Stanislau Ponte Preta e os autores esquecidos
Há poucos dias conversávamos, eu e outros colegas do Mestrado em Teoria da Literatura da PUCRS, sobre autores que líamos em nossa juventude e que foram ficando para trás, esquecidos no tempo, não mais revisitados pelos leitores, pela crítica ou mesmo pela academia. O assunto surgira após assistirmos um interessante trabalho apresentado por uma colega a respeito do romance “Rua do Sol”, de Orígenes Lessa, um desses autores dos quais raramente ouvíamos falar nos últimos tempos.
O primeiro autor que citamos dentre os “esquecidos” foi Sérgio Porto, cronista carioca falecido em 1968 cuja profissão primeira fora de jornalista, mas que deixou uma obra literária interessante e abrangente, entre contos, crônicas e teatro. A inclusão de Sérgio Porto nessa nossa listagem informal de “esquecidos” fora, contudo, felizmente precipitada: a editora AGIR, do Rio de Janeiro, lançou em dezembro de 2006 um volume intitulado FEBEAPÁ I, II e III, no qual reuniu os três volumes de contos e crônicas que o autor publicou sob o seu mais famoso pseudônimo, o de Stanislau Ponte Preta. Pela pena desse sarcástico comentarista da vida carioca, cujo nome Sérgio Porto tomara emprestado do título de um romance de Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande, o jornalista carioca registrou o que intitulava de Festival de Besteiras que Assola o País - o tal FEBEAPÁ no qual reunia uma série de notícias estapafúrdias que coletava em seu ofício nos jornais cariocas.
Dentre as tolices que à época Sérgio Porto coletou para o seu FEBEAPÁ, há pérolas como a declaração de um deputado estadual carioca que disse, em um arroubo de patristismo, que “o mal do Brasil é ter sido descoberto por estrangeiros”, ou ainda a história verídica do cidadão cearense que foi preso sob a acusação de ter “desrespeitado um símbolo nacional” ao ter falado que o pescoço do Presidente Castelo Branco parecia o de uma tartaruga… Um retrato hilariante dos anos turvos do Regime Militar, o “Febeapá” é republicado em um momento no qual as novas gerações vivem a liberdade de repensar a história sem o peso do sofrimento daqueles anos canhestros, com a possibilidade de não repetir os mesmos erros e besteiras tão bem expressos nesta maravilhosa historieta, ocorrida com Maria Fernanda - filha de Cecília Meirelles e uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, quando de sua turnê no papel que a imortalizou nos palcos, o de Blanche DuBois -, também recolhida pela pena mordaz de Stanislau Ponte Preta:
Quando a Censura Federal proibiu em Brasília a encenação da peça “Um Bonde Chamado Desejo” [de Tennessee Williams] a atriz Maria Fernanda foi procurar o Deputado Ernani Sátiro para que o mesmo agisse em defesa da classe teatral. Lá pelas tantas, a atriz deu um grito de “viva a Democracia”. O senhor Ernani Sátiro na mesma hora retrucou: “Insulto eu não tolero”.
Espantosamente contemporâneos, os textos de Stanislau Ponte Preta poderiam perfeitamente ser aplicados nos dias de hoje, em que talvez as besteiras que assolam o país cresceram na proporção do aumento da população, do individualismo das pessoas, da incultura generalizada e da ganância dos poderosos. Imagino o que não estaria hoje escrevendo Sérgio Porto sobre o aumento proposto pelos parlamentares no Congresso Nacional, sobre o salário a ser pago para os suplentes que trabalharão por menos de um mês ou sobre o decreto municipal do prefeito de Aparecida do Norte proibindo que ocorram chuvas fortes no município…
É um alento saber que o humor de Stanislau Ponte Preta tenha motivado esta reedição de sua obra. Oxalá outros autores “esquecidos” venham a ser prontamente redescobertos. Não se constrói literatura do nada, e os bons textos de nossos autores nacionais podem, sim, servir de inspiração aos escritores atuais, alimentar-lhes de idéias e de vontade de escrever. Há gerações novas que ainda não foram apresentadas à poesia de um Murilo Mendes, aos contos magníficos de Anibal Machado, às crônicas de um João do Rio e tantos outros autores que foram ficando esquecidos pelos manuais de História da Literatura e pela crítica, enquanto outros tantos autores de obra irregular, de valor questionável, tem sido editados e estudados pelo simples fato de serem “contemporâneos”, como se boa literatura se medisse por ser “velha” ou “nova”.