Friday, May 26, 2006

Aposentado de primeira viagem

O primeiro ato dessa história nós comentamos em cinco de abril de 2006, em um texto intitulado Para o Alto e…Avante? - Marcos Pontes, Tenente-coronel da Aeronáutica, primeiro astronauta brasileiro, teve sua viagem espacial de uma semana na Estação Espacial Internacional (ISS) bancada pelo Governo Brasileiro pela bagatela de US$ 10.000.000,00 (dez milhões de dólares estadunidenses), cerca de vinte por cento de todo o orçamento do Programa Espacial Brasileiro para o ano de 2005.  Naquele texto, lembrávamos que estamos em um país que concede bolsas de doutorado de apenas R$ 1.200,00 (mil e duzentos reais) e no qual as universidades públicas estão cada dia mais sucateadas, mas que tem verba para custear uma viagem de sete dias pelo espaço e de retorno duvidoso para o Brasil.

O segundo ato da farsa espacial brasileira, contudo, é ainda mais tragicômico.  O mesmo Marcos Pontes, quarenta e três anos de idade, apenas um mês depois de regressar de sua aventura espacial, entrou com seu pedido de aposentadoria - em termos militares, pediu reserva.  A notícia, que pegou de surpresa tanto a Agência Espacial Brasileira (AEB) quanto o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), já rende especulações: há órgãos de imprensa que atribuem a aposentadoria precoce do astronauta brasileiro a um convite da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).  Além disso, pelo que se pode deduzir das informações constantes no site oficial do tenente-coronel, a saída do serviço público permitirá que ele possa cobrar por suas palestras - de motivação, de trabalho sob risco ou de vencendo o medo - e dedicar-se a demais atividades na iniciativa privada nas quais sua experiência de cosmonauta pode ser de grande valia.

Os planos para o aproveitamento dos conhecimentos do astronauta nas atividades da AEB , adquiridos por meio de grandes investimentos estatais em sua formação, ficarão certamente comprometidos.  Sérgio Gaudenzi, presidente daquela agência estatal, havia dado carta branca para que o tenente-coronel Pontes decidisse que função gostaria de exercer na AEB, além de tê-lo convidado para capitanear uma viagem de trabalho aos Estados Unidos da América na qual o Brasil irá negociar novas parcerias com a Agência Espacial Estadunidense (NASA).  Com a reserva de Pontes, qualquer participação do ex-militar em atividades da AEB passa a ser remunerada, além de ter que atender à agenda pessoal do astronauta, de sua programação de palestras empresariais pelo país. 

A decisão de Pontes, em que pese ser um direito pessoal seu, dá azo às críticas dos detratores da viagem espacial.  Ennio Candotti, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), disse que a atitude do astronauta confirma sua teoria de que “tudo foi publicidade, algo muito parecido com fogos de artifício, que explodem e logo acabam”.

A saída de Pontes do serviço público,  logo após o alto investimento feito pelos cofres públicos brasileiro, não é ilegal - ao contrário dos servidores públicos, que após um curso financiado pela União precisam cumprir um período de contrapartida, sob pena de indenização dos custos do investimento, não há respaldo legal para que Pontes tenha que retornar aos cofres públicos nenhum tostão.  Ainda assim, há uma questão moral que se sobressai desses acontecimentos.  Partindo de alguém como Pontes, que há pouco tempo dizia ter a intenção de criar um instituto para incentivar a educação de crianças pobres com o apoio da Força Aérea Brasileira e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) - que, aliás, patrocina o site oficial do piloto - tanto descaso com a verba pública é, talvez, a maior das surpresas.

Mas, enfim, no link da loja virtual (sic!) do site oficial do cosmonauta Marcos Pontes é que estão, curiosamente, as explicações do tenente-coronel em vias de entrar para a Reserva, em que ele esclarece que “entrar para a Reserva não significa afastamento do Programa Espacial Brasileiro”…  Mas porque será que essas informações foram publicadas justamente na loja virtual?  Serão apenas mais produtos de merchandising, ou será a tentativa de manter a cotação do produto “Marcos Pontes” no mercado de palestras e afins?   

