Monday, December 18, 2006

Do alto de suas torres de marfim…

Napoleão Bonaparte pregava que os altos salários eram uma condição sine qua non para que os administradores públicos fossem afastados da corrupção, da tentação de trair os interesses da coletividade em prol dos interesses próprios.  Infelizmente o famoso estadista, sobre quem a História registrou outros erros de avaliação que lhe renderiam a derrota de seu império, não levou em conta fatores muito próprios da condição humana: a cobiça e a arrogância.

Apenas a cobiça pode explicar o aumento de mais de noventa por cento auto-concedido pela atual legislatura federal, ao apagar das luzes do mandato de muitos de seus ocupantes.  Em um momento no qual o país tenta entender o resultado das urnas, que coroou de êxito uma gestão presidencial marcada pelos escândalos de corrupção até hoje não explicados e absolveu um sem-número de parlamentares envolvidos em falcatruas diversas, mesmo sob uma avalanche de provas que contra eles depunham, os deputados federais e senadores aprovaram, em acordo dos respectivos presidentes de suas casas legislativas, tal reajuste salarial que refletirá nas Assembléias Legislativas de todo o país e causará um impacto financeiro enorme em todos os estados.  Equiparando-se aos ministros do Supremo Tribunal Federal, os parlamentares mostraram-se distantes - e insensíveis - à realidade de uma nação que luta a duras penas para ser mais igualitária; o fato é ainda mais revoltante quando se sabe que o Congresso Nacional, neste exato momento, discute a duras penas um aumento no valor do salário-mínimo nacional, um parâmetro que ainda é distante para boa parte de nossa população.  Mas, nas palavras do presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, a indagação é outra: “O que é que fazem os rapazes do Ministério Público Federal e os juízes do Supremo Tribunal Federal que nós não fazemos?”

Os juízes do Supremo Tribunal Federal, por sua vez, parecem encarnar a arrogância humana que Napoleão Bonaparte ignorou ao propor altos salários aos funcionários públicos.  Somente esse desvio de caráter pode justificar situações como as do caso Pimenta Neves-Sandra Gomide, em que o assassino, um jornalista influente de São Paulo, segue em liberdade concedida por seguidas liminares concedidas pelos juízes daquele tribunal, ainda que seja Pimenta Neves  réu confesso de um homicídio duplamente qualificado e tenha já sentença definida pela Justiça.  Presos às tecnicalidades de um Código Processual Penal que protege os poderosos, os que têm dinheiro o bastante para manter advogados que os sutentem em liberdade à força de liminares, os juízes do Supremo Tribunal Federal parecem ter se distanciado da realidade dos homens comuns, que praticam crimes comuns e que, libertos, oferecem perigos reais para a sociedade. 

Mas nem juízes, nem parlamentares, enfim, vivem em nossa sociedade.  Eles ganham salários majestosos dos cofres públicos, ou seja, da população que paga impostos, e sequer precisam ser eficientes para garantir seus pagamentos no fim do mês.  Diferentemente dos altos executivos das empresas privadas, que recebem vencimentos consideráveis à custa de muito esforço e da constante ameaça da concorrência, os altos salários do Poder Público sentem-se na confortável situação de estar prestando um favor à população ao iremtrabalhar todos os dias - e somente essa sensação de que não prestam um serviço remunerado, mas sim honram o serviço público com suas vetustas presenças é que pode justificar a existência, por exemplo, de instituições absurdas como o jeton oferecido como incentivo para o seu comparecimento às sessões que, via de regra, seria uma de suas principais obrigações contratuais para com o serviço público.

