Saturday, February 24, 2007

Eficiência em um país às avessas

Há um setor de atividades no Brasil que parece desconhecer a crise.  Sua eficiência e seriedade na busca de seus objetivos é assombrosa e, mesmo com a abundância de recursos com que parece sempre contar, tem um controle financeiro dos mais cuidadosos, não raro aplicando em sua gestão de material e serviços técnicas apuradas de reciclagem de material e de desenvolvimento de novas técnicas e padrões de execução de suas tarefas. 

Ao contrário do que em geral é observado no Brasil, seu planejamento é feito com bastante antecedência e seguido à risca, ainda que os resultados do esforço dispendido no decorrer de todo um ano, por exemplo, seja apresentado à sociedade em geral apenas uma vez ao ano, dando a impressão de que sua execução é pontual e levada a cabo sem maiores cuidados - uma idéia que também pode ser transmitida pela alegria com que as pessoas envolvidas desempenham suas funções ali.  Ledo engano: não raro, o início de um projeto nesse setor inicia-se mais de um ano antes, a partir de uma idéia sobre a qual recaem a análise e o julgamento de dezenas, por vezes centenas de pessoas envolvidas em sua execução - um trabalho tipicamente de equipe, que atua sempre em harmonia e sob normas rígidas em relação ao papel de cada membro e às funções por eles exercidas.  Tal projeto é detalhado em todas as suas partes, com croquis e desenhos, gráficos e planilhas de custos, antes mesmo que se tenha uma definição de sua real aplicação naquele ano de atividades.  Aliás, é sobre esse meticuloso trabalho de pesquisa que são feitas as primeiras avaliações dos dirigentes e aprovada ou não a continuidade do projeto.  Uma vez dada a resposta afirmativa, as equipes, que em geral trabalham juntas a muito tempo, iniciam o longo trabalho que, em geral, resulta em impecáveis resultados que tem orgulhado o Brasil e elevado o nome do país no exterior.

Sem dúvida, se eu tivesse a canhestra vocação para escrever livros de auto-ajuda na área de Administração de Empresas - mas creio que o mundo já foi brindado com muito mais obras desse tipo do que jamais necessitou… - eu usaria como modelo de competência e gestão de sucesso o carnaval carioca, mais especificamente o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.  E digo isso com um nó na garganta, pois, apesar de ser um incontestável admirador da grande festa popular brasileira, creio ser terrível constatar que uma das poucas coisas que funcionam no Brasil com precisão e organização impecáveis seja justamente o desfile das agremiações carnavalescas na Sapucaí.  Talvez minhas palavras beirem o exagero para alguns, mas em que outro lugar no país se observa a preocupação em seguir as regras, o cuidado e o apuro que se vê em uma escola de samba? 

Dois exemplos extraídos do evento em 2007 corroboram minha visão: na Estação Primeira de Mangueira, a cantora Beth Carvalho, mangueirense há mais de trinta anos, figura constante nos desfiles daquela tradicional escola carioca, foi barrada no desfile de domingo porque queria sair em um carro alegórico da escola sem ter antes combinado nada com a direção.  Sua presença na alegoria que encerrava o desfile da Mangueira foi impedida e, entrevistado, o carnavalesco disse que a cantora “era muito querida na escola, mas ninguém faz nada em um desfile da Mangueira sem que antes isso tenha sido previsto”.  Em outra situação noticiada pela imprensa, um integrante de uma ala da Imperatriz Leopoldinense foi também proibido de desfilar pela escola e retirado da área de concetração da Sapucaí por seguranças.  A razão da proibição foi simples: o integrante extraviou o chapéu que fazia parte de sua fantasia e, sem o adereço, não poderia desfilar, pois aquilo poderia acarretar perda de pontos para a escola.  Onde, nesses casos, foi parar o famoso jeitinho brasileiro?  Será que o último carro alegórico da Mangueira, que era em verdade um grande palco onde vários membros da Velha Guarda da escola e da Academia Brasileira de Letras acomodavam-se em varandas cenográficas, não teria espaço para mais uma pessoa, e uma integrante famosa da escola?  E será que os jurados iriam mesmo descontar pontos por conta de um único integrante sem um chapéu, em meio a um mar de passistas em evolução? 

