Thursday, August 31, 2006

Cinismo

Em suas origens, a palavra cinismo referia-se apenas à corrente filosófica fundada, nos idos de 400 a.C., por um discípulo de Sócrates de nome Antístenes de Atenas.  Suas idéias eram as de que a felicidade humana não depende de nada que seja exterior ao próprio ser e, por consegüinte, os seguidores dessa corrente desprezavam os bens materiais e as preocupações com a saúde, o sofrimento e a morte - mesmo em relação aos problemas que atingiam o próximo, razão pela qual cinismo permaneceu em nossa língua portuguesa apenas com a acepção negativa de desprezo, insensibilidade, indiferença à dor alheia.

O mais famoso discípulo de Antístenes de Atenas foi Diógenes de Sínope, cidade situada na atual Turquia.  Dentre as histórias que permaneceram a respeito do pensador, que vivia uma vida de asceta e tinha por bens materiais apenas sua túnica e um cajado, uma das mais conhecidas é aquela que fala das vezes em que Diógenes saíra às ruas de Atenas com uma lanterna à mão em pleno dia a procurar “um homem virtuoso”.

Pois ontem, 30 de agosto de 2006, Diógenes talvez se contentasse ao ouvir o discurso do Senador Jefferson Peres.  Representante do estado do Amazonas, ele expressou seu desalento com o que chamou de “crise ética do país” e declarou-se “farto da vida pública”.  Reproduzo aqui seu discurso em plenário:

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, depois de uma longa ausência de algumas semanas, volto a est

a Tribuna para manifestar o meu desalento com a vida pública deste País.  Gostaria de estar aqui discutindo (…)a respeito das riquezas naturais do Brasil, (…), e não como falarei, sobre algo muito pior: a dilapidação do capital ético deste País.  

(…) poderíamos não ter um barril de petróleo nem um metro cúbico de gás, mas poderíamos ser uma das potências mundiais em termos de desenvolvimento.  O Japão não tem nada. Não tem petróleo, gás ou riquezas minerais. A Coréia do Sul também não tem nada disso, (…) e nos dá um banho em termos de desenvolvimento não apenas econômico, mas também humano. O que está faltando mesmo a este País e sempre faltou é uma elite dirigente com compromisso com a coisa pública, capaz de fazer neste País o que precisaria ser feito: investimento em capital humano.

Vejam que País é este. (…) Estamos aqui no faz-de-conta, (…) este é o País do faz-de-conta. Estamos fingindo que fazemos uma sessão do Senado, estamos em casa sem trabalhar. (…) Como se ter animação em um País como este com um Presidente que, até poucos meses atrás, era sabidamente um Presidente conivente com um dos piores escândalos de corrupção que já aconteceu neste País e este Presidente está marchando para ser eleito, talvez, em primeiro turno? É desinformação da população? Não, não é. Se fizermos uma enquete em qualquer lugar deste País, todos concordarão, ou a grande maioria, que o Presidente sabia de tudo. Então, votam nele sabendo que ele sabia. A crise ética não é só da classe política, não, parece que ela atinge grande parte da sociedade brasileira. Ele vai voltar porque o povo quer que ele volte.

Democracia é isso. Curvo-me à vontade popular, mas inconformado. Esta será uma das eleições mais decepcionantes da minha vida. É a declaração pública, solene, histórica do povo brasileiro de que desvios éticos por parte de governantes não têm mais importância. Isso vem até da classe dos intelectuais, dos artistas. Que episódio deplorável aquele que aconteceu no Rio de Janeiro semana passada! Artistas, numa manifestação de solidariedade ao Presidente, com declarações cínicas, desavergonhadas (…)! Um compositor dizer que “política é isso mesmo, fez o que deveria fazer”, o outro dizer que “política é meter a mão na [merda](sic)! Um artista, em qualquer país do mundo, é a consciência crítica de uma nação. Aqui é essa, é isso que é a classe artística brasileira, pelo menos uma grande parte dela, é o povo conivente com isso.

E pior, pior ainda: os artistas estão fazendo isso em interesse próprio, porque recebem de empresas públicas contratos milionários - isso é a putrefação moral deste País - , e o povo vai reconduzir o Presidente porque “política é isso mesmo”.

Tenho quatro anos de Senado. Não me candidatarei em 2010, não quero mais viver a vida pública. Vou cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar. Ele pode ser eleito com 99,9%. Eu estarei aí na tribuna dizendo que ele deveria ter sido mesmo destituído.

O que ele fez é muito grave. É muito grave. Curvo-me à vontade popular, mas não sem o sentimento de profunda indignação. A classe política já nem se fala, essa já apodreceu há muito tempo mesmo. Este Congresso que está aqui, desculpem-me a franqueza, é o pior de que já participei. É a pior legislatura da qual já participei (…). Nunca vi um Congresso tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem cumprimento. Mas uma maioria, infelizmente, tão medíocre, com nível intelectual e moral tão baixo, eu nunca vi. O que se pode esperar disso aí? Não sei. Eu não vou mais perder o meu tempo. Vou continuar protestando sempre, cumprindo o meu dever. Não teria justificativa dizer que não vou fazer mais nada. Vou cumprir rigorosamente o meu dever neste Senado até o último dia de mandato, mas para cá não quero mais voltar, não!

