Monday, February 26, 2007

O Inumano Inimigo

Kazunari Ninomiya em 'Cartas de Iwo Jima'Há uma cena de Cartas de Iwo Jima, a mais recente produção de Clint Eastwood e que concorreu ao Oscar de Melhor Filme e Direção em 2007, que pode ser apontada como o cerne do bem elaborado roteiro de Iris Yamashita e Paul Haggis: encurralados em uma caverna, combatendo os invasores norte-americanos à pequena e semi-deserta ilha de valor meramente estratégico, um grupo de soldados japoneses consegue acertar um soldado estadunidense, que é trazido, por ordem do oficial japonês, para ser atendido pelos enfermeiros; o oficial, um medalhista olímpico de hipismo, cujo sucesso o havia levado a conhecer a Califórnia anos antes da guerra, conversa com o rapaz em inglês e demonstra simpatia pelo rapaz, que pouco tempo depois vem a falecer; ao cobrirem o corpo do soldado americano, o oficial encontra um pedaço de papelna mão do cadáver, e seu sargento pergunta-lhe se eram planos de guerra ou algum segredo militar; Não, responde o oficial, é apenas uma carta, e abrindo o papel começa a ler para os soldados, em japonês, o relato corriqueiro de uma mãe do Oklahoma, falando de um desentendimento com o vizinho e das diabruras do cachorro da família, despedindo-se do filho com palavras carinhosas; os soldados japoneses ouvem-no em um silêncio de surpresa e total descrédito.

Sem qualquer discurso ou análise sociológica, os roteiristas de Cartas de Iwo Jima conseguiram resumir nessas breves imagens - e a descrição da cena é pobre diante da beleza plástica da cena filmada - algo que há muito tenho percebido em meus parcos anos de experiência de vida: um homem é incapaz de matar outro homem.  A afirmativa pode soar totalmente incongruente em tempos como os nossos, em que a crueldade das guerras e dos crimes urbanos parece cada dia mais acentuada, mas a reflexão sobre essas palavras aparentemente tolas pode nos fazer vislumbrar um pouco melhor a origem desses e de outros males da humanidade. 

Sustento que o ser humano, como qualquer outra espécie na Terra, nasceu com essa incapacidade absoluta de matar seu semelhante.  Contudo, diferentemente dos ditos animais irracionais, nós, homens, conseguimos desconstruir mentalmente os elementos que tornam o outro alguém igual a nós - e essa grotesca capacidade que temos de revestir o próximo de atributos é que nos permite matar um outro ser humano.  Desumanizar o inimigo é o processo que sempre foi usado, desde os mais primevos tempos, para a preparação de soldados em direção aos campos de batalha, afinal.  Ao atribuir aos homens que estão do outro lado da guerra novos epítetos e vícios, demonizando-os sob o nome de inimigos e conferindo a eles um caráter maléfico - seja pelo medo, ao impregnar os soldados de histórias sobre a crueldade do outro ou sobre o mal que eles trarão ao país e às famílias dos próprios soldados caso eles não consigam impedir sua marcha; seja pela depreciação pura e simples, criando uma imagem do adversário como alguém fraco, desonrado ou exótico -, os líderes políticos e militares sempre conseguiram arregimentar suas tropas e arrancar de seus homens os atos de bravura e crueldade mais impensáveis.  Não raro, esse processo de demonização do outro é levado para o interior de seus próprios exércitos, como uma forma de inimir os desertores ou os insubordinados, transformados então em traidores da pátria e, por conta disso, despersonalizados, indignos de pertencer àquele grupo de eleitos que compõem a nação que se defende. 

Ken Watanabe em 'Cartas de Iwo Jima'A cena de Cartas de Iwo Jima comove ao mostrar a imensa surpresa dos soldados japoneses ao tomar contato, por meio da carta lida pelo oficial, com um outro ser humano - jovem como eles, também filho de uma mãe que deixara para trás por conta da convocação de guerra, alguém que tem vizinhos e um cão e uma vida corriqueira e simples como as suas próprias eram antes da guerra - que eles viam apenas como um alvo na linha de tiro, um inimigo a ser abatido.  A carta humaniza o soldado norte-americano, resgata-o por alguns instantes da irrealidade da guerra e coloca-o novamente em sua pequena casa no Oklahoma, um jovem que poderia muito bem ser qualquer um daqueles soldados japoneses que o capturaram.  A comoção dos soldados naqueles poucos segundos em que foram transportados ao lar de uma mãe aflita no distante e desconhecido Estados Unidos da América mostra porque é tão difícil a reintegração dos soldados à vida civil de um estado de pós-guerra: como reconstruir dentro de suas mentes, além das fibras de humanidade que naturalmente são rompidas diante dos horrores do campo de batalha, a imagem do inimigo como um ser humano?  Para seus líderes, os mesmos que os enviaram para a defesa de pontos estratégicos de forma também desumanizada - afinal,  os exércitos, sobre as cartas militares e os tabuleiros de estratégia, são formados por números e não por pessoas -, tudo se resolve com reuniões diplomáticas nas quais seus interesses são rearranjados em apertos de mão e trocas falseadas de cortesia.  Para o homem comum, fica a dor de seu sofrimento pessoal e um único culpado por suas perdas de guerra - o inimigo.