Não, não há espaço para o jeitinho no carnaval carioca.  As escolas de samba do Rio de Janeiro há muito já descobriram o caminho da eficiência.  Opostamente ao que acontece nas empresas e repartições públicas brasileiras, nas agremiações do chamado Grupo Especial o individualismo, a gestão por tentativas, o personalismo e a bajulação dão espaço cada vez mais a uma gestão por competência, ao trabalho em equipe e à valorização do talento profissional.  Vejamos a campeã deste ano, a Beija-Flor de Nilópolis: há alguns anos, a escola da Baixada Fluminense substituiu a figura do carnavalesco - que nos anos 1990 ganhou ares de campeão solitário de um desfile carnavalesco, de todo-poderoso a quem se atribuiam todos os valores de uma escola - por uma comissão de carnaval que, em outras palavras, é uma equipe formada por diversos carnavalescos que, juntos, planejam e executam a construção visual do espetáculo; atenta à necessidade de angariar os melhores profissionais, a Beija-Flor contratou há alguns anos Laíla, ex-diretor de Harmonia do Salgueiro, e no ano passado, o carnavalesco vencedor do carnaval de 2006 pela Unidos de Vila Isabel; além disso, a escola eliminou a caçada que empreendia para povoar seu desfile de celebridades, dando preferência aos integrantes da própria comunidade, e aprendeu com o passar dos anos que os ensaios contínuos e o trabalho exaustivo na preparação do carnaval rende mais frutos que o questionável prestígio que tais personalidades de aparência poderiam emprestar à escola.  Imagine-se a Beija-Flor como uma grande empresa exportadora e pode-se sonhar com o retorno em divisas que ela geraria para o país…

Sei que talvez a minha tristeza com tantas coisas terríveis e erradas que têm acontecido em nosso país recentemente, da morte de João Hélio à aposentadoria por invalidez - doze mil reais mensais - do deputado mensaleiro Janene, estejam a turvar um pouco a minha vista para as outras tantas coisas maravilhosas que o Brasil produz e possui.  Mas alguém há de concordar comigo que algo de muito estranho deve existir em um país no qual a única coisa verdadeiramente organizada, na qual as regras são respeitadas e os compromissos, cumpridos é justamente a festa pagã na qual todas as amarras morais e sociais são afrouxadas… 

Posted by Frizero at 00:21:59
Comments

6 Responses to “Eficiência em um país às avessas”

  1. Frizero says:

    As belas imagens que ilustram o texto são de um artista brasileiro radicado no Canadá, Márcio Melo. Outros quadros seus podem ser vistos em seu site - http://www.marciomelo.com.

  2. Sheila Fabret says:

    Beto, acabo de ler tua úlitma produção… uma reflexão que
    eu ainda não tinha me dado conta… muito bom
    e estou entre entre os leitores que concordam… “Mas alguém há de concordar
    comigo que algo de muito estranho deve existir em um
    país no qual a única coisa verdadeiramente organizada,
    na qual as regras são respeitadas e os compromissos,
    cumpridos é justamente a festa pagã na qual todas as
    amarras morais e sociais são afrouxadas.. . “

    Ainda esta semna alguem escreveu no editorial da ZH que
    está dificíl ’ser brasileiro’, gostar ou ter rgulho de ser brasileiro diante de tantas
    injustiças… estou neste time dos desapontados….

    Parabéns, mais uma vez…
    abraço.

    Sheila

  3. Rosana Silveira Martins says:

    Oi, Beto! Também não havia me dado conta disso. Fiquei “deprê” !!!!
    Obrigada pela reflexão ( adoro essas que me fazem descer ao fundo do poço e ficar deprê, são as mais eficazes, na minha opinião).

    Bj e saudade

    Rosana

  4. gustavo Nascimento says:

    Caro Beto,
    Resolvi comentar o seu texto diretamente no locutório. Achei a sua impressão bastante pertinente, por mais que o Fábio e o escobar tenham razão. mais vale lembrar que a estética que impressiona no desfile só é possível com a organização. Por mais que o esqueleto do desfile de cada escola traga uma herança da ópera, o espetáculo produzido é único e colossal, passando a idéia da organização.

  5. Daniel says:

    Faz tempo que as organizações tipo “escola de samba” são estudadas pela Administração, elas são exemplo de trabalho coletivo bem orquestrado… Existem artigos e até livros publicados sobre o assunto, se não inteiros pelo menos com capítulos que o abordam. Tive oportunidade de estudar alguns textos na época do meu Mestrado ( e lá se vão alguns anos…), e acredito que seria um belo e grande exemplo organizacional para as nossas empresas e órgãos públicos… Eficiência e dedicação parecem ser a tônica, e isso nunca é demais!

  6. Fábio says:

    Grande Frizero, adorei o seu texto mas tenho que discordar. Os
    fatos citados por você denotam uma organização incrível
    mas isso se restringe à escolas (poucas!) de ponta. Trabalhei
    há alguns anos na Grande Rio e fiquei impressionado com a
    desordem: objetos pessoais eram roubados com freqüência
    dentro do barracão; pessoas fumavam sem nenhuma preocupação
    com o fato de o barracão ser um verdadeiro barril de
    pólvora; extintores de incêndio trancafiados em uma
    salinha cuja chave estava em poder de alguém que a maior
    parte das pessoas desconhecia; na noite que precedeu o desfile,
    furtavam material da escola. Um dia, esqueceram de comprar as
    quentinhas para as pessoas que ficavam trabalhando no
    barracão. Água, não tinha. A equipe de cada carro
    trazia a sua e guardava no congelador mas eram sempre furtadas.
    Pode até ser que, de lá para cá, tenha melhorado mas
    ainda assim eu tomaria o cuidado de não tomar a excessão
    por regra.

    Forte abraço.

    Fabio

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