Do alto de suas torres de marfim, desfilando em seus carros potentes pelas avenidas amplas de Brasília, os que ganham acima de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) mensais não devem mesmo ter tempo - ou ânimo - para olhar para os lados e reparar no mundo que os cerca.  Não podemos culpá-los por não verem a dor da família de Sandra Gomide, ou as carências das periferias de Rio Branco, no Acre, ou a situação das vinte e seis famílias de papeleiros que, enquanto Porto Alegre comemorava a conquista de um campeonato de futebol, perdiam suas casas em um incêndio.  Parlamentares e juízes, promotores e outros tantos abonados do serviço público, confortavelmente instalados diante de seus canais exclusivos de televisão a cabo, não terão visto o sofrimento dos catadores de papel que, mesmo diante do caos de terem perdido boa parte dos poucos pertences consumidos pelo fogo, resolveram dormir no local com medo de que outros saqueassem os papelões que eles haviam coletado durante o fim de semana para vender no dia de hojena segunda-feira seguinte. 

Por isso não podemos culpá-los: eles, juízes e deputados e promotores e senadores, como o nosso Presidente da República, não sabem de nada.  Saberia Napoleão Bonaparte?

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Monday, December 11, 2006

Quem vela os ditadores?

Não importa quão sangrento seja seu longo governo, quão descaradamente contrário às liberdades individuais sejam suas leis, quão frágeis sejam as conquistas obtidas por suas gestões para a maioria das populações - os ditadores sempre terão seus defensores ardorosos, seus fãs incondicionais, seus cegos seguidores que verão em qualquer crítica a seu líder não mais que uma intriga oposicionista, a qual sempre associarão com o mal.

A morte de Augusto Pinochet, general que foi responsável pelo mais cruel dos regimes militares implementados na América Latina nas décadas de 1960 e 1970, é uma prova disso. Enquanto familiares das mais de três mil vítimas das perseguições políticas implementadas pelo ex-ditador chileno reuniam-se à porta do hospital onde o general e senador vitalício do Chile vivia suas últimas horas de vida, amparado pelo conforto da medicina e pela companhia dos parentes mais próximos, outros tantos, seus fãs e seguidores, oravam e gritavam palavras de apoio a Pinochet. O encontro dos dois grupos gerou, inclusive, diversos confrontos na capital chilena após o anúncio da morte do ex-ditador - que, graças à visão acertada da atual presidente do país, Michelle bachelet, não terá honras de chefe de Estado em suas exéquias.

A balbúrdia dos apoiadores de Pinochet - assim como as manifestações de afeto dos cubanos a Fidel Castro, os gritos de satisfação dos seguidores de Hugo Chávez, as milícias terroristas que apóiam Saddan Hussein e tantos outros exemplos que poderíamos listar de apoio popular a líderes que abertamente violam direitos humanos ou cerceiam as liberdades individuais - é um sinal de uma verdade incontestável: os ditadores jamais chegam ao poder sem um grupo que os dê suporte. As ditaduras impõem-se - por vezes sorrateiramente, por vezes à força de sangue e lágrimas - por interesse de um grupo sobre as idéias dos demais. Não foi pelo caminho das urnas que Adolph Hitler governou a Alemanha? Não arregimentou estudantes vigorosos na defesa de suas idéias tortas o temerário Mao Tsé-tung? Parece-nos, por isso, curioso - ainda que justíssimo - que sejam levados aos tribunais apenas esses homens que lideram povos e países a mão de ferro, quando em verdade há todo um extrato da população daqueles países que o apoiou, e por vezes segue apoiando até sua morte e faz de sua memória mesmo objeto de devoção. Quantos deles não mereceriam dividir, com seus ditadores por opção, aquele banco dos réus que raramente, aliás, consegue ser a eles imposto?

Os ditadores sabem que não há sobrevivência no poder apenas pela força bruta, e por isso eles sempre trabalham no sentido de conquistar o apoio daqueles que se vendem por pouco, muito pouco. Cargos e vantagens para os poderosos, avanços sociais para os mais carentes, rigor de leis arbitrárias e o garrote das prisões e assassínios aos que contra eles tentam lutar: esses parecem ser, sem exceção, os procedimentos dos ditadores para perenizarem-se no poder. Experimente escolher um ditador da História e aplicar-lhe a fórmula - lá encontrarás, nos registros de seu governo, um grupo que o apoiava por interesses particulares, outro que o seguia como a um Messias, e um grupo que lhe serviu como bode expiatório, símbolo do mal que os ditadores adoram usar como fator de união das forças que o apóiam.