Um País que tem um Congresso desse, que tem uma classe política dessa, que tem um povo… (…) dizem que político não deve falar mal do povo. Eu falo, eu falo. Parte da população que compactua com isso? É lamentável. E que sabe. Não é por desinformação, não. E que não é só o povão, não. É parte da elite, inclusive intelectual. Compactuam com isso é porque são iguais, se não piores. Vou continuar nessa vida pública? Para quê (…)? 

Vou continuar pelejando pelos jornais e por todos os meios possíveis, mas, como ator na vida política e na vida pública deste País, depois de 2010, não quero mais! Elejam quem vocês quiserem! Podem chamar até o Fernandinho Beira-Mar e fazê-lo Presidente da República - ele não vai com o meu voto, mas, se quiserem, façam-no.

O meu desalento é profundo. Deixo isso registrado nos Anais do Senado Federal. Infelizmente, eu gostaria de estar fazendo outro tipo de pronunciamento, mas falo o que penso, perdendo ou não votos - pouco me importa. Aliás, eu não quero mais votos mesmo, pois estou encerrando a minha vida pública daqui a quatro anos, profundamente desencantado com ela.

Os cínicos - no sentido moderno da palavra - líderes da nação preparam-se agora para locupletar-se por mais quatro anos, quiçá mais ainda, com os cofres públicos, com o dinheiro advindo da carga absurda de impostos que a população brasileira - a mesma que os manterá no poder - paga a duras penas.  Com os cínicos da antigüidade, eles guardam como semelhança apenas o desprezo pelo sofrimento alheio.  Mas, afinal, os que sofrem parecem não se importar com a própria situação, já que, ao que tudo indica, manterão no poder o mesmo esquema de corrupção e pilhagem que impera na política brasileira há tantos anos.

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Tuesday, August 29, 2006

Os Bobos da Corte

“O PT errou. Aliás, companheiros do PT cometeram erros, mas não posso generalizar. Não é o PT inteiro que errou. Fidel Castro escreveu que a História um dia o absolverá. Eu não vou precisar esperar pela História. O povo vai me absolver agora” - disse Lula, que discursou de pé sobre um banquinho. (trecho de notícia publicada pelo jornal carioca O GLOBO de 25 de agosto de 2006)

A fala do atual Presidente da República e candidato a reeleição Luiz Inácio Lula da Silva é não só uma declaração de culpa diante dos escândalos que permearam sua administração e da participação de seu partido no esquema de corrupção que motivou a alcunha, dada pelo Procurador-geral da República em súa denúncia apresentada à Justiça, de “organização criminosa” aos altos membros do Partido dos Trabalhadores. As palavras de Lula são de um pedantismo típico dos que se acreditam acima do bem e do mal, dos que consideram que os fins justificam os meios, dos que imaginam que o mal está sempre do lado de fora de sua causa. Mas, a medir os acontecimentos todos desses últimos quatro anos da política nacional, em que se viu um partido que pregava a ética na política rasgar folha a folha o seu programa ideológico, as palavras do Presidente da República e símbolo maior do Partido dos Trabalhadores não é surpresa alguma.

O que realmente choca é imaginar que essas palavras foram pronunciadas diante de oitenta intelectuais e artistas reunidos na sala de visitas da casa do atual Ministro da Cultura, Gilberto Gil, em reunião da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição - e que as reações foram de apoio incondicional aos feitos e idéias do candidato. Nenhuma reprimenda, nenhuma contestação, nenhuma palavra contrária à tese que Lula levantava - a de que a reeleição apagará, qual mágica, toda e qualquer questiúncula - mensalão, sanguessugas, vampiros e afins - da história de seu mandato de 2003 a 2006.

Em uma crônica repleta de genuína indignação, a colunista de < São de Estado>, Dora Kraemer, descreve assim algumas das manifestações dos artistas naquela reunião de apoio a Lula:

Um verdadeiro espetáculo de equívocos, a começar da convocação do ator José de Abreu aos presentes para uma saudação a gente denunciada pelo procurador-geral da República como integrantes de uma “organização criminosa”, passando pelo lançamento do lema “política só se faz com mãos sujas”, de autoria do ator Paulo Betti, tendo como ponto alto a declaração do músico Wagner Tiso de condenação aos indignados com os escândalos. “Não estou preocupado com a ética do PT, ou com qualquer tipo de ética”, disse Wagner Tiso, informando ao respeitável público que só está preocupado “com o jogo do poder”. O festival de alienação, irresponsabilidade social e analfabetismo político teve sua culminância no dia seguinte, quando o produtor Luiz Carlos Barreto rasgou de vez a fantasia: “Se o fim é nobre, os fins justificam os meios”, afirmou. Para ele, “inaceitável é roubar”. E acrescentou: “Mensalão não é roubo, é jogo político.” Ao senhor Barreto parece não ter ocorrido que o dinheiro do mensalão não brotou em árvores; saiu de empresas estatais - algumas das quais lhes financiam os filmes - ou de bolsos privados em troca dos serviços prestados por tráfico de influência no serviço público. É roubo, portanto.

