Friday, July 28, 2006
Thursday, July 27, 2006
Mistérios do Livro Negro de Amor e Perdição do Padre Dinis de Lisboa
Um acordo firmado entre duas emissoras de televisão - uma do Brasil e outra de Portugal - promete ser um marco na aproximação cultural do dois países. A Rede Bandeirantes de Televisão e a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP) acertaram uma parceria que resultará na co-produção da primeira telenovela luso-brasileira, uma iniciativa que é inédita em se tratando do produto televisivo de maior consumo em ambos os países.
Para tal projeto, as redes de televisão de ambos os países decidiram levar ao ar Paixões Proibidas, uma adaptação livre de três obras do escritor português Camilo Castelo Branco: Amor de Perdição, Mistérios de Lisboa e O Livro Negro do Padre Dinis. A previsão é de que a produção, que será transmitida simultaneamente para os dois países em 2007, terá 160 capítulos, nos quais será contada a trama que trará personagens dos três romances e terá como pano de fundo a vida em quatro localidades diferentes - Lisboa, Coimbra, Rio de Janeiro e na pequena Vila de Resende, interior do Brasil - no ano de 1805. A adaptação dos densos personagens de Camilo Castelo Branco para o ambiente brasileiro ficará à cargo de Aimar Labaki, conhecido dramaturgo paulistano com larga experiência em televisão; a direção caberá a Ignácio Coqueiro (Brasil) e Virgilio Castello (Portugal), este último também ator e que viverá na trama o próprio Padre Dinis do romance camiliano.
Ainda que seja um desafio interessante para ambas as emissoras a consecução de um projeto de telenovela que agrade tanto o gosto do público brasileiro quanto do português, a idéia de levar aos telespectadores de ambos os países a adaptação de obras de ficção de tamanha importância em nossa história literária merece um voto de confiança. Talvez seja este mais um passo para que a produção cultural de ambos os países aproxime-se um pouco mais. Já é conhecida a paixão que os portugueses têm em relação à música brasileira, que é presença constante nas rádios e palcos lusitanos, o interesse por nossas telenovelas e as temporadas que peças teatrais brasileiras costumam fazer de tempos em tempos nas cidades portuguesas. Mas há ainda uma resistência dos brasileiros em relação à música, ao teatro e a tantas outras formas de manifestação artística produzidas no rico panorama cultural português da atualidade. A única - e imensa - fenda que existe nesta muralha que nos distancia parece ser a literatura - e ainda assim impulsionada por grandes nomes do passado e do presente, de Fernando Pessoa a José Saramago, de Florbela Espanca a Eça de Queiroz, cuja obra sobrevive nas estantes de bibliotecas de todo o país graças ao esforço dos professores de literatura que vêem nos livros este poder especial de romper fronteiras.
Camilo Castelo Branco parece ser, por conta disso, uma acertada escolha para um projeto em conjunto das televisões brasileira e lusitana. Todas as vezes em que a televisão brasileira adaptou obras literárias de autores portugueses - há que se recordar “As Pupilas do Senhor Reitor” (SBT), “O Primo Basílio” e “Os Maias” (Globo) - o resultado artístico foi primoroso e o interesse do público, ainda que tardio, sempre justificou tais investidas.
A falta de acesso da produção cultural portuguesa aos brasileiros é, em muitos aspectos, difícil de compreender. Falamos a mesma língua, ainda que com variações que são o terror de alguns ouvidos menos acostumados, que rechaçam a prosódia portuguesa como se o português do Brasil fosse um código límpido e livre de sotaques em todas as partes do país. Não há como justificar o fato de os brasileiros preferirem ouvir uma língua estrangeira à sua própria, ainda que com diferenças de vocabulário e de pronúncia - a não ser pela condição nossa de colonizados culturais que somos da máquina de entretenimento dos países de língua inglesa. Mas o distanciamento brasileiro é fruto de fatores tão variados e isolados - pouco investimento brasileiro em educação e cultura, resistência dos meios de comunicação em apresentar ao público brasileiro a produção cultural portuguesa, invasão desenfreada da produção cultural em língua inglesa - que por vezes parece impossível que um projeto como Paixões Proibidas possa resistir incólume. Mas quem sabe não será esta uma iniciativa a ser reproduzida por outras emissoras e o início de um acostumar-se ao jeito português de ser lusófono. Com mais iniciativas deste tipo, aos poucos os brasileiros irão dar-se conta de quantas coisas temos em comum - de bom e de mal - com o modo de ver o mundo de nossos irmãos portugueses.
