Monday, February 26, 2007

O Inumano Inimigo

Kazunari Ninomiya em 'Cartas de Iwo Jima'Há uma cena de Cartas de Iwo Jima, a mais recente produção de Clint Eastwood e que concorreu ao Oscar de Melhor Filme e Direção em 2007, que pode ser apontada como o cerne do bem elaborado roteiro de Iris Yamashita e Paul Haggis: encurralados em uma caverna, combatendo os invasores norte-americanos à pequena e semi-deserta ilha de valor meramente estratégico, um grupo de soldados japoneses consegue acertar um soldado estadunidense, que é trazido, por ordem do oficial japonês, para ser atendido pelos enfermeiros; o oficial, um medalhista olímpico de hipismo, cujo sucesso o havia levado a conhecer a Califórnia anos antes da guerra, conversa com o rapaz em inglês e demonstra simpatia pelo rapaz, que pouco tempo depois vem a falecer; ao cobrirem o corpo do soldado americano, o oficial encontra um pedaço de papelna mão do cadáver, e seu sargento pergunta-lhe se eram planos de guerra ou algum segredo militar; Não, responde o oficial, é apenas uma carta, e abrindo o papel começa a ler para os soldados, em japonês, o relato corriqueiro de uma mãe do Oklahoma, falando de um desentendimento com o vizinho e das diabruras do cachorro da família, despedindo-se do filho com palavras carinhosas; os soldados japoneses ouvem-no em um silêncio de surpresa e total descrédito.

Sem qualquer discurso ou análise sociológica, os roteiristas de Cartas de Iwo Jima conseguiram resumir nessas breves imagens - e a descrição da cena é pobre diante da beleza plástica da cena filmada - algo que há muito tenho percebido em meus parcos anos de experiência de vida: um homem é incapaz de matar outro homem.  A afirmativa pode soar totalmente incongruente em tempos como os nossos, em que a crueldade das guerras e dos crimes urbanos parece cada dia mais acentuada, mas a reflexão sobre essas palavras aparentemente tolas pode nos fazer vislumbrar um pouco melhor a origem desses e de outros males da humanidade. 

Sustento que o ser humano, como qualquer outra espécie na Terra, nasceu com essa incapacidade absoluta de matar seu semelhante.  Contudo, diferentemente dos ditos animais irracionais, nós, homens, conseguimos desconstruir mentalmente os elementos que tornam o outro alguém igual a nós - e essa grotesca capacidade que temos de revestir o próximo de atributos é que nos permite matar um outro ser humano.  Desumanizar o inimigo é o processo que sempre foi usado, desde os mais primevos tempos, para a preparação de soldados em direção aos campos de batalha, afinal.  Ao atribuir aos homens que estão do outro lado da guerra novos epítetos e vícios, demonizando-os sob o nome de inimigos e conferindo a eles um caráter maléfico - seja pelo medo, ao impregnar os soldados de histórias sobre a crueldade do outro ou sobre o mal que eles trarão ao país e às famílias dos próprios soldados caso eles não consigam impedir sua marcha; seja pela depreciação pura e simples, criando uma imagem do adversário como alguém fraco, desonrado ou exótico -, os líderes políticos e militares sempre conseguiram arregimentar suas tropas e arrancar de seus homens os atos de bravura e crueldade mais impensáveis.  Não raro, esse processo de demonização do outro é levado para o interior de seus próprios exércitos, como uma forma de inimir os desertores ou os insubordinados, transformados então em traidores da pátria e, por conta disso, despersonalizados, indignos de pertencer àquele grupo de eleitos que compõem a nação que se defende. 

Ken Watanabe em 'Cartas de Iwo Jima'A cena de Cartas de Iwo Jima comove ao mostrar a imensa surpresa dos soldados japoneses ao tomar contato, por meio da carta lida pelo oficial, com um outro ser humano - jovem como eles, também filho de uma mãe que deixara para trás por conta da convocação de guerra, alguém que tem vizinhos e um cão e uma vida corriqueira e simples como as suas próprias eram antes da guerra - que eles viam apenas como um alvo na linha de tiro, um inimigo a ser abatido.  A carta humaniza o soldado norte-americano, resgata-o por alguns instantes da irrealidade da guerra e coloca-o novamente em sua pequena casa no Oklahoma, um jovem que poderia muito bem ser qualquer um daqueles soldados japoneses que o capturaram.  A comoção dos soldados naqueles poucos segundos em que foram transportados ao lar de uma mãe aflita no distante e desconhecido Estados Unidos da América mostra porque é tão difícil a reintegração dos soldados à vida civil de um estado de pós-guerra: como reconstruir dentro de suas mentes, além das fibras de humanidade que naturalmente são rompidas diante dos horrores do campo de batalha, a imagem do inimigo como um ser humano?  Para seus líderes, os mesmos que os enviaram para a defesa de pontos estratégicos de forma também desumanizada - afinal,  os exércitos, sobre as cartas militares e os tabuleiros de estratégia, são formados por números e não por pessoas -, tudo se resolve com reuniões diplomáticas nas quais seus interesses são rearranjados em apertos de mão e trocas falseadas de cortesia.  Para o homem comum, fica a dor de seu sofrimento pessoal e um único culpado por suas perdas de guerra - o inimigo.

Questiono-me se o processo não será o mesmo nos tantos casos de crimes hediondos, violentíssimos, que presenciamos a cada dia em nossas cidades.  Para os assassinos de João Hélio, o menino preso ao cinto de segurança não era humano naquele momento, mas sim um empecilho que lhes impedia a fuga impune.  Para os assaltantes de Bragança Paulista, que incendiaram um automóvel com três adultos e uma criança de cinco anos em seu interior, aquela família não era composta de pessoas, naquele momento, mas de provas que, se sobrevivessem, os levariam ao banco dos réus.  Para o marido abandonado, o homem violento envolvido em uma briga de trânsito e o assaltante que esfaqueia um adolescente por conta de um par de tênis da moda, o outro não é humano, apenas um obstáculo a ser superado em busca de sua satisfação pessoal.  E empecilhos, provas, obstáculos - são meras coisas a serem superadas, e não seres humanos.