Pinochet tem até hoje - após sua morte tornada confortável pelos meios da medicina que o ampararam ao fim da vida, em um luxuoso hospital de Santiago do Chile - seus apoiadores, seus fãs e aqueles que por ele foram oprimidos. Deste último grupo, muitos restam apenas na memória dos familiares, já que muitos deles foram torturados e mortos de forma cruel, muitos deles lançados ainda com vida em meio ao Oceano Pacífico, de aviões da Força Aérea Chilena, de modo a que lhe fossem negados até mesmo o direito de serem velados por seus entes queridos. E quem velará Pinochet? Os tantos que acreditam que os avanços econômicos e sociais que seus dezessete anos de ditadura sangrenta levaram ao Chile são uma compensação aceitável para as sevícias e mortes produzidas pelo pensamento torto de sua gestão à frente da presidência daquele país. Resta-nos a esperança de que nosso país fuja a essa conjunção de apoiadores, inocentes úteis e opositores perseguidos e demonizados que parece construir os mais temerários ditadores.

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Wednesday, December 6, 2006

‘Perdão, porque mal sei ler’ - Apresentando António Aleixo, poeta popular português

António Aleixo “Embora não totalmente analfabeto – sabe ler e tem lido meia dúzia de bons livros –, não é capaz, porém, de escrever com correção e a sua preparação intelectual não lhe dá certamente qualificação para poder ser considerado um poeta culto”. Com essas palavras o professor Joaquim de Magalhães apresentou António Aleixo ao público português no prefácio do primeiro livro do poeta. A edição dessa primeira coletânea de versos de Aleixo, como será visto adiante, foi fruto do esforço de Magalhães para divulgar uma obra que, do contrário, permaneceria inédita até os nossos dias.

A poesia de António Aleixo despertou o interesse desse professor por conta, segundo ele, de haver naqueles versos “uma correção de linguagem e, sobretudo, uma expressão concisa e original de uma amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida, que não deixam de impressionar”. Magalhães assinala ainda o fato de que os poemas de Aleixo são “produtos de uma espontaneidade, quase inacreditável para quem não [conhecia] pessoalmente o poeta”, para ele detentor de uma “inspiração raríssima”.

António de Souza Duarte, jornalista português, em seu livro “António Aleixo – o Poeta do Povo”, afirma que “falam pouco de António Aleixo as enciclopédias portuguesas. Significativamente pouco, se se atentar na forma renovada e ciclicamente entusiasmada como o [povo português] continua a conhecer, a citar e a cultivar o gosto pela sua obra” [1]. A poesia de Aleixo, ainda que pouco presente nos estudos acadêmicos, que raramente se debruçaram sobre a pequena obra deixada pelo poeta, é conhecida de boa parte do público português, que recita algumas de suas quadras como se fossem já composições de domínio público e autoria desconhecida, parte de sua memória afetiva e de sua cultura popular.

António Fernandes Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António, uma pequena cidade do Algarve, sul de Portugal, na fronteira com a Espanha. Filho de um operário tecelão, teve uma infância de dificuldades e foi obrigado a Vila Real de Santo António, no Algarve, é a cidade natal do poetaabandonar os estudos antes de completar o segundo ano de escolaridade. Sua experiência com poesia surgiu ainda aos dez anos de idade: há, no sul de Portugal, um antigo costume de grupos de crianças que vão de porta em porta, à época das festas natalinas, a cantar as “janeiras”, quadras que se vão repetindo, alterando-se apenas o nome do dono da casa, que é então homenageado em troca de algum dinheiro ou prenda natalina. Como o repertório de seu grupo se esgotara, Aleixo começou a inventar, por si próprio, as quadras para o pequeno grupo de cantores populares.

