Thursday, April 6, 2006

Paixão Segundo Meus Olhos

As rugas desenham em meu rosto
as vicissitudes do tempo.
Tenho sede. É chegada a hora.
Ecoam meus passos cansados
a caminho do calvário.
Tiram sorte de minhas vestes:
não está tão bem cotado
o corpo de um poeta…
Deitam-me sobre minha cruz.
Fincam-me as mãos, e de minhas chagas
escorre um sangue rubro
como nunca imaginei
que o tivesse assim tão belo.
Sinto dores, mas não sofro.
Bebo fel, que nunca teve
gosto tão adocicado.
Oh, deuses de meu destino,
porque me glorificais?
Tenho sede. É chegado o instante
da derradeira poesia.
A cabeça pende, os olhos cerram-se,
o rosto toma o caráter
da derradeira angústia.
Quebram-me as pernas, mas não as asas.
Pai, em tuas piedosas mãos
entrego meu pobre espírito!

Da obra

(1996)
(Robertson Frizero Barros)

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Wednesday, April 5, 2006

Para o alto e…avante?

Confesso que não consigo ver o episódio da primeira viagem espacial de um astronauta brasileiro com os olhos patriótico-ufanistas com que a imprensa em geral tem tratado o tema.

Não se trata, aqui, de tirar os méritos de Marcos Pontes, tampouco de tecer críticas à sua pessoa.  Creio que sua escolha para a honraria de ser o primeiro cosmonauta do Brasil foi inteiramente baseada em critérios técnicos - algo que, em se tratando do serviço público brasileiro, em que tantos viajam pelo país e pelo exterior por conta de tantos outros fatores que não de seu talento, beira à exceção.  Seu exaustivo treinamento é coisa para poucos; chego a pensar que se a aventura espacial consistisse apenas em algumas reuniões no exterior, à custa de diárias em dólar estadunidense e com ampla possibilidade turística para o escolhido, talvez não tivesse sido ele o escolhido e, sim, algum protegido de alguma autoridade da cúpula da Aeronáutica ou do Ministério da Ciência e Tecnologia.  Mas sua preparação envolveu um esforço de meses e meses e era preciso escolher, de fato, alguém com competência e capacidade física e mental para o desafio da viagem espacial.  Imagino o quanto esta viagem está sendo importante para ele, Marcos Pontes, que entrou assim para a história.  Mas há outros fatores, dos pragmáticos aos mais ridículos, que me impedem de comemorar esta “vitória” do programa espacial brasileiro. 

Várias autoridades brasileiras foram unânimes em dizer que a viagem de Marcos Pontes à Estação Espacial Internacional (ISS) tem por propósito “divulgar o programa espacial brasileiro e desenvolver nos jovens o interesse pela ciência e tecnologia”.  Sérgio Gaudenzi, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), chegou a afirmar que o evento “ajudará a desenvolver o setor”, que nos últimos anos viveu seus altos e baixos, sendo o mais notório deles o terrível acidente ocorrido em Alcântara, Maranhão, quando da explosão de um foguete por ocasião de seu lançamento, o qual representou perdas materiais e, o que é pior, perdas humanas irreparáveis.  Gaudenzi vê na viagem espacial uma possibilidade de que o Programa Espacial Brasileiro deixe de ser um projeto de governos para ser um projeto de estado - algo sinceramente muito utópico em um país no qual educação, economia e saúde, apenas para citar algumas áreas mais visíveis da ação governamental, jamais foram “projetos de estado”, mudando suas diretivas a cada governo que entra.

E daí chegamos à questão orçamentária.  A viagem de Marcos Pontes à ISS, e apenas a viagem, custará aos cofres públicos a quantia de US$ 10.000.000,00 (dez milhões de dólares estadunidenses).  O orçamento do Programa Espacial Brasileiro em 2005 foi de aproximadamente R$ 100.000.000,00 (cem milhões de reais), o que faz com que a aventura espacial, que alguns cientistas chamaram de “uma carona em uma nave espacial russa”, custe o equivalente a vinte por cento do orçamento anual da AEB.  Comparando com outros dados de orçamento do programa, cabe ressaltar que o investimento brasileiro na ISS, a partir de um acordo firmado com a NASA em 1997, é de US$ 10.000.000,00 (dez milhões de dólares estadunidenses) por ano, o equivalente a uma única viagem de alguns dias à estação espacial, e de um único astronauta.

