O Inumano Inimigo
Há uma cena de Cartas de Iwo Jima, a mais recente produção de Clint Eastwood e que concorreu ao Oscar de Melhor Filme e Direção em 2007, que pode ser apontada como o cerne do bem elaborado roteiro de Iris Yamashita e Paul Haggis: encurralados em uma caverna, combatendo os invasores norte-americanos à pequena e semi-deserta ilha de valor meramente estratégico, um grupo de soldados japoneses consegue acertar um soldado estadunidense, que é trazido, por ordem do oficial japonês, para ser atendido pelos enfermeiros; o oficial, um medalhista olímpico de hipismo, cujo sucesso o havia levado a conhecer a Califórnia anos antes da guerra, conversa com o rapaz em inglês e demonstra simpatia pelo rapaz, que pouco tempo depois vem a falecer; ao cobrirem o corpo do soldado americano, o oficial encontra um pedaço de papelna mão do cadáver, e seu sargento pergunta-lhe se eram planos de guerra ou algum segredo militar; Não, responde o oficial, é apenas uma carta, e abrindo o papel começa a ler para os soldados, em japonês, o relato corriqueiro de uma mãe do Oklahoma, falando de um desentendimento com o vizinho e das diabruras do cachorro da família, despedindo-se do filho com palavras carinhosas; os soldados japoneses ouvem-no em um silêncio de surpresa e total descrédito.
Sem qualquer discurso ou análise sociológica, os roteiristas de Cartas de Iwo Jima conseguiram resumir nessas breves imagens - e a descrição da cena é pobre diante da beleza plástica da cena filmada - algo que há muito tenho percebido em meus parcos anos de experiência de vida: um homem é incapaz de matar outro homem. A afirmativa pode soar totalmente incongruente em tempos como os nossos, em que a crueldade das guerras e dos crimes urbanos parece cada dia mais acentuada, mas a reflexão sobre essas palavras aparentemente tolas pode nos fazer vislumbrar um pouco melhor a origem desses e de outros males da humanidade.
Sustento que o ser humano, como qualquer outra espécie na Terra, nasceu com essa incapacidade absoluta de matar seu semelhante. Contudo, diferentemente dos ditos animais irracionais, nós, homens, conseguimos desconstruir mentalmente os elementos que tornam o outro alguém igual a nós - e essa grotesca capacidade que temos de revestir o próximo de atributos é que nos permite matar um outro ser humano. Desumanizar o inimigo é o processo que sempre foi usado, desde os mais primevos tempos, para a preparação de soldados em direção aos campos de batalha, afinal. Ao atribuir aos homens que estão do outro lado da guerra novos epítetos e vícios, demonizando-os sob o nome de inimigos e conferindo a eles um caráter maléfico - seja pelo medo, ao impregnar os soldados de histórias sobre a crueldade do outro ou sobre o mal que eles trarão ao país e às famílias dos próprios soldados caso eles não consigam impedir sua marcha; seja pela depreciação pura e simples, criando uma imagem do adversário como alguém fraco, desonrado ou exótico -, os líderes políticos e militares sempre conseguiram arregimentar suas tropas e arrancar de seus homens os atos de bravura e crueldade mais impensáveis. Não raro, esse processo de demonização do outro é levado para o interior de seus próprios exércitos, como uma forma de inimir os desertores ou os insubordinados, transformados então em traidores da pátria e, por conta disso, despersonalizados, indignos de pertencer àquele grupo de eleitos que compõem a nação que se defende.
