O peso do preconceito
Há um tipo de preconceito que tem afastado pessoas capacitadas das melhores posições em diversas companhias, impedido bons alunos de ingressar nas melhores universidades, determinado a percepção de menores salários por parte das mulheres e levado suas vítimas a acumularem menos bens ao longo da vida. Ao contrário de outras formas de discriminação, que gozam até mesmo de legislação que pune com prisão seus infratores, essa forma de preconceito não é combatida pela sociedade que, muito pelo contrário, alimenta-o diariamente e parece concordar com aqueles que o detém. Aliás, esse é um tipo de preconceito que, inversamente ao que acontece com a discriminação racial, social ou étnica, não gera nenhum tipo de constrangimento ao ser assumido publicamente.
Em tempos nos quais a beleza parece ser obrigatoriamente vinculada à magreza, a obesidade assume o lugar das características pessoais mais suscetíveis a despertar o preconceito. Desde 1966 há estudos em países como os Estados Unidos da América - onde o índice de pessoas obesas cresce a cada ano - que mostram aquilo que muitos obesos já conhecem na prática: as pessoas com sobrepeso são vítimas de preconceito, têm maior dificuldade em conseguir empregos - sendo geralmente eliminadas, no processo de admissão, durante a etapa das entrevistas -, ganham salários menores em comparação aos seus pares não-obesos, pagam mais caro os planos de saúde e os contratos de seguro pessoal e têm maior dificuldade em organizar sua vida amorosa e afetiva. Um estudo recente, realizado pelo professor de psicologia Brian A. Nosek, da Universidade de Virginia (divulgado pelo jornal The New York Times de 02 de dezembro de 2006), apontou a discriminação contra os obesos como o mais intenso tipo de preconceito na sociedade estadunidense, superando até mesmo os de fundo racial, social e de orientação sexual.
Ainda que tais dados sejam referentes à realidade norte-americana, há fortes razões para se acreditar que o fenômeno da discriminação contra obesos é um fenômeno que afeta a maioria dos países ocidentais. O preconceito contra obesos é facilmente observável em nossa sociedade, seja na forma como a obesidade é retratada na ficção, seja na quantidade absurda de informações que são veiculadas - e vendidas, é sempre bom recordar - em revistas, jornais e programas de rádio e televisão, na forma de dicas para combater o excesso de peso à propaganda de soluções cirúrgicas a panacéias medicamentosas para um emagrecimento rápido e milagroso. Nos comerciais televisivos residem, talvez, as formas mais claras de como o obeso é visto por nossa sociedade: em geral, os gordinhos e gordinhas são usados sempre como o contraponto aos bem-sucedidos magros e magras, fortes e esbeltas; em geral, os primeiros sempre aparecem tomando atitudes idiotas perante as câmeras, ou em situações de frustração por não poderem ser tão bonitos e sortudos como aqueles que não sofrem com o excesso de peso. O mais curioso é que tais situações não estão restritas às propagandas de produtos dietéticos ou light, roupas ou produtos afins cuja relação direta com o sobrepeso é compreensível. Recentemente uma famosa fabricante de televisores colocou no ar uma campanha publicitária na qual dois vendedores apanhavam de suas freguesas ao convidá-las a ir até o fundo da loja para ver o novo lançamento em televisores de plasma - claro que o comercial tratava isso com uma frase de duplo sentido e conotação erótica… Curiosamente, ambos os vendedores eram obesos, e a cliente era uma alta e belíssima loira. Qual será a mensagem contida na peça publicitária, cuja intenção era humorística? A idéia que reinava subliminarmente é que a mulher, tão bonita e elegante, jamais aceitaria uma cantada de um homem com sobrepeso, muito menos de dois obesos como aqueles, e que estaria em pleno direito de esbofeteá-los em público por conta disso.