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Wednesday, May 24, 2006

Cultura às escuras

A importância que os governos no Brasil dão à cultura pode ser medida pela notícia que estampa os jornais de hoje, dia 23 de maio de 2006: o Museu de Arte de São Paulo (MASP), detentor do acervo de arte internacional mais importante do país, teve sua luz cortada por conta de uma dívida de cerca de R$ 3.500.000,00 com a companhia geradora de energia, a Eletropaulo.  O museu, que tem ainda uma dívida de R$ 3.000.000,00 com a Previdência Social em disputa na Justiça, estaria em negociações com a companhia de energia elétrica para que a luz fosse religada para não causar danos à exposição que atualmente ocupa os salões principais do museu - Degas: O Universo de Um Artista, que reúne cento e noventa e seis obras do pintor impressionista francês Edgar Degas (1834-1917), quase todas emprestadas por museus internacionais de renome como o Musée d’Orsay de Paris, a National Gallery de Londres, o Art Institute de Chicago, a National Gallery de Washington e o Metropolitan Museum de Nova Iorque, entre outros. 

O risco maior reside, contudo, no acervo permanente do museu, a sua chamada reserva técnica - o conjunto de obras que são mantidas em condições especiais de conservação para pesquisa e eventuais exibições na coleção permanente do MASP -, a qual poderá sofrer danos irreparáveis com a falta da energia elétrica que mantém em funcionamento desumidificadores e ventilação, refrigeração e climatização.  O acervo do MASP, de mais de 7.500 peças, é estimado em US$ 140.000.000,00, ainda que os especialistas considerem que um conjunto de peças como este não tenha valor de mercado possível, dada a riqueza do conjunto que está ameaçado pelo corte no fornecimento de energia elétrica. 

A crise financeira do museu é antiga.  Em 2004, o MASP chegou a penhorar uma obra avaliada em R$ 4.200.000,00 para levantar fundos que permitissem ao museu pagar algumas dívidas.  Naquele mesmo ano, contudo, o museu viu-se obrigado a adquirir um prédio vizinho ao museu, na mesma Avenida Paulista, por R$ 10.000.000,00, para manutenção de seu acervo nas proximidades das salas de exibição do magnífico prédio projetado por Lina Bardi para abrigar o MASP. 

Os valores estratosféricos que surgem quando falamos na manutenção de um museu como o MASP podem levar alguns a questionar a validade de manter uma instituição tão cara.  Em verdade, é um milagre que o museu tenha conseguido se manter até hoje com um orçamento mensal de aproximadamente R$ 1.500.000,00 anuais.  O valor cultural de possuirmos no Brasil um acervo como o do MASP - e vale a pena visitá-lo, quando em São Paulo, pois não deixa a desejar a muitos museus que os turistas brasileiros gostam de conhecer no exterior - é inquestionável.  O custo financeiro, em comparação a outras instituições do gênero, não é também exorbitante - e dinheiro não falta neste rico país em que vivemos; falta, sim, decência e parcimônia nos administradores públicos, como mostram os tantos escândalos orçamentários a que fomos expostos nos últimos tempos - isso sem pensar nas tantas mostras de arte contemporânea de caráter duvidoso e importância igualmente questionável que vemos nas nossas principais cidades, sob subvenção estatal.  Há que se questionar que país pretendemos construir, com que educação e com que cultura, em uma realidade de penúria na qual um museu como o MASP tem a luz cortada por falta de pagamento.

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Monday, May 22, 2006

Sinistros sinais

O Governo do Irã rechaçou sua existência, mas o jornal canadense National Post divulgou em 19 de maio de 2006 a informação, a eles repassada por dissidentes iranianos que vivem no Canadá, de que o Parlamento Iraniano teria aprovado uma lei que determina que judeus, cristãos e zoroastristas terão que portar faixas de braços de diferentes cores para que eles sejam identificáveis em público.  A notícia foi imediatamente colocada em dúvida por especialistas israelenses que acompanham a vida política do Irã, rechaçada por políticos iranianos e, um dia depois, sairia o desmentido pelo mesmo jornal: o item da lei que determina o código de vestimenta do país - sim, lá eles definem as formas aceitáveis do vestir por meio de lei federal - no qual havia menção de sinais coloridos para a distinção de pessoas de credos diferentes do Islamismo no Irã fora apenas “uma das moções secundárias surgidas durante as discussões” da referida lei.

Verdade ou calúnia dos opositores do regime iraniano exilados na América do Norte, o que há de fato nessa notícia assustadora é que existe uma lei de vestimenta no Irã, de autoria de Muhammad Khatami, a qual estava suspensa desde 2004 e que foi recolocada na pauta de votações do Parlamento Iraniano por pressão do atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad.  A idéia básica da referida lei é a de que os muçulmanos iranianos vistam-se com certos tipos de vestimenta básicos e determinados pela legislação no intuito de “apagar distinções étnicas e de classe” no seio da sociedade iraniana. 

