Friday, August 4, 2006

Velha infância

A queda de natalidade observada no Japão nos últimos anos levou o país a uma situação inusitada: algumas escolas, sobretudo de cidades de médio e pequeno porte, começaram a ficar vazias, sem turmas de alunos que a ocupassem, tornando-se depósitos de carteiras quebradas, almoxarifado ou simplesmente sendo fechadas sem que a escola delas precisasse. 

Em uma dessas cidades, a escola primária local cedeu uma de suas salas ociosas para que ali fosse instalado um centro de convivência para idosos.  A idéia é que os cidadãos da chamada Terceira Idade que quisessem manter atividades durante o dia tivessem um espaço onde poderiam encontrar amigos, participar de atividades lúdicas em conjunto ou desenvolver trabalhos manuais em pequenas oficinas.  Com a abertura do ambiente escolar para os idosos, o corpo docente da escola começou a incentivar o trânsito das crianças no ambiente do centro de convivência dos idosos durante os períodos de recreio, criando oportunidades de contato entre os alunos e aqueles membros da comunidade.  Os resultados dessa convivência mostraram-se muito promissores: os alunos tornaram-se mais dóceis e gentis, muitas delas passaram a levar o conteúdo aprendido em sala de aula para os idosos e o processo inverso também ocorreu - as crianças trouxeram para a sala de aula a experiência viva daqueles cidadãos mais velhos que eles e que haviam vivenciado muito do que eles estavam então a aprender por meio dos livros escolares.

Hoje, há vários destes centros de convivência de idosos instalados em escolas elementares em todo o país, e muitas dessas escolas já adotam inclusive turmas mistas de idosos e crianças em disciplinas voltadas para o Intercâmbio Cultural entre as duas gerações de alunos.  A idéia daquela primeira escola primária tornou-se, na atualidade, uma política consolidada pelo Ministério da Educação do Japão, que incentiva a criação de semelhantes centros em escolas da rede pública de ensino - sobretudo porque o crescimento da população idosa naquele país levou as autoridades a repensar o papel das novas gerações nos cuidados com seus idosos.

Penso no quão distantes estamos de uma visão igualmente respeitosa com nossos idosos.  Vivemos dias nos quais as pessoas parecem envergonhar-se do processo natural que é o envelhecimento - não são poucos, por exemplo, que se sentem ofendidos ao usarmos as respeitosas formas de tratamento “senhor” e “senhora”, e parece haver no ar uma desesperada tentativa global de retorno à adolescência…

Quando será que iremos envelhecer, nós todos, nosso país, com dignidade e equilíbrio? 

Posted by Frizero at 23:21:54 | Permalink | No Comments »

Thursday, August 3, 2006

Alunos ou Clientes?

Uma professora de Química resolveu tornar sua aula mais dinâmica e elaborou uma atividade na qual seus alunos de sexta série fariam uma experiência no laboratório usando cloreto de sódio. Alguns dos alunos resolveram encher os bolsos de seus uniformes com o sal e, na saída da escola, forçaram um colega de turma a ingeri-lo.  O menino, que sofria de problemas de pressão alta, acabou passando mal e foi levado às pressas a um hospital nas proximidades. A direção da escola, diante da reclamação da família do menino, tomou uma atitude para remediar o erro cometido pelos alunos: demitiu a professora.

Um aluno de sete anos de idade, da primeira série, após ter sido advertido por seu comportamento violento contra outro colega em aula, quebrou o nariz de sua professora com um golpe similar aos que teria assistido em um programa de televisão.  Agredida - e diante do silêncio da escola sobre o caso -, a educadora buscou seus direitos e processou a família da criança por danos materiais. Esta, por sua vez, procurou reverter a situação na Justiça, e a direção da escola tomou uma atitude para remediar a situação: ofereceu seu advogado para defender a família do aluno agressor contra sua professora.

Um grupo de alunos da Terceira Série do Ensino Médio resolveram comemorar a proximidade do término do ano letivo de uma maneira peculiar: destruíram um andar inteiro da escola, das janelas às carteiras, das mesas às lousas, dos banheiros às luminárias dos corredores e salas de aula. A direção da escola não tomou, a princípio, nenhuma atitude disciplinadora contra os alunos; pressionada pela ação dos professores, que em carta aberta à direção comunicaram a sua decisão conjunta de não mais entrar em sala de aula, a direção afastou os sete alunos que teriam liderado o ato de vandalismo. Os pais dos alunos afastados entraram, então, na Justiça Estadual que, em defesa dos alunos, exarar uma determinação para que a escola abrisse a sala de aula da Terceira Série na segunda-feira seguinte e, caso os professores da escola continuassem a se recusar a dar aulas para aquela turma, contratasse novos professores para garantir o direito dos alunos de assistir as aulas programadas.

Estas três histórias verídicas, ocorridas em escolas que estão entre as mais caras e prestigiadas de Porto Alegre, mostram um aspecto que para muitos passa despercebido dentro do que se convencionou chamar de “a crise no ensino brasileiro”: a visão do aluno como um cliente.

O problema surgiu a partir da década de 1990, quando as direções das escolas passaram a ser exercidas não por professores ou pedagogos, mas por administradores de empresa. Descobria-se, diante da visão de uma educação pública fraca e mal estruturada - vítima, em verdade, das inúmeras experiências à qual fora submetida por sucessivos governos e suas correspondentes visões contraditórias sobre o educar -, que abrir escolas particulares era um negócio rentável. Multiplicaram-se as instituições de ensino e, à reboque dessa abordagem mercadológica sobre a escola, os alunos passaram a ser vistos como clientes e suas matrículas - ou seja, as mensalidades a elas vinculadas -, supervalorizadas como o que de mais precioso existe na estrutura do ensino privado. Para conquistá-los, as escolas cresceram em suas estruturas, adicionando aos programas tradicionais um sem-número de atividades paralelas que anteriormente eram oferecidas às crianças e adolescentes por outras instituições - de aulas de idioma a ateliês de educação artística, de cursos de informática a aulas de artes marciais -, bem como aumentando suas dependências para acomodar tantas novas atividades escolares.