Wednesday, July 26, 2006
De Cuba Traigo un Cantar…
Hilda Molina Morejón é uma importante neurocirurgiã de origem argentina. Entusiasta da Revolução Cubana que levou ao poder naquela ilha caribenha a Fidel Castro e seus companheiros de luta armada, Hilda fixou residência em Havana e, por sua reconhecida competência, foi designada diretora do Centro Internacional de Restauração Neurológica (CIREN) de Cuba. Mas, ainda que pertencendo ao primeiro escalão dos estrangeiros que apóiam e ocupam cargos de importância no governo castrista, Hilda Molina Morejón cometeu um grave equívoco: protestou, rompeu e denunciou as mazelas que viu em seus anos de direção à frente daquele hospital.
A Dra. Morejón lutou por uma causa nobre: em 1994, descobriu a existência de uma máfia de tráfico de órgãos dentro do CIREN e, o que era ainda mais grave, com a participação e anuência de altos funcionários do Governo de Cuba. Ela constatou que órgãos de seres humanos, sobretudo de fetos provenientes de abortos induzidos clinicamente, estavam sendo vendidos para estrangeiros que viajavam para Cuba com o propósito de receber tais órgãos em transplantes. O principal produto desse comércio era material de medula óssea, muitas vezes extraído sem qualquer consentimento das famílias. Ao trazer a público tal denúncia, Hilda Molina Morejón renunciou a seu cargo de direção, devolveu as medalhas ofertadas pela Revolução Cubana e desvinculou-se do governo, inclusive de seu mandato como deputada da chamada Asamblea Nacional del Poder Popular. Como forma de seguir atuando como médica na ilha de Fidel Castro, fundou o Colégio Médico Independente de Cuba, entidade que mantém na clandestinidade por pressão do governo cubano.
Desde então, Hilda Molina Morejón e sua mãe, Hilda Morejón - uma anciã de oitenta e sete anos - foram proibidas de se retirar do país, ainda que sendo ambas cidadãs argentinas. Ambas foram declaradas “inimigas do povo cubano” e a Dra. Morejón teve o pagamento de sua aposentadoria arbitrariamente suspenso por ordem do governo. Vivendo da pensão de aproximadamente US$ 8 (oito dólares estadunidenses) da mãe, as duas mulheres vivem sob constante ameaça de simpatizantes do regime castrista e, segundo denúncias de movimentos de direitos humanos de Cuba e de outros países, a casa onde ambas residem transformou-se em um dos alvos preferidos de vândalos.
O caso de Hilda Molina Morejón retornou à imprensa mundial depois que na recente Cúpula de Presidentes do Mercosul, realizada em Córdoba, Argentina, o presidente do país anfitrião, Nestor Kirchner, entregou ao presidente de Cuba, Fidel Castro, uma carta na qual solicita a liberação da médica argentina para que possa retornar ao seu país de origem e visitar seus familiares, dentre os quais seu único filho, os quais não vê há pelo menos doze anos. O gesto de Kirchner, contudo, é visto pela imprensa argentina como ”teatral” diante das críticas que a oposição daquele país tem feito, há anos, à inação da chancelaria argentina. Em 2003, o irmão da dissidente do regime cubano, Roberto Quiñones, deu início à campanha nacional em protesto pela decisão cubana, a qual culminou, em 2004, com a queda do chefe do gabinete do Ministério das Relações Exteriores da Argentina, que viera à público defender abertamente a liberação de Molina.