Nas palavras de Ahmadinejad, os novos uniformes estabelecerão uma igualdade visual que os preparará para a vinda do Imã Oculto.  Na crença xiita, a qual domina a política iraniana e faz dele o único país muçulmano do mundo dominado por um regime teocrático de caráter xiita, acredita-se no retorno do décimo-terceiro imã, descendente direto de Ali ibn Abi Talib, primo e sobrinho de Maomé;  esse imã, que não deixou herdeiros, desapareceu sobrenaturalmente no século VIII, e os xiitas crêem que seu retorno no fim dos tempos, como mahdi - uma espécie de messias, em termos judaico-cristãos -, será o início de um reino de felicidade e justiça universais.

Há os que vêem nas atitudes do Irã de Ahmadinejad razões para apoiá-lo.  Na visão desses, o enfrentamento do presidente iraniano à política externa dos Estados Unidos da América é a razão maior de sua admiração torta, e a luta daquele país pela manutenção de seu programa nuclear - justificado por necessidades energéticas, em um país deitado sobre um berço de esplêndidas reservas petrolíferas - é vista como causa justa e em nada merecedora de suspeição.  “Afinal, se é contra os Estados Unidos da América, é do bem”, podemos imaginar alguns desses defensores da causa iraniana a dizer entre goles generosos de capuccino e frases anti-imperialistas de efeito.  Difícil, contudo, para nós ocidentais, é conceber um mundo de justiça e felicidade no qual divisões abjetas como a supostamente estabelecida nos debates da aprovação de tal lei de vestimenta, estabelecendo sinais coloridos para distinguir os não-muçulmanos, sejam determinadas pelo governo.  A ligação entre essa idéia, aterrorizante por remeter imediatamente às práticas da Alemanha nazista - e que viriam a facilitar o projeto funesto hitlerista de limpeza étnica -, e as declarações feitas pelo mesmo presidente Ahmadinejad nas quais dizia não acreditar na existência de um “massacre e perseguição de judeus na Segunda Guerra Mundial” são inevitáveis.  O que pode, e deve, ser evitado, é que um regime temerário como é o atual governo iraniano consiga estabelecer sua visão estreita de justiça e de felicidade a partir da negação dos direitos mais elementares dos seres humanos. 

 

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Friday, May 19, 2006

Cândidos Candidatos

Para os romanos, havia dois tipos distintos de branco. 

O branco comum, aquele que era usado para caiar as casas e os objetos, era denominado em latim albus.  As referências nas línguas modernas a esta cor branca comum estão na palavra album, que originalmente se referiam a placas de madeira alvejadas com gesso e que ficavam expostas em praça pública para que ali fossem transcritos os editos, ordens gerais e outras informações de interesse público.

O outro tipo de branco que aparece na língua latina é o candidus, um branco mais brilhante, que ofuscava a vista dos transeuntes e era a cor das túnicas vestidas por aqueles homens que almejavam assumir um cargo público.  Caso a população acreditasse que aquele homem não merecia trajar aquelas vestes de branco imaculado, ou seja, que não deveria assumir um cargo público, por conta de qualquer traço de caráter que lhe fosse demeritório, tratava de sujar-lhe a túnica jogando-lhe terra e sujeiras outras de modo a deixar claro que um número razoável de cidadãos não aceitavam aquele postulante ao serviço público.  Esta prática passaria aos nossos dias por aforismos como o manchar a honra ou as referências de que fulano ou beltrano está sujo na praça.

Que ironia dos tempos!  O branco imaculado, o candidus, foi a palavra que deu origem ao termo candidato para se referir àqueles que postulam cargos públicos - e, por extensão, qualquer posição na sociedade.  A relação metafórica entre aqueles homens romanos que se colocavam à avaliação do povo para assumir uma função de defesa de seus interesses e os atuais candidatos aos cargos políticos sob disputa nas próximas eleições de outubro rende inúmeras associações mentais - mas será que os nomes que hoje são cogitados para concorrer à Presidência da República, ao Congresso Nacional, às Assembléias Estaduais e ao Poder Executivo de cada unidade da Federação escapariam, ilesos, imaculados, à exposição pública de suas túnicas cândidas?  