A cena de Cartas de Iwo Jima comove ao mostrar a imensa surpresa dos soldados japoneses ao tomar contato, por meio da carta lida pelo oficial, com um outro ser humano - jovem como eles, também filho de uma mãe que deixara para trás por conta da convocação de guerra, alguém que tem vizinhos e um cão e uma vida corriqueira e simples como as suas próprias eram antes da guerra - que eles viam apenas como um alvo na linha de tiro, um inimigo a ser abatido. A carta humaniza o soldado norte-americano, resgata-o por alguns instantes da irrealidade da guerra e coloca-o novamente em sua pequena casa no Oklahoma, um jovem que poderia muito bem ser qualquer um daqueles soldados japoneses que o capturaram. A comoção dos soldados naqueles poucos segundos em que foram transportados ao lar de uma mãe aflita no distante e desconhecido Estados Unidos da América mostra porque é tão difícil a reintegração dos soldados à vida civil de um estado de pós-guerra: como reconstruir dentro de suas mentes, além das fibras de humanidade que naturalmente são rompidas diante dos horrores do campo de batalha, a imagem do inimigo como um ser humano? Para seus líderes, os mesmos que os enviaram para a defesa de pontos estratégicos de forma também desumanizada - afinal, os exércitos, sobre as cartas militares e os tabuleiros de estratégia, são formados por números e não por pessoas -, tudo se resolve com reuniões diplomáticas nas quais seus interesses são rearranjados em apertos de mão e trocas falseadas de cortesia. Para o homem comum, fica a dor de seu sofrimento pessoal e um único culpado por suas perdas de guerra - o inimigo.
Questiono-me se o processo não será o mesmo nos tantos casos de crimes hediondos, violentíssimos, que presenciamos a cada dia em nossas cidades. Para os assassinos de João Hélio, o menino preso ao cinto de segurança não era humano naquele momento, mas sim um empecilho que lhes impedia a fuga impune. Para os assaltantes de Bragança Paulista, que incendiaram um automóvel com três adultos e uma criança de cinco anos em seu interior, aquela família não era composta de pessoas, naquele momento, mas de provas que, se sobrevivessem, os levariam ao banco dos réus. Para o marido abandonado, o homem violento envolvido em uma briga de trânsito e o assaltante que esfaqueia um adolescente por conta de um par de tênis da moda, o outro não é humano, apenas um obstáculo a ser superado em busca de sua satisfação pessoal. E empecilhos, provas, obstáculos - são meras coisas a serem superadas, e não seres humanos.
Essa lógica torta e perversa dos matadores não os exime, de forma alguma, de sua culpa, menos ainda de sua crueldade. Mas entender esse princípio de desumanização do outro pode ser útil se quisermos construir uma sociedade futura na qual barbáries como essas não mais se repitam. Na minha parca experiência de vida, eu só conheço um caminho possível para construir humanidade no coração dos homens: a educação.

Mais interessante que o documentário em si, contudo, foi a entrevista coletiva que Paulo Zero e Sônia Bridi concederam aos internautas que acessaram a página na Internet do Globo Repórter logo depois da exibição do programa. Vários dos visitantes, que funcionaram como entrevistadores dos repórteres, perguntaram como é, de fato, essa nova China anunciada como a futura potência mundial - e sobre as lições que a China contemporânea poderia ensinar ao Brasil. Sônia Bridi ressaltou que o grande problema da China atual é não saber “o que fazer com a velha”. Para ela, “muito do que existia de cultura foi substituído por arremedos – tentativa de resgate controlado pelo estado, de práticas e tradições que o mesmo estado destruiu durante a loucura coletiva da Revolução Cultural”. Com isso, ”antigas tradições que ainda provocam feridas emocionais no país – [a pressão social para se] ter filho homem, mulheres com pés mutilados [em uma região na qual a mulher, para se casar, precisava ter pés pequenos, como sinal de beleza], mulheres que não tinham direito à educação – e com conhecimentos milenares que estão desaparecendo em prejuízo de toda a Humanidade, como o domínio das ervas medicinais que o Doutor Ho [um médico tradicional, por ela entrevistado, cujos conhecimentos incluiriam até mesmo a cura do câncer por meio de ervas medicinais, atestado por cientistas norte-americanos], mais de 80 anos, desesperadamente tenta passar para novas gerações”.