Em outras palavras, aqueles artistas e intelectuais pertencentes à intelligenzia brasileira consideram o maior esquema de corrupção já detectado no Poder Executivo Federal como “parte do jogo”.  Luiz Carlos Barreto - produtor de cinema respeitado e um dos grandes beneficiários de patrocínios estatais para a consecução de seus projetos, declarou, por exemplo, que “o que [ele acha] inaceitável é roubar” e que “mensalão é do jogo político, não é roubo.”  Paulo Betti, famoso ator que também é beneficiário de verbas públicas para seus espetáculos teatrais, defendeu Lula conclamando que ”não [sejamos] hipócritas; (…) não dá para fazer política sem sujar as mãos.”  Wagner Tiso sintetizou as declarações dos demais ao dizer-se “não (…) preocupado com a ética do PT”, por achar que “o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o País.”  Mas a pior das cenas daquela noite de apoio à corrupção, à ética torta e ao descaso com os desmandos feitos pelo Partido dos Trabalhadores com a verba pública, com o dinheiro do contribuinte, foi encenada pelo ator José de Abreu que, em meio à reunião dos oitenta apoiadores de Lula na classe artística, pediu uma salva de palmas em homenagem aos três “Josés” que foram os “mártires” do PT em meio aos escândalos recentes da política nacional - José Dirceu, José Mentor e José Genoino. 

O editorial de “O Estado de São Paulo” sobre a famigerada reunião em casa de Gilberto Gil lançou uma interessante indagação: “Se não dá para fazer política sem sujar as mãos, dará para fazer Arte sujando a consciência?  Na melhor das hipóteses, poder-se-ia desconfiar que esses artistas estão tão-somente defendendo o seu quinhão futuro de subsídios governamentais para seus projetos artísticos - talvez até assustados pelo exemplo de Regina Duarte, que após participar da campanha de José Serra para a Presidência da República não teve mais nenhum projeto teatral apoiado pelo Governo Federal de Luiz Inácio Lula da Silva.  Na pior das hipóteses, essa é a crença verdadeira desses artistas em relação à política nacional - os fins justificando os meios, a corrupção e o descaminho das verbas públicas como forma natural do fazer político brasileiro, a ética como algo descartável de acordo com o momento - e estamos, então, como país, representados pelo pior agrupamento de pensadores e agitadores culturais que poderíamos imaginar para um momento tão obtuso como o que vivemos no cenário político nacional.  Ou será que as notícias sobre o mensalão, sobre a máfia das sanguessugas, sobre os festins no casarão chamado de República de Ribeirão Preto, sobre o enriquecimento repentino do filho do Presidente da República e outras tantas que assombraram os eleitores nos últimos tempos - será que essas notícias não chegaram aos ouvidos de nossa classe artística?

Como Regina Duarte dizia, há razões para estarmos morrendo de medo.

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Saturday, August 26, 2006

Cantar

Cantar é desfazer, no fio da memória,
Embaraçados nós a que chamam história
Para melhor tecer o esperado futuro.

(Robertson Frizero Barros)

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Friday, August 25, 2006

Esboço de texto para a campanha política na televisão

Senhoras e senhores, muito boa noite.

Você me conhece.

Fui vice-prefeito do município tal, sou líder da bancada governista na Assembléia Legislativa, fui diretor do sindicato dos eletricitários, sou professora da rede pública de ensino, sou adevogado, sou nutricionista, sou vereador da cidade tal, sou militar da reserva, fui servidor da Rede Ferroviária Federal, sou pastor da igreja tal, fui diretor esportivo do clube atlético desportivo desta capital, atuo há vinte anos no setor coureiro-calçadista, sou líder da comunidade da Vila do Salto.

Sou o representante dos aposentados, da família militar, dos metalúrgicos, das donas de casa, do movimento negro, da nação gremista, dos produtores da fronteira oeste, da metade sul do estado, dos educadores, dos servidores da saúde, da juventude, dos estudantes, das classes oprimidas, dos demitidos da VARIG, dos cristãos, das pensionistas do INSS.

Trago a renovação, a ética na política, a força do povo gaúcho, a coragem de mudar, a luta por melhores condições para o nosso povo sofrido da Vila Cruzeiro, a honestidade, a fé no país, a garra do trabalhador, a energia jovem, o respeito às tradições da nossa terra. 