Nas últimas eleições tivemos partidos que se vestiram em candidus e com a exposição pública de uma virtude de estátua conseguiram alcançar o poder - ainda que depois o país viesse a descobrir que a túnica era como o sepulcro caiado das parábolas evangélicas, que por dentro guardava a mesma podridão das túnicas de seus antecessores, muitas vezes por eles maculadas com acusações as mais diversas.  Será que algum dos atuais candidatos ousará vestir sua túnica mais cândida para esta disputa?  E será que o eleitor permanecerá deslumbrado com o branco cintilante, ou erguerá as mãos para marcar as túnicas de pureza daqueles que não merecem ocupar nenhum dos cargos públicos que almejam?  Isso só o tempo - e o resultado das urnas - dirá.

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Thursday, May 18, 2006

A Canção da Rendeira

Teço o fio do tempo com cuidado
neste tear de sonhos e saudades
e vejo em mim brotarem estes bordados
— de futuros de paz, de doces fados —
de cada suspirar, cada momento…
Tão natural, tecer eternidades
quando te tenho a ti no pensamento!

Da obra

(2006)
(Robertson Frizero Barros)

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Monday, May 15, 2006

Escravos e Reféns

Treze de maio é um marco histórico por conta do ano de 1888, quando neste dia foram libertados os escravos no Brasil.  Em que pese todo o combate de alguns militantes do movimento negro à celebração desta data, já que a libertação foi feita sem qualquer cuidado quanto à introdução desses outrora escravos no mercado de trabalho e na sociedade brasileira de então.  Os historiadores contemporâneos estão a redimir, contudo, a figura da Princesa Isabel, tantas vezes retratada pelo movimento negro como uma alienada dos problemas dos negros, a qual teria assinado a Lei Áurea por pressões políticas mais que por desejo sincero de mudança; cartas recentemente encontradas, de autoria da princesa, mostram que ela se preocupava com as conseqüências da liberdade repentina dos escravos negros, buscando junto aos seus conselheiros a melhor forma de promover sua condição de novos cidadãos brasileiros uma vez estabelecida a nova realidade jurídica naquele Brasil dos últimos anos do Império.

Ironicamente, o treze de maio ficará marcado, cento e dezoito anos depois da Lei Áurea, pela violência das rebeliões e ataques perpretados por criminosos em diversas cidades de três estados brasileiros.  Pelos meios de comunicação, fomos informados continuamente do terror que se assomava sobre a maior cidade do país, São Paulo, capital do estado brasileiro mais rico e produtivo: ônibus queimados, policiais e bombeiros assassinados em atentados contra postos policiais, quartéis e instalações do Poder Judiciário, rebeliões violentas e outras tantas ações que deixariam, até o final do domingo, um saldo abjeto de cinqüenta e quatro mortos - entre agentes públicos, civis e criminosos - em mais de cem ocorrências e quarenta rebeliões em presídios nos estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul.

Decerto muitas autoridades e estudiosos da criminalidade irão preencher os espaços da mídia com tentativas vãs de explicação do horror que presenciamos e que já repercute na imprensa internacional, tamanha a importância do ocorrido - pois falamos de ataques orquestrados de dentro das penitenciárias, como forma de protesto e retaliação a ações de governo que teriam transferido presos considerados criminosos e com poder de liderança depois de descobertos os planos desses grupos para a realização de ataques em pleno Dia das Mães.  Seria tolo de minha parte somar-me a esses pensadores, que sabem bem mais que eu sobre a tarefa de condução da segurança pública e das atuais condições de nossos sistemas penitenciário, judiciário e penal.  Reflito apenas sobre o quanto aqueles dois dias Treze de Maio parecem estar relacionados à luz dos últimos acontecimentos.

A humanidade contida na promulgação da Lei Áurea não foi o suficiente para tornar os ex-escravos em cidadãos de fato em um Brasil que os teve como animais de trabalho por mais de um século.  Com a liberdade, veio o abandono daqueles homens e mulheres na periferia da sociedade, na sobrevivência dos subempregos e sob o teto pouco protetor das favelas e mocambos.  A impossibilidade de acesso à educação e à cidadania encarregou-se de impedir seu acesso aos meios de produção e de reforçar os preconceitos já existentes nas casas grandes, vinculando permanentemente no Brasil as questões racial e social.  Mas essa imensa massa de ex-escravos, então elevados à categoria de cidadãos-fantasma - na invisibilidade das cozinhas, dos serviços braçais, das tarefas sem qualificação -, cresceu e multiplicou-se, sobreviveu às condições mais indignas e tornou-se a base de sustentação sobre a qual se construiu um país de desigualdades cruéis.

