Sunday, November 26, 2006

Moldura

Este texto está indisponível até segunda ordem…

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Saturday, November 25, 2006

Simulacro

Fala-se tanto em impunidade, muito se discute (e se discursa) sobre a violência e a falta de segurança, exageradamente se escrevem leis nesse nosso país, mas a sensação que se tem ao acompanhar com mais vagar o noticiário é que o Brasil é um país que desistiu de si mesmo e decidiu apenas fingir que é um país para não passar vergonha na comunidade internacional.  De certo modo, o país em que vivemos - tomando-se esse todo imaginário chamado Brasil e buscando uma generalização que nos permita vê-lo como uma unidade nacional possível - é um simulacro de país que faz lembrar aquelas caricatas famílias aristocráticas decadentes da ficção, que passam fome mas mantém as cortinas de brocado na parede e gastam o pouco que tem na pintura da fachada da casa apenas para garantir seu espaço na vizinhança e, quem sabe, uns bons convites para as festas da comunidade.

Um exemplo?  Há uma semana comenta-se, em Porto Alegre, sobre um crime que chocou a sociedade local - a dupla morte de uma menina de treze anos e seu professor de piano, de trinta e sete anos, em um quarto de motel localizado em uma das principais vias de acesso à capital.  De início, sugeriu-se a existência de um pacto de morte, boato baseado na existência de supostas cartas de despedida do casal aos pais da menina.  Pelas últimas declarações da polícia, configura-se mais forte a possibilidade de um assassinato seguido de suicídio, ainda que tenham sido encontradas duas armas de fogo no quarto e as primeiras impressões tenham sido a de um duplo suicídio.

A partir do doloroso fato, sobre o qual sempre recairão os questionamentos sobre as razões e a possibilidade de que ele pudesse ter sido evitado, seria interessante ver de que formas os sinais de que vivemos em um país-simulacro transparecem dessa tragédia irreversível.  A primeira informação que surpreeende é a presença de uma adolescente de treze anos de idade acompanhada de um homem adulto de trinta e sete anos em um quarto de motel - tipo de estabelecimento que no Brasil é sinônimo de lugar de encontros sexuais.  Pela legislação brasileira, a entrada de menores em tais locais é vedada, cabendo ao próprio estabelecimento coibir qualquer tentativa de adultos que queiram levar menores para um de seus quartos.  Desnecessário dizer que, em uma criança de treze anos, a questão de a menor estar ali por livre e espontânea vontade é irrelevante e não cabe ao motel fazer julgamentos de valor - presume-se que uma menor de idade não tenha discernimento para saber se é correto estar em um motel com um adulto e, além disso, há que se perguntar se a menor que declare concordância com o fato não estará sendo coibida a isso, ou se não se trata até mesmo de uma situação de prostituição infantil ou de violência sexual pura e simples.  Objeções a essa regra simples - e prevista em lei - devem ser vistas não como omissão, mas como cumplicidade a crimes como pedofilia, exploração sexual de menores e outros a estes correlatos.  Mas não há, por parte desse e de outros tantos motéis pelo Brasil, preocupação alguma com a vida alheia - sendo o preço estipulado pelo quarto pago corretamente, e não havendo nenhum prejuízo material ou de imagem para o estabelecimento, o que ocorre entre suas paredes parece não lhes interessar.

O que revolta, contudo, é que o Estado não se importe.  Por mais de sete dias, o motel no qual ocorreram as fatídicas mortes continuou funcionando normalmente, inclusive mantendo em canais abertos de televisão sua propaganda na qual oferece “suítes com espaço para festas com até quarenta pessoas”.  Nenhuma providência foi tomada pela polícia, pelas autoridades do Judiciário ou mesmo pelas emissoras de televisão que veiculam tal publicidade para punir o motel por ter permitido a entrada de uma menor acompanhada por um homem adulto.  Em 24 de novembro de 2006 os jornais noticiaram que o tal motel será interditado; mas, que nos pasmemos todos, a razão da interdição é que a Prefeitura de Porto Alegre descobriu que o motel em questão não tinha alvará de funcionamento nem o habite-se!  Onde estava a fiscalização da prefeitura que apenas agora, depois de configurada uma tragédia que destruiu pelo menos duas famílias - o professor de piano, recém-separado, deixou um filho; a menina, no início da vida, deixou uma família e um futuro inteiro que sequer começara a ser construído -, descobriu que estava em situação irregular um estabelecimento de fácil acesso, de grande visibilidade, que existe há anos em uma das principais avenidas da cidade, acesso à Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ao município de Viamão, caminho diário de milhares de pessoas?