Talvez soe como um exagero, mas basta tentar recordar uma situação em que na ficção - seja na programação normal das emissoras de televisão, nos filmes de qualquer gênero ou mesmo nos intervalos comerciais - um personagem obeso ou com sobrepeso tenha sido retratado de forma positiva (excluindo-se Papai Noel, por razões óbvias). Uma mulher indesejável em termos sexuais, nos filmes e comerciais televisivos, será quase que invariavelmente obesa. Um homem repugnante, com raríssimas exceções, apresentará um abdômen avantajado e vestirá roupas que parecerão prestes a explodir de seu corpo - como se não existissem, hoje bem mais que no passado, lojas e lojas a vender roupas de tamanhos especiais… A esse respeito, há um interessantíssimo estudo de três psicólogas - Naumi A. de Vasconcelos, Iana Sudo e Nara Sudo - da UFRJ. intitulado Um peso na alma: o corpo gordo e a mídia, março de 2004, no qual as pesquisadoras estudaram a forma como foram retratados os obesos em matérias veiculadas nos jornais e revistas brasileiros entre 1995 e 2003. Elas alertam que a nossa sociedade desenvolveu uma espécie de ”lipofobia”, um trauma em torno do excesso de peso, causado em grande parte pela falsa associação entre obesidade e falência moral. O preconceito, que engloba todas as atividades sociais - e por isso afeta os obesos em situações como a procura por um emprego ou a escolha para um cargo de maior relevo dentro de uma empresa -, estabeleceu no imaginário de nossa sociedade a idéia de que o obeso é preguiçoso, moralmente fraco, descuidado, indisciplinado e desleixado, de que alguém com sobrepeso jamais pode ser visto como uma pessoa elegante e bem-sucedida, sexualmente atraente e ativa, realizada no amor e na profissão. Em outras palavras, o corpo gordo é um sinal visível de violação das normas estabelecidas por nossa sociedade atual, presa à imagem corporal como símbolo maior de ostentação e status - o que, em parte, explica o deslocamento que parece ter ocorrido dos sonhos de sucesso profissional das camadas mais pobres da população, que hoje não mais almejam uma formação profissional adquirida pela educação formal mas, sim, uma vitória social que é associada às conquistas que o corpo pode proporcionar, seja como esportistas, modelos, dançarinos ou outras atividades ligadas à aparência exterior. Nesse mundo em que ser magro é a meta almejada por tantos, ser gordo é ser, com as devidas proporções, um outsider. Mesmo diante dos exageros que essa cultura da magreza tem gerado - a sucessão de casos de anorexia e bulimia, com vítimas fatais, é um importante sinal -, o corpo gordo é ainda sinal de fracasso e motivo de repulsa.
A discriminação contra os obesos, que não é nada sutil, parece passar despercebida para a maioria das pessoas - sinal de que o preconceito é, de fato, generalizado e aceito como algo natural. Gordo, no Brasil, tornou-se palavra ofensiva - quem duvidar, que se recorde do episódio envolvendo o jogador Ronaldo Lazário e o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva - e aqueles que trabalham na mídia e fogem ao padrão estético da magreza estabelecido nos últimos anos parecem ter que aceitar tal denominação e fazer dela razão para uma auto-chacota inexplicável - uma forma de auto-defesa que justificaria, em parte, as piadas de mau gosto e as cenas lamentáveis de discriminação que apresentadores de televisão como Jô Soares, Gilberto Barros, João Gordo e Fausto Silva - este último uma espécie de patrocinador da discriminação contra os obesos no Brasil - promovem com seus convidados que, como eles próprios, também apresentam sobrepeso. Eles reproduzem, infelizmente, um padrão que existe em toda a sociedade brasileira, que criou para os obesos um esteriótipo de fanfarrão, bom amigo, engraçado e algo boboca. Espera-se, aliás, do gordinho e da gordinha que eles aceitem de bom grado toda e qualquer referência ou apelido menos elogiosos ao seu excesso de peso corporal. Quando isso não ocorre, o obeso é taxado de rancoroso, e certamente as conversas sobre sua atitude estarão repletas da palavra gordo acrescida de outros adjetivos nada nobres - afinal, estamos em um país no qual é elogioso dizer a um amigo que ele parece mais magro…
Tudo o que os obesos desejam é respeito. Nenhum deles desconhece os perigos da doença chamada obesidade - em verdade, uma situação corporal que pode gerar enfermidades diversas, e não uma doença em si. As pessoas com sobrepeso, aliás, são talvez as que melhor conheçam o número de calorias dos alimentos, os tipos de dieta que funcionam ou não, as contra-indicações deste ou daquele medicamento milagroso para emagrecer - ao contrário do que parecem pensar as pessoas em geral, que sempre têm uma dica especial para fornecer ao amigo obeso, isso quando não se prestam simplesmente ao ridículo papel de comunicar à pessoa com sobrepeso que ela está precisando perder uns quilinhos, como se o obeso sofresse de algum tipo de retardamento mental que o impedisse de reconhecer isso ao olhar-se no espelho ou ao experimentar uma roupa que já não serve mais…
Ofender o obeso parece ser a forma encontrada pelos não-obesos (ou não-tão-obesos) de compensar a constatação de que mesmo eles, que não têm um sobrepeso considerável, jamais chegarão ao padrão de beleza apregoado pela mídia, pelos profissionais de beleza, pela indústria da moda e pelos médicos menos éticos - um padrão de beleza que, afinal de contas, hoje reside em adolescentes cada vez mais novas, com um índice de massa corporal preocupante para qualquer profissional de saúde, e em jovens rapazes cuja agenda permite gastar horas e horas de seu dia dentro de uma academia de musculação, não raro recorrendo aos anabolizantes mais destrutivos para ganhar uma massa muscular irreal para a maioria dos seres humanos. A grande incongruência, aliás, é que essas pessoas associam a obesidade à idéia de doença e, mesmo assim, sentem-se à vontade para discriminar um obeso em público. Será que eles agem assim também diante de outros tipos de doentes, digamos, uma pessoa com o rosto coberto de ataduras ou alguém com uma perna engessada que mostre uma grande dificuldade de locomoção em plena praça pública? Mantidas as devidas proporções, obviamente, o tratamento diferenciado mostra que o problema da discriminação contra os obesos é bem mais profundo e infinitamente mais difícil de ser resolvido. Afinal de contas, as duas últimas situações relatadas são passíveis de ocorrer a qualquer um, mas a obesidade ainda é tratada como uma escolha pessoal do doente, algo de fácil solução, uma mera questão de força de vontade…
Ao invés de se questionar o porquê de o obeso mais próximo ser daquela forma - o que, aliás, deveria ser um problema que preocupasse apenas ao próprio gordinho ou gordinha -, esses pretensos magros deveriam se perguntar até quando pretendem sustentar essa ilusão de que um corpo esbelto é a chave da felicidade.
