Wednesday, March 8, 2006

À Minha Memória

            Guardei em minha memória
            tudo o que fui ou vivi:
            como quem guarda na estante
            um livro que nunca leu,
            guardei meu eu, nesga por nesga,
            fragmento por fragmento,
            não deixei um só momento
            perdido, ao andar do tempo.

            Guardei em minha memória
            os amores que não tive,
            os amores que não pude
            e os que jamais sequer vi,
            todos meus sonhos desfeitos
            meus ideais por fazer,
            minhas chagas por curar,
            minha vida por viver.

            Guardei em minha memória
            meu íntimo ser por completo:
            fragmento por fragmento,
            nesga por nesga meu eu
            com todos os seus tormentos.
            Porém, o que mais me entristece,
            é que minha alma se esquece,
            por vezes, de me esquecer.

Da obra

(1996)
(Robertson Frizero Barros)

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Tuesday, March 7, 2006

Vox Populi…Vox Dei?

Será o voto, sempre, o melhor caminho para as nações?   E este voto, deve ser universal, de acesso garantido a todos os cidadãos, independentemente de sua escolaridade, de seu papel na sociedade, de sua capacidade de influenciar (ou de ser influenciado por) outros eleitores?  Leon Hadar, pesquisador estadunidense em Ciência Política pelo renomado Instituto Catho, escritor e articulista de publicações como The American Conservative, fez publicar na edição de 27 de setembro de 2006 da referida revista um polêmico e provocativo artigo intitulado Democracy & Its Discontents (“A Democraria e seus descontentamentos”, em tradução algo literal), no qual levanta tais questões e defende a idéia de que “o voto não produz a paz em sociedades nas quais não existem os fundamentos de uma ordem liberal.” 

A crença de que o voto democrático é sempre o melhor sistema para qualquer país é, segundo Hadar, um conceito bastante recente na história da humanidade.  E o autor é incisivo ao trazer como exemplos da estranha resposta que as urnas podem trazer para um povo a eleição de Adolph Hitler e do partido nacional-socialista na Alemanha de 1933, a vitória dos Xiitas no Iraque e o resultado que levou ao poder no parlamento palestino o grupo terrorista Hamas.  E seus exemplos não são gratuitamente escolhidos - há, atualmente, nos Estados Unidos da América uma doutrina intitulada Teoria da Paz Democrática, a qual influenciou, por exemplo, as decisões tomadas pelo governo provisório dos EUA no Iraque e demanda a expansão da democracia pelos países do Oriente Médio, sob a idéia de que a instalação de processos de escolha democrática de governantes são o que falta para a pacificação da região.  

Para Hadar, contudo, os adeptos de tal visão , a da democracia como conceito salvador dos povos e promotor da paz - que inunda os discursos do próprio presidente dos EUA, George W. Bush, e dá aos ouvintes menos atentos a impressão de que “uma virada democrática revolucionária está em andamento no mundo árabe” -, esquecem-se que as democracias recentemente instaladas no Oriente Médio assim o foram às custas de operações militares estadunidenses, com a derrocada de ditaduras locais e a invasão daqueles países por tropas de ocupação - “que não foram exatamente recebidas com flores” pelas populações locais, recorda o pesquisador -, tendo por preço a morte de milhares de nacionais e soldados de diversas nacionalidades.  Para Bush e os que compartilham da mesma crença cega nas urnas, “a democracia é a cura para a maioria dos males humanos, da violência política e do subdesenvolvimento econômico à calvície”, ironiza Hadar.

A fé da Teoria da Paz Democrática em seus pressupostos, a bem da verdade, repousa sob a idéia de que “a mais efetiva forma de estabelecer a paz internacional e a estabilidade” é a promoção da democracia em âmbito mundial.   Bush compartilha de tal visão ao dizer que ”a sobrevivência da liberdade [nos EUA] depende, cada vez mais, do sucesso da liberdade em outros países.  A maior esperança de paz em nosso mundo é a expansão da liberdade em todo o mundo.”  Na visão de seus seguidores, a democracia teria o poder algo mágico de “não apenas suprir as demandas” - inquestionavelmente legítimas, lembra Hadar - “daqueles que vivem sob regimes autoritários, mas também reduzir as chances de instabilidade doméstica e de guerras internacionais”, contendo, conseqüentemente, o avanço do terrorismo transnacional.          

Contudo, os fatos estão colocando por terra as promessas salvadoras da Teoria da Paz Democrática.  Hadar cita, como exemplo, as constatações reunidas em forma de tese do analista de política externa Fareed Zakaraia, de que “eleições livres em sociedades que não têm os fundamentos da cultura política liberal tendem a produzir ‘democracias não-liberais e não-pacifistas’”.  Faltam, enfim, a tais países - situação na qual poderíamos incluir a maioria das nações do Oriente Médio - instituições políticas mais sólidas que permitam sua transição para fases posteriores a de “democracias emergentes”; imprensa livre, judiciário independente e liberdade de expressão são elementos que não existem em grande parte da região em questão, e a implementação forçada de um “sistema democrático amplo” sob tais condições serviria apenas para mascarar ainda mais a fragilidade de suas instituições.  Em outras palavras, no caso iraquiano, vemos os EUA impulsionando o crescimento de forças políticas ilegítimas ou sem credibilidade - como o Poder Judiciário Iraquiano atual, à guisa de exemplo - que não possuem alicerce sólido para enfrentar a tarefa de reconstrução de um país destruído por anos de totalitarismo seguidos por uma guerra de invasão também destruidora.