Bridi enfatizou também que o grande salto que a China está a promover, transformando-se da massa de miseráveis e analfabetos de vinte e cinco anos atrás em um pólo tecnológico que, segundo ela, surpreenderá o mundo com sua tecnologia nas próximas Olimpíadas, em 2008, está quase todo ele calcado na educação. A repórter impressionou-se com ”a qualidade das escolas públicas, inclusive no interior”. Descrevendo imagens que remetem ao famoso filme Ninguém a Menos - de escolas sem “vidros nas janelas e de chão batido” -, Sônia Bridi lembrou que, ainda assim, nenhuma escola que ela visitou estava sem professores, “e ensinando”. “Lá [na China] as crianças conversam com você em inglês, pois aprendem na escola pública”, coisa que no Brasil parece impensável, disse a repórter. A China, que já tem uma universidade entre as vinte melhores do mundo, “está formando uma elite de pesquisadores”, relata Bridi, “e investiram em educação e pesquisa; começaram [sua vantagem competitiva] pela mão-de-obra barata e a exportação, mas agora estão crescendo [em tecnologia] e de forma bastante acelerada”.
Há um setor de atividades no Brasil que parece desconhecer a crise. Sua eficiência e seriedade na busca de seus objetivos é assombrosa e, mesmo com a abundância de recursos com que parece sempre contar, tem um controle financeiro dos mais cuidadosos, não raro aplicando em sua gestão de material e serviços técnicas apuradas de reciclagem de material e de desenvolvimento de novas técnicas e padrões de execução de suas tarefas.
Não, não há espaço para o jeitinho no carnaval carioca. As escolas de samba do Rio de Janeiro há muito já descobriram o caminho da eficiência. Opostamente ao que acontece nas empresas e repartições públicas brasileiras, nas agremiações do chamado Grupo Especial o individualismo, a gestão por tentativas, o personalismo e a bajulação dão espaço cada vez mais a uma gestão por competência, ao trabalho em equipe e à valorização do talento profissional. Vejamos a campeã deste ano, a Beija-Flor de Nilópolis: há alguns anos, a escola da Baixada Fluminense substituiu a figura do carnavalesco - que nos anos 1990 ganhou ares de campeão solitário de um desfile carnavalesco, de todo-poderoso a quem se atribuiam todos os valores de uma escola - por uma comissão de carnaval que, em outras palavras, é uma equipe formada por diversos carnavalescos que, juntos, planejam e executam a construção visual do espetáculo; atenta à necessidade de angariar os melhores profissionais, a Beija-Flor contratou há alguns anos Laíla, ex-diretor de Harmonia do Salgueiro, e no ano passado, o carnavalesco vencedor do carnaval de 2006 pela Unidos de Vila Isabel; além disso, a escola eliminou a caçada que empreendia para povoar seu desfile de celebridades, dando preferência aos integrantes da própria comunidade, e aprendeu com o passar dos anos que os ensaios contínuos e o trabalho exaustivo na preparação do carnaval rende mais frutos que o questionável prestígio que tais personalidades de aparência poderiam emprestar à escola. Imagine-se a Beija-Flor como uma grande empresa exportadora e pode-se sonhar com o retorno em divisas que ela geraria para o país…



É certo que Hugo Chávez assumiu o poder pelas vias democráticas - mas assim também o fizeram Adolf Hitler e Getúlio Vargas, entre outros. Contudo, tendo em suas mãos o poder, é comum aos ditadores cercarem-se de meios legais ou de força para garantir sua perpetuação no poder, para tal ignorando quaisquer dos preceitos consagrados pelas democracias ocidentais. E Chávez segue perfeitamente essa tendência: do presidente da Venezuela dos primeiros tempos, vitorioso na tentativa de deposição que sofreu e que o levou, triunfante, de volta ao poder dois dias depois, ele revela-se a cada gesto mais um tirano latino-americano, da estirpe dos grandes déspotas que nosso sofrido continente ostentou em um passado não muito distante, e menos o salvador socialista que os admiradores da esquerda imaginaram vislumbrar quando de sua ascenção ao poder em uma Venezuela destruída pelos desmandos de uma oligarquia das mais gananciosas e perversas. Não é essa a mesma trilha calcada por Evo Morales e Fidel Castro, dois grandes compadres políticos de Chávez - que os tem acenado com agrados em forma de petrodólares venezuelanos -, e não por acaso admiradores declarados do mesmo ícone, Simon Bolívar? Seria interessante perguntar-se qual seria o olhar de Simon Bolívar, o libertador das Américas - que alguns dizem ter ele mesmo tomado atitudes despóticas ao final de sua vida política -, diante das tendências tirânicas e nada democráticas desses novos líderes latino-americanos…