Curioso é que a justificativa para que o governo de Fidel Castro não libere Hilda Molina Morejón, ou seja, não lhe conceda a autorização especial de viagem ao exterior que todo cidadão livre cubano precisa ter para sair do país, é a de que o “cérebro [da cientista] é patrimônio do país e do povo cubano”.
A apatia do governo argentino ao negociar com Cuba o retorno de suas duas cidadãs para o país reflete uma certa permissividade que parece trespassar boa parte dos governos latino-americanos da atualidade. Difícil não recordar da falta de atitude do governo brasileiro, por exemplo, diante do confisco das refinarias da Petrobrás na Bolívia, ou dos cuidados excessivos dos países do Mercosul em incluir na pauta de discussões da Cúpula de Córdoba quaisquer questões afeitas aos direitos humanos - já que o convidado especial do evento era justamente Fidel Castro, acusado por diversas organizações não-governamentais ao redor do mundo por crimes contra a liberdade.
Por que será que a América Latina, de tantas chagas causadas por regimes totalitários e militaristas, parece não ter aprendido ainda a lição e caminha, algo inocente, na direção dos braços generosos de ditadores mal disfarçados? Quando será que nos salvaremos desse populista canto sedutor de sereia que parece emanar de Cuba e outras paragens e caudilhos? Arrisco-me a pensar que aquilo que mais encanta em governo como o de Cuba, para os nossos dirigentes latino-americanos, é a sua capacidade de perpetuar-se no poder.
Será, então, esse o sonho de uma América Latina unida e forte, uma ditadura à 1984? Se este for o projeto de futuro, não há mesmo razão para que Hilda Molina Morejón saia de Havana. Não valerá a pena trocar a matriz por uma das cópias em esboço.
Wednesday, July 19, 2006
Inclusão Digital e Analfabetismo Funcional
Querem um exemplo? Semana passada, minha irmã foi ao posto da Receita Federal de Ipanema e presenciou o seguinte diálogo entre um senhor idoso que tentava requerer sua restituição e uma funcionária:
- O senhor precisa fazer o pedido via internet.
- Mas eu não tenho computador.
- O senhor pode fazer isso em qualquer cybercafé.
- Mas eu não sei mexer em computador.
- Pede pra qualquer pessoa fazer.
- E eu vou dar meu CPF e dados bancários pra qualquer pessoa?
- Então não posso fazer nada.
É isso aí, a Receita está lutando pela inclusão digital do contribuinte brasileiro. Com unhas e dentes. Doa a quem doer.
(João Ximenes Braga - jornal O Globo)
“O Brasil é um país de contrastes” - creio que não há frase mais revisitada que esta para tentar explicar o nosso país que vive entre a miséria de muitos e o primeiro-mundismo de poucos. Há entre esses dois extremos toda uma faixa da população que almeja um e abomina o outro lado dessa realidade - e em meio a esse turbilhão os governos nossos que querem caminhar em direção à modernidade mas têm a prender-lhes as correntes pesadas de uma herança de pobreza que não conseguem dirimir.
Lembro-me sempre de uma situação pitoresca envolvendo um recente ex-ministro da Educação. Uma grande emissora de televisão exibiu uma reportagem sobre uma professora no interior do Piauí que lecionava em um barracão sem iluminação, de chão batido e paredes de madeira, no qual abrigava diariamente vinte crianças das mais diversas séries escolares por várias horas do dia no esforço imensurável de levar-lhes o saber - que para ela também era pouco, já que se tratava de uma heroína que tinha apenas a quarta série primária mas enfrentava com bravura aquela tarefa que lhe rendia mensalmente a metade de um salário-mínimo. Como desfecho da reportagem, contundente e dura, aparecia o tal ministro respondendo ao repórter, de modo displicente, algo próximo a estas palavras:
“Estaremos ainda este mês estendendo o programa do laptop de cem dólares a diversos municípios do interior do país, em uma ação pioneira do governo federal.”
