Monday, March 19, 2007

Matar por uma causa

Cesare BattistiA prisão, em 18 de março de 2007, do italiano Cesare Battisti em um hotel na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, parece exemplificar as distorções que os conceitos morais podem sofrer aos olhos dos que abraçam uma causa.

Battisti, de cinqüenta e dois anos de idade, foi integrante de um grupo terrorista de esquerda na Itália, na década de 1970, ligado às célebres Brigadas Vermelhas, as quais, entre outros tantos atentados e mortes, foram responsáveis pelo seqüestro e assassinato do ex-primeiro-ministro italiano Aldo Moro na década de 1970.  Condenado por quatro assassinatos e outros tantos roubos e seqëstros, Battisti conseguiu fugir da Itália em 1981, refugiando-se no México por dez anos até obter junto ao governo francês, então socialista, asilo político em território europeu.  Adotado por intelectuais franceses de esquerda, Cesare Battisti saltou da modesta posição de porteiro de um edifício residencial em Paris para escritor de novelas policiais publicado e badalado em toda a França.  Em 2005, seu asilo político foi cassado e Battisti novamente desapareceu sob a ameaça de ser extraditado para a Itália, onde pesa sobre ele a condenação de prisão perpétua por seus crimes.  Agora, dois anos depois de sua fuga da França, Cesare Battisti foi detido no Rio de Janeiro por uma operação conjunta das polícias brasileira, italiana e francesa, em uma ação elogiada pelo ministro da Justiça italiano, Clemente Mantella, que já solicitou às autoridades brasileiras a extradição do preso.

O caso Battisti chama a atenção pelas reações da imprensa francesa.  Diversos órgãos de imprensa naquele país começam a associar a prisão do terrorista de esquerda com as próximas eleições francesas, como se a ação conjunta das polícias de três países fosse uma mera manobra política para desestabilizar as possibilidades dos candidatos de esquerda daquele país às vésperas do pleito.  Como os intelectuais franceses que acolheram efusivamente Cesare Battisti na década de 1990 como herói, os jornais franceses parecem também querer ignorar os atos por ele cometidos em nome de uma causa que, certa ou errada, não justifica as mortes, os seqüestros ou os atentados perpetrados por ele e seus companheiros de ideologia.  Já surgem, da voz de diversos desses intelectuais franceses, pedidos de clemência ao governo brasileiro para que Battisti não seja extraditado para a Itália.  O caso faz-nos recordar da prisão dos seqüestradores do empresário paulistano Abílio Diniz, em São Paulo, quando certos grupos de direitos humanos brasileiros tentaram defender os seqüestradores, chilenos em sua maioria, classificando suas ações como “atos políticos”, já que o dinheiro do resgate seria usado para alimentar movimentos políticos de esquerda no Chile, o que faria com que os seqüestradores fossem tratados como “presos políticos”.

Então haverá uma “guerra justa”?  Matar, destruir, roubar e seqüestrar em nome de uma causa é plenamente justificável?  Ainda que tal lógica perversa não seja muitas vezes abertamente declarada, essa é uma idéia que parece pairar nos pensamentos de boa parte de nossa intelectualidade brasileira também, que faz ouvidos moucos e olhos vendados às destruições de patrimônio público, de pesquisas científicas e de propriedades privadas em tantas ações efetuadas pelo país afora por grupos de manifestantes sobre os quais parece reinar uma aura de impunidade cuja única justificativa parece ser a de estarem lutando por uma causa que nossos pensadores vêem como justa e acima de quaisquer suspeitas.  Mas a morte, a destruição, a agonia das famílias dos seqüestrados e o trauma das vítimas envolvidas nos roubos e ações violentas dos que lutam por uma causa, qualquer que seja ela, são sempre deletérios, não importa a cor da ideologia que os motive, ou mesmo a ausência de uma “razão maior” que tortamente os justifique.

Posted by Frizero at 11:15:20
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