Colocar sob suspeita o sistema democrático é lançar-se à cova dos leões, a bem da verdade, pois em nossa mente ocidental questionar o direito ao voto e à liberdade de escolha é digno de anátemas os mais violentos.  Mas há muitos que já levantam questões sobre os verdadeiros avanços e retrocessos que tal regime pode propiciar em seu afã de promover uma plena igualdade de direitos ao invés de buscar a igualdade de oportunidades, gerando contradições como, por exemplo, o voto dos analfabetos, que obtusamente existente no Brasil. Dá-se a eles, os analfabetos, alijados dos acontecimentos maiores da vida política nacional por não terem acesso à escrita, o direito de escolher seus governantes; contudo, nega-se aos mesmos cidadãos o acesso à informação de quem são os candidatos em quem depositam suas esperanças de futuro, tampouco as ferramentas - a educação - para que eles possam fazer suas escolhas livres e soberanas do que é melhor para o país em que vivem - e que os ignoram em suas políticas sociais.

Faz-se mister não esquecer que o nacionalismo, o sentimento étnico, as lutas religiosas e tribais estão no cerne de inúmeras guerras lamentáveis desses últimos anos - do massacre dos tutsis em Ruanda aos recentes atentados a mesquitas no Iraque -, e que tais diferenças são tão-somente acentuadas nesses regimes neo-democráticos, nos quais as diferenças de todos os matizes parecem se acentuar ou, ainda, apenas ganhar novas cores, agora partidárias.  No caso árabe, tais interferências “democráticas” têm levado à substituição perigosa do nacionalismo secular por outro, mais intransigente e intimamente ligado ao radicalismo religioso.  E, uma vez sob a égide do voto popular - e a visão de uma vontade do povo, pura e sacrossanta, que emerge das urnas como línguas de fogo de um moderno Pentecostes -, o radicalismo, o ódio e o terror ganham a proteção dos que apostam na democracia como resposta a todos os males. 

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Monday, March 6, 2006

A Melhor Direção

Escrevo estas linhas apenas dez minutos antes do início da cerimônia de entrega do Oscar, o prêmio da Academia de Artes e Ciências de Hollywood ao qual tanta gente adora desprezar.  O fato é que a indústria cinematográfica estadunidense é a mais importante do mundo (e ela merece minha admiração por assumir seu papel de indústria, produzindo filmes para as massas,  de puro entretenimento, que permitem a realização de filmes menores, mas preciosos, ao contrário do que ainda vivemos no cinema brasileiro, que parece ter vergonha de divertir seu público) e o prêmio mais cobiçado daqueles grandes estúdios é, inevitavelmente, o mais importante do panorama cinematográfico mundial, abrindo portas para profissionais competentes de várias nacionalidades e revelando talentos.  Decerto os jornais da semana trarão as contestações de sempre, apontando injustiçados e denegrindo a cerimônia como algo “cafona” e “longo” - mas muitos irão assistir, mesmo assim, nem que seja apenas para criticar.  Tornou-se moda no Brasil desdenhar o Oscar, o cinema americano e, enfim, tudo o que venha dos Estados Unidos da América e não seja os documentários desairosos ao “American-way-of-life” ou os discursos não-lingüísticos de Noam Chomsky…

Faltando agora cinco minutos para o início da cerimônia, tomarei a liberdade de fazer uma única referência à possível injustiça que assistiremos na entrega do Oscar deste ano.  Posso estar enganado, mas creio que o ano de “Brokeback Mountain” vai se encarregar de tirar das mãos de um dos melhores diretores de cinema de todos os tempos mais um merecido prêmio.  Falo de Steven Spileberg e de seu filme mais corajoso e bem dirigido, “Munique”, um grande drama daqueles que prendem os olhos do espectador à tela do início ao fim.  O argumento do filme é conhecido, tanto quanto aquelas famosas imagens, para os nascidos nas décadas anteriores a 1970, que Spielberg reproduz sem exageros, quanto pela grande divulgação que antecedeu o lançamento do filme: nas Olimpíadas de 1972, um grupo de palestinos de um comando terrorista auto-intitulado “Setembro Negro”, invadiu e fez reféns um grupo de atletas israelenses, pedindo a libertação de trezentos árabes de diversas nacionalidades, acusados de envolvimnto em atos terroristas, em troca dos esportistas; o desfecho trágico do seqüestro leva o governo israelense a promover uma operação secreta de caçada aos organizadores e mandantes do atentado à vila olímpica de Munique.  Mas Steven Spielberg, o gênio de filmes escapistas como “E.T. - O Extraterrestre” e de dramas profundíssimos como “A Cor Púrpura”, aborda em seu filme não os acontecimentos de Munique, mas o desenrolar das operações levadas à cabo por um grupo de ex-agentes do Mossad, trabalhando desvinculados àquele órgão de Inteligência israelense - e é nessa escolha arriscada que o diretor estadunidense de origem judia acerta o tom de sua direção.

“Munique”, um filme sobre contra-terrorismo realizado tão pouco tempo depois do fatídico 11 de setembro de 2001 e lançado em meio aos pavorosos protestos islâmicos contra as charges dinamarquesas ironizando Maomé, tem o mérito maior de ser um filme absolutamente imparcial sobre a insana caçada aos promotores do igualmente insano atentado dos Jogos Olímpicos de 1972.  Spielberg dirige com maestria (a partir do roteiro adaptado do livro “Vengeance: The True Story of an Israeli Counter-Terrorist Team”, do jornalista canadense George Jonas) as atuações repletas de nuances de Eric Bana (que faz o papel de ‘Avner’, o jovem chefe do grupo de agentes israelenses) e Daniel Craig (como o confuso e beligerante agente ‘Steve’) e mostra gente operacional (de ambos os lados) em situações de extrema tensão, mas nem sempre seguras do valor das ações para as quais eles foram designados, corroídos por vezes por sentimentos conflitantes de remorso e de amor incondicional à pátria.  Há tristeza e dor entre palestinos e israelenses nas cenas iniciais, quando noticiários televisivos situam o espectador brevemente no evento desencadeador das ações posteriores, cerne do filme.  E há medo e desequilíbrio nos olhos dos agentes israelenses e dos terroristas palestinos que eles encontram no decorrer das ações.  É impossível não traçar paralelos com os episódios mais recentes do conflito entre Israel e Palestina, Estados Unidos e Iraque, Al-Qaeda e governo Bush.  Em verdade, ”Munique” é uma mensagem clara de Spielberg, ele mesmo um descendente de judeus que teria imensa liberdade para tomar partido de Israel em um filme como este, de que a vingança jamais leva à paz, de que o ódio é incapaz de construir e de que os eventos primeiros que acirraram esta guerra do terror levaram-nos ao que vivemos hoje em todo o mundo - uma mensagem à qual o diretor dá um ponto final simbólico na derradeira imagem do filme, e que por si só já vale o preço de ver por quase três horas até onde vai o limite da insensatez dos governantes - e dos homens que eles governam.  Parece-nos que o filme de Spielberg deixa em nós a incômoda sensação de que não estamos mesmo a seguir a melhor direção rumo a tempos de paz e conciliação.

