Friday, January 26, 2007

O peso do preconceito

Há um tipo de preconceito que tem afastado pessoas capacitadas das melhores posições em diversas companhias, impedido bons alunos de ingressar nas melhores universidades, determinado a percepção de menores salários por parte das mulheres e levado suas vítimas a acumularem menos bens ao longo da vida.  Ao contrário de outras formas de discriminação, que gozam até mesmo de legislação que pune com prisão seus infratores, essa forma de preconceito não é combatida pela sociedade que, muito pelo contrário, alimenta-o diariamente e parece concordar com aqueles que o detém.  Aliás, esse é um tipo de preconceito que, inversamente ao que acontece com a discriminação racial, social ou étnica, não gera nenhum tipo de constrangimento ao ser assumido publicamente.

Em tempos nos quais a beleza parece ser obrigatoriamente vinculada à magreza, a obesidade assume o lugar das características pessoais mais suscetíveis a despertar o preconceito.  Desde 1966 há estudos em países como os Estados Unidos da América - onde o índice de pessoas obesas cresce a cada ano - que mostram aquilo que muitos obesos já conhecem na prática: as pessoas com sobrepeso são vítimas de preconceito, têm maior dificuldade em conseguir empregos - sendo geralmente eliminadas, no processo de admissão, durante a etapa das entrevistas -, ganham salários menores em comparação aos seus pares não-obesos, pagam mais caro os planos de saúde e os contratos de seguro pessoal e têm maior dificuldade em organizar sua vida amorosa e afetiva.  Um estudo recente, realizado pelo professor de psicologia Brian A. Nosek, da Universidade de Virginia (divulgado pelo jornal The New York Times de 02 de dezembro de 2006), apontou a discriminação contra os obesos como o mais intenso tipo de preconceito na sociedade estadunidense, superando até mesmo os de fundo racial, social e de orientação sexual. 

Ainda que tais dados sejam referentes à realidade norte-americana, há fortes razões para se acreditar que o fenômeno da discriminação contra obesos é um fenômeno que afeta a maioria dos países ocidentais.  O preconceito contra obesos é facilmente observável em nossa sociedade, seja na forma como a obesidade é retratada na ficção, seja na quantidade absurda de informações que são veiculadas - e vendidas, é sempre bom recordar - em revistas, jornais e programas de rádio e televisão, na forma de dicas para combater o excesso de peso à propaganda de soluções cirúrgicas a panacéias medicamentosas para um emagrecimento rápido e milagroso.  Nos comerciais televisivos residem, talvez, as formas mais claras de como o obeso é visto por nossa sociedade: em geral, os gordinhos e gordinhas são usados sempre como o contraponto aos bem-sucedidos magros e magras, fortes e esbeltas; em geral, os primeiros sempre aparecem tomando atitudes idiotas perante as câmeras, ou em situações de frustração por não poderem ser tão bonitos e sortudos como aqueles que não sofrem com o excesso de peso.  O mais curioso é que tais situações não estão restritas às propagandas de produtos dietéticos ou light, roupas ou produtos afins cuja relação direta com o sobrepeso é compreensível.  Recentemente uma famosa fabricante de televisores colocou no ar uma campanha publicitária na qual dois vendedores apanhavam de suas freguesas ao convidá-las a ir até o fundo da loja para ver o novo lançamento em televisores de plasma - claro que o comercial tratava isso com uma frase de duplo sentido e conotação erótica… Curiosamente, ambos os vendedores eram obesos, e a cliente era uma alta e belíssima loira.  Qual será a mensagem contida na peça publicitária, cuja intenção era humorística?  A idéia que reinava subliminarmente é que a mulher, tão bonita e elegante, jamais aceitaria uma cantada de um homem com sobrepeso, muito menos de dois obesos como aqueles, e que estaria em pleno direito de esbofeteá-los em público por conta disso.