Questiono-me se o processo não será o mesmo nos tantos casos de crimes hediondos, violentíssimos, que presenciamos a cada dia em nossas cidades.  Para os assassinos de João Hélio, o menino preso ao cinto de segurança não era humano naquele momento, mas sim um empecilho que lhes impedia a fuga impune.  Para os assaltantes de Bragança Paulista, que incendiaram um automóvel com três adultos e uma criança de cinco anos em seu interior, aquela família não era composta de pessoas, naquele momento, mas de provas que, se sobrevivessem, os levariam ao banco dos réus.  Para o marido abandonado, o homem violento envolvido em uma briga de trânsito e o assaltante que esfaqueia um adolescente por conta de um par de tênis da moda, o outro não é humano, apenas um obstáculo a ser superado em busca de sua satisfação pessoal.  E empecilhos, provas, obstáculos - são meras coisas a serem superadas, e não seres humanos.

Essa lógica torta e perversa dos matadores não os exime, de forma alguma, de sua culpa, menos ainda de sua crueldade.  Mas entender esse princípio de desumanização do outro pode ser útil se quisermos construir uma sociedade futura na qual barbáries como essas não mais se repitam.  Na minha parca experiência de vida, eu só conheço um caminho possível para construir humanidade no coração dos homens: a educação. 

Posted by Frizero at 20:12:25
Comments

9 Responses to “O Inumano Inimigo”

  1. Rodrigo França says:

    Caro Frizero, vi o filme e gostei muito do que escreveu.
    Realmente ninguém esperava a reação do comandante da tropa. Todos queriam
    matar o americano, mas o japonês determinou que fossem seguidas as normas
    das convenções internacionais em relação aos prisioneiros. É uma ética pouco
    existente em nossos dias.

  2. Carlos Solano says:

    Oi Frizero,

    como de costume gosto dos seus textos, mas discordo do: “um homem é incapaz de matar outro homem.” e seu fluir.

    Já estive cara a cara com mais de um desses assassinos da sociedade e sinceramente não vejo nenhum senso de humanidade nos olhares e comportamento.

    Para alguns matar um homem é igual a matar uma barata. Em uma das vezes que estive frente a frente - num presídio - com alguns deles pude sentir seus olhos me mirando com ódio. Infelizmente sim existem “pessoas” capazes de matar qualquer coisa e depois ir ao cinema.

    O filme foi bom, mas eu esperava mais. Uma análise psicológica e sociológica das cenas, diretor e do sentimento americano rendem vários artigos.

    Abraços, Carlos.

  3. Celso says:

    Salvo engano, o Frizero disse que um homem, vendo o próximo como humano, seria incapaz de matá-lo ( o que concordo).

    O fenômeno da desumanização, via demonização (p/ex), é que possibilita o homicídio. Na mente distorcida, não se está matando uma pessoa. Sim, livrando-se de uma coisa, de um entrave.

    Podem ver que aceitar a pena de morte após desumanizar um criminoso é muito mais fácil.

    Lbs,

    Celso

  4. Gustavo Garriga says:

    Prezados, antes mais nada, gostaria de agradecer ao Frizero por mais um
    ótimo texto. Mesmo discordando de algumas passagens, creio que
    atingiu o intuito de todo escritor: fazer com que outros reflitam
    e discutam civilizadamente sobre nosso cotidiano.

    Alguns comentaram sobre valores democráticos e outros sobre
    as agruras que vivemos face a escalada sem limites da
    violência urbana. Apesar de serem realmente temas
    sensíveis, quero enveredar por outro caminho: o da lei da
    guerra.

    A passagem comentada do filme nada mais é que um “estudo de
    caso” da Lei dos Conflitos Armados, vulgarmente chamada de lei da
    guerra. É isso mesmo: até a barbárie tem suas regras. Em
    relação aos prisioneiros de guerra, por exemplo, existem
    itens e mais itens que regulam o que pode e o que não pode
    ser feito com eles.