Se houver justiça, ao menos na Academia de Artes e Ciências de Hollywood, Steven Spielberg ganhará este prêmio de melhor diretor, por sua coragem e pelo belo filme que nos ofereceu depois de míseros três meses de filmagem.

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Saturday, March 4, 2006

Analfabetismo de Berço

“Minha mãe nasceu analfabeta.”
 (Presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
em discurso transmitido pela televisão aberta em 09 de março de 2004)

As escolas brasileiras alfabetizam, anualmente, menos de cinqüenta por cento dos alunos a cada ano letivo.  A afirmativa, algo assustadora, é de Esther Pillar Grossi, pesquisadora em Educação e conhecida ex-parlamentar pelo Rio Grande do Sul e uma das grandes autoridades nacionais em educação infantil e, principalmente, em alfabetização de crianças, jovens e adultos.  

A autora de livros como “Alfabetização em Classes Populares” e ex-secretária de Alfabetização do MEC, que em 2003 deu início naquele ministério a um projeto ousado de alfabetização de adultos chamado “Brasil Alfabetizado”, em artigo publicado na edição de Zero Hora, jornal diário de Porto Alegre, de 04 de março de 2006, afirma que é preciso “fazer uma revisão séria e abalizada cientificamente a respeito [dos sistemas de alfabetização utilizados]“, pois, para ela, eles não conseguem se sobrepor a um fator que foge, em parte, do controle da escola: a maioria das crianças que não se alfabetizam estão em escolas públicas freqüentadas por crianças de famílias da classe baixa, e isto se dá pela razão simples de serem tais crianças, em sua grande maioria, filhas de lares nos quais os adultos são também analfabetos.

Em verdade, faz parte do processo de alfabetização e, por que não irmos mais além, da aquisição de hábitos saudáveis de leitura o contato que a criança possa vir a ter com adultos alfabetizados, que lêem e escrevem ao seu redor, bem como com livros, revistas, anúncios e qualquer material escrito ao qual aqueles adultos recorrem (ou produzem) para compartilhar com a criança seus conhecimentos.  Ver o adulto adquirindo conhecimento por meio de riscos e rabiscos feitos em folhas de papel das quais saem histórias, notícias e relatos que atinjam, de algum modo, o universo infantil, é caminho certo para despertar na criança o interesse de adentrar naquele novo - algo mágico para ela - que é a leitura. 

Para a criança, o processo de aprendizagem da escrita sempre envolve um aspecto lúdico.  Como Grossi tão bem exemplifica em seu artigo, primeiro a criança vê as letras como desenhos - “escrever seria desenhar e ler seria interpretar desenhos” - para depois, sobretudo nas línguas que utilizam alfabetos como o nosso, e não o rico universo dos ideogramas, os desenhos tomam na mente dos alfabetizandos a forma de sinais gráficos “que não tem relação figurativa alguma com o que está escrito”, mas que remetem às palavras que ali estão representadas, as quais existem no universo das crianças meramente como sons que trazem, juntos, algum significado.  É bem posteriormente que a criança aprenderá que as letras, isoladas, nada representam, e que é de seus múltiplos arranjos que se obtém a mágica de colocar no papel, por meio daqueles sinais que para ela um dia foram meros rabiscos, a expressão de sua história, de sua vida e de seus sentimentos, e da vida, história e sentimentos das pessoas que com ela compartilham o mundo.

Mas, que esperar das crianças que não estão imersas em um meio no qual a palavra escrita tenha importância central?  Recordo-me, com certa emoção, que meu avô foi um autodidata - e não digo isso com orgulho, mas como forma de constatação de que houve um tempo no qual o adulto analfabeto estava fadado a morrer nesta mesma condição de isolado do mundo das letras - que aprendeu a ler e escrever copiando as palavras que via nos jornais que lhe chegavam às mãos na marcenaria em que trabalhava, em Juiz de Fora, e pedindo para que as poucas pessoas que, em seu círculo de relações, sabiam decifrar aqueles riscos, lessem para ele o que estava escrito, dessem para ele, aos poucos, o significado do que ia reproduzindo às cegas.  Aquele homem, que aprendeu a ler já depois de adulto, foi quem me apresentou a ópera, criou em mim a paixão pelas estórias e deixou-me como herança uma coleção de discos de música erudita e uma necessidade quase compulsiva de conviver com a palavra escrita.  Mas vivíamos em um mundo no qual a literalidade era central e, por sorte, tive em meu avô um homem que aprendeu, a duras penas, o valor da educação para o crescimento pessoal. 

