Nem isso, nem aquilo
Nos últimos dias, tenho recebido diversas mensagens pela Internet nas quais amigos me repassam artigos com colocações bem semelhantes acerca das eleições de amanhã e dos últimos acontecimentos. Em geral, esses textos buscam alertar o eleitor para o que eles chamam de uma tendência ao golpismo por parte da direita brasileira - ao menos é nesses termos que o artigo de Marco Aurélio Weissheimer se refere à repercussão que tem alcançado na imprensa o caso do dossiê sobre candidatos do PSDB que estava sendo comprado por assessores de campanha de candidatos do PT em um hotel em São Paulo. Weissheimer afirma, textualmente, que “qualquer governo que tenha um cheiro de esquerda, por mais tênue que seja, é logo acusado de estar patrocinando um ‘mar de lama’. Os outros governos, com cheiro, gosto e cor de direita, seriam expressões de moralidade pública”.
Curiosamente, as palavras de Weissheimer são ecoadas pelos próprios candidatos do PT, a começar pelo Presidente da República que busca a reeleição, Luiz Inácio da Silva: as últimas declarações de Lula falam da maneira desonrosa como seus oponentes o tratam, a qual, aliás, teria sido a razão para que ele não comparecesse ao último debate dos presidenciáveis promovido pela Rede Globo de Televisão. Mercadante falou em “golpismo” e o PT entrou no Tribunal Superior Eleitoral com um pedido de impugnação da candidatura de Geraldo Alckmin por conta do uso que o candidato do PSDB estaria fazendo do escândalo dos dossiês.
O que todos parecem esquecer é que a oposição não inventou história alguma. Parecem esquecer, pois as ações dos advogados e candidatos do Partido dos Trabalhadores denotam que eles sabem, e muito bem, do quão real o episódio foi - tanto é que tentou impedir judicialmente que fossem divulgadas as fotos do dinheiro recuperado pela PF na operação que prendeu dois assessores do PT em um hotel de São Paulo.
Talvez fuja à lembrança dos petistas a razão maior dos ataques que eles hoje recebem e repudiam violentamente: até assumirem o poder no Palácio do Planalto, eles eram os defensores da moralidade na política, e sob essa bandeira foi que Luiz Inácio da Silva “venceu o medo” como símbolo da esperança popular de que o partido que tão veementemente parecia defender os interesses do povo no Congresso Nacional fosse fazer uma grande diferença conduzindo os rumos da nação. O que se viu foi um projeto de partido hegemônico, no qual os fins justificam os meios e, por isso, não há imoralidade em comprar parlamentares, transitar país afora com dólares e reais de origem duvidosa, promover transações gigantescas de dinheiro em paraísos fiscais para pagamento “por fora” de marqueteiros ou comprar dossiês contra seus opositores a valores inimagináveis em plena véspera das eleições.
Mais curiosa ainda é a defesa dos petistas. Em nenhum momento nega-se a existência dos escândalos - justifica-se admitindo sua existência. Mercadante disse não ter autorizado nenhum assessor seu a negociar dossiê algum, como se um funcionário de campanha fosse tirar milhões do próprio bolso para comprar indícios de sujeira alheia para agradar seu candidato. Lula, durante todo esse período desde a revelação do escândalo do Mensalão, limitou-se a repetir a cantilena do “eu não sabia”, como se um líder não tivesse responsabilidade alguma sobre aqueles que escolhe como seus assessores imediatos, ministros e colaboradores. Este último, aliás, disse publicamente ter sido “traído”, mas jamais revelou o nome dos que considera seus “traidores”.
A forma como o PT lida com os escândalos na política, contudo, reflete apenas um estado de inversões morais que vemos na nossa própria “intelectualidade”, que de tanto namorar o partido de esquerda mais proeminente do país parece não conseguir ver suas mazelas - ou tenta encobri-las diminuindo a importância do ocorrido. Ao menos foi o que fez a pensadora Rose Marie Muraro, em entrevista recente ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, quando disse que ”sempre [achara] o mensalão uma bobagem” e que “ser honesto em um meio desonesto é fortalecer a desonestidade”. Não creio ser coincidência as declarações de uma das mais proeminentes filósofas do feminismo no Brasil e aquelas feitas por membros da classe artística semanas atrás, em uma reunião de apoio à reeleição de Lula - Paulo Betti dizendo que “não se faz política sem enfiar a mão na m…”, José de Abreu pedindo uma salva de palmas para réus (petistas) confessos dos escândalos políticos ou Wagner Tiso justificando a importância do mensalão para que o PT pudesse se consolidar no poder. Weissheimer tem mesmo razão: parece haver dois pesos e duas medidas para a moralidade na política brasileira.
A mentalidade barroca dos nossos tempos faz com que muitos vejam as coisas de forma totalmente dicotômica - mostrar-se indignado com o PT é sinal de que você é direitista, repudiar o PFL faz de você um esquerdista e por aí vai. Não vejo o mundo desta forma, e não defendo lado algum, pois tenho memória suficiente para recordar dos escândalos - explícitos ou abafados - que existiram nos governos anteriores. Mas não me sinto motivado a decidir o meu voto ou minhas convicções políticas dentro de um debate no qual um lado acusa o outro de ter roubado mais - ou justifica seus desmandos dizendo que os outros também faziam o mesmo. Ah, então é assim? Pois eu, como eleitor, dou-me o direito então de não votar nem em um, nem no outro. Posso errar novamente em meu voto - já errei em outras eleições, e isso faz parte da construção de minhas idéias sobre a política nacional, creio eu -, mas ao menos pretendo errar por ter votado em alguém sobre quem não vi ainda pairarem suspeitas sobre sua honestidade, sua probidade e suas intenções de poder. Se, uma vez no poder, meu candidato ou candidata trair suas palavras e promessas, será mais uma decepção política para mim, mas ao menos terei votado em alguém de quem eu esperava algo diferente, e não em alguém que eu já sei que não poderá trazer nenhuma novidade mais ao caos moral do panorama político nacional. Dar meu voto a quem já se mostrou desonesto, capaz das negociatas mais espúrias para manter-se no comando - seja qual for seu partido ou coloração política - jamais me deixaria com a consciência tranqüila.
Ouço muitas pessoas dizendo que “todos que assumem o poder acabam sendo corrompidos mesmo” e que são todos “farinha do mesmo saco”. Confesso que não consigo me conformar com essa idéia, que para mim equivale a dizer que as eleições deveriam ser abolidas do país, a Justiça Eleitoral fechada e tudo isso substituído por um grande sorteio promovido pela Caixa Econômica Federal, aos moldes de uma loteria. E eu não quero meu futuro decidido no palitinho.