As falhas de nosso país-simulacro não terminam nesse imbroglio tragicômico: dois dias depois do sepultamento da menina, a Polícia Civil do RS teve que solicitar a Justiça autorização para exumar o corpo da jovem - a perícia não havia feito exames simples, como a constataçõa se existia ou não pólvora nas mãos da vítima, o que impediu o prosseguimento das investigações e a confirmação ou não da hipótese de duplo suicídio ou mesmo da autoria dos disparos. 

Em meio a tudo isso, famílias que sofrem por conta de um país que finge ter leis, que finge cumprí-las, que finge punir culpados - e nós todos, que fingimos nos importar mas ficamos à espera de que alguém resolva isso por nós.

 

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Tuesday, November 21, 2006

Assistencialismo com o dinheiro alheio

O Senado Federal aprovou em 21 de novembro de 2006 um projeto de lei que estabelece o pagamento do décimo-terceiro salário para os beneficiários do programa Bolsa Família.  A votação ocorreu mesmo diante do parecer desfavorável do relator do projeto, senador Romero Jucá (do PMDB de Roraima), líder do governo no Senado, o qual declarou considerar a matéria ”inconstitucional” e sua votação em plenário, portanto, “sem sentido”. 

O autor do projeto, o senador Efraim Morais (do PFL da Paraíba), não só considera pertinente tal pagamento como foi até a Câmara dos Deputados solicitar o apoio dos parlamentares para que a idéia seja aprovada ainda este ano para que o novo benefício seja colocado em prática já em 2007.  O parlamentar nega, contudo, que a medida seja assistencialista. 

A pressa do senador paraibano pode ter uma explicação bastante prosaica: a percepção - de resto, algo generalizada -, de que o programa Bolsa-Família (uma junção feita pelo Governo Lula de diversos programas assistenciais criados em governos anteriores em um único benefício) foi o principal fator que teria levado o candidato à reeleição presidencial à vitória.  Em que pese o juízo apressado que possa estar sendo feito sobre as boas intenções do senador Morais, fica no ar a idéia de que ele, e tantos outros parlamentares, querem obter pelo menos uma das folhas da coroa de louros que hoje ostenta Luiz Inácio Lula da Silva em sua pose ensaiada de “defensor dos pobres”.

O assistencialismo no Brasil, a bem da verdade, não é novidade alguma.  Sempre associado com um populismo que é também característico da política sul-americana, as ações pretensamente generosas de parlamentares e membros eleitos do Poder Executivo nas mais diversas esferas são uma constante há décadas, e refletem-se em toda uma gama de ações que compõem o cenário político brasileiro.  Como explicar, por exemplo, o aumento aprovado na primeira semana de novembro de 2006 para as verbas destinadas às emendas parlamentares, de R$ 3.000.000,00 para R$ 6.000.000,00?  Esse dinheiro, que torna deputados e senadores praticamente em executores de verbas públicas, é o instrumento por eles usado em seus nichos eleitorais para justificar o seu trabalho pelos que neles votaram - e que pode ser usado nos mais diversos e esdrúxulos projetos, da construção de um viaduto onde ele não é necessário à aquisição de ambulâncias por vias fraudulentas.  Enfim, é uma farra assistencial feita com o dinheiro do próprio povo que, desligado das questões políticas, vê tal parlamentar generoso como um homem que faz o bem em um país no qual a classe política está mais que desmoralizada.

Mas seria injustiça acusar os parlamentares de fazer assistencialismo para o povo com o dinheiro que não é deles.  Eles beneficiam-se também do espírito assistencialista do Brasil: ao assumirem, no início do ano de 2007, seus novos mandatos, cada parlamentar receberá do Congresso Nacional uma pasta estilo 007 feita em couro, a qual custou aos cofres públicos a bagatela de R$ 600,00 a unidade. Multiplicando-se o custo unitário pelo número de parlamentares beneficiados, mais de quinhentos, chega-se a uma soma considerável. Além disso, o presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo (do PCdoB de São Paulo), foi pressionado a confirmar que existe uma reivindicação dos parlamentares para que haja “isonomia entre os salários dos três Poderes” - o que, na prática, significa dizer que eles querem um reajuste que equipare seus salários aos do Supremo Tribunal Federal, ou seja, uma manobra que dobraria seus vencimentos mensais atuais de R$ 12.800,00 para R$ 24.500,00.

Diante desses valores, o décimo-terceiro oferecido para os assistidos pelo Bolsa-Família realmente parece justo - e nada assistencialista.

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Monday, November 20, 2006

Espelho

Este texto está indisponível até segunda ordem…

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Saturday, November 11, 2006

Volver

Penélope CruzTalvez o cinema de Pedro Almodóvar ainda não seja palatável para todos os gostos - e há muitos expectadores de cinema que ainda relacionam o diretor espanhol ao quase surrealismo delirante de seus primeiros filmes, uma mistura de cores fortes e personagens marginais que quase sempre levavam ao humor inesperado.  Contudo, não há como negar, tomando-se sua produção desde o maduro Carne Trêmula até o triunfal Fale com Ela, pelo qual Almodóvar foi agraciado com o Oscar de Melhor Roteiro na 75ª edição do prêmio do cinema estadunidense, que o cineasta espanhol mostra a cada filme as razões pelas quais é celebrado e considerado um dos grandes gênios do cinema da atualidade. 