Esther Grossi diz, com propriedade, que “uma das marcas definidoras do nosso tempo é o uso desta construção estupenda que é a escrita”.  Nem mesmo as profecias mais pessimistas, as que diziam que a Informática e a Internet iriam sufocar a leitura e a escrita, parecem se concretizar, posto que a rede mundial de computadores só tem sentido por meio da palavra escrita.  Mas algo anda mal nas nossas escolas, e para a pesquisadora gaúcha o problema reside na metodologia usada para alfabetizar tais crianças que vivem em meios iletrados - o método hoje mais comentado, o fônico, enfatiza as relações símbolo-som, e que depôs das escolas o velho método alfabético - e que não são ainda capazes de estabelecer as complexas relações entre pronúncia e escrita. 

Em minha pobre opinião de quem se inicia no estudo do ensino e aprendizagem de idiomas, o problema também parece residir no descaso com que os governos no Brasil sempre trataram a educação, limitando-a às preocupações usuais quanto ao número de vagas abertas anualmente para as crianças, jactando-se de terem criado mais e mais escolas, sem que nada disso tenha uma direta correlação com qualidade de ensino e com resultados.  E há exemplos perversos desse descaso com o produto da educação no Brasil: presenciei, em um grande fórum de debates sobre educação aqui em Porto Alegre, há alguns anos, um representante do governo local que falava das maravilhas da educação por ciclos, mostrando números que afirmavam que Porto Alegre tinha índice zero de reprovação nas escolas.  Parte da assembléia, talvez os que não conhecem a educação por ciclos, aplaudiu a notícia entusiasmada, mas o fato é que a educação por ciclos não reprova pelo simples fato de que não há reprovação, as crianças são levadas ano a ano sem testagens que as impeçam a progressão caso não sejam atingidos objetivos pedagógicos estabelecidos; o resultado, que se pode auferir junto aos professores que trabalham sob tal sistema imposto às escolas da cidade, é que muitos alunos têm chegado ao final do ciclo escolar sem saber ler ou escrever - e falamos de alunos que estariam no equivalente a quinta série primária.  Então, onde está a vantagem do tal “índice zero de reprovações”?  Para os governantes, a vantagem é que há sempre vagas a serem oferecidas aos que entram no sistema educacional; se os que lá já estão aprenderam alguma coisa, ah, isso é um outro problema que não merece ser discutido nas proximidades de qualquer ano eleitoral.

É de se questionar se há o interesse da classe política, enfim, de que nossa população seja totalmente alfabetizada, tenha acesso à palavra escrita e elementos para a construção de uma consciência crítica do mundo que a cerca.  Tenho cá minha resposta, que prefiro manter calada.

O caminho mais promissor para resolver todas as mazelas sociais e morais das quais tanto nos queixamos como brasileiros - do crescimento econômico sustentável à redução do desemprego, da diminuição da violência à volta da ética para a política nacional - segue sendo a educação.  Mas é um caminho longo, de resultados que só podemos vislumbrar em um distante horizonte - e nossos políticos são imediatistas demais para pensar em algo tão etéreo quanto o futuro.  Por sorte temos educadoras como Esther Grossi, que ainda se preocupam com a necessidade premente  temos, não de retornar ao “vovô viu a uva” das cartilhas de antigamente (o que não seria de todo mal, pois sou uma prova de que o método funcionava, e bem), mas de reapresentar aos “avós, filhos e netos (…) o encanto da uva, escrita com letras”.  E não consigo pensar um país que se pretende “o país do futuro” e que não investe na alfabetização de seus cidadãos.

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Friday, March 3, 2006

Soy loco por ti, Petróleo

(…)O resultado dos desfiles das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro é combustível para polêmica cá e lá, no Brasil e nos demais países da América Latina, e não sem motivos que justifiquem as críticas e as desconfianças (…).

Para os que não acompanharam de perto os bastidores daquela competição (…), a campeã do ano de 2006 foi a escola de samba Unidos de Vila Isabel que, em que pese sua condição de uma das agremiações carnavalescas mais tradicionais do Rio de Janeiro, havia ganho apenas um campeonato em toda a sua existência.  O enredo por a levado à Avenida Marquês de Sapucaí, onde se localiza o Sambódromo do Rio de Janeiro, foi Soy Loco por Ti, América - A Vila Canta a Sua Latinidade, uma algo confusa homenagem aos povos e à história da América Latina que misturou, em fantasias e alegorias luxuosas, povos indígenas pré-colombianos e mariachis, figuras lendárias e outras históricas, algumas de um passado bem  próximo (e de importância cultural questionável), como Che Guevara e Eva Perón.  A razão maior da polêmica, contudo, gira em torno de um fato algo comum no carnaval carioca dos mais recentes tempos, mas inusitado pelo seu caráter internacional: grande parte do desfile da Unidos de Vila Isabel foi patrocinado por uma empresa estrangeira de petróleo, no caso a estatal venezuelana PDVSA, a qual teria doado à escola de samba da zona norte carioca cerca de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) - valor que representou mais de um terço do montante total gasto na preparação do carnaval daquela agremiação para 2006.

Os detratores de Hugo Chávez, presidente da Venezuela e articulador do referido patrocínio de sua menina dos olhos e grande financiadora de suas ações paternalistas, a PDVSA, criticam o fato de um montante como este ser aplicado no patrocínio do desfile de uma agremiação carnavalesca em um país estrangeiro, o Brasil, enquanto o povo venezuelano ainda enfrenta inúmeros problemas sociais que poderiam, em parte, ser dirimidos com esse dinheiro.  Mesmo se o governo de Chávez quisesse aplicar este dinheiro em uma festa popular, porque não o fez em sua capital, cujos gastos totais com seu carnaval seriam menores que o milhão de reais gasto com a Vila Isabel e sua apresentação de pouco mais de uma hora de desfile?  

