As mulheres e o voto
Em que pese o fato de as primeiras feministas terem encontrado nos ideais democráticos de inspiração iluminista – igualdade e liberdade, representados mais diretamente pelo direito à participação na vida política e por leis que promovam uma justiça mais equânime – o campo propício para suas reivindicações, o cerne das referências filosóficas que embasam os ideais democráticos – representadas por pensadores como John Locke, Jean-Jacques Rousseau e Jeremy Bentham – estava já impregnado de conceitos que excluíam a mulher de uma participação mais ativa na condução da sociedade. Um forte exemplo disso é o direito ao voto, que já na Grécia clássica, em pleno nascedouro da democracia ateniense, era vetado para as mulheres.
A luta pelo voto feminino foi sempre o primeiro passo a ser alcançado no horizonte das feministas da era pós-Revolução Industrial. As suffragettes (em português, sufragistas), primeiras ativistas do feminismo no século XIX, eram assim conhecidas justamente por terem iniciado um movimento no Reino Unido a favor da concessão às mulheres do direito ao voto. Seu início deu-se em 1897, com a fundação da União Nacional pelo Sufrágio Feminino por Millicent Fawcett (1847-1929), uma educadora britânica. O movimento das sufragistas, que inicialmente era pacífico, questionava o fato de as mulheres do final daquele século serem consideradas capazes de assumir postos de importância na sociedade inglesa como, por exemplo, o corpo diretivo das escolas e o trabalho de educadoras em geral, mas serem vistas com desconfiança como possíveis eleitoras. As leis do Reino Unido eram, afinal, aplicáveis às mulheres, mas elas não eram consultadas ou convidadas a participar de seu processo de elaboração.
Ainda que obtendo um limitado sucesso em sua empreitada - a conversão de alguns membros do então embrionário Partido Trabalhista Britânico para a causa dos direitos das mulheres é um exemplo -, a maioria dos parlamentares daquele país acreditavam, ainda respaldados nas idéias de filósofos britânicos como John Locke e David Hume, que as mulheres eram incapazes de compreender o funcionamento do Parlamento Britânico e, por conseguinte, não podiam tomar parte no processo eleitoral. O movimento feminino ganhou, então, as ruas e suas ativistas passaram então a ser conhecidas pela sociedade em geral pelo (à época, ofensivo) epíteto de sufragistas, sobretudo aquelas vinculadas à União Social e Política das Mulheres, fundado por Emmeline Pankhurst (1858-1928). Ela foi uma militante que imprimiu um estilo mais enérgico ao movimento, o qual culminou com situações de confronto entre sufragistas e policiais e, finalmente, com a morte de uma manifestante, Emily Wilding Davison (1872-1913), que se atirou à frente do cavalo do rei da Inglaterra no célebre Derby de 1913, tornando-se a primeira mártir do movimento.
Mesmo que tenha causado grande comoção o movimento pelo voto feminino na Inglaterra da década de 1910, as ações de protesto empreendidas pelas sufragistas, contudo, apenas vieram a obter um parcial sucesso com a aprovação do Representation of the People Act de 1918, o qual estabeleceu o voto feminino no Reino Unido – em grande parte, dizem alguns historiadores, motivado pela atuação do movimento das sufragistas na Primeira Grande Guerra, já que as sufragistas deixaram as ruas e assumiram importante papel nos esforços de guerra.
A lei britânica de 1918 deu forças a mulheres de diversos outros países para que buscassem seus direitos ao voto, que as primeiras feministas consideravam de importância maior que outras questões referentes à situação feminina justamente por acreditarem que pelo voto as mulheres seriam capazes de solucionar problemas causados por leis injustas que lhes vetavam o acesso ao trabalho e à propriedade, por exemplo. Habilitando-se ao sufrágio, as mulheres passariam a ser também elegíveis e assim, pensavam as feministas, poderiam concorrer de igual para igual com os homens por cargos eletivos.
Cento e nove anos depois da fundação da União Nacional Pelo Sufrágio Feminino, na Inglaterra, é possível ver que muita coisa mudou na situação das mulheres na sociedade. Por mais que a opressão feminina seja ainda uma cruel realidade em alguns países, as mulheres têm direito ao voto e à participação política ampla na maioria dos países do mundo (embora em países como o Kuwait, por exemplo, haja ainda movimentos que reproduzem as mesmas lutas das sufragistas do século XIX, na tentativa de forçar o governo daquele país a mudar sua legislação eleitoral e adotar o voto universal em pleno século XXI). Mas por que o efeito desejado pelas primeiras sufragistas, o de que o voto feminino levasse mais mulheres ao poder, em número equivalente ao de homens, ainda não aconteceu? A resposta talvez seja mais simples que qualquer análise mais detalhada poderia sugerir: esta é mais uma conseqüência da paradoxal situação de liberdade de voto que vivemos nós, eleitores em sistemas democráticos - temos a liberdade de votar e escolher nossos representantes nos poderes legislativo e judiciário, mas tal liberdade é algo ilusória, pois de fato votamos naqueles que os partidos políticos incluem em suas listagens de candidatos. E se as mulheres hoje têm amplo direito de exercer seu papel na vida pública, a proporcionalidade populacional entre homens e mulheres não é refletida nas listagens de candidatos oferecidas pelas forças políticas de nosso país. Em outras palavras, temos milhões e milhões de eleitoras, mais até que eleitores do sexo masculino, mas o número de candidatas ainda é ínfimo diante dessa proporção de brasileiras em condições de exercer o voto.