Essa lógica torta e perversa dos matadores não os exime, de forma alguma, de sua culpa, menos ainda de sua crueldade.  Mas entender esse princípio de desumanização do outro pode ser útil se quisermos construir uma sociedade futura na qual barbáries como essas não mais se repitam.  Na minha parca experiência de vida, eu só conheço um caminho possível para construir humanidade no coração dos homens: a educação. 

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Saturday, February 24, 2007

O verdadeiro tesouro da China

Gostaria de dizer que nesses dois anos de China, eles estão conseguindo se desenvolver com muitas práticas que a gente condena, mas eles defedem muito os interesses da China e dos chineses. Eles cuidam primeiro disso, para depois ver os interesses estrangeiros. Temos que perceber que isso é importante, focar no que é interessante para o Brasil e para os brasileiros. Lá existe um senso de coletividade muito forte. um contraponto muito forte com a nossa cultura individualista. O interesse coletivo sobre o indiviual é eficiente para se fazer com que a sociedade inteira se desenvolva. Estamos em uma situação melhor, nós deveríamos estar muito melhor.
Sônia Bridi

Em 23 de fevereiro de 2007, a Rede Globo de Televisão exibiu o documentário Tesouros da China, uma coletânea de matérias realizadas por sua correspondente internacional naquele país, Sônia Bridi, e pelo repórter cinematográfico Paulo Zero.  Em verdade, a matéria divulgada pelo programa Globo Repórter é uma espécie de despedida dos repórteres do posto de correspondentes internacionais da emissora na China, função que exerceram eficientemente por dois anos, tendo sido a primeira equipe de jornalistas da América Latina credenciada para atuar naquele país após o início da abertura do gigante comunista asiático ao mundo.

Tesouros da China mostrou-se uma admirável colcha de retalhos cultural sobre o país milenar; por meio de matérias gravadas em diversas viagens feitas por cinco diferentes províncias chinesas, dos dois repórteres pelo interior da China - sempre dificultadas pelo governo de Pequim e seus excessos, tanto de burocracia quanto de controle sobre a liberdade de opinião e a livre atuação da imprensa estrangeira -, Bridi e Zero conseguiram traçar um interessante panorama da cultura chinesa, tanto do passado sofrido de seu povo, marcado pelos desmandos da dita Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, quanto das contradições atuais de uma China que desponta como grande potência mundial mas que ainda está arraigada em tradições construídas sobre a desigualdade entre homens e mulheres. 

Imagem: Paulo ZeroMais interessante que o documentário em si, contudo, foi a entrevista coletiva que Paulo Zero e Sônia Bridi concederam aos internautas que acessaram a página na Internet do Globo Repórter logo depois da exibição do programa.  Vários dos visitantes, que funcionaram como entrevistadores dos repórteres, perguntaram como é, de fato, essa nova China anunciada como a futura potência mundial - e sobre as lições que a China contemporânea poderia ensinar ao Brasil.  Sônia Bridi ressaltou que o grande problema da China atual é não saber “o que fazer com a velha”.  Para ela, “muito do que existia de cultura foi substituído por arremedos – tentativa de resgate controlado pelo estado, de práticas e tradições que o mesmo estado destruiu durante a loucura coletiva da Revolução Cultural”.  Com isso, ”antigas tradições que ainda provocam feridas emocionais no país – [a pressão social para se] ter filho homem, mulheres com pés mutilados [em uma região na qual a mulher, para se casar, precisava ter pés pequenos, como sinal de beleza], mulheres que não tinham direito à educação – e com conhecimentos milenares que estão desaparecendo em prejuízo de toda a Humanidade, como o domínio das ervas medicinais que o Doutor Ho [um médico tradicional, por ela entrevistado, cujos conhecimentos incluiriam até mesmo a cura do câncer por meio de ervas medicinais, atestado por cientistas norte-americanos], mais de 80 anos, desesperadamente tenta passar para novas gerações”.

Imagem: Paulo ZeroBridi enfatizou também que o grande salto que a China está a promover, transformando-se da massa de miseráveis e analfabetos de vinte e cinco anos atrás em um pólo tecnológico que, segundo ela, surpreenderá o mundo com sua tecnologia nas próximas Olimpíadas, em 2008, está quase todo ele calcado na educação.  A repórter impressionou-se com ”a qualidade das escolas públicas, inclusive no interior”.  Descrevendo imagens que remetem ao famoso filme Ninguém a Menos - de escolas sem “vidros nas janelas e de chão batido” -, Sônia Bridi lembrou que, ainda assim, nenhuma escola que ela visitou estava sem professores, “e ensinando”.  “Lá [na China] as crianças conversam com você em inglês, pois aprendem na escola pública”, coisa que no Brasil parece impensável, disse a repórter.  A China, que já tem uma universidade entre as vinte melhores do mundo, “está formando uma elite de pesquisadores”, relata Bridi, “e investiram em educação e pesquisa; começaram [sua vantagem competitiva] pela mão-de-obra barata e a exportação, mas agora estão crescendo [em tecnologia] e de forma bastante acelerada”. 

Muita coisa poderia ser aprendida pelo Brasil a partir do exemplo chinês, em verdade.  O Brasil, paradoxalmente, tem um panorama político e econômico muito mais promissor que o da China para começar uma escalada de crescimento semelhante à da nação mais populosa do mundo, já que vivemos em um regime democrático, com ampla liberdade de expressão e livre-iniciativa, com um povo que lida muito mais facilmente com as relações interpessoais e é, talvez, mais criativo e inovador que o chinês.  Mas falhamos, por outro lado, nas lições mais básicas que a China pode nos ensinar: para Sônia Bridi, que por lá viveu dois anos com o olhar aguçado de uma correspondente internacional, “poderíamos aprender deles a capacidade de planejamento financeiro, da economia do país e também das famílias”, pois “lá é inaceitável essa mania brasileira de se endividar”; diz ela que, sobretudo, “poderíamos aprender a investir em educação” e trata-se, aqui, não apenas de investimentos governamentais, mas da própria população em sua auto-formação e crescimento - um dos maiores diferenciais da China em relação ao Brasil, assinala a repórter, é que com todas as restrições à liberdade de imprensa e ao livre-pensamento, “o povo chinês gosta muito de ler, as livrarias são numerosas e enormes” e tem uma grande sede de saber.

