Wednesday, February 21, 2007

A euforia da modernidade

O século XXI vive uma nova euforia tecnológica, a exemplo do cientificismo do século XIX, que traz consigo efeitos deletérios que o mundo então europeizante de cem anos atrás ainda não possuía condições de produzir, auferir ou, muitas vezes, perceber.

A sensação de modernidade parece estar intimamente vinculada à rapidez com que os conceitos e o ferramental tecnológicos evoluem.  Em uma breve viagem mental aos nossos conhecimentos mais genéricos de História, certamente iremos recordar que a idéia de modernidade esteve mais presente em períodos nos quais novas tecnologias e máquinas fantásticas surgiram em maior profusão – quer seja na Revolução Industrial, no boom dos eletrodomésticos da década de 1950, nos anos primeiros da era espacial ou na atual explosão da Rede Mundial de Computadores.  Uma análise mais profunda dessa mesma História mostrará que os períodos outros, que não associamos diretamente com essa sensação de progresso, viram também surgir diversos avanços tecnológicos importantíssimos para a humanidade.  Mas falamos de uma sensação generalizada, vulgarizada pelos meios de comunicação e pelo pensamento reinante em toda uma época – uma idéia que nem sempre está calcada em dados concretos e mensuráveis.

Talvez o efeito mais prejudicial dessa modernidade quase impositiva dos meios de comunicação e do pensamento atual seja a nossa incapacidade de lidar com o passado.  A suíça Jeanne Marie Gagnebin, professora de Filosofia da PUCSP e uma das maiores estudiosas no país da obra do pensador alemão Walter Benjamin, diz que um dos maiores problemas da modernidade é justamente a aceleração do tempo – uma sensação humana cuja mensurabilidade e precisão já era questionada por cientistas como Albert Einstein –, em grande parte oriunda da rapidez com que a técnica evolui e substitui-se a si mesma.  “Quando pensamos no século XV”, diz Gagnebin, “as pessoas viviam quase as mesmas coisas de geração em geração, o que não acontece hoje”.  Hoje, torna-se difícil para as novas gerações compreender coisas que eram corriqueiras há poucos anos.  Experimente-se, para melhor perceber isso, conversar com um adolescente sobre objetos de uso comum há poucas décadas, como a máquina de escrever, a ficha telefônica ou a prática de se levar ao supermercado os cascos de vidro dos refrigerantes para poder comprar o produto; propositalmente se citaram aqui exemplos de hábitos urbanos e bastante comuns, nada exóticos para quem viveu a década de 1980, por exemplo, em um grande centro urbano.  Avance-se sobre os hábitos do meio rural e o diálogo tornar-se-á completamente ininteligível para ambas as partes.

A conseqüência maior dessa aceleração do tempo a que se refere a autora de Os Cacos da História seria o desprezo contemporâneo à tradição.  Ao mesmo tempo que se busca a confiança freqüentemente associada ao tempo de experiência na aplicação de determinada técnica ou prática, há uma busca pela novidade que faz com que, consciente ou inconscientemente, se abandone o tradicional como ultrapassado.  O imediatismo a que nos leva a busca pelo atualíssimo faz com que se aceite, quase que cegamente, tudo aquilo que advém da ciência e tecnologia e que se menospreze, por conseguinte, o que surgiu dos longos anos de prática e aplicação.  Não se exige do conhecimento científico ou da tecnologia nenhum tempo de maturação das idéias ou de comprovação empírica de resultados – há, no imaginário contemporâneo, a sensação falseada de que aquilo que é lançado hoje é, forçosamente, melhor do que foi feito ontem, e com isso cria-se um caleidoscópio de informações, notícias, novidades tecnológicas e conceitos diversos aos quais nenhum ser humano é capaz de assimilar devidamente, tampouco de avaliar criticamente.   

Há que se perguntar quais serão, no futuro, as conseqüências desse encontro nada positivo – o da euforia pela modernidade com a psique dominante – e profundamente norte-americana – do individualismo, do self-made man, da meta de vida calcada no sucesso material a qualquer custo.  Talvez resida nessa conjunção de idéias alguns dos tantos efeitos já percebidos na atualidade – do crescimento da violência, fruto de uma cultura que exacerba o indivíduo e sua busca pelo prazer em detrimento dos direitos do outro, à incapacidade de reação da população diante dos acontecimentos sociais mais escabrosos.

O desprezo pelo passado – que inclui a relativização de instituições e conceitos seculares como a família, o casamento, a honradez e a honestidade, por exemplo – e a incapacidade de lidar com o futuro – estariam aí a frenética busca pela juventude a qualquer custo? – parecem confundir o homem contemporâneo e levá-lo a uma renovação inquietante de sua moral na mesma medida em que ele é incentivado a substituir seu aparato eletrônico por uma nova engenhoca apenas alguns meses mais nova.  O mundo modernizante do século XIX, imerso no pensamento de uma Europa construída sobre a tradição de séculos, parecia ainda guardar valores morais e culturais que colocavam o interesse do grupo – ainda que em alguns casos de forma torta – sobre a individualidade; o mundo contemporâneo, totalmente construído a partir da juventude de um país de tradições recentes e, em geral, falsamente forjadas, como os Estados Unidos da América, é um ambiente globalizante no qual a regra parece ser o não cumprimento das regras, porque essas representam uma tradição a ser desrespeitada na busca pela satisfação pessoal – e personalíssima – de um pretenso sucesso individual.  A questão é saber se a sociedade dos próximos tempos conseguirá funcionar em harmonia a partir de tão instáveis bases filosóficas.

Posted by Frizero at 22:57:24
Comments

One Response to “A euforia da modernidade”

  1. outro via, vi um comentário do jurandir freire costa justamente sobre essa aceleração do tempo, e de como o último século, mais precisamente a segunda metade dele, foram marcadas por mudanças muito grandes num curto espaço de tempo. com isso, temos a sensação de ter vivido demais, porque, por exemplo, em uma década obseva-se mudanças muito maiores hoje do que há 50 anos. essa sucessão de coisas, que acabamos aceitando, gera uma nostalgia precoce, uma busca de alguma base - porque, por mais que os valores da burguesia tradicional tenham sido superados, ainda não foram totalmente rearranjados - , enfim, ele chega a uma conclusão que me pareceu interessante, que é a de que vivemos angustiados, idealizando um passado, mas na tentativa de reagrupar um certo futuro. não sei, é possivel.

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