A periferia de hoje é o desaguar daquele abandono inicial, assim como o discurso das autoridades nesses momentos que imediatamente se seguem às crises são reproduções modernas do que se seguiu à libertação dos escravos: uns falam na necessidade de usar a força para controlar as massas, outros falam da premência de mudarmos as estruturas de presídios e de códigos, mas pouco se fala do homem, do indivíduo por trás da ação criminosa, e menos ainda se faz das ações realmente eficazes para prevenir as ocorrências futuras.  Esquecem-se que as rebeliões e atentados futuros já estão sendo gestados no ventre seco das injustiças sociais, das hipócritas experimentações com que nossos governantes tratam a Educação, a Saúde e a Justiça.  É o imediatismo de nossa psique brasileira que, uma vez mais, mostra provas de seu poder destruidor sobre nossos sonhos de nação progressista e democrática. 

Não faço o discurso da periferia eternamente subjugada, que parece defender a idéia de que nascer em berço de pobreza é salvo-conduto para a ação fora-da-lei de criminosos que ordenam a queima de ônibus e o massacre de companheiros de cárcere, cenas infelizmente comuns no nosso passado imediato de rebeliões e atentados perpretados pelo crime organizado.  Creio que muito do que hoje vemos ocorrer é fruto da falta de leis mais severas, de um sistema prisional mais humano e menos permissivo e de exemplos muitos de impunidade que motivam a continuidade no crime.  Mas não há como negar que a escravidão brasileira parece ter apenas mudado de nome, de sistema e de personagens.  A diferença é que os quilombolas de hoje querem invadir a Casa Grande e não apenas deixar a Senzala para uma vida nova na clandestinidade dos Quilombos-guetos.  Não há liberdade alguma para homens que são serviçais do crime e fantasmas em uma sociedade que não lhes parece enxergar.

Guardadas as devidas proporções, somos todos reféns: eles, os criminosos, reféns de outros criminosos que os dominam e a eles ordenam as práticas terroristas contra os homens da lei e a população civil; os agentes públicos, policiais e carcereiros, bombeiros e investigadores, reféns de um sistema judiciário lento e de uma legislação repleta de escapes para que os verdadeiros criminosos não sejam afastados do convívio social, vivendo impunemente entre todos; nós, os homens comuns, reféns da violência por eles perpetrada, a qual parece não ter fim e não receber das autoridades competentes a devida atenção e o devido combate.

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Monday, May 8, 2006

Glasbergen e a arte do bom cartunismo

 

Há alguns anos descobri os traços e o humor de Randy Glasbergen.  Eu estava a procurar por imagens de computadores para ilustrar alguns exercícios de minhas aulas de inglês como língua estrangeira quando me deparei com um de seus cartuns.  Abri a página onde o desenho estava hospedado, em verdade era o site oficial do artista (http://www.glasbergen.com/), e lembro-me de ter esquecido completamente da tarefa que eu estava a fazer na internet: foram mais de trinta minutos visitando os diversos cartuns que Glasbergen disponibiliza em sua página, divididos por temas, variando entre sorrisos de simpatia e gargalhadas histéricas.  Desde então, sou um fã distante, mas incondicional, de seu trabalho.

Fazer rir é uma arte difícil.  Expressar humor através de desenhos que sejam claros e inteligíveis na medida certa do timing humorístico é uma arte para poucos.  Glasbergen consegue fazer isso com uma maestria que me traz à lembrança outros grandes cartunistas da minha memória afetiva, de Charles Schultz a Quino, de Scott Adams a Bill Watterson - apenas para citar alguns dos cartunistas estrangeiros mais conhecidos no Brasil.  Seus traços são precisos, quase geométricos, esquemáticos como costumam ser os traços de muitos bons cartunistas, mas com um poder de sugestão e com uma precisão impressionantes, o que os fazem muito apropriados para o humor.  Seus traços, de tão simples, trazem a impressão da perfeição.  Mas o forte de Glasbergen é o texto.  Suas tiradas são perfeitas, e ocultam uma profundidade de visão sobre a vida que fazem seu humor ser de fácil compreensão mesmo sob as mudanças necessárias da tradução - e isso eu digo apenas por imaginar, pois ainda não tive o privilégio de ver seus trabalhos em nossa língua, apesar de seus livros já terem sido editados em Portugal.