A vida de António Aleixo, contudo, foi de sobrevivência difícil em meio à pobreza daqueles primeiros anos do século XX: foi tecelão, como o pai; serviu o exército, onde aprenderia de fato a ler e escrever, ainda que de forma rudimentar; depois, policial; imigrou para a França, onde exerceu o ofício de pedreiro; foi depois vendedor de cautelas de loteria – ocupações que mantinha em paralelo aos improvisos em praça pública, que, em pouco tempo, se tornaram uma nova fonte de renda, pois passou a se apresentar em festas populares e romarias, ocasiões em que começou também a vender seus versos impressos. Sobre suas várias profissões, escreveu Aleixo:

Fui polícia, fui soldado,
Estive fora da Nação,
Vendo jogo, guardei gado,
Só me falta ser ladrão.
[2]

Em 1942, por iniciativa de um amigo de António Aleixo, um relojoeiro da cidade de residência do poeta, Loulé, fez-se imprimir em uma gráfica local uma folha datilografada com cerca de duas dúzias de quadras do poeta que ele, o comerciante, colecionara. Joaquim de Magalhães, à época professor do Liceu de Loulé, recebeu um exemplar da pequena coletânea e, entusiasmado pela qualidade poética que observou na despretensiosa obra, propôs-se a fazer uma compilação das quadras de António Aleixo, servindo-lhe de “secretário” para coletar material suficiente para a publicação de um volume de poesias. Sobre esse fato, escreveu Aleixo:

Não há nenhum milionário
que seja feliz como eu
tenho como secretário
um professor do liceu.

Conta Magalhães em seu livro “Ao Encontro de António Aleixo”, que sua intenção fora a de divulgar a poesia de Aleixo, que considerava digna de registro, mas também de ajudar, de alguma forma, o poeta que vivia em condições financeiras precárias para sustentar uma família numerosa – de esposa, dois filhos e quatro filhas, uma delas sofrendo de tuberculose em estágio avançado. As quadras reunidas por Joaquim de Magalhães, muitas delas improvisadas por ocasião do convívio do professor com o poeta, foram editadas em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, em um volume intitulado “Quando Começo a Cantar…”. Sobre a publicação desta obra, Magalhães comenta que se tomou o cuidado de selecionar “tudo o que não pudesse ser motivo para eventual apreensão do livro, caso pudesse vir a ser considerado alvo das vistas curtas da censura intelectual de então”[3]. O descobridor de Aleixo refere-se à PVDE, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado do regime ditatorial de António de Oliveira Salazar. Aliás, ao ditador português ele dedicou estes versos – que o “secretário” Magalhães fez o poeta modificar para que fossem publicados no “Quando Começo a Cantar”:

Esse sujeito é capaz
De fazer mil promessas
Mas faz tudo às avessas
Das promessas que faz.

A edição desse livro de estréia de António Aleixo foi bem recebida pela comunidade algarvia – em parte pelo empenho de Joaquim de Magalhães na divulgação dos poemas de Aleixo – e, em apoio ao poeta, os livreiros da cidade do Faro abriram mão de sua comissão e ajudaram a divulgar o livro junto à imprensa portuguesa, fazendo com que o primeiro milheiro fosse esgotado em dois meses.

Estátua de António Aleixo no centro de Loulé, a cidade onde o poeta viveu por mais tempo. António Aleixo, contudo, no mesmo ano de lançamento de seu primeiro livro, descobre-se também tuberculoso como a filha e, por ingerência de diversos artistas de renome, consegue internação em um sanatório na cidade de Coimbra. Naquela cidade, conheceu outros escritores, como Miguel Torga, e produziu um segundo volume de quadras, chamado “Intencionais”, e duas peças teatrais de inspiração vicentina, o “Auto do Curandeiro” e o “Auto da Vida e da Morte”. A doença, contudo, não cedeu com sua estada no sanatório de Coimbra e, em 1949, António Aleixo viria a falecer na cidade de Loulé, de tuberculose. Por conta do temor do contágio e por desconhecimento, os vizinhos que atenderam ao poeta em seus últimos dias de vida atearam fogo a alguns dos muitos cadernos nos quais Aleixo registrou, incentivado por Joaquim de Magalhães, suas quadras e poemas.