Mas a viagem de Pontes, dizem as autoridades governamentais, trará “visibilidade ao programa espacial brasileiro”.  A missão, que foi batizada de “Centenário” em homenagem aos 100 anos do primeiro vôo do “14 Bis”, de Alberto Santos-Dumont, tem, de fato, gerado factóides na imprensa brasileira.  Marcos Pontes tem aparecido diariamente nos noticiários televisivos, ora erguendo a bandeira brasileira para as câmeras, ora ostentando o chapéu e o lenço de Santos-Dumont.  Mas o carismático astronauta brasileiro, cujo sorriso tem sido comparado pela imprensa russa ao do herói-cosmonauta soviético Yuri Gagarin, não pode ser culpado por essa publicidade envolta na primeira viagem espacial de um brasileiro.  Há fatos que parecem inequivocamente uma programação de marketing da atual gestão do governo brasileiro, como, por exemplo, os experimentos de plantio de feijão, originados em uma escola de periferia de São Bernardo do Campo - cidade-símbolo da subida do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder -, que Pontes levou para a ISS.  “Então estamos indo ao espaço, ao custo astronômico que é, para plantar feijões em algodão?”, é a pergunta que ouvi dia desses de um passageiro do ônibus no qual eu regressava de minha universidade pública, “Mas quanto não poderiam fazer pela educação primária com esse dinheiro todo?!”.  Com a palavra, o governo brasileiro.

O astronauta diz que quer servir de símbolo para os jovens brasileiros.  Pergunto-me quantos dos meninos e meninas que hoje o vêem na televisão poderão ver seus sonhos de se tornar um cosmonauta brasileiro realizados ao custo de US$ 10.000.000,00 (dez milhões de dólares estadunidenses) por viagem - sem contar os gastos de treinamento, viagem, hospedagem, diárias…  E não custa lembrar que estamos a falar de um país de analfabetos funcionais, que investe valores pífios por aluno das classes iniciais, que não forma leitores e não se preocupa com o produto final do processo escolar; um país que não tem um projeto unificado de crescimento por meio da educação aos moldes de uma Finlândia ou de uma Coréia do Sul, exemplos de países que em vinte anos deram um salto tecnológico - e de qualidade de vida para seus nacionais; um país que pouco investe - e que muitas vezes investe mal e sem proteção ao conhecimento que prodz - em pesquisa e desenvolvimento.  Falamos, enfim, de um país como o Brasil, onde não se consegue planejar nada para um futuro de décadas adiante e onde o dinheiro público é tratado como fonte inesgotável de recursos ou como dinheiro de ninguém

Mas chegamos ao espaço, e para alguns mais otimistas parece ser isso que importa.  Se ganharmos o hexacampeonato mundial de futebol em 2006, então, aí é que o Brasil estará mesmo além da Via Láctea…

Posted by Frizero at 13:37:25 | Permalink | Comments (3)

Monday, April 3, 2006

A Divina Arte de Explicar a Arte

Não são poucos os que dizem que compreender a arte é algo complexo e, por vezes, confuso e sem sentido. Talvez os que assim pensam têm em mente a arte contemporânea, questionável e polêmica por si mesma, mas certamente não conhecem o que há de mais claro e conciso em termos de apresentação da história da arte em televisão em nossos dias: os documentários produzidos pela BBC de Londres e apresentados por Wendy Beckett.

