Um tiro no pé
Trago à luz das discussões dois fatos ocorridos em duas das maiores universidades particulares do sul do país para tomá-los como exemplo de um processo que, de resto, está se instaurando na educação brasileira como um todo.
No mês de janeiro, ainda nos últimos dias da temporada de defesas de dissertações e teses que em geral ocupam esse mês no calendário das pós-graduações de nossas universidades, a instituição em questão - cujo nome aqui não interessa mencionar - demitiu um grupo de suas melhores professoras da área de Estudos da Literatura sob a justificativa oficial de que elas foram demitidas por “questões de interesse institucional”. Elas estavam em plena atividade - orientações em andamento, trabalhos de conclusão de disciplinas para corrigir, turmas de Mestrado e Doutorado cujas notas de disciplinas recém-ministradas dependem de trabalhos que os alunos entregariam até março - e sua competência é algo inquestionável: detentoras de mestrado, doutorado e pós-doutorado, elas são referência na área de pesquisa em Literatura, sem nenhum exagero nessa afirmação, e muito mais poderia ser acrescentado sobre elas se isso não depusesse contra nossa intenção de manter o nome da universidade em sigilo. Uma outra universidade, do mesmo estado, aliás, demitiu recentemente um grande número de professores e efetuou novas contratações em caráter emergencial; o motivo é de uma surpreendente visão retrógrada: demitiram-se os professores com doutorado, admitiram-se novos professores que tinham apenas concluído o mestrado. Os professores que permaneceram na universidade, aliás, foram desencorajados a se candidatar a um doutorado sob o risco de também serem demitidos - e é claro que isso foi dito apenas nas reuniões de professores, a portas fechadas e sem nenhum registro em papel para que se pudesse denunciar a prática ao sindicado dos professores do ensino privado, por exemplo, e posteriormente às autoridades da Educação e do Trabalho.
O termo “interesse institucional” foi usado, no primeiro caso em questão, para encobrir as razões de demissão de professoras cuja qualificação, trabalhos prestados à universidade fora das salas de aula e pesquisas desenvolvidas por elas contribuiam enormemente para o elevado grau de avaliação daquele programa de pós-graduação junto aos órgãos governamentais de fomento à pesquisa. Em geral, tais demissões têm sido fruto, em diversas universidades brasileiras da rede privada de ensino, de rearranjos meramente financeiros, feitos pelo setor administrativo dessas instituições sem que não haja nenhum peso diferenciado para fatores como competência profissional, prestígio, produção em pesquisa, relacionamento com os alunos ou qualquer outro critério que pudesse extrair dos meros números salariais sua face mais fria. Pois é assim que se decidem, em tantos casos semelhantes, as demissões de professores universitários nos últimos tempos, ao menos no Brasil: os salários maiores são ceifados para que sejam contratados professores menos qualificados, porém mais baratos para a instituição. Os professores novos são ali mantidos até que eles mudem por sua própria conta para outra instituição que os pague melhor - afinal, o salário baixo foi o motivo de sua contratação e não o conseguirá manter lá por muito tempo - ou que se qualifiquem o bastante para se tornarem também um problema para a universidade.
Revolta-nos, ao observar isso, que os alunos nada fazem para exigir o que é um direito deles, superior a todos os outros: um ensino de qualidade, com professores qualificados e experientes, com renome o suficiente para fazer sua instituição crescer no cenário nacional e, assim, dar também ao diploma que eles mesmos irão receber ao término do curso um valor maior que lhes abrirá portas no mercado… Não, tudo isso parece escapar aos olhos tanto dos administradores que cometem esses despautérios quanto aos próprios alunos que pagam mensalidades caríssimas sem se preocupar com a contrapartida de qualidade. Tenho notícias de grupos de alunos que se uniram em abaixo-assinado para pedir a saída de professores incompetentes, mas também de professores que não usavam projetor de transparência ou datashow em suas aulas - algo que modernamente parece ser sinônimo de “aula bem dada”, como se a tecnologia resolvesse a falta de conhecimento de um mau instrutor… Também conheço casos de turmas que reclamaram às direções que o professor era “rígido” demais, que exigia “muita leitura e muito trabalho extraclasse” ou mesmo grupos de alunos revoltados com as condições de limpeza dos banheiros, com o cancelamento da venda de bebidas alcoólicas na cantina da faculdade ou por razões menos nobres até. Mas ainda não tive a oportunidade de ver alunos de graduação ou pós-graduação reunidos para protestar contra a demissão de professores que representavam, para sua instituição, competência e prestígio, experiência e saber.
Os alunos de hoje parecem estar ocupados demais com si mesmos, e nada interessados em questões mais distantes como o mercado de trabalho; o individualismo exacerbado de nossos dias, bem como esse hedonismo torto no qual todos têm direito a tudo mas deveres nenhum, leva-os, muitos deles, a se preocupar mais com o diploma, o pedaço de papel que certificará o grau de instrução que supostamente atingiram, que com o quanto aprenderam e sabem aplicar em suas profissões. Suspeito que muitos deles simplesmente pagariam qualquer taxa para serem dispensados das aulas e apenas receberem seus diplomas, seja a área que for - de certo modo, não é isso que estão a fazer os que se matriculam nas universidades e faculdades mais medíocres, muitas vezes pagando valores de mensalidade que as igualam a outras de melhor qualidade?
As direções das universidades e os alunos que suas ordens coordenam parecem compartilhar dessa triste realidade brasileira que parece apenas piorar desde a década de 1990: a Educação no país tornou-se um jogo de fingimento, no qual as instituições fingem se preocupar com qualidade de ensino e os alunos fingem acreditar. Com isso, ambos os lados da questão acabam por dar um tiro no próprio pé, destruindo as universidades aos poucos no que elas têm, afinal, de mais essencial: o professor, cuja qualificação parece tornar-se nos últimos tempos um perigoso galhardete a se carregar; ter muitos títulos, dedicar-se à pesquisa, concluir as etapas mais altas da formação em pós-graduação, no ensino privado no Brasil, transforma os professores em alvo provável de demissão. Se os alunos não exigem qualidade, se para eles as notas dos programas de pós-graduação passam a ser mero enfeite na hora de escolher seus cursos, se o bom professor passou a ser aquele que nada exige e a todos aprova… por que a universidade irá se preocupar em qualificar seus quadros? E por que ela se furtaria em demitir pós-doutores para colocar mão-de-obra barata em seu lugar?