Há uma curiosidade interessante sobre a curta obra deixada por António Aleixo. Os três volumes publicados em vida – “Quando Começo a Cantar…”, “Intencionais” e o “Auto da Vida e da Morte” – esgotaram suas diversas edições; no aniversário de vinte anos da morte do poeta, em 1969, lançou-se o volume “Este Livro que Vos Deixo”, por esforço de Vitalino Aleixo, filho do poeta, e do professor Joaquim de Magalhães, que até o fim da vida se dedicaria à divulgação da poesia de Aleixo. Cinco anos antes da Revolução dos Cravos – e um ano depois do acidente que deixaria inválido para a governança o ditador António Salazar –, o ano de 1969 foi um ano de efervescência política e, em Portugal, começavam a se erguer as vozes contrárias ao regime salazarista, que encontrariam nas quadras de forte cunho social de António Aleixo um reflexo de suas próprias contestações políticas. Alguns versos do poeta popular passaram a ser adotados, então, como palavra de ordem em certos círculos da vida cultural portuguesa, o que motivou uma redescoberta do poeta algarvio no ano em que completaria setenta anos:

Vós lá que do vosso império
Prometeis um mundo novo
Calai-vos, que pode o povo
Qu’rer um mundo novo a sério.

As circunstâncias políticas, aliadas ao caráter de crítica social encontrado em muitas das quadras do poeta algarvio, colocaram “Este Livro que Vos Deixo” no topo da lista de livros mais vendidos desde a data de seu lançamento e por algumas semanas consecutivas naquele ano de 1969. A poesia de Aleixo servia perfeitamente aos ideais revolucionários de então – até mesmo pelo fato de sua publicação ter passado despercebida pela censura política de então, que pouca importância deu à reedição de quadras de gosto popular de um poeta pobre e marginal dentro do cânone literário português. Mas a atualidade da obra simples do poeta faz com que muitas de suas quadras pareçam ser escritas para o mundo de hoje e para o momento em que vivemos:

A ninguém faltava o pão
se este dever se cumprisse:
ganharmos em relação
com o que se produzisse.

À guerra não ligues meia
porque alguns grandes da Terra
vendo a guerra em terra alheia
não querem que acabe a guerra.

Se fazes tudo às avessas,
para que prometes tanto?
Não me faças mais promessas,
bem sabes que não sou santo.

Vós podeis chamar-me louco,
Democrata, socialista,
E comunista também,
Que eu sou de tudo isso um pouco,
Pois sou uma coisa mista
Do bom que isso tudo tem.

Uma das razões formais para o sucesso das quadras de António Aleixo é o uso quase que exclusivo de versos em redondilha maior. Norma Goldstein, em seu compêndio intitulado “Versos, Sons, Ritmos”, recorda que o “verso de sete sílabas (…) é o mais simples, do ponto de vista das leis métricas” e também o “verso tradicional em língua portuguesa”, que já era “freqüente em cantigas medievais”[4] e perenizou-se nas cantigas de roda, quadras e canções populares. Outro recurso usado intuitivamente por Aleixo é a composição de rimas alternadas – ABAB – externas e consoantes, a qual auxilia no ritmo natural da fala em língua portuguesa e oferece fácil identificação por parte do leitor. Tais elementos formais são, ainda, característicos da literatura oral e das formas cantadas de poesia popular, gêneros dentro dos quais Aleixo desenvolveu seu talento poético.

Embora praticasse formas tradicionais de poesia, em si mesmas limitadoras – o quarteto de sentido completo e a sextilha –, Aleixo impunha a esse gênero um traço bastante peculiar de narrativa e de crônica do cotidiano. Seus temas principais oscilavam entre a crítica social, os infortúnios de uma vida miserável e os acontecimentos pontuais do cotidiano português. Curiosamente, quase nada de sua produção ecoa os temas amorosos ou o saudosismo tão presentes na poesia lusitana que o antecedeu:

Nas tuas horas mais tristes
de mágoas e desenganos,
pensa que já não existes,
que morreste há muitos anos.

