O verdadeiro tesouro da China
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Gostaria de dizer que nesses dois anos de China, eles estão conseguindo se desenvolver com muitas práticas que a gente condena, mas eles defedem muito os interesses da China e dos chineses. Eles cuidam primeiro disso, para depois ver os interesses estrangeiros. Temos que perceber que isso é importante, focar no que é interessante para o Brasil e para os brasileiros. Lá existe um senso de coletividade muito forte. um contraponto muito forte com a nossa cultura individualista. O interesse coletivo sobre o indiviual é eficiente para se fazer com que a sociedade inteira se desenvolva. Estamos em uma situação melhor, nós deveríamos estar muito melhor. |
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Em 23 de fevereiro de 2007, a Rede Globo de Televisão exibiu o documentário Tesouros da China, uma coletânea de matérias realizadas por sua correspondente internacional naquele país, Sônia Bridi, e pelo repórter cinematográfico Paulo Zero. Em verdade, a matéria divulgada pelo programa Globo Repórter é uma espécie de despedida dos repórteres do posto de correspondentes internacionais da emissora na China, função que exerceram eficientemente por dois anos, tendo sido a primeira equipe de jornalistas da América Latina credenciada para atuar naquele país após o início da abertura do gigante comunista asiático ao mundo.
Tesouros da China mostrou-se uma admirável colcha de retalhos cultural sobre o país milenar; por meio de matérias gravadas em diversas viagens feitas por cinco diferentes províncias chinesas, dos dois repórteres pelo interior da China - sempre dificultadas pelo governo de Pequim e seus excessos, tanto de burocracia quanto de controle sobre a liberdade de opinião e a livre atuação da imprensa estrangeira -, Bridi e Zero conseguiram traçar um interessante panorama da cultura chinesa, tanto do passado sofrido de seu povo, marcado pelos desmandos da dita Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, quanto das contradições atuais de uma China que desponta como grande potência mundial mas que ainda está arraigada em tradições construídas sobre a desigualdade entre homens e mulheres.
Mais interessante que o documentário em si, contudo, foi a entrevista coletiva que Paulo Zero e Sônia Bridi concederam aos internautas que acessaram a página na Internet do Globo Repórter logo depois da exibição do programa. Vários dos visitantes, que funcionaram como entrevistadores dos repórteres, perguntaram como é, de fato, essa nova China anunciada como a futura potência mundial - e sobre as lições que a China contemporânea poderia ensinar ao Brasil. Sônia Bridi ressaltou que o grande problema da China atual é não saber “o que fazer com a velha”. Para ela, “muito do que existia de cultura foi substituído por arremedos – tentativa de resgate controlado pelo estado, de práticas e tradições que o mesmo estado destruiu durante a loucura coletiva da Revolução Cultural”. Com isso, ”antigas tradições que ainda provocam feridas emocionais no país – [a pressão social para se] ter filho homem, mulheres com pés mutilados [em uma região na qual a mulher, para se casar, precisava ter pés pequenos, como sinal de beleza], mulheres que não tinham direito à educação – e com conhecimentos milenares que estão desaparecendo em prejuízo de toda a Humanidade, como o domínio das ervas medicinais que o Doutor Ho [um médico tradicional, por ela entrevistado, cujos conhecimentos incluiriam até mesmo a cura do câncer por meio de ervas medicinais, atestado por cientistas norte-americanos], mais de 80 anos, desesperadamente tenta passar para novas gerações”.
Bridi enfatizou também que o grande salto que a China está a promover, transformando-se da massa de miseráveis e analfabetos de vinte e cinco anos atrás em um pólo tecnológico que, segundo ela, surpreenderá o mundo com sua tecnologia nas próximas Olimpíadas, em 2008, está quase todo ele calcado na educação. A repórter impressionou-se com ”a qualidade das escolas públicas, inclusive no interior”. Descrevendo imagens que remetem ao famoso filme Ninguém a Menos - de escolas sem “vidros nas janelas e de chão batido” -, Sônia Bridi lembrou que, ainda assim, nenhuma escola que ela visitou estava sem professores, “e ensinando”. “Lá [na China] as crianças conversam com você em inglês, pois aprendem na escola pública”, coisa que no Brasil parece impensável, disse a repórter. A China, que já tem uma universidade entre as vinte melhores do mundo, “está formando uma elite de pesquisadores”, relata Bridi, “e investiram em educação e pesquisa; começaram [sua vantagem competitiva] pela mão-de-obra barata e a exportação, mas agora estão crescendo [em tecnologia] e de forma bastante acelerada”.