É bem verdade que não sabemos a pergunta que o repórter lhe dirigiu, talvez alguma coisa totalmente desconectada do caso da professora piauiense, mas é duro imaginar que o Ministério da Educação tenha preocupações tão modernizantes quanto a de municiar as pequenas escolas do interior do país com computadores portáteis antes mesmo de elas receberem paredes de alvenaria, pisos de cimento ou a sonhada luz elétrica. É difícil pensar que um ministro brasileiro desconheça a realidade das professoras primárias que sobrevivem com o que muitos de nós gastamos em uma tarde de compras no shopping center mais próximo. Mas a verdade é que a situação de indigência das várias esferas do Poder Público no Brasil está bem mais próxima de nós que imaginamos: ainda há atualmente, em Porto Alegre, uma das maiores capitais do país, escolas de primeiro e segundo grau nas quais professores usam mimeógrafos a álcool para preparar material de aula para os alunos na falta de livros didáticos que o Estado jamais mandou, apesar das promessas.
Como, meu Deus, forçar à população os resultados mais modernos da chamada inclusão digital quando os resultados do último Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), realizado pelo grupo Ibope, dizem que apenas 26% (vinte e seis por cento) da população brasileira entre 15 e 64 anos são plenamente alfabetizados?
Por isso, esses choques de modernidade e indigência social ainda irão pairar por muitos e muitos anos sobre a vida dos brasileiros: o importante é o anúncio das medidas governamentais, e não seu resultado prático, sua capacidade de responder às demandas reais da sociedade, sua adequação à vida dos brasileiros como um todo, sem exclusões ou preconceitos de qualquer sorte.
Thursday, July 6, 2006
[Gosto de roubar de teus lábios]

o calado amor;
de pescar em tua boca
palavras não ditas;
de traduzir em silêncio,
de tua língua em desejo,
poemas esquecidos
- a caminho de teus ouvidos -
por minha língua, em um beijo.
Poema primeiro da obra

dedicada à minha esposa, Tatiana
(2000)
(Robertson Frizero Barros)
Wednesday, July 5, 2006
Está na hora de apagar a velinha?
Esqueçam a menina que, com seu melhor vestido bordado, acabava sujando-o com um pedaço do bolo de chocolate e desatava a chorar. Esqueçam a parada silenciosa dos pacotes abertos de presentes sobre a cama. Esqueçam aquele primo traquinas que acabava sempre destruindo aquele brinquedo que você havia acabado de ganhar do seu padrinho. Ah, e esqueçam também os balões, as línguas-de-sogra, o “Felicidades” escrito em letras maiúsculas de papel e unidos por um barbante estendido sobre o salão de festas, o disquinho de canções infantis tocando eternamente ao fundo, a briga saudável para ver quem chegava primeiro no prato de brigadeiros que só era liberado depois do “Parabéns a Você”. Aliás, esqueça até mesmo o “Parabéns a Você”, pois no meio infantil dos dias correntes até mesmo a cançãozinha tola, que em língua portuguesa ganhou tradução tão simpática, tornou-se obsoleta, coisa de gente velha mesmo - velhos como eu e você, leitor.
A nova moda - para as crianças mais abastadas, é claro - em termos de celebrações natalícias para as adolescentes entre nove e treze anos de idade é comemorar o aniversário em um salão de beleza. A idéia é original: a aniversariante chama as amigas para uma tarde em um beauty parlor e, entre docinhos e salgadinhos, todas são convidadas a desfrutar das ofertas de tratamento de beleza do estabelecimento, que vão de unhas artísticas a lavagem de cabelos e escova, de massagem relaxante a banho com leite, rosas e ervas aromáticas - sem esquecer da maquiagem e dos apliques e acessórios capilares diversos.