E a cada eleição retorna às nossas consciências a pergunta de sempre: será que uma mulher no poder faria a diferença que necessitamos para que as coisas mudem para melhor? Talvez tenhamos ainda um longo caminho pela frente, no que diz respeito aos espaços femininos por conquistar em nossa sociedade, para que tenhamos uma participação mais expressiva e igualitária de mulheres na política brasileira.
Há cerca de vinte anos, um filme vencedor do Oscar trouxe ao conhecimento do grande público a figura e um pouco da obra de um dos maiores mestres da música universal: Wolfgang Amadeus Mozart. em que pese sua beleza plástica e seu bem urdido roteiro, adaptação para o cinema de uma peça teatral feita por seu próprio autor, peter Schaeffer, o filme “Amadeus” foi também o culpado por uma série de mitos estranhos em relação à figura do músico austríaco, retratado nas telas por um Tom Hulce estreante, mas magnífico, contudo personificando um personagem histriônico, exageradamente boêmio e com laivos de loucura e soberba que causaram estranheza e protestos em alguns de seus estudiosos mais renomados à época do lançamento do filme. Ao público em geral, por exemplo, escapou-lhe o fato de que o filme, antes de ser uma biografia do compositor de Salzburgo, era uma visão fantasiosa do que teria sido sua vida aos olhos de um outro compositor célebre à época, Antonio Salieri, que o filme coloca como um dos responsáveis pela morte de Mozart, além de ter conspirado nos bastidores da corte austríaca para que o compositor tivesse algum fracasso em suas empreitadas e morresse na miséria e indigência - dados que a história em grande parte desmente e que também motivaram reclamações e comentários dos biógrafos de ambos os compositores.
Há uma religião, surgida em meados do século XIX, que parece apresentar na atualidade uma forte ameaça para certos governantes do mundo. Ela prega a unidade da humanidade, a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, a importância da educação como meio de crescimento pessoal e a eliminação de todas as formas de preconceito e discriminação. Espalhados em todo o mundo, seus seguidores têm encontrado liberdade para professar sua fé e viver em harmonia com a comunidade local - mesmo em regiões com fortes traços regionais, como as comunidades Bahá’í existentes em regiões de grande tradição indígena na Bolívia e no Peru, por exemplo. Mas, em que pese seu caráter universalista e sua mensagem de paz, essa religião tem sofrido perseguições que, colocadas em sua proporcional perspectiva, parecem ser um prenúncio das mesmas ocorrências que levaram à existência do Holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial - sobretudo pelo fato de que o mundo parece ignorar tais sinais.
O cinema indiano tem inúmeras lições a ensinar ao cinema brasileiro. Talvez a mais importante delas seja o fato de que aquela rica cinematografia não passou, jamais, por uma crise de desvinculação com seu público. Em que pesem as críticas desmedidas de alguns ocidentais aos filmes indianos, que são em geral taxados de “exagerados” e “caricaturais”, a verdade é que o cinema indiano é reconhecido por seu público, que comparece às salas de exibição e mantém uma indústria cinematográfica que jamais dependeu de subvenção estatal ou aprovação da crítica internacional para sobreviver. Os indianos vêem-se em seus filmes e reconhecem neles seu modo de ser; as salas de exibição da Índia passam, também, os blockbusters norte-americanos, mas isso não parece ser uma influência perceptível na filmografia indiana: os filmes de Bollywood - nome que homenageia a Meca do cinema da Índia, a cidade de Bombaim - mantém suas fortes origens culturais indianas, servindo como um forte veículo de identificação cultural; neles, todos os gêneros transitam sem maiores pudores, do drama à comédia, do musical ao romance (ainda que sem beijos ousados ou cenas de nudez), sempre com referências religiosas e culturais que fazem do cinema indiano algo tão único e, não é exagerado dizer, tão maravilhoso aos olhos. Os indianos, enfim, parecem não ter esquecido que cinema é entretenimento e que depende de seu público para sobreviver.
Mas Bollywood não é apenas escapismo. Mesmo os filmes que seguem a tal fórmula bollywoodiana romance-música-cultura local o fazem sem esquecer os problemas sociais que trespassam a vida indiana contemporânea. Em