Como você, também estou indignado com os políticos corruptos que invadiram o Congresso Nacional, com os bandidos que tiraram a paz do cidadão de bem, com os escândalos que assolam a política nacional, com o descaso do Governo Federal com a Saúde, com o estado de nossas rodovias, com as condições de trabalho dos servidores públicos.

Se eleito, irei propor a redução da carga tributária, o fim do nepotismo, a extinção dos pardais e da indústria das multas, o aumento do salário mínimo para R$ 1.900,00 e a redução da jornada de trabalho para trinta e cinco horas semanais, o passe livre para os estudantes, a abertura de novas vagas nas escolas e universidades, a redução dos gastos do governo e a contratação imediata de 20.000 novos servidores públicos, com o fim das privatizações e o aumento imediato de 126% no salário de todos os trabalhadores.

Minhas prioridades são: educação, saúde, segurança pública, saneamento das finanças, saneamento básico, reforma agrária, valorização da agroindústria, construção de casas populares, abertura de novos postos de trabalho, urbanização da Vila do Pinto, melhoria das condições de vida da mulher negra, criação de novas vagas no PRO-UNI, recuperação das universidades federais, reabertura do porto da cidade tal, das minas de carvão do município aquele, da indústria de sardinhas do bairro esse, do posto de saúde do Jardim Santa Efigênia. 

Por isso, peço seu voto. 

No dia da eleição, não esqueça: vote em mim, Toninho do Jardim Pinheiro, Amélia Schmidt, Coronel Bicalho, Beto Kavendish, Zezé da Mala, Tonho, Curupira, Alcides da Costa Monteiro Júnior, Major Pinto, Professor Gaspar, Ana Bicaço, Zampogna, Besouro, Tico, Doutor Pedrônio, Mariozinho do Posto, Luivan, Benevides da Silva Oliveira, o Bené!

E vote em fulano de tal para governador, e beltrano para presidente. 

Nas tuas mãos está a força para mudar o país com teu voto!

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Wednesday, August 23, 2006

Vinte Anos Sem Josué Guimarães

O ano de 2006, celebrado no Rio Grande do Sul pelos cem anos de nascimento de seu maior poeta, Mário Quintana, é igualmente marcado por outra data não menos importante para a literatura brasileira: trata-se do vigésimo aniversário da morte do escritor gaúcho Josué Guimarães, cuja lembrança motivou a realização, em 22 e 23 de agosto deste ano, do Seminário Vinte Anos Sem Josué, promovido pela Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mais especificamente pelo Acervo Literário Josué Guimarães (ALJG), organizado e mantido desde então por esta universidade.

O evento, no qual professores universitários convidados e alunos de pós-graduação da PUCRS apresentaram diversos aspectos sobre a vasta obra do escritor nascido em São Jerônimo, serviu também de comemoração para os dez anos de existência do ALJG. Foi em abril de 1996, por iniciativa da viúva do escritor, Nydia Guimarães, que a PUCRS recebeu o material – dez caixas reunindo oito mil setecentos e cinqüenta e nove documentos – que, depois de passar pelos processos de catalogação e conservação, tornaram-se um acervo de consulta pública sobre a vida e a obra de Josué Guimarães, cujas peças foram naquele mesmo ano usadas em duas exposições que contaram com o apoio do então nascente ALJG: uma delas promovida conjuntamente com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – “Josué Guimarães: Nunca É Tarde Para Saber” –, e outra organizada para a Câmara Municipal de Porto Alegre – “Josué Guimarães: Um Homem do Sul”.

Diversas peculiaridades tornam a obra de Josué Guimarães importante no panorama literário do Rio Grande do Sul. A primeira delas é a forma como o escritor iniciou sua carreira literária, o que se deu quando ele tinha quarenta e nove anos, uma idade algo tardia para um começo na literatura; Guimarães já era, então, um jornalista de grande prestígio no país. Mesmo diante das perseguições e da vigilância ideológica que por muito tempo ainda sofreria como simpatizante das idéias socialistas e ex-integrante do governo João Goulart, ele foi premiado, em 1969, em um concurso de contos promovido pelo Governo do Estado do Paraná pelo conjunto de três textos – João do Rosário, Mãos Sujas de Terra e O Princípio e o Fim. No ano seguinte, em 1970, motivado pela acolhida desses seus primeiros escritos ficcionais, o autor lançou o livro de contos intitulado Os Ladrões.

Outro dado significativo na vida literária de Josué Guimarães é a extensão de sua obra, pois foram dezesseis anos de produção apenas, nos quais Josué Guimarães escreveu um volume considerável de textos ficcionais - seis romances, cinco novelas, dois volumes de contos e oito obras para o público infanto-juvenil, além de outros textos. Ainda que tenha escrito em diversos gêneros ficcionais, incluindo-se uma única investida pelo texto teatral, para o autor era o romance o gênero literário no qual via mais lugar para dizer o que [precisava] e o que [queria]. Ele próprio declarou que, embora haja publicado contos, [ele] não [se considerava] contista.