Quando será que voltaremos os nossos olhos para as (boas) lições do Oriente?

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Eficiência em um país às avessas

Há um setor de atividades no Brasil que parece desconhecer a crise.  Sua eficiência e seriedade na busca de seus objetivos é assombrosa e, mesmo com a abundância de recursos com que parece sempre contar, tem um controle financeiro dos mais cuidadosos, não raro aplicando em sua gestão de material e serviços técnicas apuradas de reciclagem de material e de desenvolvimento de novas técnicas e padrões de execução de suas tarefas. 

Ao contrário do que em geral é observado no Brasil, seu planejamento é feito com bastante antecedência e seguido à risca, ainda que os resultados do esforço dispendido no decorrer de todo um ano, por exemplo, seja apresentado à sociedade em geral apenas uma vez ao ano, dando a impressão de que sua execução é pontual e levada a cabo sem maiores cuidados - uma idéia que também pode ser transmitida pela alegria com que as pessoas envolvidas desempenham suas funções ali.  Ledo engano: não raro, o início de um projeto nesse setor inicia-se mais de um ano antes, a partir de uma idéia sobre a qual recaem a análise e o julgamento de dezenas, por vezes centenas de pessoas envolvidas em sua execução - um trabalho tipicamente de equipe, que atua sempre em harmonia e sob normas rígidas em relação ao papel de cada membro e às funções por eles exercidas.  Tal projeto é detalhado em todas as suas partes, com croquis e desenhos, gráficos e planilhas de custos, antes mesmo que se tenha uma definição de sua real aplicação naquele ano de atividades.  Aliás, é sobre esse meticuloso trabalho de pesquisa que são feitas as primeiras avaliações dos dirigentes e aprovada ou não a continuidade do projeto.  Uma vez dada a resposta afirmativa, as equipes, que em geral trabalham juntas a muito tempo, iniciam o longo trabalho que, em geral, resulta em impecáveis resultados que tem orgulhado o Brasil e elevado o nome do país no exterior.

Sem dúvida, se eu tivesse a canhestra vocação para escrever livros de auto-ajuda na área de Administração de Empresas - mas creio que o mundo já foi brindado com muito mais obras desse tipo do que jamais necessitou… - eu usaria como modelo de competência e gestão de sucesso o carnaval carioca, mais especificamente o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.  E digo isso com um nó na garganta, pois, apesar de ser um incontestável admirador da grande festa popular brasileira, creio ser terrível constatar que uma das poucas coisas que funcionam no Brasil com precisão e organização impecáveis seja justamente o desfile das agremiações carnavalescas na Sapucaí.  Talvez minhas palavras beirem o exagero para alguns, mas em que outro lugar no país se observa a preocupação em seguir as regras, o cuidado e o apuro que se vê em uma escola de samba? 

Dois exemplos extraídos do evento em 2007 corroboram minha visão: na Estação Primeira de Mangueira, a cantora Beth Carvalho, mangueirense há mais de trinta anos, figura constante nos desfiles daquela tradicional escola carioca, foi barrada no desfile de domingo porque queria sair em um carro alegórico da escola sem ter antes combinado nada com a direção.  Sua presença na alegoria que encerrava o desfile da Mangueira foi impedida e, entrevistado, o carnavalesco disse que a cantora “era muito querida na escola, mas ninguém faz nada em um desfile da Mangueira sem que antes isso tenha sido previsto”.  Em outra situação noticiada pela imprensa, um integrante de uma ala da Imperatriz Leopoldinense foi também proibido de desfilar pela escola e retirado da área de concetração da Sapucaí por seguranças.  A razão da proibição foi simples: o integrante extraviou o chapéu que fazia parte de sua fantasia e, sem o adereço, não poderia desfilar, pois aquilo poderia acarretar perda de pontos para a escola.  Onde, nesses casos, foi parar o famoso jeitinho brasileiro?  Será que o último carro alegórico da Mangueira, que era em verdade um grande palco onde vários membros da Velha Guarda da escola e da Academia Brasileira de Letras acomodavam-se em varandas cenográficas, não teria espaço para mais uma pessoa, e uma integrante famosa da escola?  E será que os jurados iriam mesmo descontar pontos por conta de um único integrante sem um chapéu, em meio a um mar de passistas em evolução? 

Não, não há espaço para o jeitinho no carnaval carioca.  As escolas de samba do Rio de Janeiro há muito já descobriram o caminho da eficiência.  Opostamente ao que acontece nas empresas e repartições públicas brasileiras, nas agremiações do chamado Grupo Especial o individualismo, a gestão por tentativas, o personalismo e a bajulação dão espaço cada vez mais a uma gestão por competência, ao trabalho em equipe e à valorização do talento profissional.  Vejamos a campeã deste ano, a Beija-Flor de Nilópolis: há alguns anos, a escola da Baixada Fluminense substituiu a figura do carnavalesco - que nos anos 1990 ganhou ares de campeão solitário de um desfile carnavalesco, de todo-poderoso a quem se atribuiam todos os valores de uma escola - por uma comissão de carnaval que, em outras palavras, é uma equipe formada por diversos carnavalescos que, juntos, planejam e executam a construção visual do espetáculo; atenta à necessidade de angariar os melhores profissionais, a Beija-Flor contratou há alguns anos Laíla, ex-diretor de Harmonia do Salgueiro, e no ano passado, o carnavalesco vencedor do carnaval de 2006 pela Unidos de Vila Isabel; além disso, a escola eliminou a caçada que empreendia para povoar seu desfile de celebridades, dando preferência aos integrantes da própria comunidade, e aprendeu com o passar dos anos que os ensaios contínuos e o trabalho exaustivo na preparação do carnaval rende mais frutos que o questionável prestígio que tais personalidades de aparência poderiam emprestar à escola.  Imagine-se a Beija-Flor como uma grande empresa exportadora e pode-se sonhar com o retorno em divisas que ela geraria para o país…