Talvez soe como um exagero, mas basta tentar recordar uma situação em que na ficção - seja na programação normal das emissoras de televisão, nos filmes de qualquer gênero ou mesmo nos intervalos comerciais - um personagem obeso ou com sobrepeso tenha sido retratado de forma positiva (excluindo-se Papai Noel, por razões óbvias).  Uma mulher indesejável em termos sexuais, nos filmes e comerciais televisivos, será quase que invariavelmente obesa.  Um homem repugnante, com raríssimas exceções, apresentará um abdômen avantajado e vestirá roupas que parecerão prestes a explodir de seu corpo - como se não existissem, hoje bem mais que no passado, lojas e lojas a vender roupas de tamanhos especiais…  A esse respeito, há um interessantíssimo estudo de três psicólogas - Naumi A. de Vasconcelos, Iana Sudo e Nara Sudo - da UFRJ. intitulado Um peso na alma: o corpo gordo e a mídia,  março de 2004, no qual as pesquisadoras estudaram a forma como foram retratados os obesos em matérias veiculadas nos jornais e revistas brasileiros entre 1995 e 2003.  Elas alertam que a nossa sociedade desenvolveu uma espécie de ”lipofobia”, um trauma em torno do excesso de peso, causado em grande parte pela falsa associação entre obesidade e falência moral.  O preconceito, que engloba todas as atividades sociais - e por isso afeta os obesos em situações como a procura por um emprego ou a escolha para um cargo de maior relevo dentro de uma empresa -, estabeleceu no imaginário de nossa sociedade a idéia de que o obeso é preguiçoso, moralmente fraco, descuidado, indisciplinado e desleixado, de que alguém com sobrepeso jamais pode ser visto como uma pessoa elegante e bem-sucedida, sexualmente atraente e ativa, realizada no amor e na profissão.  Em outras palavras, o corpo gordo é um sinal visível de violação das normas estabelecidas por nossa sociedade atual, presa à imagem corporal como símbolo maior de ostentação e status - o que, em parte, explica o deslocamento que parece ter ocorrido dos sonhos de sucesso profissional das camadas mais pobres da população, que hoje não mais almejam uma formação profissional adquirida pela educação formal mas, sim, uma vitória social que é associada às conquistas que o corpo pode proporcionar, seja como esportistas, modelos, dançarinos ou outras atividades ligadas à aparência exterior.  Nesse mundo em que ser magro é a meta almejada por tantos, ser gordo é ser, com as devidas proporções, um outsider. Mesmo diante dos exageros que essa cultura da magreza tem gerado - a sucessão de casos de anorexia e bulimia, com vítimas fatais, é um importante sinal -, o corpo gordo é ainda sinal de fracasso e motivo de repulsa. 

A discriminação contra os obesos, que não é nada sutil, parece passar despercebida para a maioria das pessoas - sinal de que o preconceito é, de fato, generalizado e aceito como algo natural.  Gordo, no Brasil, tornou-se palavra ofensiva - quem duvidar, que se recorde do episódio envolvendo o jogador Ronaldo Lazário e o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva - e aqueles que trabalham na mídia e fogem ao padrão estético da magreza estabelecido nos últimos anos parecem ter que aceitar tal denominação e fazer dela razão para uma auto-chacota inexplicável - uma forma de auto-defesa que justificaria, em parte, as piadas de mau gosto e as cenas lamentáveis de discriminação que apresentadores de televisão como Jô Soares, Gilberto Barros, João Gordo e Fausto Silva - este último uma espécie de patrocinador da discriminação contra os obesos no Brasil - promovem com seus convidados que, como eles próprios, também apresentam sobrepeso.  Eles reproduzem, infelizmente, um padrão que existe em toda a sociedade brasileira, que criou para os obesos um esteriótipo de fanfarrão, bom amigo, engraçado e algo boboca.  Espera-se, aliás, do gordinho e da gordinha que eles aceitem de bom grado toda e qualquer referência ou apelido menos elogiosos ao seu excesso de peso corporal.  Quando isso não ocorre, o obeso é taxado de rancoroso, e certamente as conversas sobre sua atitude estarão repletas da palavra gordo acrescida de outros adjetivos nada nobres - afinal, estamos em um país no qual é elogioso dizer a um amigo que ele parece mais magro… 

Tudo o que os obesos desejam é respeito.  Nenhum deles desconhece os perigos da doença chamada obesidade - em verdade, uma situação corporal que pode gerar enfermidades diversas, e não uma doença em si.  As pessoas com sobrepeso, aliás, são talvez as que melhor conheçam o número de calorias dos alimentos, os tipos de dieta que funcionam ou não, as contra-indicações deste ou daquele medicamento milagroso para emagrecer - ao contrário do que parecem pensar as pessoas em geral, que sempre têm uma dica especial para fornecer ao amigo obeso, isso quando não se prestam simplesmente ao ridículo papel de comunicar à pessoa com sobrepeso que ela está precisando perder uns quilinhos, como se o obeso sofresse de algum tipo de retardamento mental que o impedisse de reconhecer isso ao olhar-se no espelho ou ao experimentar uma roupa que já não serve mais… 