O interesse de Josué Guimarães, que ele via melhor representado por seus textos ficcionais mais extensos e densos, era uma (…) temática (…) sul-americana: o subdesenvolvimento, a miséria, o caldeamento de raças, a insegurança política e social, o caudilhismo, a passividade diante do destino, a ignorância, a doença, a crença de que ninguém muda nada.  Nessa temática explicitada por Guimarães em seus livros reside, talvez, a maior razão para que seja celebrada sua memória neste ano de 2006.  Não apenas por ter sido uma voz de insubmissão em tempos de ditadura militar - sua obra é profundamente marcada pela realidade política e social daqueles anos de repressão para as artes, para a imprensa e para os livre-pensadores brasileiros -, mas por ter colocado em sua ficção sua força de resistência e seu amor à liberdade; por ter retratado em suas histórias o momento que vivia, mas nelas também as formas possíveis de superá-lo.  Em Camilo Mortágua, talvez seu mais conhecido romance, ele enche de humanismo a história que pode ser lida como o recordar de um homem velho em seus últimos dias de vida, mas faz também um retrato dos três primeiros dias do golpe militar de primeiro de abril de 1964.  Em Tambores Silenciosos, ele transporta para o ano anterior do início da ditadura Vargas a história de um prefeito que quer calar as vozes de oposição ao retirar da população os meios de acesso às informações que não fossem o jornal oficioso do lugar, mas narra cada detalhe dos desmandos do prefeito de modo a retratar, igualmente, o momento difícil que vivia o Brasil dos anos 1970.  Mesmo em seus contos - e recordo-me especialmente de um de seus primeiros textos, Mãos Sujas de Sangue, no qual dá voz a um pequeno agricultor rural envolvido em um crime nascido das tensões das lutas de terra que apenas muito tempo depois se tornariam alvo de debate na política e na imprensa brasileiras -, Josué Guimarães usava de sua arte para provocar no leitor - e cabe lembrar que falamos de um leitor brasileiro, que à época era um leitor de classe média, urbano, letrado e com acesso privilegiado aos meios de comunicação e cultura - a pensar o momento em que vivia.

Josué Guimarães era, acima de tudo, solidário e fiel ao seu ideário de igualdade.  Ao término do Seminário Vinte Anos Sem Josué, a professora Heidrum Krieger Olinto, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCJR), fez um relato vivo e tocante que exemplifica bem tais qualidades do escritor: em 1962, ainda muito jovem, ela ajudou seu então namorado a fugir da perseguição do regime salazarista em Portugal, pois ele e um grupo de amigos se recusara a partir para a Guerra Colonial em Angola e, por consegüinte, tiveram todos os seus documentos, inclusive os escolares, retidos pelo governo português; refugiados na Suíça - Heidrum é alemã -, eles passavam por dificuldades quando ela conheceu o escritor, em uma situação totalmente inusitada - ela trabalhava como tradutora/balconista em uma loja de departamentos em Genebra e Josué Guimarães queria comprar uma caixinha de música para a esposa; a jovem alemã  contou-lhe dos problemas enfrentados por ela e pelo noivo português e o escritor brasileiro comoveu-se de tal forma que, meses depois, o jovem casal embarcava para o Brasil por conta de um contrato de trabalho arranjado por Josué Guimarães para que eles pudessem imigrar para o Brasil mesmo sem ter o jovem português qualquer documentação - mais que isso, o escritor gaúcho hospedou-os em seu pequeno apartamento no Rio de Janeiro, onde morava com a esposa e a cunhada, até que os dois estrangeiros conseguissem se estabelecer no Brasil.  Mesmo nos duros anos que se seguiram - dois anos depois da chegada de Heidrum ao Brasil, a chamada “Revolução de 1964″ deporia o presidente eleito João Goulart e iniciaria um período de trinta e um anos de cerceamento das liberdades civis no país -, mesmo tendo que viver na clandestinidade por ter sido membro do governo de Jango, Josué Guimarães continuou em contato e amparando os amigos estrangeiros, os então já casados Heidrum e Raul, em sua adaptação à nova vida na América Latina.

A generosidade de Josué Guimarães modificou a vida dessa alemã de nascimento que hoje é brasileira de coração e se tornou no Brasil um dos grandes nomes da História da Literatura no meio acadêmico.  Seus livros seguem à disposição dos leitores que, ainda que afortunadamente distantes das agruras vividas naquele período de excessão em que tais textos foram escritos, certamente encontrarão neles elementos para reflexão - já que muitos dos problemas ali tratados seguem vivos na sociedade brasileira - e deleite na escrita desse que era um mestre em contar boas histórias.  