Sei que talvez a minha tristeza com tantas coisas terríveis e erradas que têm acontecido em nosso país recentemente, da morte de João Hélio à aposentadoria por invalidez - doze mil reais mensais - do deputado mensaleiro Janene, estejam a turvar um pouco a minha vista para as outras tantas coisas maravilhosas que o Brasil produz e possui.  Mas alguém há de concordar comigo que algo de muito estranho deve existir em um país no qual a única coisa verdadeiramente organizada, na qual as regras são respeitadas e os compromissos, cumpridos é justamente a festa pagã na qual todas as amarras morais e sociais são afrouxadas… 

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Wednesday, February 21, 2007

A euforia da modernidade

O século XXI vive uma nova euforia tecnológica, a exemplo do cientificismo do século XIX, que traz consigo efeitos deletérios que o mundo então europeizante de cem anos atrás ainda não possuía condições de produzir, auferir ou, muitas vezes, perceber.

A sensação de modernidade parece estar intimamente vinculada à rapidez com que os conceitos e o ferramental tecnológicos evoluem.  Em uma breve viagem mental aos nossos conhecimentos mais genéricos de História, certamente iremos recordar que a idéia de modernidade esteve mais presente em períodos nos quais novas tecnologias e máquinas fantásticas surgiram em maior profusão – quer seja na Revolução Industrial, no boom dos eletrodomésticos da década de 1950, nos anos primeiros da era espacial ou na atual explosão da Rede Mundial de Computadores.  Uma análise mais profunda dessa mesma História mostrará que os períodos outros, que não associamos diretamente com essa sensação de progresso, viram também surgir diversos avanços tecnológicos importantíssimos para a humanidade.  Mas falamos de uma sensação generalizada, vulgarizada pelos meios de comunicação e pelo pensamento reinante em toda uma época – uma idéia que nem sempre está calcada em dados concretos e mensuráveis.

Talvez o efeito mais prejudicial dessa modernidade quase impositiva dos meios de comunicação e do pensamento atual seja a nossa incapacidade de lidar com o passado.  A suíça Jeanne Marie Gagnebin, professora de Filosofia da PUCSP e uma das maiores estudiosas no país da obra do pensador alemão Walter Benjamin, diz que um dos maiores problemas da modernidade é justamente a aceleração do tempo – uma sensação humana cuja mensurabilidade e precisão já era questionada por cientistas como Albert Einstein –, em grande parte oriunda da rapidez com que a técnica evolui e substitui-se a si mesma.  “Quando pensamos no século XV”, diz Gagnebin, “as pessoas viviam quase as mesmas coisas de geração em geração, o que não acontece hoje”.  Hoje, torna-se difícil para as novas gerações compreender coisas que eram corriqueiras há poucos anos.  Experimente-se, para melhor perceber isso, conversar com um adolescente sobre objetos de uso comum há poucas décadas, como a máquina de escrever, a ficha telefônica ou a prática de se levar ao supermercado os cascos de vidro dos refrigerantes para poder comprar o produto; propositalmente se citaram aqui exemplos de hábitos urbanos e bastante comuns, nada exóticos para quem viveu a década de 1980, por exemplo, em um grande centro urbano.  Avance-se sobre os hábitos do meio rural e o diálogo tornar-se-á completamente ininteligível para ambas as partes.

A conseqüência maior dessa aceleração do tempo a que se refere a autora de Os Cacos da História seria o desprezo contemporâneo à tradição.  Ao mesmo tempo que se busca a confiança freqüentemente associada ao tempo de experiência na aplicação de determinada técnica ou prática, há uma busca pela novidade que faz com que, consciente ou inconscientemente, se abandone o tradicional como ultrapassado.  O imediatismo a que nos leva a busca pelo atualíssimo faz com que se aceite, quase que cegamente, tudo aquilo que advém da ciência e tecnologia e que se menospreze, por conseguinte, o que surgiu dos longos anos de prática e aplicação.  Não se exige do conhecimento científico ou da tecnologia nenhum tempo de maturação das idéias ou de comprovação empírica de resultados – há, no imaginário contemporâneo, a sensação falseada de que aquilo que é lançado hoje é, forçosamente, melhor do que foi feito ontem, e com isso cria-se um caleidoscópio de informações, notícias, novidades tecnológicas e conceitos diversos aos quais nenhum ser humano é capaz de assimilar devidamente, tampouco de avaliar criticamente.   

Há que se perguntar quais serão, no futuro, as conseqüências desse encontro nada positivo – o da euforia pela modernidade com a psique dominante – e profundamente norte-americana – do individualismo, do self-made man, da meta de vida calcada no sucesso material a qualquer custo.  Talvez resida nessa conjunção de idéias alguns dos tantos efeitos já percebidos na atualidade – do crescimento da violência, fruto de uma cultura que exacerba o indivíduo e sua busca pelo prazer em detrimento dos direitos do outro, à incapacidade de reação da população diante dos acontecimentos sociais mais escabrosos.

O desprezo pelo passado – que inclui a relativização de instituições e conceitos seculares como a família, o casamento, a honradez e a honestidade, por exemplo – e a incapacidade de lidar com o futuro – estariam aí a frenética busca pela juventude a qualquer custo? – parecem confundir o homem contemporâneo e levá-lo a uma renovação inquietante de sua moral na mesma medida em que ele é incentivado a substituir seu aparato eletrônico por uma nova engenhoca apenas alguns meses mais nova.  O mundo modernizante do século XIX, imerso no pensamento de uma Europa construída sobre a tradição de séculos, parecia ainda guardar valores morais e culturais que colocavam o interesse do grupo – ainda que em alguns casos de forma torta – sobre a individualidade; o mundo contemporâneo, totalmente construído a partir da juventude de um país de tradições recentes e, em geral, falsamente forjadas, como os Estados Unidos da América, é um ambiente globalizante no qual a regra parece ser o não cumprimento das regras, porque essas representam uma tradição a ser desrespeitada na busca pela satisfação pessoal – e personalíssima – de um pretenso sucesso individual.  A questão é saber se a sociedade dos próximos tempos conseguirá funcionar em harmonia a partir de tão instáveis bases filosóficas.