Ofender o obeso parece ser a forma encontrada pelos não-obesos (ou não-tão-obesos) de compensar a constatação de que mesmo eles, que não têm um sobrepeso considerável, jamais chegarão ao padrão de beleza apregoado pela mídia, pelos profissionais de beleza, pela indústria da moda e pelos médicos menos éticos - um padrão de beleza que, afinal de contas, hoje reside em adolescentes cada vez mais novas, com um índice de massa corporal preocupante para qualquer profissional de saúde, e em jovens rapazes cuja agenda permite gastar horas e horas de seu dia dentro de uma academia de musculação, não raro recorrendo aos anabolizantes mais destrutivos para ganhar uma massa muscular irreal para a maioria dos seres humanos.  A grande incongruência, aliás, é que essas pessoas associam a obesidade à idéia de doença e, mesmo assim, sentem-se à vontade para discriminar um obeso em público.  Será que eles agem assim também diante de outros tipos de doentes, digamos, uma pessoa com o rosto coberto de ataduras ou alguém com uma perna engessada que mostre uma grande dificuldade de locomoção em plena praça pública?  Mantidas as devidas proporções, obviamente, o tratamento diferenciado mostra que o problema da discriminação contra os obesos é bem mais profundo e infinitamente mais difícil de ser resolvido.  Afinal de contas, as duas últimas situações relatadas são passíveis de ocorrer a qualquer um, mas a obesidade ainda é tratada como uma escolha pessoal do doente, algo de fácil solução, uma mera questão de força de vontade

Ao invés de se questionar o porquê de o obeso mais próximo ser daquela forma - o que, aliás, deveria ser um problema que preocupasse apenas ao próprio gordinho ou gordinha -, esses pretensos magros deveriam se perguntar até quando pretendem sustentar essa ilusão de que um corpo esbelto é a chave da felicidade.

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Wednesday, January 24, 2007

Das Estrelas Só Nossas

Este texto está indisponível até segunda ordem…

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Wednesday, January 17, 2007

Um tiro no pé

Trago à luz das discussões dois fatos ocorridos em duas das maiores universidades particulares do sul do país para tomá-los como exemplo de um processo que, de resto, está se instaurando na educação brasileira como um todo.

No mês de janeiro, ainda nos últimos dias da temporada de defesas de dissertações e teses que em geral ocupam esse mês no calendário das pós-graduações de nossas universidades, a instituição em questão - cujo nome aqui não interessa mencionar - demitiu um grupo de suas melhores professoras da área de Estudos da Literatura sob a justificativa oficial de que elas foram demitidas por “questões de interesse institucional”.  Elas estavam em plena atividade - orientações em andamento, trabalhos de conclusão de disciplinas para corrigir, turmas de Mestrado e Doutorado cujas notas de disciplinas recém-ministradas dependem de trabalhos que os alunos entregariam até março - e sua competência é algo inquestionável: detentoras de mestrado, doutorado e pós-doutorado, elas são referência na área de pesquisa em Literatura, sem nenhum exagero nessa afirmação, e muito mais poderia ser acrescentado sobre elas se isso não depusesse contra nossa intenção de manter o nome da universidade em sigilo.  Uma outra universidade, do mesmo estado, aliás, demitiu recentemente um grande número de professores e efetuou novas contratações em caráter emergencial; o motivo é de uma surpreendente visão retrógrada: demitiram-se os professores com doutorado, admitiram-se novos professores que tinham apenas concluído o mestrado.  Os professores que permaneceram na universidade, aliás, foram desencorajados a se candidatar a um doutorado sob o risco de também serem demitidos - e é claro que isso foi dito apenas nas reuniões de professores, a portas fechadas e sem nenhum registro em papel para que se pudesse denunciar a prática ao sindicado dos professores do ensino privado, por exemplo, e posteriormente às autoridades da Educação e do Trabalho. 

O termo “interesse institucional” foi usado, no primeiro caso em questão, para encobrir as razões de demissão de professoras cuja qualificação, trabalhos prestados à universidade fora das salas de aula e pesquisas desenvolvidas por elas contribuiam enormemente para o elevado grau de avaliação daquele programa de pós-graduação junto aos órgãos governamentais de fomento à pesquisa.  Em geral, tais demissões têm sido fruto, em diversas universidades brasileiras da rede privada de ensino, de rearranjos meramente financeiros, feitos pelo setor administrativo dessas instituições sem que não haja nenhum peso diferenciado para fatores como competência profissional, prestígio, produção em pesquisa, relacionamento com os alunos ou qualquer outro critério que pudesse extrair dos meros números salariais sua face mais fria.  Pois é assim que se decidem, em tantos casos semelhantes, as demissões de professores universitários nos últimos tempos, ao menos no Brasil: os salários maiores são ceifados para que sejam contratados professores menos qualificados, porém mais baratos para a instituição.  Os professores novos são ali mantidos até que eles mudem por sua própria conta para outra instituição que os pague melhor - afinal, o salário baixo foi o motivo de sua contratação e não o conseguirá manter lá por muito tempo - ou que se qualifiquem o bastante para se tornarem também um problema para a universidade. 

