Monday, January 8, 2007

Stanislau Ponte Preta e os autores esquecidos

Há poucos dias conversávamos, eu e outros colegas do Mestrado em Teoria da Literatura da PUCRS, sobre autores que líamos em nossa juventude e que foram ficando para trás, esquecidos no tempo, não mais revisitados pelos leitores, pela crítica ou mesmo pela academia.  O assunto surgira após assistirmos um interessante trabalho apresentado por uma colega a respeito do romance “Rua do Sol”, de Orígenes Lessa, um desses autores dos quais raramente ouvíamos falar nos últimos tempos.

Capa da edição de 2006 do 'FEBEAPÁ' de Stanislau Ponte PretaO primeiro autor que citamos dentre os “esquecidos” foi Sérgio Porto, cronista carioca falecido em 1968 cuja profissão primeira fora de jornalista, mas que deixou uma obra literária interessante e abrangente, entre contos, crônicas e teatro.  A inclusão de Sérgio Porto nessa nossa listagem informal de “esquecidos” fora, contudo, felizmente precipitada: a editora AGIR, do Rio de Janeiro, lançou em dezembro de 2006 um volume intitulado FEBEAPÁ I, II e III, no qual reuniu os três volumes de contos e crônicas que o autor publicou sob o seu mais famoso pseudônimo, o de Stanislau Ponte Preta.  Pela pena desse sarcástico comentarista da vida carioca, cujo nome Sérgio Porto tomara emprestado do título de um romance de Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande, o jornalista carioca registrou o que intitulava de Festival de Besteiras que Assola o País - o tal FEBEAPÁ no qual reunia uma série de notícias estapafúrdias que coletava em seu ofício nos jornais cariocas.   

Dentre as tolices que à época Sérgio Porto coletou para o seu FEBEAPÁ, há pérolas como a declaração de um deputado estadual carioca que disse, em um arroubo de patristismo,  que “o mal do Brasil é ter sido descoberto por estrangeiros”, ou ainda a história verídica do cidadão cearense que foi preso sob a acusação de ter “desrespeitado um símbolo nacional” ao ter falado que o pescoço do Presidente Castelo Branco parecia o de uma tartaruga… Um retrato hilariante dos anos turvos do Regime Militar, o “Febeapá” é republicado em um momento no qual as novas gerações vivem a liberdade de repensar a história sem o peso do sofrimento daqueles anos canhestros, com a possibilidade de não repetir os mesmos erros e besteiras tão bem expressos nesta maravilhosa historieta, ocorrida com Maria Fernanda - filha de Cecília Meirelles e uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, quando de sua turnê no papel que a imortalizou nos palcos, o de Blanche DuBois -, também recolhida pela pena mordaz de Stanislau Ponte Preta:

Quando a Censura Federal proibiu em Brasília a encenação da peça “Um Bonde Chamado Desejo” [de Tennessee Williams] a atriz Maria Fernanda foi procurar o Deputado Ernani Sátiro para que o mesmo agisse em defesa da classe teatral. Lá pelas tantas, a atriz deu um grito de “viva a Democracia”. O senhor Ernani Sátiro na mesma hora retrucou: “Insulto eu não tolero”.

Espantosamente contemporâneos, os textos de Stanislau Ponte Preta poderiam perfeitamente ser aplicados nos dias de hoje, em que talvez as besteiras que assolam o país cresceram na proporção do aumento da população, do individualismo das pessoas, da incultura generalizada e da ganância dos poderosos.  Imagino o que não estaria hoje escrevendo Sérgio Porto sobre o aumento proposto pelos parlamentares no Congresso Nacional, sobre o salário a ser pago para os suplentes que trabalharão por menos de um mês ou sobre o decreto municipal do prefeito de Aparecida do Norte proibindo que ocorram chuvas fortes no município…

É um alento saber que o humor de Stanislau Ponte Preta tenha motivado esta reedição de sua obra.  Oxalá outros autores “esquecidos” venham a ser prontamente redescobertos.  Não se constrói literatura do nada, e os bons textos de nossos autores nacionais podem, sim, servir de inspiração aos escritores atuais, alimentar-lhes de idéias e de vontade de escrever.  Há gerações novas que ainda não foram apresentadas à poesia de um Murilo Mendes, aos contos magníficos de Anibal Machado, às crônicas de um João do Rio e tantos outros autores que foram ficando esquecidos pelos manuais de História da Literatura e pela crítica, enquanto outros tantos autores de obra irregular, de valor questionável, tem sido editados e estudados pelo simples fato de serem “contemporâneos”, como se boa literatura se medisse por ser “velha” ou “nova”.

Posted by Frizero at 13:13:49
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