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Tuesday, February 13, 2007

“Que não tenha sido em vão.”

Família de João Hélio, o menino carioca cuja morte brutal comoveu todo o país

No dia 07 de fevereiro de 2007, o Brasil anoiteceu com a notícia trágica de mais um gesto de barbárie cometido por criminosos: ao saírem de um centro espírita em direção ao seu lar, uma família foi abordada por ladrões de carro em um sinal de trânsito e forçados a sair do carro; a mãe e a filha de treze anos conseguiram sair do automóvel, mas a pobre mulher não teve tempo de retirar do banco traseiro seu filho de seis anos, João Hélio Fernandes Vieites - ao implorar aos bandidos para que a permitissem desatrelar a criança do cinto de segurança, os três assaltantes, um deles um menor de idade de 16 anos, ignoraram seus apelos, chamando-a de vagabunda e arrancando com o veículo em alta velocidade; o menino, João Hélio Fernandes Vieites, ficou preso pelo cinto de segurança do lado de fora do automóvel e foi assim arrastado por mais de sete quilômetros de movimentadas ruas da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro até que o automóvel foi abandonado, ainda com o corpo já morto da criança preso ao cinto de segurança, em uma rua sem saída na qual os bandidos entraram desavisadamente. 

O trajeto funesto dessa cena angustiante, inacreditavelmente cruel, incluiu ruas nas quais estão localizados quartéis do Exército, hospitais, delegacias de polícias e postos policias da Polícia Militar do Rio de Janeiro, mas não houve para os criminosos qualquer impedimento em seu caminho para que a odiosa tragédia tivesse um fim, ou fosse, quem sabe, evitada.  Testemunhas disseram que a ação dos bandidos não foi uma mera distração: vários motoristas de outros veículos seguiram ou sinalizaram para eles, informando que o menino estava preso do lado de fora do carro; transeuntes, horrorizados com o que viam, desesperadamente tentavam fazer com que o automóvel em disparada fosse contido, sem sucesso; alguns deles narraram, indignados, que os delinqüentes pilotavam o automóvel em zigue-zague e passavam em altíssima velocidade para tentar se livrar daquele empecilho, daquele pobre menino preso ao cinto de segurança, fazendo com que a criança sofresse ainda mais antes de, por fim, vir a falecer.

A comoção nacional é facilmente perceptível.  A imprensa mantém o ocorrido vivo na memória da população desde aquele dia, seja em reportagens diversas mostrando a prisão dos suspeitos e os depoimentos de parentes, amigos e autoridades diversas, seja em debates acalorados sobre que medidas podem ser tomadas para evitar tragédias como essa.  Como em outras ocasiões em que crimes bárbaros comoveram o Brasil recentemente, governantes e seus secretários de segurança trouxeram para diante das câmeras de televisão suas mil explicações e ações paleativas: aumentou-se o policiamento nas ruas que foram cenário do horror a que foi submetido João Hélio, o governador do Rio de Janeiro ergueu publicamente a bandeira pela redução da maioridade penal e até mesmo uma praça próxima ao local onde o corpo de João Hélio foi encontrado, ainda preso ao automóvel, ganhou o nome do menino imolado pela violência urbana.   

No domingo, dia 11 de fevereiro de 2007, os pais de João Hélio falaram pela primeira vez, em entrevista à maior emissora de televisão do país, sobre a morte de seu filho.  Seus rostos eram o retrato do sofrimento maior que o ser humano pode, talvez, sentir: a da perda de um filho em condições tão cruéis, tão hediondas, de tamanho desprezo por qualquer sentimento de humanidade.  De toda a comovente entrevista, a frase mais marcante saiu dos lábios daquele jovem pai cujo rosto era de dor, mas não de ódio: “Espero que a morte do João Hélio, do meu filho, não tenha sido em vão, que não tenha sido em vão, que a partir dela se possa repensar o que é preciso mudar em nosso país para que isso nunca mais volte a acontecer e outros pais não venhma a sofrer o que nós estamos sofrendo”.

Em Brasília, tanto no Congresso Nacional quanto no Supremo Tribunal Federal, fala-se que não se pode tomar nenhuma decisão ao calor das emoções de eventos trágicos como este.  Fernando Gabeira foi o único político que, até o momento, parece verdadeiramente sensibilizado com a questão, ao insistir que “não há mais, no Brasil, um momento em que estejamos longe do ‘calor da comoção’ para decidir sobre as mudanças necessárias, já que os crimes hediondos como este sucedem-se no Brasil a cada dia”.  Em verdade, o Congresso Nacional está repleto de projetos de lei à espera de votação que surgiram no calor de outras comoções nacionais causadas pela violência - de leis penalizando o uso de celulares dentro de presídios a normas para controle de fábricas de uniformes policiais e militares (sic!), de leis propondo a redução da maioridade penal a outras tantas condicionando o foro de julgamento e cumprimento de penas pelo menor infrator ao tipo de crime cometido.  Contudo, nem essas leis extemporâneas, nem as mudanças estruturais necessárias para um combate efetivo à criminalidade crescente no país - reestruturação policial e penitenciária, revisão do Código Penal e do Código Processual Penal, reorganização do sistema judiciário brasileiro - parecem estar na lista de prioridades dos nossos parlamentares e governantes.  Somem-se a isso as falácias toda da Segurança Pública, as quais vão da atribuição de um caráter terapêutico ao sistema penal à volta da Lei de Talião, e temos o caos de insegurança e impunidade no qual hoje vivemos.