Não há que se apagar os méritos da agremiação carnavalesca, nascida no berço do samba carioca e certamente uma das mais respeitadas do cenário do carnaval carioca.  A pergunta maior, no entanto, por trás de toda esta inusitada história, é questionar as razões do patrocínio.  (…)O que pretendia então a PDVSA com o patrocínio dado a um desfile que não falava de petróleo, tampouco da Venezuela, seu país de origem? 

A resposta parece ser óbvia demais: propaganda ideológica.  Quem tem dúvidas ainda sobre isso, que leia o site oficial da PDVSA, no qual a estatal afirma “promover, de forma sistemática, a integração entre os povos da América Latina (…)” e que isso se dá “também pelo resgate da memória histórica de cada um dos países e de suas lutas econômicas e sociais contra o imperalismo”, ou seja: o “carnaval de Simon Bolívar”, como alguns colunistas já apelidaram o desfile da Vila Isabel, funcionou para a estatal como elemento de propaganda da ideologia “bolivarianista” do presidente venezuelano.  Hugo Chávez parece reforçar, a cada gesto, seus sonhos de uma hegemonia latino-americana à sombra do grande personagem histórico, mas por ele comandada - e no carnaval carioca não foi diferente.  (…)A idéia do carro alegórico no qual um Simon Bolívar de quatorze metros de altura encerrou o desfile foi inspiração do presidente venezuelano - e o sonho do carnavalesco era, aliás, que o próprio Chávez viesse de destaque naquela alegoria.  O presidente da Vila Isabel agradeceu publicamente ao presidente Hugo Chávez pelo patrocínio, dizendo que sem esse apoio a escola não conseguiria trazer para o desfile fantasias luxuosas e alegorias do porte das que foram apresentadas.  Julio Garcia Montoya, embaixador da Venezuela no Brasil, corrobora a suspeita de que a idéia por trás do enredo era política: “[a vitória da Vila Isabel] foi o triunfo de uma idéia cada vez mais vigente em nosso continente, a idéia da integração”. (…)

O que se espera, de todo este imbroglio, é que a Liga Independente das Escolas de Samba, a entidade privada que transformou o carnaval do Rio de Janeiro em um evento profissional e rentável, repense suas regras sobre o patrocínio dos desfiles para as escolas, sob o risco de transformarmos a Sapucaí em palanque político.  Mas é de se perguntar se um patrocínio do governo estadunidense seria tão celebrado pela imprensa brasileira quanto está sendo esta ajudinha dada à Vila Isabel pelos petrodólares de Hugo Chávez…

[LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO]

Uma analista política do Rio Grande do Sul declarou que as críticas eram oriundas de “pessoas que detestam ser latino-americanas” e não compreendem “o grande movimento de unificação do continente” que estaria, segundo ela, a caminho. Outros tantos jornalistas encontraram inúmeras razões para criticar o fato, motivados ou não pela “ojeriza latino-americana” da qual são acusados por aquela jornalista gaúcha. Mas o fato é que o resultado dos desfiles das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro é combustível para polêmica cá e lá, no Brasil e nos demais países da América Latina, e não sem motivos que justifiquem as críticas e as desconfianças - se não sobre a lisura da votação, ao menos sobre as questões éticas que ficaram guardadas nas coxias do espetáculo daquela noite de domingo de carnaval.

Para os que não acompanharam de perto os bastidores daquela competição - um dos símbolos máximos da cultura brasileira, há que se dar o devido valor, justamente por ter surgido como fenômeno espontâneo do carnaval carioca -, a campeã do ano de 2006 foi a escola de samba Unidos de Vila Isabel que, em que pese sua condição de uma das agremiações carnavalescas mais tradicionais do Rio de Janeiro, havia ganho apenas um campeonato em toda a sua existência. O enredo por a levado à Avenida Marquês de Sapucaí, onde se localiza o Sambódromo do Rio de Janeiro, foi Soy Loco por Ti, América - A Vila Canta a Sua Latinidade, uma algo confusa homenagem aos povos e à história da América Latina que misturou, em fantasias e alegorias luxuosas, povos indígenas pré-colombianos e mariachis, figuras lendárias e outras históricas, algumas de um passado bem próximo (e de importância cultural questionável), como Che Guevara e Eva Perón. A razão maior da polêmica, contudo, gira em torno de um fato algo comum no carnaval carioca dos mais recentes tempos, mas inusitado pelo seu caráter internacional: grande parte do desfile da Unidos de Vila Isabel foi patrocinado por uma empresa estrangeira de petróleo, no caso a estatal venezuelana PDVSA, a qual teria doado à escola de samba da zona norte carioca cerca de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) - valor que representou mais de um terço do montante total gasto na preparação do carnaval daquela agremiação para 2006.

Os detratores de Hugo Chávez, presidente da Venezuela e articulador do referido patrocínio de sua menina dos olhos e grande financiadora de suas ações paternalistas, a PDVSA, criticam o fato de um montante como este ser aplicado no patrocínio do desfile de uma agremiação carnavalesca em um país estrangeiro, o Brasil, enquanto o povo venezuelano ainda enfrenta inúmeros problemas sociais que poderiam, em parte, ser dirimidos com esse dinheiro. Mesmo se o governo de Chávez quisesse aplicar este dinheiro em uma festa popular, porque não o fez em sua capital, cujos gastos totais com seu carnaval seriam menores que o milhão de reais gasto com a Vila Isabel e sua apresentação de pouco mais de uma hora de desfile?