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Thursday, August 17, 2006

Mãos Sujas de Sangue

Nunca houve uma guerra boa ou uma paz ruim.
Thomas Jefferson

Nunca pense que a guerra, não importa quão necessária ou justificável, não é um crime.
Ernest Hemingway

 

O Exército dos Estados Unidos da América começa a despertar para os efeitos colaterais da manutenção de um front de batalha distante das bases operacionais, sem perspectivas de término e em meio a uma guerra não-declarada: a falta de reservistas para suas fileiras de combatentes. 

A primeira medida tomada para suprir tal carência de soldados foi o lançamento de campanhas de alistamento voltadas para uma grande massa de jovens desempregados comum nas cidades de pequeno e médio porte dos estados periféricos dos Estados Unidos.  Tais armas de marketing ofereciam o serviço militar como uma oportunidade de carreira futura dentro das Forças Armadas mas, ainda que tentadores à primeira vista, seu efeito foi minado pelas primeiras notícias de mortes causadas por ataques terroristas, emboscadas e linchamentos de militares norte-americanos em território iraquiano. 

Com a falta de novos recrutas em número suficiente, o governo dos Estados Unidos acenou aos imigrantes - legais ou ilegais - com a promessa da concessão do sonhado greencard, a permissão de trabalho em solo norte-americano, para todos os que se alistassem para atuar na Guerra do Iraque.  A manobra foi bem sucedida, atraindo um grande número de jovens - em sua maioria, latinos - para o campo de combate no Oriente Médio, mas ainda assim o número de reservistas era insuficiente para suprir as necessidades da missão de manter posições no Iraque e impedir a retomada de poder por parte dos seguidores do antigo regime de Saddan Hussein enquanto um novo governo iraquiano tenta se estabelecer em termos mais democráticos. 

A solução encontrada pelo Exército norte-americano foi temerária: reduziu-se o tempo de treinamento dos reservistas e diminuiu-se o nível de exigência para admissão - jovens com alguns tipos de registro em suas fichas criminais na polícia passaram a ser aceitos, o grau de escolaridade e a nota mínima no teste de aptidão solicitados foram reduzidos e mesmo os critérios que antes existiam para o desligamento de jovens que porventura não tivessem condições de suportar o estresse natural das situações de conflito bélico foram relaxados. 

As primeiras conseqüências de tal decisão estratégica começam a surgir.  A revista semanal estadunidense Newsweek, em sua edição de 07 de agosto de 2006 para a América Latina, narra o caso de um jovem soldado que, considerado um rapaz solitário e beberrão em sua cidade natal no Texas, foi aceito no Exército estadunidense apesar de sua personalidade agressiva.  Filho de um lar desajustado, de pais alcoólatras, morando em diversos lares desde os quatro anos de idade, o jovem viu no alistamento militar as possibilidades de vida que ele não tinha: um lugar para morar, dinheiro, novos amigos, uma razão maior para sua vida e, em suas próprias palavras ditas a um grupo de amigos no dia de seu embarque para o treinamento militar básico, uma oportunidade de “ir lá e matar todos [os iraquianos]“.  O que parecia uma frase de efeito para impressionar os amigos de bairro tornou-se, tristemente, uma realidade que ultrapassou as fatalidades da guerra.  Em junho de 2006, o rapaz, juntamente com outros cinco colegas do mesmo regimento de infantaria, foi preso por ter cometido um terrível crime de guerra: uma noite, vestido em roupas escuras, ele e os outros cinco companheiros que conseguira arregimentar escaparam furtivamente de seu posto e foram até a casa de uma adolescente de quatorze anos.  Lá, o jovem levou a família da menina - o pai, a mãe e o irmão de cinco anos de idade - para um cômodo na parte de trás da casa enquanto seus colegas detinham a menina na sala da casa.  O rapaz do Texas, então, matou a família da adolescente a tiros de AK-47 e, voltando para a sala, estuprou a menina juntamente com outro soldado, enquanto os três outros cúmplices revezavam-se nas tarefas de vigiar a casa e segurar a menina para que os amigos cometessem o crime hediondo antes de, por fim, executarem a jovem iraquiana com três tiros na cabeça.

O ambiente de guerra é, por si só, enlouquecedor o bastante para levar as pessoas a cometerem atos cruéis que em suas vidas normais jamais imaginariam fazer.  Que outros males poderão advir de uma guerra para a qual estão sendo mandados os mais despreparados, os menos aptos e os mais vulneráveis aos abusos que o horror da guerra sempre traz consigo?  Decerto que não há como medir aptidão, preparo ou invulnerabilidade quando se trata de escolher os homens e mulheres que irão lidar com uma das mais imprevisíveis - e torpes - das ações humanas, a guerra.  Mas o sangue daquela família iraquiana não repousa mais nas mãos do violento jovem texano que nas mãos dos generais que lhe permitiram seguir adiante mesmo sabendo de suas limitações, ou naquela dos Senhores da Guerra, dos homens de ambos os lados desse conflito sem fim, que em seus gabinetes respiram o prazer do poder de decidir sobre a vida e a morte e o alívio de estarem distantes do fragor das batalhas em que tantos inocentes, armados ou não, tombam diariamente.      