Revolta-nos, ao observar isso, que os alunos nada fazem para exigir o que é um direito deles, superior a todos os outros: um ensino de qualidade, com professores qualificados e experientes, com renome o suficiente para fazer sua instituição crescer no cenário nacional e, assim, dar também ao diploma que eles mesmos irão receber ao término do curso um valor maior que lhes abrirá portas no mercado… Não, tudo isso parece escapar aos olhos tanto dos administradores que cometem esses despautérios quanto aos próprios alunos que pagam mensalidades caríssimas sem se preocupar com a contrapartida de qualidade.  Tenho notícias de grupos de alunos que se uniram em abaixo-assinado para pedir a saída de professores incompetentes, mas também de professores que não usavam projetor de transparência ou datashow em suas aulas - algo que modernamente parece ser sinônimo de “aula bem dada”, como se a tecnologia resolvesse a falta de conhecimento de um mau instrutor… Também conheço casos de turmas que reclamaram às direções que o professor era “rígido” demais, que exigia “muita leitura e muito trabalho extraclasse” ou mesmo grupos de alunos revoltados com as condições de limpeza dos banheiros, com o cancelamento da venda de bebidas alcoólicas na cantina da faculdade ou por razões menos nobres até.  Mas ainda não tive a oportunidade de ver alunos de graduação ou pós-graduação reunidos para protestar contra a demissão de professores que representavam, para sua instituição, competência e prestígio, experiência e saber. 

Os alunos de hoje parecem estar ocupados demais com si mesmos, e nada interessados em questões mais distantes como o mercado de trabalho; o individualismo exacerbado de nossos dias, bem como esse hedonismo torto no qual todos têm direito a tudo mas deveres nenhum, leva-os, muitos deles, a se preocupar mais com o diploma, o pedaço de papel que certificará o grau de instrução que supostamente atingiram, que com o quanto aprenderam e sabem aplicar em suas profissões.  Suspeito que muitos deles simplesmente pagariam qualquer taxa para serem dispensados das aulas e apenas receberem seus diplomas, seja a área que for - de certo modo, não é isso que estão a fazer os que se matriculam nas universidades e faculdades mais medíocres, muitas vezes pagando valores de mensalidade que as igualam a outras de melhor qualidade? 

As direções das universidades e os alunos que suas ordens coordenam parecem compartilhar dessa triste realidade brasileira que parece apenas piorar desde a década de 1990: a Educação no país tornou-se um jogo de fingimento, no qual as instituições fingem se preocupar com qualidade de ensino e os alunos fingem acreditar.  Com isso, ambos os lados da questão acabam por dar um tiro no próprio pé, destruindo as universidades aos poucos no que elas têm, afinal, de mais essencial: o professor, cuja qualificação parece tornar-se nos últimos tempos um perigoso galhardete a se carregar; ter muitos títulos, dedicar-se à pesquisa, concluir as etapas mais altas da formação em pós-graduação, no ensino privado no Brasil, transforma os professores em alvo provável de demissão.  Se os alunos não exigem qualidade, se para eles as notas dos programas de pós-graduação passam a ser mero enfeite na hora de escolher seus cursos, se o bom professor passou a ser aquele que nada exige e a todos aprova… por que a universidade irá se preocupar em qualificar seus quadros?  E por que ela se furtaria em demitir pós-doutores para colocar mão-de-obra barata em seu lugar?

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Wednesday, January 10, 2007

Eles e nós

Torre de Belém - Foto: Sérgio Freitas/PortugalHá que existir alguma razão secreta para essa distância falseada que os brasileiros criaram em relação à cultura portuguesa.  Essa impossibilidade de intercâmbios culturais maiores, que parece apenas vencida pela literatura - e, em grande parte, apenas pelos escritores mais renomados, motivados que fomos a abrir os olhos para a obra de um José Saramago depois de um Nobel de Literatura, por exemplo -, é algo que se nega nos discursos, mas que subsiste nas práticas da mídia que peremptoriamente ignora a moderna produção cultural portuguesa e parece de antemão prejulgar o fracasso daqueles produtos culturais nos quais a diferente pronúncia do Português Europeu impediria a assimilação (leia-se aquisição, compra, dispêndio associado a tais produções artísticas) por parte do grande público brasileiro.

