Quem vela os ditadores?
Não importa quão sangrento seja seu longo governo, quão descaradamente contrário às liberdades individuais sejam suas leis, quão frágeis sejam as conquistas obtidas por suas gestões para a maioria das populações - os ditadores sempre terão seus defensores ardorosos, seus fãs incondicionais, seus cegos seguidores que verão em qualquer crítica a seu líder não mais que uma intriga oposicionista, a qual sempre associarão com o mal.
A morte de Augusto Pinochet, general que foi responsável pelo mais cruel dos regimes militares implementados na América Latina nas décadas de 1960 e 1970, é uma prova disso. Enquanto familiares das mais de três mil vítimas das perseguições políticas implementadas pelo ex-ditador chileno reuniam-se à porta do hospital onde o general e senador vitalício do Chile vivia suas últimas horas de vida, amparado pelo conforto da medicina e pela companhia dos parentes mais próximos, outros tantos, seus fãs e seguidores, oravam e gritavam palavras de apoio a Pinochet. O encontro dos dois grupos gerou, inclusive, diversos confrontos na capital chilena após o anúncio da morte do ex-ditador - que, graças à visão acertada da atual presidente do país, Michelle bachelet, não terá honras de chefe de Estado em suas exéquias.
A balbúrdia dos apoiadores de Pinochet - assim como as manifestações de afeto dos cubanos a Fidel Castro, os gritos de satisfação dos seguidores de Hugo Chávez, as milícias terroristas que apóiam Saddan Hussein e tantos outros exemplos que poderíamos listar de apoio popular a líderes que abertamente violam direitos humanos ou cerceiam as liberdades individuais - é um sinal de uma verdade incontestável: os ditadores jamais chegam ao poder sem um grupo que os dê suporte. As ditaduras impõem-se - por vezes sorrateiramente, por vezes à força de sangue e lágrimas - por interesse de um grupo sobre as idéias dos demais. Não foi pelo caminho das urnas que Adolph Hitler governou a Alemanha? Não arregimentou estudantes vigorosos na defesa de suas idéias tortas o temerário Mao Tsé-tung? Parece-nos, por isso, curioso - ainda que justíssimo - que sejam levados aos tribunais apenas esses homens que lideram povos e países a mão de ferro, quando em verdade há todo um extrato da população daqueles países que o apoiou, e por vezes segue apoiando até sua morte e faz de sua memória mesmo objeto de devoção. Quantos deles não mereceriam dividir, com seus ditadores por opção, aquele banco dos réus que raramente, aliás, consegue ser a eles imposto?
Os ditadores sabem que não há sobrevivência no poder apenas pela força bruta, e por isso eles sempre trabalham no sentido de conquistar o apoio daqueles que se vendem por pouco, muito pouco. Cargos e vantagens para os poderosos, avanços sociais para os mais carentes, rigor de leis arbitrárias e o garrote das prisões e assassínios aos que contra eles tentam lutar: esses parecem ser, sem exceção, os procedimentos dos ditadores para perenizarem-se no poder. Experimente escolher um ditador da História e aplicar-lhe a fórmula - lá encontrarás, nos registros de seu governo, um grupo que o apoiava por interesses particulares, outro que o seguia como a um Messias, e um grupo que lhe serviu como bode expiatório, símbolo do mal que os ditadores adoram usar como fator de união das forças que o apóiam.
Pinochet tem até hoje - após sua morte tornada confortável pelos meios da medicina que o ampararam ao fim da vida, em um luxuoso hospital de Santiago do Chile - seus apoiadores, seus fãs e aqueles que por ele foram oprimidos. Deste último grupo, muitos restam apenas na memória dos familiares, já que muitos deles foram torturados e mortos de forma cruel, muitos deles lançados ainda com vida em meio ao Oceano Pacífico, de aviões da Força Aérea Chilena, de modo a que lhe fossem negados até mesmo o direito de serem velados por seus entes queridos. E quem velará Pinochet? Os tantos que acreditam que os avanços econômicos e sociais que seus dezessete anos de ditadura sangrenta levaram ao Chile são uma compensação aceitável para as sevícias e mortes produzidas pelo pensamento torto de sua gestão à frente da presidência daquele país. Resta-nos a esperança de que nosso país fuja a essa conjunção de apoiadores, inocentes úteis e opositores perseguidos e demonizados que parece construir os mais temerários ditadores.