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Tuesday, August 15, 2006

Aos Quinze Dias do Mês de Agosto

Este texto está indisponível até segunda ordem…

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Saturday, August 12, 2006

O Poder (Macabro) do Anonimato

Em um desses filmes da década de 1970, exibido dia desses em um canal de televisão universitário de Porto Alegre, havia uma cena na qual um respeitável juiz de uma pequena cidade, conhecido por sua ferrenha defesa da moral e dos bons costumes, é visto dando dinheiro para a cafetina do lugar que o permite, à contragosto, entrar em sua casa de tolerância pela porta dos fundos. Encaminhado por ela através de corredores estreitos e escuros, vê-se em seguida que o juiz é levado para uma sala oculta na penumbra e é sentado de frente para uma parede vazia. A sala ilumina-se, de repente, parcialmente, e nota-se que em verdade a parede é a parte de trás de um espelho: através desta muralha translúcida de vidro, há a visão completa de um dos quartos do lupanar, onde um homem de seus trinta anos irá, em seguida, proceder a violação de uma menina cuja virgindade havia sido leiloada, minutos depois, em uma sala oculta do lupanar. O juiz, naturalmente, nada faz para contornar a situação: ele está ali justamente para, como voyeur, apreciar de perto o crime que está a ser cometido.

A tela do computador passou a ser, na atualidade, esse espelho de fundo falso do filme de ficção. Ocultos pelo anonimado aparentemente garantido pela Internet, que permite ao usuário interagir à distância com outras pessoas e, desta forma, influenciar de uma forma ou outra a vida de seus interlocutores, muitos internautas assumem a postura de voyeurs inertes diante das mais terríveis situações que lhes chegam pela Rede Mundial de Computadores.

Há poucos dias, a história macabra do suicídio assistido de um jovem de Porto Alegre, a maior cidade da Região Sul do Brasil, tomou de assalto os noticiários locais. O adolescente de dezesseis anos - visto como um rapaz inteligente e talentoso - mantinha na Internet uma vasta rede de contatos, mantidos por mensagens eletrônicas, salas de bate-papo e fóruns de discussão sobre os mais diversos assuntos. O rapaz portoalegrense, fluente na língua inglesa, era conhecido em sites norte-americanos e canadenses - e foi justamente por meio de uma jovem adolescente canadense é que as características bizarras da morte do rapaz vieram à tona.

A menina canadense freqüentava fóruns de discussão sobre música nos quais o brasileiro divulgava suas composições musicais. Conversando com outros colegas internautas, ela descobriu que o portoalegrense estava a divulgar que iria cometer suicídio em dia e hora marcados, e pedia a colaboração de todos para que o acompanhassem em seu intento. Desesperada, a jovem procurou a sala de bate-papo indicada e constatou que, de fato, o jovem estava a publicar mensagens nas quais informava os passos que estaria seguindo para cometer suicídio e pedia orientações sobre como fazê-lo de forma efetiva e indolor. A canadense entrou em contato com a polícia local e um inspetor de polícia de seu país entrou em contato direto com o oficial de ligação da Interpol em Porto Alegre. O policial brasileiro acreditou na história contada pela menina e acionou as forças policiais locais, que chegaram ao endereço do rapaz - a canadense obtivera esta informação a partir de um outro internauta que dias antes havia enviado um CD para o brasileiro - mas, infelizmente, já o encontraram sem vida.

O lado mais sombrio e assustador dessa história é que, durante todo o período entre a preparação e a consumação do suicídio, o rapaz portoalegrense recebeu o incentivo e as orientações de outros internautas que, conectados na mesma sala de bate-papo que o brasileiros indicara, assistiram sem maiores problemas à morte do jovem. Durante o processo, o rapaz chegou a publicar fotografias digitais do ambiente no qual cometeria o ato de desespero, e recebeu como retorno frases de apoio para que se matasse e dicas técnicas de como fazê-lo.

Como no espelho de fundo falso, esses internautas colocaram-se em frente aos seus monitores naquele dia e hora para apreciar a morte de outro ser humano que, por estar distante, em outro país, por não lhe serem próximos consangüineamente ou por não serem seus conterrâneos, enfim, por alguma razão a distância aparente fornecida pelo mundo virtual fez com que essas pessoas deixassem de lado sua humanidade e encarassem o suicídio do rapaz como “mais um espetáculo bizarro na Internet”.