Todas as medidas propostas, contudo, parecem mais paleativas e, porque não dizer, diversionárias que realmente eficazes.  As polícias brasileiras são altamente corporativistas e jamais aceitarão uma restruturação que as transforme em instrumento de ação do Estado contra a criminalidade - acostumadas que foram por anos e anos a serem apenas o braço repressor que julga e condena seus suspeitos, pelo filtro dos preconceitos dos próprios agentes policiais, na primeira abordagem.  A Justiça brasileira, preocupada demais com seus privilégios, crendo-se superior demais ao resto da estrutura pública, prendeu-se às tecnicalidades do Direito e parece cada vez mais afastada do mundo real do crime e da impunidade.  As penitenciárias, encargos dos governos estaduais, há muito são meros depósitos de criminosos, nos quais se misturam ladrões rasteiros a chefes do crime organizado em uma deletéria promiscuidade que faz desses últimos senhores absolutos de um submundo que aflora cada vez mais na sociedade civil.  As organizações não-governamentais e alguns falaciosos políticos, em geral da esquerda, parecem acreditar que os problemas de segurança atuais serão solucionados com ações paleativas que remetem a uma sonhada igualdade social que jamais será construída se hoje, agora, não houver atitude estatal forte no combate aos criminosos que já estão desvirtuados e cometendo as atrocidades que tanto nos assustam e comovem. 

A sociedade brasileira passa a impressão de falência moral, e não é uma sensação gratuita - ela tem raízes em ocorrências como a morte do menino João Hélio, as quais não deveriam nunca ser apagadas de nossa memória.  Quando o freio moral mais básico que se pode esperar na convivência em sociedade - o senso de humanidade, a compaixão pelo sofrimento alheio - desaparece por completo, como nessa tragédia sem precedentes em nosso país, o problema parece fugir à solução simplista da edição de mais uma lei ou da colocação de mais policiais nas ruas em que nossa pretensa condição de sociedade organizada foi arrastada juntamente com o corpo frágil de João Hélio.

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Monday, February 12, 2007

Entre tantas, qual escolher?

 

Gostaria de compartilhar com os leitores do “Locutório” este artigo de Zero Hora, publicado em 12 de fevereiro de 2007, no qual eu colaborei como consultor.  Mantive aqui o texto na íntegra - leia-o logo abaixo da reprodução da capa do caderno “MEU FILHO”, onde foi publicado.


 
Capa do caderno 'Meu Filho', de ZH, com a matéria

Entre tantas, qual escolher?

Um guia para ajudá-lo a selecionar a melhor opção entre as escolas de língua estrangeira

 

Com a proximidade do início do ano letivo, vem também a necessidade de fazer pesquisas e levantar orçamentos para as famílias que querem incrementar o dia dos filhos com atividades extracurriculares. Em meio à rápida proliferação de instituições tradicionais e das que acabam de entrar no mercado, como começar a busca pelo curso de idiomas mais adequado?

O custo não deve ser fator preponderante, segundo recomenda o professor de inglês, espanhol e português para estrangeiros Robertson Frizero Barros. Identifique as escolas nas proximidades de casa e comece as visitas. Considere sempre o desempenho de alunos formados por determinado curso de línguas: se um amigo de seu filho mostra progresso nos estudos ou se a família tem a referência de alguém que estudou lá e tornou-se desenvolto no uso do novo idioma, trata-se de bons indicadores para facilitar a escolha do lugar onde será feita a matrícula.

- Com uma lista menor em mãos, torna-se mais fácil a análise dos demais fatores importantes: a qualificação dos professores, o material didático, o número de alunos por turma, a estrutura do curso de idiomas e os recursos disponíveis aos alunos - comenta Barros.

 

Por onde começar
Considere, antes de mais nada, os três fatores abaixo:

- Descarte os cursos que prometem maravilhas, como a aprendizagem do idioma em um ano. O estudo de uma língua estrangeira é um processo gradual, que requer continuidade e nunca termina, sobretudo no caso de crianças e adolescentes. Quem aprendeu um idioma e deixou de praticá-lo sabe bem que as habilidades se perdem com o passar do tempo.

- Desconfie das escolas preocupadas mais em apresentar a estrutura física do que explicar seu projeto pedagógico e sua metodologia. Não há sala de informática perfeita ou sala de espera ricamente decorada que faça seu filho aprender melhor do que um bom professor, apoiado por projeto educacional e material didático igualmente de qualidade.

- Evite os cursos que insistirem no pagamento do valor integral das mensalidades logo no primeiro mês - a não ser que se trate de uma instituição conhecida e de tradição. Prefira o parcelamento. Caso você ou seu filho não se satisfaçam com o andamento das aulas, trancar a matrícula será menos problemático.

Professores

- Os cursos livres de idiomas (assim chamados por não terem um currículo mínimo ou disciplinas exigidos por lei) não são obrigados a contratar professores graduados em Letras. Profissionais com formação universitária em outras áreas, e até mesmo sem qualquer diploma de curso superior, podem trabalhar.

- A maioria das escolas aproveita essa liberdade para contratar, como instrutores, pessoal sem formação específica em ensino e aprendizagem de idiomas, num esforço para baratear custos. Verifique o currículo daquele que será o professor da turma de seu filho.

- A graduação em Letras é o mais indicado, mas há bons profissionais no mercado vindos de outras áreas. No entanto, a realização de um curso complementar (de especialização ou a participção em congressos e seminários) em ensino de idiomas é essencial, o que denota interesse na busca constante de aperfeiçoamento. O treinamento inicial oferecido pelas próprias escolas não é suficiente. Muitas instituições costumam tentar atrair alunos alegando que seus professores tiveram vivência no Exterior ou que são falantes nativos da língua que ensinam. Mas tenha cuidado: isso pode indicar que o profissional é um falante competente naquele idioma, mas não necessariamente que ele sabe ensiná-lo para alunos daqui. Se fosse assim, qualquer brasileiro ou mesmo um estrangeiro que tivesse vivido alguns anos no Brasil seriam bons professores, o que não é verdade.