E, no entanto, esses intercâmbios acontecem, e com cada vez mais freqüência, apesar do mito de que o português de Portugal é incompreensível para os ouvidos brasileiros, o que tem tornado a música, a produção televisiva, o cinema e o teatro portugueses talvez os produtos culturais mais estrangeiros em terras brasileiras.  Há exemplos recentes que mostram a existência de um movimento contínuo de trocas culturais que tornam tal estrangeirização da cultura portuguesa um fenômeno ainda mais risível do que já é - sobretudo em um país como o Brasil, em que os produtos culturais dos países de língua inglesa, uma língua que é falada por uma absoluta minoria no país, têm livre acesso a todos os meios de comunicação. 

Teresa SalgueiroUm desses projetos de intercâmbio cultural ganha hoje os palcos de São Paulo, e suas características mostram o quanto a contrapartida lusitana em relação à nossa cultura é bastante distinta.  Teresa Salgueiro, vocalista do Madredeus e uma das vozes femininas mais prestigiadas do cenário musical internacional, lançará em uma série de espetáculos programados para a capital paulista seu primeiro espetáculo como solista, intitulado Você e Eu.  Aproveitando-se de um ano sabático adotado pelos Madredeus para 2007, Teresa Salgueiro escolheu o Brasil para realizar os primeiros concertos de uma turnê mundial que pretende fazer a partir de abril próximo, um mês depois do lançamento do álbum de mesmo nome.  E que repertório escolheu aquela que é considerada a mais bela voz de Portugal da atualidade para este primeiro álbum solo?  Música popular brasileira.  Teresa Salgueiro gravou no Brasil, em 2006, com músicos brasileiros, cerca de vinte e duas canções que são clássicos de nossa música popular - de Vinicius de Moraes a Tom Jobim, de Chico Buarque a Pixinguinha, de Ary Barroso a Dolores Duran. 

Os espetáculos de São Paulo podem ser vistos como “a voz de Portugal que vem ao Brasil colher a bênção da platéia brasileira” para seu projeto, sem grandes exageros de retórica.  Teresa Salgueiro justificou a escolha dizendo que o projeto”era um sonho que tinha, mesmo não muito consciente”.  “Sempre tive uma grande paixão pela música brasileira, que eu ouço desde criança. Gosto de ouvir o som da língua portuguesa cantado assim”, disse Teresa Salgueiro em entrevista a um grande jornal brasileiro, ao citar Elis Regina, Gal Costa e Marisa Monte como algumas de suas vozes favoritas.   Para a vocalista que há vinte anos leva a música do Madredeus e a alma portuguesa aos diversos continentes do mundo, “a música brasileira é uma coisa incrível, um manancial imenso.”  Mesmo sendo a estrela internacional em que se tornou com o grupo português, sua relação com a música brasileira é respeitosa, algo devota:  ”É um luxo estar no Brasil e cantar as palavras do Vinicius, do Chico Buarque, do Dorival Caymmi”, compositores incluídos nesse repertório que, segundo ela, foi extraído de sua memória afetiva em relação ao que sempre ouviu de nossa boa música.

Diversos projetos realizados nessa última década poderiam ser citados aqui para mostrar o quanto de Portugal se vê hoje no Brasil e tudo o que de brasileiro se leva até Portugal.  Desde a exportação do Rock in Rio para Lisboa, como griffe de festival de rock, até as co-produções cinematográficas e televisivas (Os Maias, na Rede Globo de Televisão/SIC; Paixões Proibidas, na Rede Bandeirantes/RTP; a série de encontros musicais chamada Atlântico), passando por projetos musicais (como não citar os álbuns de António Chainho, Lisboa-Rio, ou o de Aldo Brizzi, Brizzi do Brasil, que reuniram músicos e cantores dos dois lados do Atlântico, mas que no Brasil passaram despercebidos?), muitas vezes a associação Brasil-Portugal surgiu no panorama cultural brasileiro, mas sempre de forma quase espectral, dispersa, esquecida da grande mídia (mesmo quando os produtos culturais eram das próprias corporações midiáticas!).  Parece não haver um interesse maior em romper as fronteiras do passado colonial, como se a recusa do que Portugal hoje produz culturalmente fosse desinteressante, desnecessário até, para os brasileiros - uma espécie de vingança, talvez, do tempo em que Portugal era nosso filtro da cultura ocidental? 