Randy Glasbergen começou cedo sua carreira de cartunista, aos quinze anos de idade, mas se tornou um profissional da atividade após o primeiro ano de curso de jornalismo em uma universidade do estado de Nova Iorque.  Desde 1976 dedica-se inteiramente ao ofício de produzir cartoons, os quais são usados por um sem número de empresas e meios de comunicação, incluindo jornais de todo o mundo, que publicam sua engraçadíssima série de tirinhas, intitulada The Better Half, sobre as dores e delícias do matrimônio, aliás um tema recorrente em seu trabalho, juntamente com os cartuns sobre crianças, adolescentes e sobre o ambiente de trabalho - com piadas que nada deixam a desejar aos melhores momentos de Dilbert, apenas para citar um cartunista conhecido de nós, brasileiros.

O que mais posso dizer de Randy Glasbergen?  O pouco que consigo ver de seu trabalho através de seu site na internet tem me servido de remédio certeiro para curar os momentos mais difíceis de meu dia-a-dia de burocrata e professor.  Não poucas vezes eu me reconheci nos personagens e nas situações ali descritas, um mérito que se pode atribuir à atualidade e à precisão com que o artista parece dominar seu ofício.  E pelo meio de obras como a de Glasbergen - e a de Quino, e a de Schultz, de Watterson, de Iotti, de Fernando Gonsales, de Adams, de Ziraldo… - é que podemos assumir que o cartunismo é, sim, uma arte. E das mais difíceis, porque sob ameaça constante de desaparecimento com o tempo e sob sua tirania, a do tempo, sempre produzida.      

 

    

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Friday, May 5, 2006

Quintanares

 

“O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para o bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta.”

(O Poema, de Mário Quintana)

 

Há exatos doze anos, no dia 5 de maio de 1994, morria Mário Quintana.

Eu estava em alto-mar naquele dia, a trabalho, em meio a uma operação de patrulhamento da costa brasileira, distante quase duzentas milhas do litoral do Rio Grande do Sul, aproximadamente na mesma latitude da cidade de Porto Alegre.  Recordo-me que navegávamos com o ouvido atento às transmissões radiofônicas, pois dias antes havia falecido o piloto de corridas Ayrton Senna, o ídolo esportivo de maior evidência à época, que morrera em um acidente em meio a uma das provas da Fórmula 1, no auge de sua fama e juventude.  Distantes do alcance das imagens televisivas, acompanhávamos pelo rádio a comoção de todo um país pela morte do jovem herói que então elevava a auto-estima dos brasileiros pelas vitórias nas pistas.  E foi em meio a uma dessas transmissões radiofônicas que me chegou a notícia do passamento de Mário Quintana.

Descobri sua poesia ainda muito jovem, e não tenho receios de confessar que muito de minha produção poética primeira foi uma emulação de seu estilo e seu frescor.  Emulação, não; melhor seria dizer uma tentativa, pois cedo também descobri que cada poeta é único e, com o perdão do jogo tolo de palavras, Mário Quintana parecia mesmo ser mais único que os outros.  Minha proximidade com sua poesia, ao menos, garantia-me um consolo ao fato de eu jamais conseguir escrever com o mesmo frescor, a mesma ironia e profunda simplicidade que o poeta de Porto Alegre: ser um leitor de Quintana, talvez mais que a um leitor de outros tantos poetas, faz com que você sinta como suas aquelas poesias.  E a poesia, como um gênero que cresce e cresce a cada leitura, e que te permite ler e reler diversas vezes sem que se perca o interesse pelo texto, em Quintana parece se tornar ainda mais pessoal e íntima a cada leitor - por isso, não raro, sempre me vinham à mente seus versos, em momentos de contrariaedade ou de alegria, em livre associação das idéias do poeta com a vida por mim vivida.  Aqueles versos eram meus, apenas não haviam sido por mim escritos.

