Thursday, February 8, 2007

Socialismo e morte

“¡Socialismo…o muerte!”

(Hugo Chávez, em seu discurso de posse realizado em janeiro de 2007)

“… el que manda debe oír aunque sean las más duras verdades y, después de oídas, debe aprovecharse de ellas para corregir los males que produzcan los errores.”

(Simon Bolívar)

Pintura mural com a imagem de Hugo Chávez

A aprovação no Congresso Nacional Venezuelano, em 31 de janeiro de 2007, da dita “Ley que autoriza al presidente de la República a dictar decretos con rango, valor y fuerza de ley” - na prática, uma concesão de poderes legislativos especiais para que o presidente daquele país, Hugo Chávez, possa “profundizar la revolución bolivariana” y avanzar hacia “la construcción del socialismo”, nas palavras da presidente daquela casa legislativa, Cilia Flores - torna ainda mais difícil a tarefa dos que, no Brasil, defendiam a idéia de que o governante venezuelano era o grande democrata sul-americano para o século XXI.  A medida, outorgada por um congresso que tem todas as cadeiras ocupadas por membros do partido político de Chávez, é uma carta branca que dá ao presidente poderes ditatoriais, praticamente uma renúncia pública do povo venezuelano ao direito de controlar e avaliar as decisões de seu mandatário a respeito do próprio destino da nação.

O caráter tirânico de Chávez, em verdade, não é nada novo para quem acompanhou os últimos movimentos desse candidato a líder político dos povos latino-americanos, cujo carisma parece angariar adeptos em todas as partes - vide as manifestações histéricas que recebeu em sua participação na última edição do Fórum Social Mundial que foi realizada em Porto Alegre.  Antes desse aval cego oferecido por um congresso totalmente dominado pelo próprio Chávez - uma situação, a bem da verdade, criada pela própria oposição, que se recusou a participar da última eleição legislativa -, o presidente venezuelano já havia anunciado a quebra de contratos com as empresas de exploração de petróleo - dentre as quais a Petrobrás, carro-chefe do prestígio de seu dito colega Luiz Inácio Lula da Silva - e acenado com o fim das concessões de rádio e televisão para os órgãos de imprensa que considera inimigos do povo, ou seja, aqueles que assumiram, desde o início, uma postura de oposição ao seu governo.  Somem-se a isso o culto à imagem e à persona de Hugo Chávez, os arroubos verbais de defensor dos oprimidos do mundo e suas pretensões ditas bolivarianas - ou seja, sua apropriação da imagem mítica do líder político Simon Bolívar - e sua postura arrogante em termos de política internacional e tem-se praticamente a receita dos mais renomados ditadores da humanidade.

Qual seria o olhar de Bolívar sobre esses novos líderes latino-americanos?É certo que Hugo Chávez assumiu o poder pelas vias democráticas - mas assim também o fizeram Adolf Hitler e Getúlio Vargas, entre outros.  Contudo, tendo em suas mãos o poder, é comum aos ditadores cercarem-se de meios legais ou de força para garantir sua perpetuação no poder, para tal ignorando quaisquer dos preceitos consagrados pelas democracias ocidentais.  E Chávez segue perfeitamente essa tendência: do presidente da Venezuela dos primeiros tempos, vitorioso na tentativa de deposição que sofreu e que o levou, triunfante, de volta ao poder dois dias depois, ele revela-se a cada gesto mais um tirano latino-americano, da estirpe dos grandes déspotas que nosso sofrido continente ostentou em um passado não muito distante, e menos o salvador socialista que os admiradores da esquerda imaginaram vislumbrar quando de sua ascenção ao poder em uma Venezuela destruída pelos desmandos de uma oligarquia das mais gananciosas e perversas.  Não é essa a mesma trilha calcada por Evo Morales e Fidel Castro, dois grandes compadres políticos de Chávez - que os tem acenado com agrados em forma de petrodólares venezuelanos -, e não por acaso admiradores declarados do mesmo ícone, Simon Bolívar?  Seria interessante perguntar-se qual seria o olhar de Simon Bolívar, o libertador das Américas - que alguns dizem ter ele mesmo tomado atitudes despóticas ao final de sua vida política -, diante das tendências tirânicas e nada democráticas desses novos líderes latino-americanos… 

Como os tiranos que o antecederam, Chávez crê-se o possuidor da verdade absoluta, o único homem na Venezuela com capacidade de decidir o que é melhor para seu país e sua gente.  E seus seguidores, enceguecidos pela perspectiva de ascenderem ao poder junto com seu líder, dão-lhe uma autorização de ditador com um suposto prazo de dezoito meses - tempo suficiente, aliás, para que se destruam as estruturas democráticas de qualquer nação do mundo.  Dentre os planos para a aplicação imediata de sua nova prerrogativa de legislador, Hugo Chávez já anunciou, a intenção de editar uma nova Lei de Segurança Nacional, com a qual pretende defender a Venezuela de seus inimigos, e a edição de uma lei que permitirá a reeleição do Presidente da República por tempo indeterminado. 

Ao contrário do que apregoava seu símbolo maior, Simon Bolívar, Hugo Chávez não é nada permeável às críticas, tampouco parece preocupado em analisá-las para dali extrair, quem sabe, algo de útil para retificar seus possíveis erros.  Ditadores, enfim, como seres iluminados que creem ser, jamais erram.  E assim, uma vez mais, o socialismo apregoado por Chávez, Fidel Castro e outros tantos déspotas de esquerda mostra-se não uma alternativa política mas, sim, a morte de todas as conquistas democráticas pelas quais a própria esquerda latino-americana tanto lutou por todos esses anos sob o domínio das sangrentas ditaduras militares de inspiração fascista.  Será esse mesmo o melhor caminho?  Há ainda espaço para se crer que uma ditadura é melhor ou pior que a outra por conta de sua coloração partidária?

Posted by Frizero at 15:25:51
Comments

One Response to “Socialismo e morte”

  1. Frizero says:

    É interessante recordar, aliás, que o golpe de estado acima citado, ocorrido em abril de 2002, foi motivado por uma medida semelhante a esta que o presidente conseguiu aprovar no congresso nacional: ao final de 2001, com poderes especiais, ele conseguiu aprovar mais de vinte leis bastante arbitrárias que suscitaram a mobilização de seus opositores e sua frustrada tentativa de derrubar Chávez do poder.

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