Maria BethâniaHá que se louvar, contudo, as iniciativas de artistas brasileiros que estão a fazer o movimento oposto, buscando valorizar aqui o que há de valioso no meio cultural português.  Uma das iniciativas recentes de maior visibilidade foi o lançamento simultâneo dos álbuns Mar de Sophia e Pirata pela cantora brasileira Maria Bethânia - o primeiro dedicado inteiramente aos textos da poetisa portuguesa Sophia de Melo Breyner Andressen, falecida em 2004, e o último à cultura popular do nordeste brasileiro.  Os dois distintos projetos dessa que é talvez a mais perfeita voz feminina brasileira da atualidade acabam por formar um interessante diálogo para o ouvinte mais atento, que percebe em duas propostas tão distintas o mesmo momento da cantora e a mesma alma - erudita em um, popular no outro, mas lusófona em sua essência e por isso irmanada em um só universo.  Maria Bethânia é, aliás, uma das artistas brasileiras que melhor representa essa busca pelo que seria um sentimento comum entre os dois povos: desde o início de sua carreira, Bethânia sempre incluiu em seus espetáculos a poesia portuguesa, seja dos poemas universais de Fernando Pessoa aos textos menos conhecidos de outros poetas portugueses não menos renomados, mas muitas vezes descuidadamente ignorados no Brasil.  Mar de Sophia mostra o quanto a dicção poética lusitana nos é próxima, familiar e possível de ser sentida e apreciada pelos ouvidos brasileiros.

Não, o Brasil não tem obrigação alguma de prestigiar essa ou aquela produção cultural tendo por base apenas critérios geográficos.  Falamos de qualidade, e perdemos muito, como brasileiros, ao ignorarmos o que os portugueses têm produzido recentemente na literatura, na música, nas artes plásticas, no cinema e na televisão por mera questão de estarmos ainda presos a uma certa preguiça de tentar compreender um sotaque que soa estranho ainda para alguns, mas que não é mais incompreensível que o de certas regiões do Brasil para outras partes de nosso mesmo país…  E por estarmos tão voltados para um sonho distante de Estados Unidos da América, por vivermos tão candidamente sob o domínio dos interesses das grandes gravadoras e editoras, que nos impregnam de cultura descartável em língua inglesa e nos fazem esquecer que há todo um mundo de outras culturas que produzem qualidade e beleza incessantemente, é que deixamos de conhecer, no caso português, o que de melhor é feito em nossa própria língua.  E deixamos de ler Lobo Antunes, Filipa Melo, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Melo Breyner Andressen… e deixamos de ouvir Madredeus, Dulce Pontes, Né Ladeiras, Cristina Branco, Mísia, Mariza, Mafalda Arnauth, Sérgio Godinho… e deixamos de ver Manuel de Oliveira e Maria de Medeiros… só porque a MTV e suas correlatas - as rádios todas, os jornais, as televisões, as gravadoras multinacionais, as editoras presas por tentáculos anglo-saxões - assim não o querem.

Oxalá despertemos logo desse sono de tolice - e que seja ao som da voz de uma Teresa Salgueiro ou de uma Maria Bethânia.

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Monday, January 8, 2007

Stanislau Ponte Preta e os autores esquecidos

Há poucos dias conversávamos, eu e outros colegas do Mestrado em Teoria da Literatura da PUCRS, sobre autores que líamos em nossa juventude e que foram ficando para trás, esquecidos no tempo, não mais revisitados pelos leitores, pela crítica ou mesmo pela academia.  O assunto surgira após assistirmos um interessante trabalho apresentado por uma colega a respeito do romance “Rua do Sol”, de Orígenes Lessa, um desses autores dos quais raramente ouvíamos falar nos últimos tempos.

Capa da edição de 2006 do 'FEBEAPÁ' de Stanislau Ponte PretaO primeiro autor que citamos dentre os “esquecidos” foi Sérgio Porto, cronista carioca falecido em 1968 cuja profissão primeira fora de jornalista, mas que deixou uma obra literária interessante e abrangente, entre contos, crônicas e teatro.  A inclusão de Sérgio Porto nessa nossa listagem informal de “esquecidos” fora, contudo, felizmente precipitada: a editora AGIR, do Rio de Janeiro, lançou em dezembro de 2006 um volume intitulado FEBEAPÁ I, II e III, no qual reuniu os três volumes de contos e crônicas que o autor publicou sob o seu mais famoso pseudônimo, o de Stanislau Ponte Preta.  Pela pena desse sarcástico comentarista da vida carioca, cujo nome Sérgio Porto tomara emprestado do título de um romance de Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande, o jornalista carioca registrou o que intitulava de Festival de Besteiras que Assola o País - o tal FEBEAPÁ no qual reunia uma série de notícias estapafúrdias que coletava em seu ofício nos jornais cariocas.   