Não há que se apagar os méritos da agremiação carnavalesca, nascida no berço do samba carioca e certamente uma das mais respeitadas do cenário do carnaval carioca. A pergunta maior, no entanto, por trás de toda esta inusitada história, é questionar as razões do patrocínio. Afinal, a PDVSA é uma empresa estatal estrangeira, sem grandes investimentos no Brasil e pouco conhecida por nossa população. Outras empresas e governos no país já doaram recursos para desfiles na Sapucaí; em 2006, a Prefeitura Municipal de Poços de Caldas, a fábrica de chocolates Garoto e o Governo do Ceará também teriam contribuído com outras agremiações. Mas nenhum desses patrocínios teve um valor tão alto, tampouco algo que representasse uma fração tão significativa no orçamento do desfile das respectivas escolas. E uma empresa que patrocina um evento cultural, quer algo em troca - quer seja a exposição de sua marca ou imagem, coisa que é abertamente proibida pelo regulamento dos desfiles, quer seja pela fixação na mente dos espectadores de um produto - o chocolate, por exemplo - ou de uma localidade - o estado do Espírito Santo ou a cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais, destinos turísticos famosos no país. Mas, o que pretendia então a PDVSA com o patrocínio dado a um desfile que não falava de petróleo, tampouco da Venezuela, seu país de origem?

A resposta parece ser óbvia demais: propaganda ideológica. Quem tem dúvidas ainda sobre isso, que leia o site oficial da PDVSA, no qual a estatal afirma “promover, de forma sistemática, a integração entre os povos da América Latina (…)” e que isso se dá “também pelo resgate da memória histórica de cada um dos países e de suas lutas econômicas e sociais contra o imperalismo”, ou seja: o “carnaval de Simon Bolívar”, como alguns colunistas já apelidaram o desfile da Vila Isabel, funcionou para a estatal como elemento de propaganda da ideologia “bolivarianista” do presidente venezuelano. Hugo Chávez parece reforçar, a cada gesto, seus sonhos de uma hegemonia latino-americana à sombra do grande personagem histórico, mas por ele comandada - e no carnaval carioca não foi diferente. O carnavalesco da escola, a qual em 2005 conquistou um apagado décimo lugar, afirmou, em uma entrevista, que a idéia do carro alegórico no qual um Simon Bolívar de quatorze metros de altura encerrou o desfile foi inspiração do presidente venezuelano - e o sonho do carnavalesco era, aliás, que o próprio Chávez viesse de destaque naquela alegoria. O presidente da Vila Isabel agradeceu publicamente ao presidente Hugo Chávez pelo patrocínio, dizendo que sem esse apoio a escola não conseguiria trazer para o desfile fantasias luxuosas e alegorias do porte das que foram apresentadas. Julio Garcia Montoya, embaixador da Venezuela no Brasil, corrobora a suspeita de que a idéia por trás do enredo era política: “[a vitória da Vila Isabel] foi o triunfo de uma idéia cada vez mais vigente em nosso continente, a idéia da integração”.

Os investimentos da PDVSA no carnaval carioca foram mais além. A empresa estatal de petróleo da Venezuela adquiriu um camarote inteiro na Passarela do Samba para seus funcionários e convidados. Ainda há, na imprensa venezuelana, a denúncia de que pelo menos quinhentas pessoas teriam vindo da Venezuela para desfilar na Vila Isabel, todas com passagem e hospedagem pagas pela PDVSA. Para aguçar as críticas dos venezuelanos - digo, dos venezuelanos não-bolivaristas -, a PDVSA está, no momento, envolvida em uma grave crise de corrupção a la Mensalão. Mas pouco disso chega à imprensa brasileira, em grande parte por conta do policiamento existente em alguns de nossos meios de comunicação contra os que ousam falar mal de qualquer líder da esquerda latino-americana.

O que se espera, de todo este imbroglio, é que a Liga Independente das Escolas de Samba, a entidade privada que transformou o carnaval do Rio de Janeiro em um evento profissional e rentável, repense suas regras sobre o patrocínio dos desfiles para as escolas, sob o risco de transformarmos a Sapucaí em palanque político. Mas é de se perguntar se um patrocínio do governo estadunidense seria tão celebrado pela imprensa brasileira quanto está sendo esta ajudinha dada à Vila Isabel pelos petrodólares de Hugo Chávez…

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Thursday, March 2, 2006

A Natureza da Poesia

Segismundo Spina, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), estudioso de filologia e autor de algumas das obras mais importantes publicadas no país sobre a poética clássica e medieval, criador de uma disciplina dedicada inteiramente ao estudo da obra de Luís de Camões na USP e dono de uma biblioteca raríssima de volumes raros sobre história da literatura, gramáticas da língua portuguesa e poética, jamais leu literatura moderna.  Ao menos, não como ele considera que seja ler um autor - e não é difícil imaginar o que Spina considera ler um autor, ele cuja coleção de obras reunidas ao longo de sessenta e cinco anos de estudos hoje forma um acervo com seu nome, adquirido em 2001 pelo então Centro universitário Fieo, de Osasco, São Paulo, sob a condição do professor de que sua biblioteca jamais fosse desmembrada.  Por isso, Segismundo Spina diz sempre que não fala sobre literatura moderna.

Sua coragem intelectual, contudo, surpreende mais que sua vasta coleção de obras meticulosamente catalogadas e garimpadas em sebos e colecionadores em todo o mundo lusófono - afinal, é lançar-se aos leões, no Brasil, dizer-se avesso à poesia de Carlos Drummond de Andrade, à prosa de Guimarães Rosa ou às experimentações contemporâneas da poesia concreta, da poesia engajada e de outras que tais.  Mas o filólogo tem lá suas razões - e isso parece enfurecer ainda mais os modernosos.  Spina diz que poesia contemporânea ele “não [lê] de jeito nenhum”, porque não considera poesia textos que fogem à “natureza da poesia”, segundo o estudioso.  O professor, cuja tese de doutorado foi um profundo estudo antropológico das formas primitivas da poesia (posteriormente publicado na forma de ensaio com o título “Na Madrugada das Formas Poéticas”), relembra que a poesia “nasceu nos povos iletrados, nas tribos primitivas, até o fim da Idade Média, quando ela começa a se tornar uma poesia de valor e de objetivo estético”.  A música e a poesia, diz Spina, “nasceram juntas, a letra e a melodia (…) Depois que cada uma adquiriu sua liberdade estética, a música passou a ser música e a poesia a ser poesia”. 