Em entrevista à revista VEJA São Paulo, o proprietário de um dos dois salões de beleza daquela cidade que já oferecem o serviço disse que “hoje em dia a vaidade é despertada cedo nas crianças e nós oferecemos as ferramentas de que elas precisam”. Este culto à beleza é incentivado pelas mães de adolescentes paulistanas de classe alta , que têm feito os dois salões de beleza manter uma média de duas festas por semana; os custos não são nada modestos, variando entre R$ 80,00 e R$ 110,00 por convidada.
Entre os meninos, os gostos são naturalmente diferentes: em grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo os pais têm optado por fechar LAN HOUSES - as famigeradas “casas de jogos eletrônicos”, onde os adolescentes podem jogar diversos games em rede por horas e horas e horas - apenas para os convidados do aniversariante, e o que seria uma festa de aniversário acaba por tornar-se uma silenciosa disputa entre os jovens, cada um no seu computador. Sim, ainda há a torta de aniversário, os doces e salgadinhos, típicos de qualquer festa desse tipo - mas tudo controlado para não danificar os teclados e consoles, tampouco para atrapalhar a concentração dos competidores… O custo do aluguel de uma LAN HOUSE para um grupo fechado de convidados não difere muito daquele do salão de beleza para as meninas, pois a versão masculina dessa nova moda em aniversários costuma se extender por muitas horas de competição entre um tiro - virtual - e outro.
Por um lado, o consumo e a vaidade - por outro, a alienação dos jogos eletrônicos… Parece que as festas de aniversário começam a refletir um pouco do que se passa na educação das novas gerações - tudo é permitido, tudo é direito adquirido, nada é contestado pelos pais sob a falsa idéia de que crianças e adolescentes não podem passar por frustrações. As festas infantis, ao menos lá na minha longínqüa infância querida - que os tempos não trazem mais! -, eram um espaço de socialização de nós, pequenos, mas sempre sob a supervisão atenta dos pais. Lembro-me, por exemplo, da lista enorme de recomendações que minha mãe fazia quando acontecia de eu ir a uma festa de aniversário sem a companhia de um adulto - era um desfiar eterno de um rosário de etiqueta e boas maneiras que parecia ser compartilhado por todas as mães e pais de meu círculo de relações. Por mais enfadonho que me parecesse à época, foi ali que comecei a ser educado no salutar convívio em sociedade, onde o limite é medido pelo direito do outro. A regra dessas novidades em termos de festas de aniversário é, ao contrário, que os pais estejam longe do ambiente do encontro - seja a LAN HOUSE ou o salão de beleza - e só apareça por lá para pagar a conta no final do dia… Regras de convivência? Bem, um dia a vida lhes ensina.
E pensar que meu mais louco devaneio de aniversário na infância era ter uma infantil e lúdica piscina de bolinhas de plástico!
Monday, July 3, 2006
A vida depois da Copa
E a França superou-nos a apatia pentacampeã nos noventa minutos de um jogo de futebol que nos pareceu, aos torcedores brasileiros, uma eternidade insuportavelmente lenta…
A vitória da seleção francesa sobre a equipe brasileira de futebol nas quartas-de-final da Copa do Mundo de Futebol tornou-se o assunto inevitável nos últimos dois dias em todas as rodas de amigos, nos telefonemas mais banais para parentes e conhecidos e, sobretudo, nos programas televisivos dos mais variados assuntos. Camisetas foram celeremente guardadas e a decoração de bares, prédios públicos e lojas diversas foi rapidamente arrancada das paredes, como se sua visão se tornasse ofensiva de uma hora para a outra. Após aquele nonagésimo minuto de partida, uma inversão extraordinária promoveu-se em nós, que passamos a achar odiosa aquela propaganda televisiva engraçadinha sobre a torcida brasileira ou obsoleta e de mau gosto aquela outra que falava de um sonhado hexacampeonato… Em um átimo de segundo, enfim, o que era propaganda se transforma em anti-propaganda para as empresas que anunciam nos intervalos televisivos.