Muita coisa poderia ser aprendida pelo Brasil a partir do exemplo chinês, em verdade. O Brasil, paradoxalmente, tem um panorama político e econômico muito mais promissor que o da China para começar uma escalada de crescimento semelhante à da nação mais populosa do mundo, já que vivemos em um regime democrático, com ampla liberdade de expressão e livre-iniciativa, com um povo que lida muito mais facilmente com as relações interpessoais e é, talvez, mais criativo e inovador que o chinês. Mas falhamos, por outro lado, nas lições mais básicas que a China pode nos ensinar: para Sônia Bridi, que por lá viveu dois anos com o olhar aguçado de uma correspondente internacional, “poderíamos aprender deles a capacidade de planejamento financeiro, da economia do país e também das famílias”, pois “lá é inaceitável essa mania brasileira de se endividar”; diz ela que, sobretudo, “poderíamos aprender a investir em educação” e trata-se, aqui, não apenas de investimentos governamentais, mas da própria população em sua auto-formação e crescimento - um dos maiores diferenciais da China em relação ao Brasil, assinala a repórter, é que com todas as restrições à liberdade de imprensa e ao livre-pensamento, “o povo chinês gosta muito de ler, as livrarias são numerosas e enormes” e tem uma grande sede de saber.
Quando será que voltaremos os nossos olhos para as (boas) lições do Oriente?

Há um setor de atividades no Brasil que parece desconhecer a crise. Sua eficiência e seriedade na busca de seus objetivos é assombrosa e, mesmo com a abundância de recursos com que parece sempre contar, tem um controle financeiro dos mais cuidadosos, não raro aplicando em sua gestão de material e serviços técnicas apuradas de reciclagem de material e de desenvolvimento de novas técnicas e padrões de execução de suas tarefas.
Não, não há espaço para o jeitinho no carnaval carioca. As escolas de samba do Rio de Janeiro há muito já descobriram o caminho da eficiência. Opostamente ao que acontece nas empresas e repartições públicas brasileiras, nas agremiações do chamado Grupo Especial o individualismo, a gestão por tentativas, o personalismo e a bajulação dão espaço cada vez mais a uma gestão por competência, ao trabalho em equipe e à valorização do talento profissional. Vejamos a campeã deste ano, a Beija-Flor de Nilópolis: há alguns anos, a escola da Baixada Fluminense substituiu a figura do carnavalesco - que nos anos 1990 ganhou ares de campeão solitário de um desfile carnavalesco, de todo-poderoso a quem se atribuiam todos os valores de uma escola - por uma comissão de carnaval que, em outras palavras, é uma equipe formada por diversos carnavalescos que, juntos, planejam e executam a construção visual do espetáculo; atenta à necessidade de angariar os melhores profissionais, a Beija-Flor contratou há alguns anos Laíla, ex-diretor de Harmonia do Salgueiro, e no ano passado, o carnavalesco vencedor do carnaval de 2006 pela Unidos de Vila Isabel; além disso, a escola eliminou a caçada que empreendia para povoar seu desfile de celebridades, dando preferência aos integrantes da própria comunidade, e aprendeu com o passar dos anos que os ensaios contínuos e o trabalho exaustivo na preparação do carnaval rende mais frutos que o questionável prestígio que tais personalidades de aparência poderiam emprestar à escola. Imagine-se a Beija-Flor como uma grande empresa exportadora e pode-se sonhar com o retorno em divisas que ela geraria para o país…