Dentre as tolices que à época Sérgio Porto coletou para o seu FEBEAPÁ, há pérolas como a declaração de um deputado estadual carioca que disse, em um arroubo de patristismo,  que “o mal do Brasil é ter sido descoberto por estrangeiros”, ou ainda a história verídica do cidadão cearense que foi preso sob a acusação de ter “desrespeitado um símbolo nacional” ao ter falado que o pescoço do Presidente Castelo Branco parecia o de uma tartaruga… Um retrato hilariante dos anos turvos do Regime Militar, o “Febeapá” é republicado em um momento no qual as novas gerações vivem a liberdade de repensar a história sem o peso do sofrimento daqueles anos canhestros, com a possibilidade de não repetir os mesmos erros e besteiras tão bem expressos nesta maravilhosa historieta, ocorrida com Maria Fernanda - filha de Cecília Meirelles e uma das grandes atrizes do teatro brasileiro, quando de sua turnê no papel que a imortalizou nos palcos, o de Blanche DuBois -, também recolhida pela pena mordaz de Stanislau Ponte Preta:

Quando a Censura Federal proibiu em Brasília a encenação da peça “Um Bonde Chamado Desejo” [de Tennessee Williams] a atriz Maria Fernanda foi procurar o Deputado Ernani Sátiro para que o mesmo agisse em defesa da classe teatral. Lá pelas tantas, a atriz deu um grito de “viva a Democracia”. O senhor Ernani Sátiro na mesma hora retrucou: “Insulto eu não tolero”.

Espantosamente contemporâneos, os textos de Stanislau Ponte Preta poderiam perfeitamente ser aplicados nos dias de hoje, em que talvez as besteiras que assolam o país cresceram na proporção do aumento da população, do individualismo das pessoas, da incultura generalizada e da ganância dos poderosos.  Imagino o que não estaria hoje escrevendo Sérgio Porto sobre o aumento proposto pelos parlamentares no Congresso Nacional, sobre o salário a ser pago para os suplentes que trabalharão por menos de um mês ou sobre o decreto municipal do prefeito de Aparecida do Norte proibindo que ocorram chuvas fortes no município…

É um alento saber que o humor de Stanislau Ponte Preta tenha motivado esta reedição de sua obra.  Oxalá outros autores “esquecidos” venham a ser prontamente redescobertos.  Não se constrói literatura do nada, e os bons textos de nossos autores nacionais podem, sim, servir de inspiração aos escritores atuais, alimentar-lhes de idéias e de vontade de escrever.  Há gerações novas que ainda não foram apresentadas à poesia de um Murilo Mendes, aos contos magníficos de Anibal Machado, às crônicas de um João do Rio e tantos outros autores que foram ficando esquecidos pelos manuais de História da Literatura e pela crítica, enquanto outros tantos autores de obra irregular, de valor questionável, tem sido editados e estudados pelo simples fato de serem “contemporâneos”, como se boa literatura se medisse por ser “velha” ou “nova”.

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Wednesday, January 3, 2007

Velha história

A última semana do ano de 2006 foi marcada na região metropolitana do Rio de Janeiro por uma série de atentados contra símbolos diversos da autoridade e da sociedade organizada.  Essas palavras tão genéricas - autoridade, sociedade organizada - foram as únicas possíveis que encontrei para tentar abarcar em um mesmo universo os assassinatos a policiais militares, os ataques acentros culturais e prédios públicos, os incêndios a ônibus nos quais sequer os passageiros foram poupados da sanha criminosa de destruição e caos.  Dias de pânico, sem dúvida, para qualquer cidadão brasileiro que consegue vislumbrar sem falsos distanciamentos a gravidade do ocorrido. 