É interessante pensarmos um pouco de onde vem essa mística exacerbada que os brasileiros guardam em torno da Copa do Mundo de Futebol. Decerto é algo que surgiu lá do fracasso de 1950, quando a Copa do Mundo realizada no Brasil terminou em um doloroso vice-campeonato contra o pequeno país vizinho, o Uruguai, em pleno maior estádio do mundo construído especialmente para a competição, o Maracanã, no Rio de Janeiro. Daquele dia aziago surgiu um vilão, Barbosa, o goleiro que não conseguiu defender o gol da vitória dos cisplatinos, e uma mania nacional de buscar em uma competição como esta a vitória acima de qualquer outro resultado. Três campeonatos quase consecutivos - na Suécia de 1958, no Chile de 1962 e no México de 1970 - encheram o país de uma aura de invencibilidade que carregariam por mais de uma década a cada Copa do Mundo disputada, e que, malgrado as derrotas anteriores, parecia se confirmar na vitória sofrida por pênaltis na final da competição nos EUA em 1994.
Mas já então, desde a Copa do Mundo de 1970, essa competição internacional tornara-se uma mania nacional e, vergonhosamente, a única razão aparente para que os brasileiros de todos os rincões sintam orgulho de sua nacionalidade e carreguem em si o sentimento de pertencerem a este país. Como em nenhuma outra data nacional, as ruas enfeitam-se de verde-amarelo e as pessoas adotam como moda pessoal essas cores difíceis de se combinar no vestuário; passa-se a saber de cor, mentalmente, os dias e horários dos jogos da seleção brasileira e muitos acompanham com afinco outros jogos de nenhuma importância, apenas para saber de antemão quem serão nossos possíveis adversários. No campo, no dia de jogo do Brasil, parece voltar do passado um certo espírito guerreiro que o país jamais alimentou em sua história.
Mas a Copa continua além da eliminação brasileira, e a vida também continua além da Copa do Mundo de Futebol. Apesar dessas verdades incontestáveis, a mística alimentada pelos meios de comunicação, pela imprensa em geral, parece querer segurar até o último minuto o leitor e o telespectador presos à importância (questionável) da competição. A grade rede de televisão aberta que está a transmitir os jogos da Copa do Mundo da Alemanha, por exemplo, diante da eliminação brasileira já começou seu trabalho de convencimento de que os brasileiros devem, agora, torcer pela “esquadra lusa” comandada por Luiz Felipe Scolari, o técnico do pentacampeonato brasileiro que, sem dúvida, fez falta no comando de nossa atual seleção. “Se não há Brasil, que torçam por um brasileiro”, parece ser o novo motto das televisões e jornais, que precisam seguir vendendo suas cotas de patrocínio, em geral contratadas até o final da competição. “É a língua portuguesa indo adiante na competição”, chegou a proclamar ontem um pseudo-cronista televisivo em uma revista eletrônica dominical. Lembro-me que em copas anteriores, quando o Brasil não era um dos finalistas, chegou-se a sugerir que o público deveria assistir a final da competição para “torcer pelo juiz brasileiro” que iria apitar o jogo, já que ele representava “o Brasil na final”.
Vivemos esta mística que faz alguns contarem os anos de quatro em quatro, anunciando em alguns reveillóns que “este ano nada acontece no Brasil, pois é ano de Copa do Mundo”. Mais que com os próximos quatro anos de preparação para a próxima competição mundial de seleções de futebol, deveríamos agora, eliminados pelos franceses de Zidane e Henry, preocupar-nos com a seleção de senhores e senhoras que iremos escolher para comandar os rumos, nos próximos quatro anos, deste nosso país de tantos recordes lamentáveis no campo social.
Será que a escolha de um ano de Copa do Mundo para ser também o ano de eleições tão amplas como esta, que elege do Presidente da República ao Deputado Estadual, foi mera coincidência de calendário? Daqui surge uma nova mística que tenta associar o resultado da Copa do Mundo com o das eleições majoritárias - mas prefiro seguir vivendo a vida após a Copa do Mundo sem pensar em mais essa possibilidade canhesta dos destinos de meu país.