Em meio a todo esse processo de mudança, contudo, está o professor. Dele exige-se cada vez mais que seja dinâmico, interessante, carismático e atualizado, que tenha pleno domínio de sala de aula e que seja um educador, não um mero explicador dos conteúdos nos quais tenha se especializado. Contudo, dos professores foi tirado - além do salário digno que eles um dia já tiveram - o poder de disciplinadores: os pais esperam que os professores dêem aos seus filhos a educação que eles já não lhes ensinam de berço - em parte porque, cada vez mais, pais e mães estão distantes dos filhos, envolvidos com seus inúmeros compromissos e com suas visões egoísticas de paternidade, repletos de medo de traumatizar seus filhos com esta ou aquela atitude e permissivos demais para dizer um não diante de certos atos de rebeldia algo antinaturais de seus filhos; a direção da escola espera que os professores consigam manter a disciplina em sala de aula e ofereçam aos alunos as aulas programadas na grade curricular - mesmo que isso não represente uma aprendizagem de fato dos conteúdos - sem que para eles, diretores e coordenadores pedagógicos, sejam levados quaisquer problemas envolvendo os alunos e seus familiares.

Os professores, vilipendiados em seus sonhos profissionais, tripudiados por salários baixos e por condições inumanas de trabalho, sentem-se cada dia mais acuados, pois ninguém consegue ensinar conteúdo algum para uma sala de aula com quarenta alunos ou mais sem que haja qualquer respaldo disciplinar por parte da escola. Os pais, que antes davam respaldo às ações disciplinadoras dos professores em sala de aula - e não se está aqui a falar de castigos físicos, abjetos em qualquer situação e em qualquer lugar -, hoje ameaçam mestres e escolas com processos judiciais e denúncias à primeira suspeita de que seus filhos foram prejudicados - ainda que tal prejuízo seja a reprovação em uma disciplina, já que a culpa recairá sempre sobre o professor. As direções e coordenações escolares seguem o mesmo caminho: depositam no professor a culpa por todos os problemas de sala de aula.

O erro está em ver-se o aluno como cliente: escolas não são mercearias, seu produto não é igualmente mensurável; a relação professor-aluno-educação é diferente daquela exercida pelo atendente e o comprador, pois este têm o único dever de dar ao estabelecimento comercial o dinheiro corrrespondente ao produto, e o atendente deve então lhe fornecer o produto ou serviço correspondente. Em educação, o aluno tem mais deveres que meramente o pagamento da mensalidade: ele deve estar interessado em receber os conteúdos ministrados; deve cumprir com as obrigações exigidas por cada disciplina - provas, trabalhos, tarefas de casa, arguições e outros; deve respeitar o direito dos demais colegas em prestar atenção nas aulas ministradas, mantendo o ambiente propício em sala de aula para tal; e, sobretudo, o aluno tem o dever de permitir ao profissional escalado para lhe ministrar os conteúdos, o professor, que ele exerça sua função de educador.

Encarar o aluno como cliente é lançar por terra todos esses deveres e adotar o lema, enganoso em termos de educação, de que o cliente tem sempre razão. Não são raros os casos que se ouve sobre alunos que enfrentam os professores dizendo que estes são seus empregados - ou tratando-os como tal - porque, afinal, são eles, os alunos, que pagam seu salário. A postura de pais, diretores de escolas privadas e coordenadores pedagógicos refletem com perfeição esta nova concepção da educação - a de alunos-clientes e de professores-serviçais. Afinal, quais as atitudes mais comum atualmente quando há qualquer problema envolvendo mestres e alunos? Assumir que os alunos estão a contar a verdade, processar as escolas e estas, constrangidas pela possibilidade de perder aquela e outras tantas matrículas diante de um escândalo qualquer, demitem seus professores sem maiores delongas - até porque sabem que, à esquina da escola, há uma pequena fila de outros professores à espera de um emprego.

Em nenhum momento desse processo questiona-se a qualidade do ensino que se está a oferecer. E isso parece já não importar. Os pais impressionam-se com a estrutura escolar e com a grade curricular recheada de adendos elegantes - curso de inglês, aulas de computação, etc - que manterão seus filhos mais tempo na escola e lhes darão um certo status diante do seu círculo de relações: escolhe-se a escola pela griffe e não mais pelo currículo dos profissionais que emprega ou pelos livros-texto que adota. Quantos pais e mães foram apresentados - ou assim o solicitaram - ao histórico das experiências e da formação dos futuros professores de seus filhos? E se os pais nada exigem, porque as escolas se importariam em trocar um professor com experiência de outro sem um currículo convincente?

Salas de aula, definitivamente, não são espaços anárquicos nos quais todos podem exigir e comandar, menos o professor. E o ensino privado não formará melhores cidadãos se os pais continuarem a exigir da escola o mesmo tratamento que esperam dos tantos prestadores de serviço que lhes circundam o cotidiano. Não é incomum ver pais que reclamam quando o filho tira notas baixas na escola - mas antes a reclamação era com os filhos, não com a escola e sobre a atuação do professor. Será que eles acreditam em uma sociedade futura na qual todos têm direitos, mas ninguém se vê com deveres a cumprir ou limites a respeitar?

Posted by Frizero at 20:17:29 | Permalink | Comments (4)