Beckett é uma estudiosa da história da arte e tornou-se famosa no mundo por meio da série de programas para a televisão que começam a ser veiculados em rede aberta no Brasil por meio, é claro, da rede de televisão educativa, aos domingos. Há algo de muito peculiar em Wendy Beckett: ela não é particularmente bonita (tem dentes pronunciados e usa pesados óculos) e foge a todos os padrões de beleza que uma emissora de televisão comercial no Brasil exigiria, por exemplo, para uma mulher de sua idade que comandasse um programa de televisão; tampouco é uma celebridade cuja fama repentina tenha motivado a BBC a investir em um programa de televisão qualquer que aproveitasse sua imagem carismática. Wendy Beckett foi convidada pelo canal de televisão britânico por conta de seu vasto conhecimento de história da arte, e sua qualidade como apresentadora é que a fez famosa mundo afora. Mas o mais peculiar de tudo isso é, talvez, o traço mais encantador desta mulher incomum: ela é uma freira sul-africana, residente do Reino Unido desde a década de 1970 e apresenta-se em suas aparições televisivas vestindo o tradicional hábito de irmã de caridade carmelita - o que significa dizer, em outras palavras, que ela é o que chamamos de uma freira contemplativa, ou seja, vive enclausurada em seu mosteiro, obtendo permissão para de lá sair apenas por ocasião de seus compromissos seculares, que são cada vez mais raros e que se resumiam, praticamente, à filmagem da série de documentários para a emissora de televisão britânica.

Assistindo-se a um de seus programas, ainda que com a dublagem brasileira (ótima, por sinal) a tirar um pouco do encantamento dos documentários, tem-se o que muitos consideram a mais clara, cristalina, didática explicação dos períodos da história da arte por ela analisados e das obras de arte mais significativas de cada um deles. Mas sua extraordinária habilidade para levar a arte universal ao público leigo é, em verdade, ainda mais fascinante por sua capacidade de explicar a arte em termos maravilhosamente humanos, sem tecnicismos desnecessários, sem pedantismo, sem a limitação de sua mensagem aos supostos conoisseurs de arte. Isso faz com que suas observações nunca sejam enfadonhas ou obscuras, conseguindo o mágico efeito de aprofundar as conexões entre o expectador e a obra de arte analisada de uma forma que, de tão simples, ganha ares de genialidade televisiva. No programa exibido em 02 de abril de 2006, pela TVE gaúcha, irmã Wendy mostrou os motivos pelos quais o barroco floresceu em Roma, a razão de ser do estilo de seus principais pintores e ressaltou a importância de nomes como Rubens e El Greco, que de algum modo surgiram fora do circuito romano das artes da época mas se alinharam com o arcabouço imaginativo daqueles artistas. E tudo isso de uma forma clara e precisa, lançando até mesmo luzes sobre temas periféricos para alguns grandes historiadores da arte - como, por exemplo, as diferenças estéticas da obra de um dos raríssimos exemplos de mulheres pintoras do barroco, Artemisia Gentileschi (1593 - 1652), para as obras de outros seus contemporâneos do sexo masculino (veja foto acima). E, acreditem, não parece haver temas que sejam tabu para a irmã Wendy Beckett.

Fica a impressão de que o claustro, por ela livremente escolhido, fez um bem enorme para a irmã Wendy Beckett, pois a afastou das discussões desnecessárias da academia - não que ela tenha fugido de uma formação acadêmica em história da arte; muito pelo contrário, seu amor pela arte fez com que ela recebesse uma autorização especial de sua superiora para cursar história da arte - e deixou sua mente livre para a clareza impressionante que demonstra em suas aparições televisivas.

Diferentemente de outros religiosos que têm invadido a mídia brasileira - de padres cantores a pastores sambistas -, a irmã Wendy Beckett, avessa a badalações e à mídia, retornou à paz de seu convento e ao convívio com suas irmão carmelitas no auge de sua, digamos, fama internacional. Antes de retirar-se definitivamente da vida secular, e durante o pequeno período de dez anos que durou seu compromisso com a BBC de Londres, Wendy Beckett produziu vinte e sete livros e dezessete documentários sobre história da arte, nos quais visita diversos museus do mundo e explica, in loco, a beleza e a genialidade por trás de algumas das mais grandiosas obras-primas da arte ocidental. Alguns poucos felizardos tiveram, também, a oportunidade de assistir ao vivo algumas de suas conferências em universidades britânicas e norte-americanas; hoje a freira retornou à vida de clausura em seu convento.

Depois de assistir o programa da irmã Wendy Beckett, perguntei-me porque as pessoas parecem procurar sempre o caminho mais difícil para explicar as questões do mundo, sobretudo quando o assunto é a arte. Lá do claustro do Convento de Notre Dame, em Londres, irmã Wendy Beckett, ora pro nobis.

Posted by Frizero at 15:47:58 | Permalink | Comments (1) »