O que torna a obra de António Aleixo verdadeiramente singular é o que ela representa dentro de uma perspectiva sociológica mais ampla: um poeta popular é sempre uma voz mais próxima à voz do povo, que não sofre as censuras veladas do meio erudito e expressa, em suas formas simples, a sabedoria oriunda da vida empírica mais que do conhecimento construído pelos estudos. Mais que isso, a obra de António Aleixo é um exemplo vivo de que a expressão poética não está cerceada nos limites da academia ou dos círculos de erudição. Aleixo era, acima de tudo, consciente de seu lugar e de suas limitações no mundo, que ele conseguia suplantar apenas por meio de seus versos:

Peço às altas competências
Perdão, porque mal sei ler,
Foto: António AleixoP’ra aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter.


Quando não tenhas à mão
Outro livro mais distinto,
Lê esses versos que são
Filhos das mágoas que sinto.

Julgam-me mui sabedor;
E é tão grande o meu saber
Que desconheço o valor
Das quadras que sei fazer!

Compreendo que envelheci
E que já daqui não passo,
Como não passam daqui
As pobres quadras que faço!

 


Para fazer referência a este artigo:

BARROS, Robertson Frizero. ‘Perdão, porque mal sei ler’ - Apresentando António Aleixo, poeta popular português. (artigo apresentado por ocasião do I Fórum de Literatura Portuguesa e Luso-Africanas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Porto Alegre, 2006)  Disponível em : [http://locutorio.blog.com/1332515/] Acesso em: 07 de dezembro de 2006.


NOTAS

[1] DUARTE (1999, p.11)
[2] Este e todos os demais poemas citados neste artigo são extraídos de ALEIXO (1983).
[3] MAGALHÃES, s.d.
[4] GOLDSTEIN (2001, p.27)

REFERÊNCIAS

ALEIXO, António. Este Livro que Vos Deixo… Loulé: Edição de Vitorino Aleixo, 1983.

DUARTE, António de Sousa. António Aleixo – O Poeta do Povo. Lisboa: Editora Âncora, 1999.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, Sons, Ritmos. São Paulo: Editora Ática, 2001.

MAGALHÃES, Joaquim de. Ao Encontro de António Aleixo. (Cadernos do Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis) Lisboa: Secretaria de Estado da Juventude e Desportos, s.d.

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Monday, December 4, 2006

A Casa da Memória

De Chirico - Mistério e Melancolia de uma Rua - 1914

A casa da memória
- onde convivem em silêncio
o passado que ocultamos
e o que em nós nos assombra -,
é ampla e alta
e espalha-se
em multitudes vastíssimas
de aposentos escuros,
quase sempre impenetráveis.

Seus corredores de assombro
- estreitos como uma culpa,
odiosos como um remorso -
não levam a lugar nenhum
aos quais desejemos chegar.

Suas portas
jamais nos guiam
para onde dizem levar.

(Pobres dos que tateiam
suas paredes arredias
em busca de companhia
ou de um lume qualquer,
uma guia,
um corrimão,
um fio de Ariadne…
Os passos pisam sempre em falso
nessa mansão de lembranças:
abre-se uma porta em vórtice
e o tempo escoa pelas alas
sombrias da estranha morada
até que
a casa dos avós que desprezávamos
e a primeira paixão despedaçada
e o pequeno furto da bala de goma
na rua da igreja de nossa primeira comunhão
e o decote em volúpia da prima distante
e a mentira que feriu o melhor dos amigos
e o verso saqueado de um Camões obscuro
e o crime inconfessável cometido em pensamento
saúdam-nos com um sonoro tapa na face
e partem céleres antes mesmo que se possa oferecer
a outra face descarnada…)

O que sequer suspeitamos
é que em cada sala deixamos
um pedaço que se esvai
de nosso instante presente
a cada nesga de tempo
que ali se queira guardar.

Dizem que há os que ali deixam
lembranças de felicidade -
mas como afastar o espasmo
da dor que lhes é vizinha
ou do pranto que se seguiu
àquela alegria que um dia
vestiu-se de eternidade?

A morada da memória
é feita da nostalgia
à qual chamamos História.

Felizes os que se esquecem
- canhestramente felizes -,
os que vivem nos umbrais
dessa casa amarga de ausências!

Da obra

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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