Saturday, November 11, 2006

Volver

Penélope CruzTalvez o cinema de Pedro Almodóvar ainda não seja palatável para todos os gostos - e há muitos expectadores de cinema que ainda relacionam o diretor espanhol ao quase surrealismo delirante de seus primeiros filmes, uma mistura de cores fortes e personagens marginais que quase sempre levavam ao humor inesperado.  Contudo, não há como negar, tomando-se sua produção desde o maduro Carne Trêmula até o triunfal Fale com Ela, pelo qual Almodóvar foi agraciado com o Oscar de Melhor Roteiro na 75ª edição do prêmio do cinema estadunidense, que o cineasta espanhol mostra a cada filme as razões pelas quais é celebrado e considerado um dos grandes gênios do cinema da atualidade. 

Seu último filme, Volver, é uma verdadeira Master Class de tudo o que o bom cinema deve ser.  O filme é entretenimento sem ser escapismo, é único sem ser exótico ou grotesco, é mágico sem apelar para qualquer artificialismo que faça o espectador render-se ao filme facilmente.  Os trabalhos de Almodóvar, aliás, nunca são fáceis de serem assimilados - mesmo sua mais famosa e palatável comédia, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, cujo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1988 apresentou o diretor ao mundo, é repleta de elementos de estranhamento, de cores berrantes e personagens a um passo da histeria.  Não raro seus personagens são desajustados ou criminosos - travestis, prostitutas, drogados, deficientes físicos, mulheres abandonadas, abusadores de menores -, mas Almodóvar parece ser um dos poucos diretores, senão o único da atualidade, a ver nesses personagens todos material possível para compor quadros repletos de humanidade, a resgatar do interior desses tipos que, enfim, fazem parte de nosso cotidiano, aquele cadinho de dignidade que muitas vezes nós, espectadores, negamos a eles na vida real.

Pedro Almodóvar e Penélope CruzVolver não foge a este caminho trilhado pelo diretor, mas é ainda mais brilhante, genial, que seus mais recentes e celebrados antecessores Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella.  Famoso por ser um excelente diretor de atrizes e um roteirista que capta como poucos a alma das mulheres, Almodóvar fez de Volver sua obra-prima sobre a condição feminina.  Os personagens masculinos são vaga referência neste filme que conta a história de uma mulher, Raimunda, que retorna ao seu pequeno povoado na região espanhola de La Mancha para homenagear a memória de sua mãe na cerimônia anual de limpeza dos túmulos no dia de Finados.  Não por acaso a cena inicial do filme tem por cenário um cemitério - a morte paira sobre a história de Raimunda e de todas as mulheres que irão compor o núcleo central da trama: Soledad, irmã de Raimunda, cujo pavor dos mortos se mostra um reflexo de sua própria solidão; Paula, filha de Raimunda, parte central do maior mistério do passado de Raimunda e do pior segredo do presente da mãe, que de tudo faz para proteger a filha das conseqüências dessa história oculta; Agustina, amiga de Raimunda e Soledad, cujo desaparecimento da mãe assombra mais que sua doença terminal; e Irene, mãe de Raimunda, que volta do mundo dos mortos para resolver as pendências que não conseguira solucionar em vida

O filme, contudo, não é mórbido, nem tem a intenção de sê-lo.  Como o título tão magistralmente sintetiza, a idéia central do filme é o retornar, o volver, o desejo que todos os homens nutrem de consertar o passado, retomar a vida a partir de um certo ponto e fazer certo o que antes a vida levou-nos a conduzir de forma equivocada e que, não raro, teve reflexos danosos na vida das pessoas que nos cercam e que tanto amamos.  Almodóvar mostra que, mesmo sem poder mover para trás o tempo, o que sempre tentamos fazer, de uma forma ou de outra, é reviver o que se errou na forma das compensações que nos são possíveis.  Dizer mais que isso sobre a história seria definitivamente estragar o prazer dos que lêem essas palavras antes de assistir este filme único em sua unidade narrativa, no qual nada parece ser gratuito ou decorativo.

Almodóvar e o elenco feminino de 'Volver' em CannesVolver, que foi escolhido pela Academia Espanhola de Cinema para ser o representante daquele país na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2006, tem como pontos de força seu roteiro impecável e um elenco de atrizes do qual é difícil escolher um único destaque.  Penélope Cruz está magnífica no papel central de Raimunda, como Carmen Maura mostra as razões de ter sido a musa do diretor ao longo de tantos anos, mas nenhuma das outras atrizes pode ser apontada como uma escolha infeliz do diretor - prova disso foi a premiação conjunta de Melhor Atriz do Festival de Cannes para todo o elenco feminino de Volver, que ainda rendeu o prêmio de melhor roteiro a Almodóvar.  Contudo, o maior trunfo do filme parece, em verdade, ser resumido em uma única palavra: humanidade.  Há poucos filmes da safra recente que conseguem atingir o coração do espectador de forma tão arrebatadora - e usando tão pouca pirotecnia cinematográfica - como Volver.  Ao final da sessão de estréia em que fomos, eu e minha esposa, assistir o belo trabalho de Almodóvar, a cena final gerou tamanha emoção na platéia que as pessoas tardaram sua saída da sala; ficaram sentadas, em silêncio, olhando os créditos finais que surgiam.  No fundo, compartilhávamos, quietos, a sensação de termos acabado de assistir uma obra-prima da genialidade de um diretor ao qual é impossível ficar indiferente.           

Posted by Frizero at 15:54:23
Comments

One Response to “Volver”

  1. Frizero says:

    As trilhas sonoras dos filmes de Almodóvar são, em geral, um espetáculo à parte: escolhidas com cuidado, as letras da canções costumam estar de algum modo relacionadas ao que se passa na trama - e com “Volver” não é distinto. A canção-título - que a personagem de Penélope Cruz canta em uma das cenas mais emocionantes do filme - é uma regravaçã de Estrella Morente, em ritmo de flamenco, para um famoso tango de Carlos Gardel. Reproduzo abaixo um trecho da letra que considero muito significativo em relação ao tema do último filme de Almodóvar:

    “Tengo miedo del encuentro
    con el pasado que vuelve
    a enfrentarse con mi vida…
    Tengo miedo de las noches
    que, pobladas de recuerdos,
    encadenan mi sonar…
    Pero el viajero que huye
    tarde o temprano detiene su andar…
    Y aunque el olvido, que todo destruye,
    haya matado mi vieja ilusión,
    guardo escondida una esperanza humilde
    que es toda la fortuna de mi corazón.

    Vivir… con el alma aferrada
    a un dulce recuerdo
    que lloro otra vez… “

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