    “Ah, Garriga, deixa de ser babaca, na guerra vale tudo” -
    exclamam os mais exaltados. É, pode ser. Felizmente, nem eu
    nem você, nem mesmo nossos pais, passamos pelo infortúnio
    da guerra (tá bom, nem todos) o que, em minha modesta
    opinião, trata-se de um feito de que podemos nos orgulhar
    quando analisamos nosso passado recente. Assim sendo, temos que
    buscar em relatos de outros as bases para discutir o assunto.

    A tentativa maior de codificar estas regras do direito
    consuetudinário foi feita entre os séculos 19 e 20 (1ª
    metade). Daí temos as famosas Cartas de Haia e de Genebra,
    frutos da visão de que a raça humana podia e devia
    estabelecer limites ao horror supremo e que, em última
    instância, isso se justificava no fato da nossa própria
    existência. Através destes tratados a guerra química
    foi banida, assim como barreiras aos agentes biológicos foram
    interpostas, entre outras conquistas em relação a salvaguarda
    das vítimas de situações de conflito armado (Genebra) e
    aos direitos e deveres das partes beligerantes na conduta de
    operações militares (Haia). Nada se conseguiu sobre a energia
    nuclear aplicada às armas, já que o advento das bombas
    atômicas aconteceu quando o esforço codificador já havia
    perdido seu momentum e as potências dominantes entederam,
    erroneamente, que poderiam cercear sua proliferação
    indefinidamente.

    Também pouco efetiva mostra-se atualmente a Carta das
    Nações Unidas, que, após a 2ª Grande Guerra, ousou ao
    estabelecer, basicamente, que guerras só seriam “legais” se
    lutadas em resposta a uma agressão anterior ou a uma
    determinação do Conselho de Segurança da ONU. Diga-se de
    passagem, esta é a razão pela qual a grande maioria dos
    conflitos armados após 1945 aconteceu sem uma declaração
    formal de guerra.

    E onde estamos hoje em dia, em relação a este assunto? Creio
    que estejamos bem próximos de profundas alterações nestes
    códigos. Além da bastante mencionada, e intencionada
    tenazmente pelo nosso país, alteração dos estatutos e da
    composição do Conselho de Segurança, a chamada guerra
    assimétrica, lutada hoje em dia pela potência
    hegemônica, não está prevista nas regras em vigor.
    Consequência prática deste fato, os reclusos de Guantanamo
    não são considerados prisioneiros de guerra, ou seja,
    não se incluem sob a égide da Convenção de Genebra e,
    por conseguinte, não possuem os direitos afins. Talvez a
    maioria dos especialistas encarem isto como uma aberração.
    Quem tem razão?

    Sem dúvida, é papo para muito chopp e batatinha. Aos que
    ainda estão na vida militar, trata-se de nossa atividade fim. Para
    aqueles que já saíram, creio que nunca perderam ou
    perderão um mínimo interesse pelo assunto. Se me permitem
    mais um pitaco: o filme “Cartas do Afeganistão” não
    terá uma passagem como aquela…

    Um abraço,

    Garriga

  5. Caputo says:

    Concordo com o Carlos. Realmente a afirmativa de que um homem não consegue matar o outro, infelizmente é, acima de tudo, irreal. Como irreal é também, mas felizmente, a idéia de generalidade (há “homens” e “homens”) quanto ao gênero humano, que comparta, para o bem e para o mal, muitas espécies.

    Mas aquilo a que se refere algum dos comentaristas, no sentido de que há aí (alegoricamente) uma ÉTICA pouco comum, é uma meia-verdade (não com relação à ética, mas sua incidência). Existe mais do que pensamos a incidência de tal eticidade. Alías, é o que a maioria dos juízes que conheço (e que forma uma boa espécie de “homens”) faz: aplicar a ética do contrato civil, do respeito àquilo que em determinadas instâncias democráticas ficou assentado, aquilo que dá segurança jurídica às pessoas. Mas vira e mexe eu vejo aqui no nosso grupo, em algumas notícias que são repassadas, que esta, por assim dizer, etica judicial da constitucionalidade e da legalidade não é bem vista ou compreendida. Por que se consegue reconhecer isto em um filme e não se consegue reconhecer isso em alguns (infelizmente não em todos … - e aí a outra parte da meia-verdade …) atos jurisdicionais, que “aparentemente são contra a opinião pública” ou a “emocionalidade popular”, mas no fundo estão carregados desta eticidade de respeito aos foruns democráticos de um estado democrático de direito ?