A história, por si só abjeta, torna-se ainda mais cruel diante das novas revelações oriundas da investigação policial - que, através do número de identificação dos computadores na Internet, localizou os participantes desse suicídio assistido à distância. Um dos usuários mais ativos na sessão rastreada pela polícia internacional, um dos que mais ajudaram o rapaz a cometer o ato extremo, seria um ex-bombeiro norte-americano. O rapaz brasileiro, que sofria de depressão e era assistido por psicólogos e psiquiatras há pelo menos dois anos, levou a cabo sua decisão de dar fim à própria vida incentivado por contatos que tivera com internautas como o ex-bombeiro e outros, os quais o indicaram para grupos de discussão sobre suicídio, nos quais os usuários costumam trocar informações sobre as diversas formas de cometer tal ato e até mesmo combinam dia, hora e local para realizarem o suicídio em conjunto.

Falharam os pais, que deixaram livre o acesso do filho a todos os conteúdos da Internet? Falharam os psicólogos e psiquiatras, que não foram capazes de identificar a gravidade do estado do adolescente? Falharam os policiais, que não conseguiram chegar à tempo de evitar o pior? Creio que não há que buscar culpados em um caso como este; a culpa maior talvez resida mesmo no ato de omissão - mais ainda no de incentivo - diante de um tema de tamanha gravidade. As palavras ferem, constróem e destróem, interrompem e motivam - para o bem e para o mal. Que dizer então da palavra dita levianamente, e por um meio frio e distante como uma sala de bate-papo na Internet, onde ninguém sabe da vida de ninguém com a profundidade necessária para qualquer tipo de aconselhamento - ainda mais um conselho como este, o de que a morte é a única saída? Os internautas que acompanharam a morte desse rapaz - sobretudo o ex-bombeiro, treinado justamente para salvar vidas - agiram com o mesmo hediondo comportamento de uma turba que se posicionasse no meio da rua a gritar para que um desesperado no terraço do prédio para que salte - pelo simples prazer de ver algo dramático e diferente acontecendo em suas vidas monótonas.

Como o juiz que assiste o estupro sem culpa, por saber-se oculto pela luz espelhada pelo lado cego do vidro escuro, muitos internautas assumem o ilusório anonimato da Rede Mundial de Computadores para viver seu lado mais sórdido e ignóbil. Por trás dessa ilusória máscara, eles dão golpes financeiros, humilham outros internautas, denigrem a imagem alheia, espalham boatos ou alimentam as fraquezas e neuroses de seu próximo. Mas os espelhos se quebram e, por sorte, também se desfaz o esconderijo desses verdadeiros criminosos virtuais que precisam ter seus dias contados.

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Thursday, August 10, 2006

Poética

Este texto está indisponível até segunda ordem…

Posted by Frizero at 10:14:22 | Permalink | Comments (3)

Violência na Escola Particular

As notícias da imprensa, as conversas informais entre amigos e os rumores nas salas dos professores podem ser apontados como exagerados, mas um sinal mais contundente da realidade acaba de ser lançado por um documento que expressa as questões que mais preocupam os professores no momento atual: dentre as cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho 2006, documento que reúne os termos do acordo anual entre empregadores e educadores do ensino privado no Rio Grande do Sul, uma delas trata da violência no ambiente escolar.

O Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (SINPRO/RS) estabeleceu, em conjunto com a organização patronal do setor educacional, que as instituições de ensino privado do estado “devem atuar na prevenção e repressão a toda forma de violência praticada por alunos e até mesmo por pais e/ou demais tomadores de serviços educacionais”.  O documento estabelece que qualquer tipo de violência contra o professor - física, moral ou psicológica - deverá ser coibida pelas escolas, com a colaboração dos docentes, e que a questão disciplinar deve ser igualmente incluída dentro dos projetos pedagógicos das escolas.

Como o boletim da entidade recorda com propriedade, a violência no ambiente escolar, ao contrário do que se possa imaginar, “não é um mal restrito ao ensino público”, onde ganhou maior visibilidade por conta das muitas matérias publicadas em jornais e revistas sobre casos de professores vítimas de agressão por parte de alunos e pais.  No ensino privado, contudo, as ocorrências de violência contra professores são tratadas “de forma velada” pelas escolas no intuito de evitar quaisquer contendas com os pais dos alunos agressores.  O problema tem-se tornado de tal forma freqüente no ensino privado que o SINPRO/RS criou um disque-denúncia de violência contra professores no qual os profissionais agredidos terão assessoria e apoio do sindicato para o enfrentamento dessas situações de assédio moral e psicológico ou de agressão física contra docentes - com a garantia de total sigilo para o denunciante.

A inclusão da violência escolar dentre temas tão díspares - como cláusulas salariais, direito do professor às vésperas da aposentadoria ou remuneração proporcional para professores que trabalham em diferentes níveis de ensino - é significativa e, ainda que preocupante ao indicar o crescimento desses casos, um pequeno alento para os tantos professores que têm sofrido, no silêncio do temor de perder seus empregos, com a violência nas escolas particulares.

Posted by Frizero at 00:25:04 | Permalink | Comments (3)