Oi Beto,
Li o teu texto e é exatamente isso que acontece. O gordo geralmente sofre de preconceitos. Eu testemunhei um caso desses outro dia. Entre uma secretaria magrinha e inexperiente e outra gordinha e experiente. Optaram pela magrinha ! Tenho CERTEZA que foi puro preconceito.
Vamos lutar p/ que isso nao aconteça mais !
Bjs,
Silvia
rs
Coincidentemente, ontem, estive no Shopping para comprar umas roupinhas… cara, fiquei mal… com meus 1,73m e 76kg as “blusinhas” mal cobriam meus ” pneusinhos”… snif… entrei numa loja e comprei 06 pares de sandálias, que, modestamente ficaram lindas e perfeitas nos meus pés “magros”. rs.
Acabei de ler seu texto e é isso mesmo… eu não sou gorda, mas tenhos uns quilinhos em excesso e quando vou ao Shopping fico admirando as roupinhas e temendo ouvir das vendedoras que ” não tem o meu tamanho”… não deveria, mas isso me deixa extremamente mal, e acaba com a minha auto estima.
Beijo, seu texto está perfeito!
Luh.
Este foi o texto mais verdadeiro que já li até hoje.
Sofro muito por causa deste preconceito, e hoje em dia tudo tem me afetado de uma forma maior, mesmo este sendo um problema desde minha adolescencia, a alguns anos as propagandas não eram tão ofensivas aos obesos.
Fico muito triste com isto.
Gostaria este texto fosse lido por todos.
Obrigada
Beijos
Oi Frizero,
não tenho reais condições de avaliar se existe um
preconceito tão forte quanto o apregoado. Há sim
situações em que um gordo de alguma forma é
“indesejado” . Mas, vejo isso como o retrato de cultura
que valoriza o quanto mais se chega perto do
“perfeito”. E quanto a esse fato o gordo se insere da
mesma forma - não de maneira igualitária - que o mais
velho, a mulher feia, o negro, o mal vestido, o pobre,
o inculto, o estrábico, o fumante ou sei lá qual
categoria. A priori muitos poder julgar o que escrevo
com altamente preconceituoso, mas não, é simplesmente
o retrato do que acontece de fato. Nossa sociedade se
posta como egoísta e sim porque não dizer
preconceituosa. Está intimamente ligada a paradigmas e
às imagens. Pensar-se no ser e ter também é outra
discussão vasta. Portanto, o que se vê são associações
na maioria das vezes infelizes e que caricatam
qualquer cidadão. Não acho que seja privilégio do
gordo. Destarte, se costuma presenciar grupos comuns,
onde esse ou
aquele “defeito” é minorizado. Ou seja, ou nos
adaptamos e aceitamos o que há ou então que nos
juntemos ao grupo dos fumantes, dos pobres, dos
negros, dos gordinhos e vivamos em “guetos”. A saída e
a entrada estão abertas. Brigar contra a sociedade é
ser vencido, pois está no inconsciente. Sorry é el
mondo canis.
Abraços, Carlos.
Caro amigo Carlos Solano,
agradeço o interesse na leitura de meu
texto. Bem, amigo, como alguém que luta contra a
obesidade há alguns anos, posso te garantir que tenho
todas as condições de avaliar e afirmar que existe,
sim, um preconceito muito forte contra a pessoa obesa.
Eu já sofri esse preconceito em diversas ocasiões e
também já o vi sendo aplicado em situações como
seleção de emprego para atendente de um curso de
idiomas em que trabalhei, por exemplo, em que uma moça
obesa superqualificada foi preterida por uma outra que
tentava seu primeiro emprego.