E a notícia da morte de Quintana comoveu-me.  A ocasião não me permitiu expor a minha tristeza a ninguém, e essa contenção fazia um bizarro contraste com as manifestações de luto histérico pela morte de Ayrton Senna que ouvíamos pelo rádio.  Mas será que um poeta jamais causaria arroubos de emoção histérica, velórios intermináveis, dias e dias de melancolia exposta nos noticiários de televisão, ou motivaria com a sua morte o suicídio de jovens fãs, como ocorreu com o falecimento de nosso melhor piloto de corridas?  Penso que não, e talvez a resposta esteja nos próprios versos de Quintana.  Pois o poeta morre, mas a obra fica.  E um atleta, desde os tempos imemoriais da Pólis grega, é digno de louros enquanto vivo e presenteando seu país com vitórias.  Depois de morto, infelizmente, o atleta é apenas memória, seja ela viva em nossas mentes ou petrificada em estátuas e nomes de logradouros.  O poeta não, ele é insistente, e fica no meio de nós em seus versos, pois “o eco do poema desloca os perfis”, incomoda e comove, causa em nós pequeníssimos abalos sísmicos que só ao longo do tempo irão mostrar suas marcas indeléveis.

E há exatos doze anos, no dia 5 de maio de 1994, o poeta Mário Quintana mudou-se de Porto Alegre e passou a habitar os seus livros. 

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Thursday, May 4, 2006

Brasil, pólo exportador de pilantragem

Um cidadão de Hong Kong, através de sua denúncia à polícia de Roma, Itália, fez despertar o interesse das autoridades daquele importante destino turístico para a ação de quadrilhas que estariam vilipendiando turistas por meio de coação e de um simulado desconhecimento lingüístico. 

Segundo o advogado do Serviço de Defesa do Consumidor da Itália, Sergio Scicchitano, o turista chinês - que pediu às autoridades para ter seu nome mantido em sigilo - teria sido coagido a pagar 990 euros por uma simples cerveja.  Suspeita-se que o golpe envolva um grande número de pessoas: o turista foi levado a um bar na famosa Via Venetto, em Roma, onde pediu uma cerveja; algum tempo depois, duas mulheres sentaram-se à mesa e pediram ao garçom duas taças de champagne, às quais ele se recusou a pagar.   Mesmo assim, ao pedir a conta, o valor cobrado era de 990 euros; tentando explicar o ocorrido aos donos do bar, ele foi coagido a pagar, já que todos à sua volta diziam não compreender o que ele dizia, pois ele falava em inglês - língua que os presentes fingiram não entender. 

O fato poderia ser visto como uma infeliz coincidência para o turista de Hong Kong, mas a polícia romana já registrou outras queixas semelhantes e começou a investigar, a partir desta última denúncia, a possibilidade de haver uma quadrilha especializada nesses tipos de golpe, as quais uniriam os aliciadores e os donos de estabelecimentos comerciais.  A nota triste desta notícia é que nas diversas denúncias feitas à polícia de Roma, o aliciador das vítimas, ou seja, o homem que as levava até o bar onde o imbroglio acontecia, era sempre um brasileiro. 

E assim vai-se construindo a imagem de nosso país no exterior: pouco a pouco, a cada prostituta que exportamos - pelas mãos sujas e tenebrosas do tráfico de mulheres -, a cada pilantra que vai para a Europa aplicar golpes em turistas incautos, a cada policial carioca que tenta extorquir o turista estrangeiro em visita ao Brasil, a cada parlamentar corrupto que escapa à cassação em plenário, a cada travesti do Bois de Bologne que assalta seus clientes à navalhadas, a cada turista brasileiro que pula a roleta do metrô de Barcelona ou rouba jornais dos dispensers de rua na Alemanha, enfim, a cada mostra que damos aos estrangeiros do famoso e detestável jeitinho brasileiro.

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Tuesday, May 2, 2006

Nacionalismo com o Dinheiro Alheio

Neste dia do trabalho, o governo central da Bolívia decidiu agir em defesa dos interesses nacionais e baixou um decreto que confisca os bens das empresas estrangeiras de exploração de petróleo naquele país sob o nome de nacionalização.  O exército boliviano tomou conta das instalações de poços de exploração e refinarias, e tais empresas estrangeiras têm o prazo de setenta e cinco dias para renegociar seus contratos com o país ou sofrer o total confisco de seus bens pelo governo boliviano.

A medida de Evo Morales, atual presidente da Bolívia, que foi eleito após inúmeras crises institucionais provocadas, em grande parte, pelos grupos por ele coordenados - ele era líder indígena e presidente do sindicato dos cocaleiros da Bolívia quando de sua eleição - não surpreende ninguém em seu radicalismo.  Com maior ou menor intensidade, seu discurso é o mesmo que o de tantos outros líderes sul-americanos que recentemente ascenderam ao poder pela escolha das urnas - caso de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, e Alejandro Toledo, no Peru - ou por um misto de eleição democrática e expedientes ditatoriais - caso de Hugo Chávez, na Venezuela: libertar o povo oprimido da situação de pobreza e opressão, defender os interesses nacionais, promover o crescimento nacional a partir das riquezas naturais de seus países. 