- É muito mais provável que um professor brasileiro, que teve que aprender no Brasil aquela língua estrangeira e passou pelas mesmas dificuldades de seus alunos, saiba conduzir melhor o processo de aprendizagem do idioma do que alguém que não seguiu o mesmo caminho para compreender a língua.

- A vivência no Exterior não deve ser mais importante no currículo do professor de idiomas do que a formação específica para o ensino de línguas estrangeiras, seja o curso superior de Letras ou complementares.

Material didático

- Muitas escolas, sobretudo as franquias, anunciam uma metodologia própria de ensino, característica que você deve observar bem. O investimento em um método exclusivo torna-se, muitas vezes, um entrave para que a escola promova modificações ou modernizações, já que os custos de elaboração e impressão do material didático tornam-se elevados e podem inibir futuras alterações substanciais. Essas escolas também costumam ser mais rígidas em relação ao uso de materiais suplementares por parte dos professores e, não raro, até mesmo as aulas são mais padronizadas se comparadas às de outras instituições. As grandes franquias são pensadas para funcionar nas mais diversas regiões do país, enquanto escolas locais buscam, em geral, adaptar-se ao ambiente dos alunos.

- Línguas como o inglês e o espanhol, bastante estudadas e pesquisadas em todo o mundo, têm sempre novos lançamentos em material didático, mais modernos e bem elaborados. É mais vantajoso optar por uma escola que adote livros de editoras e autores renomados, uma vez que, por conta disso, se tem mais liberdade para mudar de metodologia ou de material caso seja necessário.


Conheça o método e os recursos oferecidos

Ao visitar a escola, descubra um detalhe importante sobre o método de ensino. Em alguns cursos, o professor fala somente no idioma estrangeiro, desde o primeiro dia de aula, o que pode acabar intimidando ou desestimulando alguns estudantes. O número de alunos por turma é importante: entre cinco e oito por sala é o ideal.

 

Dicas
Falar português em aula é proibido?

- A língua materna do aluno, sobretudo nos níveis iniciais, pode ser usada como forma de instrução, até mesmo para diminuir a ansiedade natural de aprender um outro idioma. Esta é uma disciplina diferente, por envolver uma sensação de estranhamento e uma dificuldade inicial que os outros conteúdos escolares não oferecem. O bom professor é aquele que consegue dosar bem o uso da língua materna, incentivando o estudante a substituí-la aos poucos pelas novas estruturas e pelo novo vocabulário.

- Um curso que desde o primeiro instante use apenas a língua estrangeira pode provocar uma sensação de frustração no aluno, que irá associar o estranhamento natural do aprendizado a uma incapacidade sua de compreender ou se comunicar em outro idioma.

Número de alunos

- Aulas em grupo são vantajosas para os mais jovens. Não só pela interação e pelo dinamismo, mas também por diminuírem o custo do curso, que, se fosse individual, seria bem mais elevado.

- Salas de aula muito cheias, contudo, tornam o ensino menos eficaz, tanto pelo pouco tempo de atenção que o professor pode destinar a cada um quanto pela dificuldade que um grupo grande de estudantes oferece ao aprendizado de uma disciplina intimamente ligada à comunicação.

- Turmas com cinco a oito alunos são, em geral, as mais produtivas. Doze alunos por sala deve ser o máximo aceitável em turmas de adultos. Dez é o limite para grupos de crianças e adolescentes.

Instalações

- A disponibilidade de equipamentos de som e vídeo em sala de aula, ou mesmo em um outro ambiente da escola, mostra que o curso se preocupa em oferecer ao professor condições de trabalhar com diferentes materiais e mídias. Assim, o aluno terá uma diversidade maior de atividades pedagógicas.

- No caso de crianças que ainda não estejam em idade escolar, é desejável que a escola ofereça salas compatíveis com suas necessidades - e, vale salientar, profissionais capacitados para o ensino de alunos dessa faixa etária.

- Quanto maior a exposição do aluno a um material desenvolvido originalmente em língua estrangeira e que seja, de algum modo, significativo para ele, maior será seu interesse pelos estudos e mais rápido o desenvolvimento de suas habilidades - ler, escrever, compreender e falar. Valorize os cursos que tenham biblioteca e videoteca à disposição dos alunos e questione se esse material será efetivamente usado em sala de aula.

Internet e multimídia

- O computador pode ser bastante producente para o aluno. Verifique, porém, se as salas de informática são efetivamente freqüentadas e de que forma o acesso à Internet ou o uso de CD-ROMs de ensino de línguas é conduzido. O computador é um instrumento válido para a aprendizagem de línguas estrangeiras apenas se aplicado em situações que envolvem a interatividade e desenvolvem a criatividade do aluno no idioma. Muitos programas limitam-se a reproduzir na tela do computador o que o aluno poderia fazer usando papel e caneta.

- Usar o tempo de aula para dar acesso aos alunos à Internet é um desperdício se não houver uma intenção pedagógica no uso da rede, seja visitando sites específicos de ensino de idiomas ou navegando para cumprir tarefas planejadas pelo professor.

Na própria escola

- Há colégios que oferecem convênios com um curso de idiomas que ministra as aulas dentro da própria escola. Você terá vantagens, como reduzir os gastos e o transtorno com o transporte.

- Unir as duas atividades no mesmo lugar pode funcionar bem se a escola dispuser de um espaço especialmente preparado para o ensino de línguas. Verifique o número de alunos por turma, a qualificação dos professores e, principalmente, como será feita a divisão dos grupos - por faixa etária, por série ou por competência na língua. No caso de crianças, as diferenças de idade e de conhecimento podem ser inibidoras para um bom desempenho dos mais jovens.

- Analise se não será mais interessante para a criança ou para o adolescente freqüentar o curso em outro local, com a possibilidade de fazer novas amizades e estar em um ambiente diferente.

