Monday, March 12, 2007

E o dia nascerá feliz um dia?

A escritora que talvez jamais venha a ser descoberta em Manari - 'Pro Dia Nascer Feliz', de João JardimComo todo bom documentarista, João Jardim teve a preocupação em não apresentar respostas prontas em seu documentário Pro Dia Nascer Feliz, o grande vencedor do Festival de Gramado de 2006 - melhor filme do Júri Popular, prêmio especial do Júri Oficial e Prêmio da Crítica. Mas, como toda obra de arte - e porque não chamar um documentário de arte? -, as perguntas que lança ao espectador são bem mais contundentes que qualquer solução antecipada que o cineasta pudesse oferecer.

Seu segundo longa-metragem - o primeiro em que assina sozinho a direção e o roteiro - é um retrato da educação brasileira composto a partir da visita a seis escolas de Primeiro e Segundo Grau em diferentes localidades brasileiras - em Manari e Inajá, no interior pernambucano; em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense; em Itaquaquecetuba, interior de São Paulo; e em duas escolas da capital paulistana - uma de periferia e uma de classe média alta.  A viagem pela qual Jardim conduz o espectador inicia-se em Manari, um dos municípios mais pobres do Brasil, onde a única escola pública de Ensino Fundamental não têm professores suficientes, infraestrutura ou mesmo condições mínimas de higiene a oferecer aos seus alunos.  Manari não tem escola de Ensino Médio, e por isso seus alunos são obrigados, como tantos estudantes brasileiros do interior do país, a viajar quilômetros para poder cursar o antigo Segundo Grau em um curso noturno que também sofre com a falta de professores e de infraestrutura.

Mas o filme não se limita a retratar as mazelas dos prédios escolares ou denunciar a falta de professores.  Seu passeio pelas periferias das grandes cidades, depois de mostrar a realidade do ensino no interior pobre de nosso país, parece apenas confirmar que o problema da educação no Brasil não é localizado.  Em toda parte há o fantasma da falta de professores, do descaso com a educação por parte dos governantes, da falta de estrutura física decente para que as escolas funcionem adequadamente.  Mas a ferida maior no sistema é intangível, imaterial e reside na construção simbólica da escola brasileira: Pro Dia Nascer Feliz mostra que a educação no Brasil perdeu seu sentido - que alunos não vêem no ambiente escolar um lugar de aprendizagem, mas sim um campo de luta contra os professores, em geral vistos como inimigos, e de busca por um diploma que para eles não representa mais que uma exigência social a qual eles precisam atender para buscar um emprego que, muitas vezes, não exigirá nada do que a escola lhes tentou ensinar; a outra face da moeda são os professores que, desmotivados pela falta de estrutura, pelos baixos salários e, sobretudo, pelo descrédito, desrespeito e violência com que são tratados pelos alunos, vão desgastando seu ideal de educador pela própria descrença em um sistema que parece cada dia mais falido.

Alunos do Colégio Santa Cruz, em São PauloO contraste que Jardim oferece entre as escolas de periferia e o colégio particular de um bairro de classe alta paulistano não é gratuito, nem uma tola tentativa de remeter à luta de classes, tema tão querido a alguns cineastas brasileiros.  O diretor e roteirista mostra, com essa visita, que o principal fator desmotivador do aluno brasileiro é a falta de perspectiva: os alunos do Colégio Santa Cruz, do bairro Alto Pinheiros, sabem que estudar é um caminho para que eles construam sua vida futura e vêem-se estimulados tanto pelos pais quanto pela escola; aos alunos de periferia, o que lhes resta?  Uma vida sem perspectiva, em geral filhos de lares com pai ausente, sem nenhuma razão para acreditar que a educação os levará até uma vida melhor.  Algumas cenas expressam bem a forma como seus sonhos são destruídos: Jardim entrevistou, por exemplo, uma menina da periferia de Itaquaquecetuba que encontrou um novo ânimo e uma razão para escrever ao participar do fanzine de sua escola; no ano seguinte, a mesma aluna, após concluir o Ensino Médio, trabalha em uma fábrica como dobradora de calças e confessa que já não encontra motivos para escrever; outra, no interior de Manari, é discriminada por ter o hábito estranho de ler e escrever - ela cita Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, e confessa que seus professores sempre lhe deram notas baixas na escola por acharem que suas redações eram plagiadas de autores consagrados.  É dessa menina de Manari, que estuda para ser professora no curso de Magistério da cidade vizinha, uma das mais belas cenas de Pro Dia Nascer Feliz, quando ela recita a releitura do famoso poema Canção de Exílio, de Gonçalves Dias, que ela escreveu em referência à sua realidade de menina pobre de cidade do sertão pernambucano - um poema que denota um talento literário que, provavelmente, jamais florescerá por mera falta de oportunidades. 

Há muito que, no Brasil, a educação é associada, por nossos políticos e governantes, com o número de vagas nas escolas.  Não interessa se as crianças efetivamente aprendem algo - o importante é que estejam matriculadas, mesmo que não haja professores suficientes para atendê-las ou mesmo salas de aula adequadas para alojá-las.  Prova disso são os números do próprio Ministério da Educação, que estima que 98% (noventa e oito por cento) dos jovens brasileiros estão hoje matriculados no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, mas cerca de 48% (quarenta e oito por cento) terminam a oitava série sem saber ler e escrever.  Em outras palavras, o sistema educacional brasileiro gasta oito anos de escolaridade para transformar metade de seus jovens de analfabetos em analfabetos funcionais.

Pro Dia Nascer Feliz não traz cenas violentas ou chocantes, mas deixa um nó na garganta do espectador que vê na educação a única solução para os problemas de um país que se quer ainda acreditar como “país do futuro”.  Para os educadores, o efeito desse excelente documentário de João Jardim pode ser ainda mais devastador, pois não é difícil para nenhum professor identificar alí situações e experiências que eles próprios vivem em seu dia-a-dia.  Infelizmente, os que deveriam assistir e meditar sobre esse contundente relato sobre a falência da educação brasileira - nossos políticos e governantes - certamente não irão se importar ou sequer tomar contato com o filme.  Em verdade, tudo o que eles precisariam fazer seria ir, anonimamente, a qualquer escola de sua responsabilidade para ver, com seus próprios olhos, onde está a gênese de nossas mazelas todas.

Posted by Frizero at 10:57:39 | Permalink | Comments (3)