No caso boliviano, é curioso que este movimento de nacionalização venha a ocorrer justamente depois que o gás boliviano passou a ser imprescindível para o Brasil - estima-se que 75% (setenta e cinco por cento) do gás combustível usado em São Paulo seja de origem boliviana; em estados das regiões Sul e Centro-oeste do Brasil, o percentual chega a 100% (cem por cento).  É imperioso também recordar que a exploração do gás natural da Bolívia deu-se por intermédio justamente de empresas estrangeiras - o termo mais apropriado seria multinacionais, já que foram abertas empresas na Bolívia para que se efetuasse tal exploração - como a brasileira Petrobrás, que desde sua instalação em solo boliviano já investiu naquele país cerca de R$ 1.500.000.000,00 (um bilhão e quinhentos milhões de reais).  Uma vez estabelecidas as condições para a exploração e a distribuição do gás boliviano, com a construção de um vastíssimo gasoduto que possibilitou a chegada do produto até mercados promissores como o de São Paulo e da Região Sul do Brasil, o governo de Evo Morales decide usar da força de seu exército para garantir os interesses nacionais.  E que as empresas estrangeiras aceitem as novas leis ou entreguem seus bens ao governo, está é a mensagem por trás das medidas do governo.  E é claro que renegociar contratos de modo a atender os interesses da Bolívia irá significar perdas significativas de investimentos por parte das empresas que trouxeram à flor da terra o gás boliviano que aquele país não conseguiria estar extraindo hoje sem a ação dessas mesmas empresas estrangeiras.

Para o dia 2 de maio de 2006, foram convocadas no Brasil reuniões extraordinárias do presidente Lula com seus ministros e assessores, sobretudo das pastas de Relações Internacionais e Minas e Energias, para discutir o que fazer diante do ultimato dado pelo governo de Morales à Petrobrás.  Luiz Inácio da Silva e Evo Morales, é notório, sempre foram muito próximos em seus discursos, considerando-se “irmãos de causa” em seus respectivos países, nisto que já foi chamado pelos observadores internacionais de “guinada à esquerda” da América Latina.  Diante disso, qual será a decisão de Lula, que interesses nacionais serão mais fortes neste caso, os do Brasil ou os da Bolívia?  Tomando por base algumas decisões tomadas por Lula na política externa dos últimos anos, não será de se espantar se ele decidir simplesmente acatar as decisões de Morales sem sequer retrucar - afinal, ele é o mandatário magnânimo que perdoou a dívida externa de ditadores africanos e levou os empréstimos do BNDES para os países vizinhos.

É realmente difícil encontrar um meio-termo entre governantes que em seu discurso pregam a igualdade ampla e absoluta - e não a igualdade de oportunidades, a que valoriza o trabalho e o esforço -, a interferência massiva do Estado na economia, as medidas paternalistas de amparo total aos carentes sem o contraponto da educação e da formação de mão-de-obra para a construção de países melhores para suas populações desamparadas.  Fosse o discurso voltado para um Estado mínimo, que propiciasse a ação privada e não a sufocasse com enxurradas de impostos, como é o caso brasileiro, ou a mão firme de um exército usado para tomar posse de empresas multinacionais, caso da atual Bolívia, e a reunião de Lula com seus ministros seria bem mais tranqüila - ou sequer seria necessária. 

Mas consigo até vislumbrar alguns que devem estar a festejar a medida radical de Evo Morales como uma “vitória diante do capitalismo estrangeiro”…posso até imaginar o próprio, o presidente dos bolivianos, o mesmo que indicou uma dona-de-casa para o Minsitério da Educação, discursando em cadeia nacional sobre a conquista do povo boliviano sobre o capital multinacional.  Um belo avanço, sem dúvida, feito com dinheiro brasileiro e de outras nacionalidades - um quase estelionato que certamente lançará a credibilidade da Bolívia, um país que não tem muito mais a oferecer do que gás combustível como riqueza natural, sob uma suspeição que poderá ser difícil de ser contornada em um futuro próximo.

Posted by Frizero at 00:43:50 | Permalink | Comments (6)