Por isso o autor de “A Cultura Literária Medieval” e “A Lírica Trovadoresca” considera que “esses poetas modernos atuais (…) não são poetas”.  Para ele, a verdadeira poesia é a que conserva as características iniciais do que sempre foi defendido na poética de todas as épocas, desde seu surgimento como objeto de estudo: o ritmo, a cadência, o jogo de imagens e metáforas, a expressão do sonho, do inefável, “daquilo que está na periferia da realidade, e não na realidade”.  A negação do sonho, reduzido pelos realistas a uma fuga da crueldade que é o mundo - sim, pois para os realistas o mundo parece ser resumido a dresgaças em sucessão contínua e eterna -, fez com que o poeta contemporâneo, de fato, estancasse em um estado de alma, refletido em seu vocabulário e em sua temática, que ora reside na sátira, ora na pornografia - quase sempre em um tom inegável de pessimismo em relação à vida e ao outro. 

Em relação à forma, a opinião de Spina é igualmente categórica: ”eles não têm capacidade de criar em poesia”; para o professor de filologia portuguesa, os poetas modernos limitaram-se a aproveitar “o desdobramento da atividade poética” - que, para Spina, “morreu mais ou menos durante o romantismo” - e “fizeram um desdobramento entre poesia quadrada, poesia oblíqua, concreta, cúbica…uma demonstração de incapacidade” na arte de escrever poesia.  “A literatura evolui”, reconhece Spina, ”mas a poesia não evoluiu, ela se desdobrou em formas que eu detesto(…) pois não conserva o ritmo, o jogo das imagens, das metáforas, não conserva aquele halo milagroso e inefável que para mim é a essência da poesia”.     

Decerto a visão de Segismundo Spina é desprezada por boa parte dos escritores contemporâneos que, talvez involuntariamente, compactuam com a idéia vigente em boa parte da intelectualidade brasileira de que “o que é antigo, não merece ser estudado” ou ainda que “o objetivo da arte é a contestação”, tão alimentados pelos anos todos de repressão ideológica que vivemos na história recente de nosso país.  Mas retratar Spina como um “reacionário antidemocrático” seria, no mínimo, uma absurda falta de visão.  O professor emérito da USP, hoje aposentado depois de mais de sessenta e cinco anos de vida acadêmica, não renega os contemporâneos e modernos meramente por questões cronológicas (uma de suas poetisas favoritas é Cecília Meirelles, talvez nosso maior expoente da poesia de todos os tempos e gêneros, e contemporânea de autores cuja “obra poética” Spina faz questão de ignorar), muito menos por este ou aquele alinhamento político incorporado à poesia ou à biografia deste ou daquele escritor.  Ele repudia o afã insaciável que parecem ter os “poetas” modernosos de sempre quebrar um novo paradigma, de sempre propor uma inovação estética ou uma forma nova de fazer poesia, quando, em verdade, boa parte deles parece mesmo não dominar a arte poética e fazem, quando muito, obras mais próximas das artes plásticas - este um ramo artístico praticamente destruído pela febre contemporânea do “é proibido probir”.  Infelizmente, o que se vê hoje no panorama da poesia brasileira são algumas vertentes questionáveis em seu valor, mas facilmente identificáveis em sua produção: a que faz poemas que são prosa espalhada no papel; a que faz poesia como se escrevesse textos para publicidade e propaganda; a que distorce o texto ao ponto de torná-lo de difícil identificação; a vertente que escolhe palavras difíceis e, o que é pior, desconexas, que parecem colidir umas com as outras, associando poesia a um hermetismo de confraria, no qual os poetas alimentam-se de si mesmos.  São os “poemas do óbvio”, os “poemas-nota de jornal”, os “poemas-engraçadinhos” que povoam as coletâneas literárias e mesmo as obras dos poucos poetas que podemos considerar “consagrados” no atual panorama literário brasileiro.  Fenômeno ainda mais curioso, contudo, talvez gerado justamente pela falta de nomes que cativem o leitor para a poesia nos dias de hoje, é o da tendência de se resgatar as letras de canções brasileiras como obra poética - como se aqueles textos pudessem sobreviver sem o aporte da música com que foram gerados -, o que é possível em apenas algumas letras de certas canções de um número limitado de compositores populares do Brasil. 

Mas não, nada disso é poesia em sua essência - onde estão o ritmo, a escolha vocabular, o viajar seguro pelos campos metafóricos, os jogos de imagem que nos ajudam a romper as limitações do racional e buscar respostas em uma metafísica do texto?  Para os contemporâneos, cujo materialismo e pessimismo fazem negar a existência de qualquer transcendência, poesia é o que desejamos chamar de poesia, enfim.  E a sobrevivência da poesia entre nós, o renascimento do interesse das novas gerações pela arte poética talvez resida justamente em um resgate do que há de mágico, de espiritual e de sobre-humano na drummoniana - e Drummond teve seus momentos de mágico e de transcendente - “luta mais vã” de “lutar com as palavras”.  

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Wednesday, March 1, 2006

Perguntas que não querem calar

Assistir aos noticiários e trasmissões ao vivo de eventos diversos - de concertos de rock a desfiles de escolas de samba - na televisão aberta dá ao expectador uma curiosa medida da forma como nossas faculdades de jornalismo devem estar a ensinar (ou, ao menos, falhando ao corrigir) seus alunos: as perguntas dos repórteres, seus ex-alunos.

Se a notícia é sobre uma tragédia com desabrigados - seja ela uma terrível inundação, um edifício que desabou ou um incêndio em uma favela -, é quase certo que um repórter irá entrevistar um dos atingidos, perguntando-lhe: “Como você irá fazer agora que a sua casa foi destruída?”

