiros, com reflexos funestos em toda a nossa sociedade: a Finlândia valoriza o professor, que obrigatoriamente tem formação universitária e, por conta disso, recebe salários dignos e ocupa uma posição de destaque naquela sociedade.
Curiosamente, a eqüidade do sistema educacional finlandês não representa uma perda de autonomia: os professores, pelo contrário, receberam mais atribuições a partir da década de 1990, quando o ensino foi totalmente municipalizado, mas com isso ganharam também o direito de escolher os livros-texto, o programa escolar, as diretivas disciplinares e de avaliação escolar e também as obrigações a que devem ser submetidos os pais e alunos em relação à cooperação com a escola. Em outras palavras, os professores são valorizados em suas atribuições, têm voz ativa no ambiente escolar e, por consegüinte, sentem-se motivados para trabalhar cada vez melhor por um sistema cujos resultados positivos são facilmente percebidos pela sociedade.
Comparar o Brasil com a Finlândia, dirão alguns, é impraticável. O país nórdico tem não mais que cinco milhões e quinhentos mil habitantes e trezentos e trinta e oito mil quilômetros quadrados; além disso, é parte da rica e desenvolvida Comunidade Econômica Européia. O Brasil, por outro lado, é imenso e com uma população aproximadamente vinte e cinco vezes maior que a da Finlândia. Mas até quando ficaremos “deitados eternamente em berço esplêndido”, usando nossa extensão territorial e grandeza populacional como desculpa, à espera de que os problemas brasileiros sejam resolvidos por milagres econômicos ou grandes planos mirabolantes de aceleração quando a base do crescimento de todas as grandes nações do mundo, ou seja, a educação, continua sendo tratada com descaso e amadorismo, com experimentalismos e falácias e, o que é pior, sem valorizar o professor?
porque todas as pessoas esclarecidas no brasil (minúsco) conhecem a receita , mas ela nunca é aplicada? na minha opinião somente com uma revolução dos intelectuais daria resultado. O problema é que intelectual só sabe empunhar lápis e caneta, portanto estaremos condenados ao eterno fracasso, e seremos apenas vozes ao vento…
Caro Frizero, Parab¦éns pelos textos que vc tem mandado, realmente muito bons!
Grande Frizero, cada dia que passa mais eu adimiro as tuas intervenções. Me faz
acreditar que ainda tem muita gente capaz neste país, só nos basta unir esta gente toda num nobre objetivo comum. Este país tem jeito e o jeito são os homens de bem que têm que dar.
Mais uma vez parabéns, foi perfeito!!!
Grande abraço irmão,
Leo.
Caro Frizero, sou estudante de história e gostaria de obter mais informações a respeito da metodologia de ensino aplicada no referido pais, se possível for , enviar-me algumas fontes.
Atenciosamente.