Fonte: Robertson Frizero Barros, professor de inglês, espanhol e português para estrangeiros, especialista em Ensino e Aprendizagem de Línguas Estrangeiras e mestrando em Teoria da Literatura

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Thursday, February 8, 2007

Socialismo e morte

“¡Socialismo…o muerte!”

(Hugo Chávez, em seu discurso de posse realizado em janeiro de 2007)

“… el que manda debe oír aunque sean las más duras verdades y, después de oídas, debe aprovecharse de ellas para corregir los males que produzcan los errores.”

(Simon Bolívar)

Pintura mural com a imagem de Hugo Chávez

A aprovação no Congresso Nacional Venezuelano, em 31 de janeiro de 2007, da dita “Ley que autoriza al presidente de la República a dictar decretos con rango, valor y fuerza de ley” - na prática, uma concesão de poderes legislativos especiais para que o presidente daquele país, Hugo Chávez, possa “profundizar la revolución bolivariana” y avanzar hacia “la construcción del socialismo”, nas palavras da presidente daquela casa legislativa, Cilia Flores - torna ainda mais difícil a tarefa dos que, no Brasil, defendiam a idéia de que o governante venezuelano era o grande democrata sul-americano para o século XXI.  A medida, outorgada por um congresso que tem todas as cadeiras ocupadas por membros do partido político de Chávez, é uma carta branca que dá ao presidente poderes ditatoriais, praticamente uma renúncia pública do povo venezuelano ao direito de controlar e avaliar as decisões de seu mandatário a respeito do próprio destino da nação.

O caráter tirânico de Chávez, em verdade, não é nada novo para quem acompanhou os últimos movimentos desse candidato a líder político dos povos latino-americanos, cujo carisma parece angariar adeptos em todas as partes - vide as manifestações histéricas que recebeu em sua participação na última edição do Fórum Social Mundial que foi realizada em Porto Alegre.  Antes desse aval cego oferecido por um congresso totalmente dominado pelo próprio Chávez - uma situação, a bem da verdade, criada pela própria oposição, que se recusou a participar da última eleição legislativa -, o presidente venezuelano já havia anunciado a quebra de contratos com as empresas de exploração de petróleo - dentre as quais a Petrobrás, carro-chefe do prestígio de seu dito colega Luiz Inácio Lula da Silva - e acenado com o fim das concessões de rádio e televisão para os órgãos de imprensa que considera inimigos do povo, ou seja, aqueles que assumiram, desde o início, uma postura de oposição ao seu governo.  Somem-se a isso o culto à imagem e à persona de Hugo Chávez, os arroubos verbais de defensor dos oprimidos do mundo e suas pretensões ditas bolivarianas - ou seja, sua apropriação da imagem mítica do líder político Simon Bolívar - e sua postura arrogante em termos de política internacional e tem-se praticamente a receita dos mais renomados ditadores da humanidade.

Qual seria o olhar de Bolívar sobre esses novos líderes latino-americanos?É certo que Hugo Chávez assumiu o poder pelas vias democráticas - mas assim também o fizeram Adolf Hitler e Getúlio Vargas, entre outros.  Contudo, tendo em suas mãos o poder, é comum aos ditadores cercarem-se de meios legais ou de força para garantir sua perpetuação no poder, para tal ignorando quaisquer dos preceitos consagrados pelas democracias ocidentais.  E Chávez segue perfeitamente essa tendência: do presidente da Venezuela dos primeiros tempos, vitorioso na tentativa de deposição que sofreu e que o levou, triunfante, de volta ao poder dois dias depois, ele revela-se a cada gesto mais um tirano latino-americano, da estirpe dos grandes déspotas que nosso sofrido continente ostentou em um passado não muito distante, e menos o salvador socialista que os admiradores da esquerda imaginaram vislumbrar quando de sua ascenção ao poder em uma Venezuela destruída pelos desmandos de uma oligarquia das mais gananciosas e perversas.  Não é essa a mesma trilha calcada por Evo Morales e Fidel Castro, dois grandes compadres políticos de Chávez - que os tem acenado com agrados em forma de petrodólares venezuelanos -, e não por acaso admiradores declarados do mesmo ícone, Simon Bolívar?  Seria interessante perguntar-se qual seria o olhar de Simon Bolívar, o libertador das Américas - que alguns dizem ter ele mesmo tomado atitudes despóticas ao final de sua vida política -, diante das tendências tirânicas e nada democráticas desses novos líderes latino-americanos… 

Como os tiranos que o antecederam, Chávez crê-se o possuidor da verdade absoluta, o único homem na Venezuela com capacidade de decidir o que é melhor para seu país e sua gente.  E seus seguidores, enceguecidos pela perspectiva de ascenderem ao poder junto com seu líder, dão-lhe uma autorização de ditador com um suposto prazo de dezoito meses - tempo suficiente, aliás, para que se destruam as estruturas democráticas de qualquer nação do mundo.  Dentre os planos para a aplicação imediata de sua nova prerrogativa de legislador, Hugo Chávez já anunciou, a intenção de editar uma nova Lei de Segurança Nacional, com a qual pretende defender a Venezuela de seus inimigos, e a edição de uma lei que permitirá a reeleição do Presidente da República por tempo indeterminado. 

Ao contrário do que apregoava seu símbolo maior, Simon Bolívar, Hugo Chávez não é nada permeável às críticas, tampouco parece preocupado em analisá-las para dali extrair, quem sabe, algo de útil para retificar seus possíveis erros.  Ditadores, enfim, como seres iluminados que creem ser, jamais erram.  E assim, uma vez mais, o socialismo apregoado por Chávez, Fidel Castro e outros tantos déspotas de esquerda mostra-se não uma alternativa política mas, sim, a morte de todas as conquistas democráticas pelas quais a própria esquerda latino-americana tanto lutou por todos esses anos sob o domínio das sangrentas ditaduras militares de inspiração fascista.  Será esse mesmo o melhor caminho?  Há ainda espaço para se crer que uma ditadura é melhor ou pior que a outra por conta de sua coloração partidária?

Posted by Frizero at 15:25:51 | Permalink | Comments (1) »