Lembro-me das frases deploráveis que tive
que ouvir nos tempos de sucesso de minha banda
gástrica, ou seja, quando perdi trinta quilos depois
do procedimento e pessoas próximas a mim vinham me
parabenizar dizendo coisas do tipo “graças a Deus você
está mais magro, era detestável te ver gordo daquela
maneira!” e outras manifestações do quanto era penoso
para elas conviver com um obeso. O pior é que
recuperei meu peso, e deve estar novamente sendo
terrível para elas conviver comigo…
Sem dúvida, o preconceito contra os obesos
se insere na tal busca pelo corpo perfeito que tão bem
colocaste em tua resposta, mas creio que a diferença
está em que o preconceito contra o gordo não é oculto,
ninguém se sente envergonhado de expressá-lo na frente
de outras pessoas, não há nenhum policiamento em
relação a isso como há em outras formas de preconceito
como o racial, por exemplo - por mais que no Brasil a
cor da pele ainda renda algumas piadas, ninguém mais
usa abertamente a questão racial para ofender outra
pessoa, a não ser que esteja mesmo disposta a
enfrentar a lei. Contra os gordos, não há problemas
quanto a isso.
Como você, não acho que seja “privilégio do
gordo” ser discriminado - até porque, amigo,
sinceramente, não há privilégio nenhum nisso; há, sim,
o sofrimento resignado de muitas pessoas que, como eu,
lutam contra o excesso de peso e estão cansadas de
serem pré-julgadas por quem não sabe o que é o
problema e nunca teve que lutar contra a balança.
Tudo se resume a achar que o gordo é preguiçoso, um
fraco, por mais que já esteja provado que cada corpo
tem sua própria biologia, seu próprio metabolismo.
“Brigar contra a sociedade é ser vencido”?
Tchê, aqui no Rio Grande do Sul sempre dizem que “não
está morto quem peleia”.
Um abração, amigo!
Comentando apenas a frase seguinte: “Brigar contra a sociedade é ser vencido”?
Penso que :
melhor as lágrimas da derrota (se for o caso) do que a vergonha de não ter lutado!!!
Quanto ao mais …
Existe uma vontade generalizada de “ser alguém” (ou pelo menos parecer alguém), na pior conotação da expressão. Alguém que só existe porque carrega consigo uma série de atributos agregados em função do que se tem ou do status que se consegue, e nisso se inclui a estética do corpo sarado, malhado e até “bombado” (não necessariamente saudável).
O porquê dessa atitude pode ser explicado pela psicologia, como necessidade de aceitação, de auto-afirmação, etc. Neste processo, o ufanismo aflora pela ostentação da imagem do que não se é. Afinal, humildade é ver com verdade o que de fato somos. O humilde é o que se auto-percebe com um mínimo de clareza. Entretanto, o que assola o mundo é a preocupação com o que há pra se mostrar. Ter pra mostrar, ou , pior, ser pra mostrar. É a tal da TIRANIA DE TER QUE SER ALGUÉM NO MUNDO (incluindo o corpão esbelto de “narcizo”)
É essa desgraçada tirania do “ser alguém na vida” (mais uma vez: inclusa nesta tirania dominadora o corpo magro, de preferência malhado) o que mais impede as pessoas de serem elas mesmas. Até parece que o “alguém a se ser” é um outro alguém que não o próprio indivíduo.
Por enquanto é só. Gostaria de parabenizar pelo texto. Aliás, não apenas este, mas outros que andei lendo.
Continue escrevendo com a alma, como diria Raine Rilke.
Um grande abraço Frizero e Carlos Solano
O preconceito existe e o pior é que em nosso país é feito de modo velado.
Pode ter certeza que deram todas as desculpas para não aceitar a moça como
empregada, exceto o físico.
Eu sempre tive o maior cuidado, porque sei que brincadeiras, por mais que
não se queira ofender a pessoa, que tenha esse tema, irão ferir com certeza.
O que me preocupa em relação a esse tema é principalmente a questão da
saúde, principalmente nos problemas cardíacos, isso é muito sério.
Um abraço a todos
Alexander
Robertson, voltei hoje a ler o teu blog e fiquei triste ao ler esse teu artigo. O que você diz é muito verdadeiro, mas fiquei triste mesmo foi de imaginar que uma pessoa fantástica como você pode ser vítima de um preconceito tão idiota como esse… Espero que muita gente possa ler e refletir sobre as tuas idéias expressas nesse artigo. Um abraço!
Olá, Beto. Só depois de muito tempo consegui ler o teu texto sobre o preconceito. Muito bom. Gostei pra caramba. Tens que publicar, amigo, com certeza.
Grande abraço, Beto. Tudo de bom.