Se o entrevistado é uma celebridade que acabou de atravessar a Passarela do Samba, depois de um desfile de escolas de samba, a pergunta é, invariavelmente, esta: “E aí, [nome da celebridade], muita emoção?”  Contudo, se a celebridade por alguma razão demonstrar cansaço extremo ou exibir algum ferimento - digamos, um talho sangrando no pé ou arranhões decorrentes da fantasia mal construída, a pergunta pode variar para “E aí, [nome da celebridade], vale tudo pela sua escola?”, uma pergunta que é aparentada com aquela que se dirige, sempre, aos fãs que aguardam horas e horas na fila de um estádio para comprar os ingressos do concerto de sua banda preferida: “E aí, vale tudo para ver seu ídolo de perto?”

Se o evento é uma partida de futebol, seja final de campeonato ou um jogo qualquer do início da tabela, o repórter esportivo, este personagem de inúmeras frases feitas, irá inquirir do vencedor sobre como foi que ele fez aquele gol da vitória - como se alguém que correu por noventa minutos atrás de uma bola fosse lembrar dos detalhes de um específico evento da partida - ou das razões que dá o derrotado para aquele fracasso inesperado ou, se o entrevistado for o goleiro perdedor. para que aquele frango indesejado tenha acontecido.   

Pior mesmo são os repórteres que fazem a cobertura dos velórios de personalidades de qualquer sorte - ou, quando a pergunta é ainda mais cruel, de parentes e amigos de vítimas da violência urbana, pois eles parecem não poupar ninguém em seus momentos de dor e desespero, invariavelmente fazendo aos que choram seus mortos a terrível pergunta: “O que você está sentindo?”

Quando ouço essas e outras perguntas tolas ou torpes, que se repetem ad nauseam em nossa televisão aberta - sinal de que muitos profissionais do jornalismo televisivo parecem se limitar à imitação dos que o precederam, sem nenhum sinal de que percebem a tolice de suas indagações aos seus tantos entrevistados - lembro-me de uma famosa entrevista do poeta Mário Quintana a uma conhecida apresentadora de televisão.  Eram os anos 1980 e havia uma mania curiosa de os entrevistadores perguntarem a um famoso, em terceira pessoa, sobre eles mesmos.  O entrevistado, esperava-se, começaria então a discorrer sobre si mesmo como se falassem de alguém ausente - algo como “O [nome do entrevistado] é uma pessoa comum, etc, etc”…   E a repórter começou sua conversa com o poeta perguntando-lhe, de chofre:  “Quem é Mário Quintana?”  Ele olhou assustado para a moça, que continuava com seu ensaiado sorriso para o porto-alegrense de coração, e respondeu-lhe, no maior dos espantos: “Mário Quintana sou eu, minha filha!”

Resta-nos saber quando os nossos repórteres irão calar essas perguntas que nada acrescentam à necessidade de conhecer de nenhum de nós, telespectadores. 

Assistir aos noticiários e trasmissões ao vivo de eventos diversos (…) na televisão aberta dá ao expectador uma curiosa medida da forma como nossas faculdades de jornalismo devem estar a ensinar (ou, ao menos, falhando ao corrigir) seus alunos: as perguntas dos repórteres, seus ex-alunos.

Se a notícia é sobre uma tragédia com desabrigados (…), é quase certo que um repórter irá entrevistar um dos atingidos, perguntando-lhe: “Como você irá fazer agora que a sua casa foi destruída?”

Se o entrevistado é uma celebridade que acabou de atravessar a Passarela do Samba, (…)a pergunta é, invariavelmente, esta: “E aí, [nome da celebridade], muita emoção?” Contudo, se a celebridade por alguma razão demonstrar cansaço extremo (…), a pergunta pode variar para “E aí, [nome da celebridade], vale tudo pela sua escola?”, uma pergunta que é aparentada com aquela que se dirige, sempre, aos fãs que aguardam horas e horas na fila de um estádio para comprar os ingressos do concerto de sua banda preferida: “E aí, vale tudo para ver seu ídolo de perto?”

Se o evento é uma partida de futebol, (…)o repórter esportivo, este personagem de inúmeras frases feitas, irá inquirir do vencedor sobre como foi que ele fez aquele gol da vitória - como se alguém que correu por noventa minutos atrás de uma bola fosse lembrar dos detalhes de um específico evento da partida (…)

Pior mesmo são os repórteres que fazem a cobertura dos velórios de personalidades de qualquer sorte - ou, quando a pergunta é ainda mais cruel, de parentes e amigos de vítimas da violência urbana, pois eles parecem não poupar ninguém em seus momentos de dor e desespero, invariavelmente fazendo aos que choram seus mortos a terrível pergunta: “O que você está sentindo?”

Quando ouço essas e outras perguntas tolas ou torpes,(…)lembro-me de uma famosa entrevista do poeta Mário Quintana a uma conhecida apresentadora de televisão. Eram os anos 1980 e havia uma mania curiosa de os entrevistadores perguntarem a um famoso, em terceira pessoa, sobre eles mesmos. O entrevistado, esperava-se, começaria então a discorrer sobre si mesmo como se falassem de alguém ausente - algo como “O [nome do entrevistado] é uma pessoa comum, etc, etc”… E a repórter começou sua conversa com o poeta perguntando-lhe, de chofre: “Quem é Mário Quintana?” Ele olhou assustado para a moça, que continuava com seu ensaiado sorriso para o porto-alegrense de coração, e respondeu-lhe, no maior dos espantos: “Mário Quintana sou eu, minha filha!”

Resta-nos saber quando os nossos repórteres irão calar essas perguntas que nada acrescentam à necessidade de conhecer de nenhum de nós, telespectadores.

[LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO]

Posted by Frizero at 19:38:46 | Permalink | No Comments »