Eles e nós
Há que existir alguma razão secreta para essa distância falseada que os brasileiros criaram em relação à cultura portuguesa. Essa impossibilidade de intercâmbios culturais maiores, que parece apenas vencida pela literatura - e, em grande parte, apenas pelos escritores mais renomados, motivados que fomos a abrir os olhos para a obra de um José Saramago depois de um Nobel de Literatura, por exemplo -, é algo que se nega nos discursos, mas que subsiste nas práticas da mídia que peremptoriamente ignora a moderna produção cultural portuguesa e parece de antemão prejulgar o fracasso daqueles produtos culturais nos quais a diferente pronúncia do Português Europeu impediria a assimilação (leia-se aquisição, compra, dispêndio associado a tais produções artísticas) por parte do grande público brasileiro.
E, no entanto, esses intercâmbios acontecem, e com cada vez mais freqüência, apesar do mito de que o português de Portugal é incompreensível para os ouvidos brasileiros, o que tem tornado a música, a produção televisiva, o cinema e o teatro portugueses talvez os produtos culturais mais estrangeiros em terras brasileiras. Há exemplos recentes que mostram a existência de um movimento contínuo de trocas culturais que tornam tal estrangeirização da cultura portuguesa um fenômeno ainda mais risível do que já é - sobretudo em um país como o Brasil, em que os produtos culturais dos países de língua inglesa, uma língua que é falada por uma absoluta minoria no país, têm livre acesso a todos os meios de comunicação.
Um desses projetos de intercâmbio cultural ganha hoje os palcos de São Paulo, e suas características mostram o quanto a contrapartida lusitana em relação à nossa cultura é bastante distinta. Teresa Salgueiro, vocalista do Madredeus e uma das vozes femininas mais prestigiadas do cenário musical internacional, lançará em uma série de espetáculos programados para a capital paulista seu primeiro espetáculo como solista, intitulado Você e Eu. Aproveitando-se de um ano sabático adotado pelos Madredeus para 2007, Teresa Salgueiro escolheu o Brasil para realizar os primeiros concertos de uma turnê mundial que pretende fazer a partir de abril próximo, um mês depois do lançamento do álbum de mesmo nome. E que repertório escolheu aquela que é considerada a mais bela voz de Portugal da atualidade para este primeiro álbum solo? Música popular brasileira. Teresa Salgueiro gravou no Brasil, em 2006, com músicos brasileiros, cerca de vinte e duas canções que são clássicos de nossa música popular - de Vinicius de Moraes a Tom Jobim, de Chico Buarque a Pixinguinha, de Ary Barroso a Dolores Duran.
Os espetáculos de São Paulo podem ser vistos como “a voz de Portugal que vem ao Brasil colher a bênção da platéia brasileira” para seu projeto, sem grandes exageros de retórica. Teresa Salgueiro justificou a escolha dizendo que o projeto”era um sonho que tinha, mesmo não muito consciente”. “Sempre tive uma grande paixão pela música brasileira, que eu ouço desde criança. Gosto de ouvir o som da língua portuguesa cantado assim”, disse Teresa Salgueiro em entrevista a um grande jornal brasileiro, ao citar Elis Regina, Gal Costa e Marisa Monte como algumas de suas vozes favoritas. Para a vocalista que há vinte anos leva a música do Madredeus e a alma portuguesa aos diversos continentes do mundo, “a música brasileira é uma coisa incrível, um manancial imenso.” Mesmo sendo a estrela internacional em que se tornou com o grupo português, sua relação com a música brasileira é respeitosa, algo devota: ”É um luxo estar no Brasil e cantar as palavras do Vinicius, do Chico Buarque, do Dorival Caymmi”, compositores incluídos nesse repertório que, segundo ela, foi extraído de sua memória afetiva em relação ao que sempre ouviu de nossa boa música.
Diversos projetos realizados nessa última década poderiam ser citados aqui para mostrar o quanto de Portugal se vê hoje no Brasil e tudo o que de brasileiro se leva até Portugal. Desde a exportação do Rock in Rio para Lisboa, como griffe de festival de rock, até as co-produções cinematográficas e televisivas (Os Maias, na Rede Globo de Televisão/SIC; Paixões Proibidas, na Rede Bandeirantes/RTP; a série de encontros musicais chamada Atlântico), passando por projetos musicais (como não citar os álbuns de António Chainho, Lisboa-Rio, ou o de Aldo Brizzi, Brizzi do Brasil, que reuniram músicos e cantores dos dois lados do Atlântico, mas que no Brasil passaram despercebidos?), muitas vezes a associação Brasil-Portugal surgiu no panorama cultural brasileiro, mas sempre de forma quase espectral, dispersa, esquecida da grande mídia (mesmo quando os produtos culturais eram das próprias corporações midiáticas!). Parece não haver um interesse maior em romper as fronteiras do passado colonial, como se a recusa do que Portugal hoje produz culturalmente fosse desinteressante, desnecessário até, para os brasileiros - uma espécie de vingança, talvez, do tempo em que Portugal era nosso filtro da cultura ocidental?