    Abçs. Caputo

  6. Frizero says:

    Caríssimos colegas, antes de mais nada, gostaria de agradecer muitíssimo o interesse pelo meu texto e os comentários. Eu imaginei que seria um tema algo polêmico e aprendi muito com as intervenções de vocês, sobretudo a do Garriga, como sempre brilhante e preciso.
    Contudo, sustento a frase que dá título a esta mensagem e que tomei como início da minha discussão no artigo. Logicamente, não sou um ingênuo ao ponto de não acreditar que ocorram assassinatos diariamente em nosso país e em todo o mundo, enfim, e inclusive citei algumas das barbáries mais recentes que nos povoaram o noticiário nacional. A frase é sim, Caputo, irreal e tola se a tomarmos ao pé da letra. Mas o Celso, creio eu, entendeu perfeitamente o ponto em que eu pretendia tocar: a desumanização crescente que vivemos em nossa sociedade. Um homem é capaz apenas de matar outro homem se esse outro é “coisificado”. Como o próprio Carlos disse, em outras palavras, há homens capazes de matar outros pelos motivos mais torpes e fúteis, como quem mata um inseto rasteiro - e isso é a “coisificação” da vida humana. Não por acaso tratamos pessoas como esta como “desumanas” e de “desumanidade”, o que fazem. Pela perda da condição de semelhante, de humano, é que os assassinos se tornam capazes de matar o outro, seja por dinheiro, por “amor” ou apenas pela necessidade momentânea de se livrar de um problema… João Hélio, no percurso daqueles sete quilômetros de sofrimento inimaginável, foi tristemente “coisificado” por seus assassinos, transformou-se apenas em algo pendurado do lado de fora do automóvel a atrapalhar sua fuga… E continuo a acreditar que mesmo os mais cruéis assassinos têm alguém a quem eles jamais matariam.
    A cena que citei em “Cartas de Iwo Jima” suscitou-me essa reflexão, pois ali, durante alguns instantes, aqueles homens viram o inimigo como um ser a eles semelhantes. Mas quem somos nós para julgar os horrores de uma guerra, as ações que são executadas em um campo de batalha, no calor do fogo cruzado? Livre-nos Deus de jamais passarmos por isso, militares e ex-militares. Mas creio que só por promover essas reflexões o filme de Clint Eastwood já valeu pelo preço do ingresso.
    Um cordial abraço a todos,

    Frizero

  7. quero ver o filme, o texto despertou minha vontade… mas, sobre o tema, acho que a raiz de tudo está no valor que se dá ao que é a vida. quando a minha vida não vale nada, a de ninguém mais passa a valer. e aí pode tudo, vale tudo, porque tudo é perdido

  8. Carlos says:

    Grande Frizero!!! Parabéns pelo seu texto e pela grande sensibilidade de confrontar as imagens de um filme con nossa cotidiana realidade.
    A violência a qual o país todo encontra “mergulhado” é fruto da ausência de estrutura familiar e educação.
    Após a recente tragédia envolvendo o menino João Hélio, várias discussões foram iniciadas, principalmente na seara penal: redução de maioridade, aumento de pena etc…
    Tais medidas, não entrando no mérito de sua eficácia, sozinhas resolverão o problema?
    Lembrei-me de minha passagem pelo Colégio Naval e Escola Naval.Tivemos todos que passamos por estas instituições uma formação intelectual de excelência, bem como iniciação esportiva e boas noções de cidadania.
    Ou seja, todas as pessoas que por lá passaram não incediaram ninguém, arrastaram alguém pela rua até a sua morte ou virou narcotraficante.
    As perspectivas eram outras. Eu não vim de uma família abastada e conheci outros que tinham uma situação até pior, moravam em lugares hoje terríveis, mas que pelo acesso que tiveram a educação e a companhia de outros colegas de bem puderam quebrar o ciclo de vida e ascender socialmente.
    A grande transformação do país dar-se-á somente quando for investido mais em educação. Enquanto houver o “Inumano descaso” com a educação, não haverá crescimento econômico, continuará a corrupção e outras crianças serão arrastadas até a morte.

  9. Caputo says:

    É isso mesmo, Celso. A questão é que, com a urbanização das sociedades modernas e da extremada divisão de tarefas, perdeu-se muito daquilo que as comunidades primitivas (nas quais não se desconhecia o homicídio, obviamente, mas se o praticava em menor escala e por “motivos” outros …) tinham, no sentido de as pessoas direta e mais proximamente interagirem e conhecerem-se uns aos outros e de humanamente identificarem- se. Deu no que deu, o outro, ao invés do amor e do respeito a que leva a alteridade, virou coisa, objeto, uma espécie de “terceiridade” ignorada por mim, que faço o que quiser com “isto”, pura e simplesmente (acho que nem a análise consciente da escala de valores é feita pelo agressor em casos tais …).

    Abçs. Caputo

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