Diante do estado de horror e perplexidade que assomou a população brasileira em uma semana na qual o espírito de confraternização, paz e harmonia deveria ser o sentimento comum, as autoridades públicas foram rápidas em ajustar seus discursos.  O governador eleito do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, declarou que sua gestão não compactuará com a criminalidade, nem aceitará chantagens ou pressões.  O presidente da República, reeleito apesar de todas as nuvens de improbidade que pairam sobre seu primeiro mandato, declarou do alto do parlatório localizado em frente ao Palácio do Planalto - usado pela primeira vez depois do Regime Militar pelo presidente Fernando Collor de Mello, hoje senador eleito pelo estado de Alagoas depois de seus anos todos de cassação dos direitos políticos -, que os ataques perpetrados pelos criminosos cariocas eram terrorismo, e como tal seriam tratados em seu governo.  Ambos apressaram-se em cogitar o uso das Forças Especiais Federais da Segurança Pública - em verdade, uma tropa de elite de ficção arregimentada entre as polícias de todos os estados, mas também em afirmar que tal contingente não controlaria ou interferiria no trabalho das forças policiais locais.  Em verdade, até mesmo a esdrúxula declaração de um alto nome das forças policiais do Rio de Janeiro, de que as forças federais seriam inócuas porque haviam sido treinadas pela própria polícia do Rio de Janeiro, não tendo nada a oferecer a seus “professores”, foi propagada pelos meios de comunicação.

Espantoso, em verdade, é a surpresa dessas autoridades, de todas elas.  Ataques como esses da última semana de 2006, que ora eles classificam de terrorismo, são meramente uma repetição de ações isoladas que já aconteceram no mesmo Rio de Janeiro há meses atrás, quando um ônibus foi parado em uma das principais avenidas da cidade e seus passageiros foram impedidos de descer do ônibus enquanto os bandidos ateavam fogo ao veículo em protesto pela morte de um seu líder.  O que aconteceu no Rio de Janeiro é, ainda, um eco não muito esmaecido do terror que assolou a cidade de São Paulo em meados de 2006, quando diversos coletivos foram incendiados.  Em verdade, as autoridades cariocas chegaram a declarar publicamente que teriam informações dos ataques há tempos, e que a extensão do que aconteceu podia ser considerada uma vitória da polícia carioca, pois o que estava sendo planejado para acontecer seria muito pior.  Mas, se sabiam, o que fizeram para impedir?

Junto com as afirmativas questionáveis, vieram também os discursos vazios de como solucionar a questão.  Emprego da Força Nacional, das Forças Armadas, criação de um Gabinete Conjunto de Segurança Pública dos estados da região Sudeste, promessas de aplicação de mais recursos e de contratação de mais pessoal - todas essas promessas foram mais uma vez apresentadas como panacéia para curar o mal da Segurança Pública descontrolada, que aflige a sociedade brasileira a ponto de surgir, nas pesquisas do IBGE, como prioridade máxima do cidadão brasileiro, acima até mesmo da Educação.  Há, contudo, chagas de décadas e décadas que, ainda que muito bem conhecidas pelas mesmas autoridades, parecem não ser atacadas por nenhuma delas por medo, descaso ou mera omissão.  Falo das reformas necessárias em uma Constituição Federal construída para evitar os desmandos de novos regimes políticos de exceção, mas que acabou por se transformar no dispositivo de fuga de tantos criminosos, ricos e pobres, quando encarcerados pelos mais diversos crimes; falo também de um Código Penal obsoleto, e de um Código Processual Penal que permite delongar um julgamento ou absolver um réu confesso pelos mais absurdos e mínimos erros processuais; falo de um Sistema Penitenciário falido, com casas prisionais superpovoadas e que em nada atendem aquela que deveria ser sua missão primeira, a de recuperar os cidadãos que entram na vida criminosa e coibir - ou afastar do convívio social - os que nela se perpetuam.  Mas são, todos eles, problemas que soam como um vespeiro para governantes que não querem criar tumulto e parecem vislumbrar apenas a eleição seguinte e os postos mais altos que por ela poderão alcançar. 

Não se ganha voto no Brasil reformulando o sistema carcerário ou sugerindo um novo código legal, por isso não há porque esperar de nossos governantes uma postura distinta da pantomima que voltam a representar a cada novo incidente - cada vez mais ousado, cada vez mais cruel.  O que dá voto no Brasil são a cesta de alimentos, a estrada recapeada, a placa de inauguração em frente ao posto de saúde, a vaga nova na escola, não importando que resultados efetivos cada uma dessas coisas representam para a população que, depois de todos esses discursos, continuarão saindo de casa pela manhã sem saber se chegarão de volta, vivos, saudáveis, tranqüilos, ao fim do dia.  

Posted by Frizero at 21:23:01 | Permalink | No Comments »