Há que se louvar, contudo, as iniciativas de artistas brasileiros que estão a fazer o movimento oposto, buscando valorizar aqui o que há de valioso no meio cultural português. Uma das iniciativas recentes de maior visibilidade foi o lançamento simultâneo dos álbuns Mar de Sophia e Pirata pela cantora brasileira Maria Bethânia - o primeiro dedicado inteiramente aos textos da poetisa portuguesa Sophia de Melo Breyner Andressen, falecida em 2004, e o último à cultura popular do nordeste brasileiro. Os dois distintos projetos dessa que é talvez a mais perfeita voz feminina brasileira da atualidade acabam por formar um interessante diálogo para o ouvinte mais atento, que percebe em duas propostas tão distintas o mesmo momento da cantora e a mesma alma - erudita em um, popular no outro, mas lusófona em sua essência e por isso irmanada em um só universo. Maria Bethânia é, aliás, uma das artistas brasileiras que melhor representa essa busca pelo que seria um sentimento comum entre os dois povos: desde o início de sua carreira, Bethânia sempre incluiu em seus espetáculos a poesia portuguesa, seja dos poemas universais de Fernando Pessoa aos textos menos conhecidos de outros poetas portugueses não menos renomados, mas muitas vezes descuidadamente ignorados no Brasil. Mar de Sophia mostra o quanto a dicção poética lusitana nos é próxima, familiar e possível de ser sentida e apreciada pelos ouvidos brasileiros.
Não, o Brasil não tem obrigação alguma de prestigiar essa ou aquela produção cultural tendo por base apenas critérios geográficos. Falamos de qualidade, e perdemos muito, como brasileiros, ao ignorarmos o que os portugueses têm produzido recentemente na literatura, na música, nas artes plásticas, no cinema e na televisão por mera questão de estarmos ainda presos a uma certa preguiça de tentar compreender um sotaque que soa estranho ainda para alguns, mas que não é mais incompreensível que o de certas regiões do Brasil para outras partes de nosso mesmo país… E por estarmos tão voltados para um sonho distante de Estados Unidos da América, por vivermos tão candidamente sob o domínio dos interesses das grandes gravadoras e editoras, que nos impregnam de cultura descartável em língua inglesa e nos fazem esquecer que há todo um mundo de outras culturas que produzem qualidade e beleza incessantemente, é que deixamos de conhecer, no caso português, o que de melhor é feito em nossa própria língua. E deixamos de ler Lobo Antunes, Filipa Melo, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Melo Breyner Andressen… e deixamos de ouvir Madredeus, Dulce Pontes, Né Ladeiras, Cristina Branco, Mísia, Mariza, Mafalda Arnauth, Sérgio Godinho… e deixamos de ver Manuel de Oliveira e Maria de Medeiros… só porque a MTV e suas correlatas - as rádios todas, os jornais, as televisões, as gravadoras multinacionais, as editoras presas por tentáculos anglo-saxões - assim não o querem.
Oxalá despertemos logo desse sono de tolice - e que seja ao som da voz de uma Teresa Salgueiro ou de uma Maria Bethânia.
Concordo contigo, e mais do que isso, creio que além de estarmos fechados pra essa cultura portuguesa, estamos totalmente virados pro mundo da américa hispânica. Há uma diversidade de coisas acontecendo nos países vizinhos, e a gente mal toma consciência, não tem contato, as coisas não chegam…. triste..
O artigo “Eles e nos” me fez sentir que nao estou so…sim tambem existem brasileiros que amam, e aceitam como suas as diversas vertentes da cultura portuguesa e que nao aceitam esta distancia que os herois do descobrimento romperam em suas caravelas fazem tempo.
Sou , por assim entender, nao um luso-brasileiro mas um brasileiro-luso que tem tentado sair de sua ignorancia ao ouvir, ler e ate ver programas televisivos portugueses pois nao desmerecendo a contribuicao cultural e motriz dos alemaes, italianos, japoneses , africanas alem da nativa destas terras nos povos pre-colombianos mas somos , em sua maioria, descendentes do povo lusitano e temos como heranca os costumes alem da historia pois para compreendermos o nosso passado devemos aprender tambem o de portugal.
Nao sou um “desertor” brasileiro, amo o meu Brasil, mas desde que incentivado pela minha familia materna representada pela minha vovo portuguesa a visitar Portugal e assim o fiz, fiquei com aquela doce melancolia de que eu pertenco aquelas terrinha…abracos patricios.
Obs. o meu pc esta sem a configuracao para acentos e cedilhas.
Realmente, falta a presença portuguesa em nossas fronteiras. Quanto à literatura, só conhecemos fortemente por aqui Saramago. Quanto à musica portuguesa, inexiste. Mas creio também que o mesmo erro cometido aqui no Brasil, na noss cultura não ser “vendida” para o resto do mundo com apoio governamental, coisa que os americanos fazem muito bem, acho que Portugal falha no mesmo ítem, não “vendendo” seus produtos. Falta, creio, mais modernidade aos portugueses e brasileiros, no sentido de expor mais sua cultura.
Eu sou um dos “eles” que vive em S. Paulo há quase 5 anos e cheguei até aqui, ao Madredeus Brasil, graças à Teresa Salgueiro. A razão deste meu comentário não se prende com o grupo nem sequer com a voz divina da Teresa que nos faz voar… voar… talvez a caminho do paraíso como você diz.
Escrevo, porque me sinto na obrigação de lhe dar os parabéns pela análise tão realista que faz do intercâmbio cultural entre as duas Nações a que cada um de nós pertence. Tenho-me debatido também contra a inexplicável distância entre as duas Pátrias lusófonas (espero que o termo não seja considerado como ufano) que falam a mesma Língua e estão,inevitavelmente, ligados por laços culturais e de usos e costumes. Nunca pretendi inventar culpados para este distancionamento,mas de uma coisa estou bem certo… não é devido à grandeza atlântica… talvez outros interesses que não assinalo devido à minha condição de estrangeiro e, também, de não pretender ser acusado de “ingerência”.
Finalizo agradecendo-lhe as palavras sobre o meu novo Portugal, bem diferente daquele país cinzento que os primeiros emigrantes lá deixaram, e envio abraço lembrando a todos os que me possam ler que, Portugal, a terrinha, a santa terrinha, não é só Jerónimos nem só Torre de Belém, não é só Fado nem só Amália, não é só Lisboa nem só Fátima, não é só Pastéis de Belém e nem só Bacalhau…