Seu último filme, Volver, é uma verdadeira Master Class de tudo o que o bom cinema deve ser.  O filme é entretenimento sem ser escapismo, é único sem ser exótico ou grotesco, é mágico sem apelar para qualquer artificialismo que faça o espectador render-se ao filme facilmente.  Os trabalhos de Almodóvar, aliás, nunca são fáceis de serem assimilados - mesmo sua mais famosa e palatável comédia, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, cujo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1988 apresentou o diretor ao mundo, é repleta de elementos de estranhamento, de cores berrantes e personagens a um passo da histeria.  Não raro seus personagens são desajustados ou criminosos - travestis, prostitutas, drogados, deficientes físicos, mulheres abandonadas, abusadores de menores -, mas Almodóvar parece ser um dos poucos diretores, senão o único da atualidade, a ver nesses personagens todos material possível para compor quadros repletos de humanidade, a resgatar do interior desses tipos que, enfim, fazem parte de nosso cotidiano, aquele cadinho de dignidade que muitas vezes nós, espectadores, negamos a eles na vida real.

Pedro Almodóvar e Penélope CruzVolver não foge a este caminho trilhado pelo diretor, mas é ainda mais brilhante, genial, que seus mais recentes e celebrados antecessores Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella.  Famoso por ser um excelente diretor de atrizes e um roteirista que capta como poucos a alma das mulheres, Almodóvar fez de Volver sua obra-prima sobre a condição feminina.  Os personagens masculinos são vaga referência neste filme que conta a história de uma mulher, Raimunda, que retorna ao seu pequeno povoado na região espanhola de La Mancha para homenagear a memória de sua mãe na cerimônia anual de limpeza dos túmulos no dia de Finados.  Não por acaso a cena inicial do filme tem por cenário um cemitério - a morte paira sobre a história de Raimunda e de todas as mulheres que irão compor o núcleo central da trama: Soledad, irmã de Raimunda, cujo pavor dos mortos se mostra um reflexo de sua própria solidão; Paula, filha de Raimunda, parte central do maior mistério do passado de Raimunda e do pior segredo do presente da mãe, que de tudo faz para proteger a filha das conseqüências dessa história oculta; Agustina, amiga de Raimunda e Soledad, cujo desaparecimento da mãe assombra mais que sua doença terminal; e Irene, mãe de Raimunda, que volta do mundo dos mortos para resolver as pendências que não conseguira solucionar em vida

O filme, contudo, não é mórbido, nem tem a intenção de sê-lo.  Como o título tão magistralmente sintetiza, a idéia central do filme é o retornar, o volver, o desejo que todos os homens nutrem de consertar o passado, retomar a vida a partir de um certo ponto e fazer certo o que antes a vida levou-nos a conduzir de forma equivocada e que, não raro, teve reflexos danosos na vida das pessoas que nos cercam e que tanto amamos.  Almodóvar mostra que, mesmo sem poder mover para trás o tempo, o que sempre tentamos fazer, de uma forma ou de outra, é reviver o que se errou na forma das compensações que nos são possíveis.  Dizer mais que isso sobre a história seria definitivamente estragar o prazer dos que lêem essas palavras antes de assistir este filme único em sua unidade narrativa, no qual nada parece ser gratuito ou decorativo.

Almodóvar e o elenco feminino de 'Volver' em CannesVolver, que foi escolhido pela Academia Espanhola de Cinema para ser o representante daquele país na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2006, tem como pontos de força seu roteiro impecável e um elenco de atrizes do qual é difícil escolher um único destaque.  Penélope Cruz está magnífica no papel central de Raimunda, como Carmen Maura mostra as razões de ter sido a musa do diretor ao longo de tantos anos, mas nenhuma das outras atrizes pode ser apontada como uma escolha infeliz do diretor - prova disso foi a premiação conjunta de Melhor Atriz do Festival de Cannes para todo o elenco feminino de Volver, que ainda rendeu o prêmio de melhor roteiro a Almodóvar.  Contudo, o maior trunfo do filme parece, em verdade, ser resumido em uma única palavra: humanidade.  Há poucos filmes da safra recente que conseguem atingir o coração do espectador de forma tão arrebatadora - e usando tão pouca pirotecnia cinematográfica - como Volver.  Ao final da sessão de estréia em que fomos, eu e minha esposa, assistir o belo trabalho de Almodóvar, a cena final gerou tamanha emoção na platéia que as pessoas tardaram sua saída da sala; ficaram sentadas, em silêncio, olhando os créditos finais que surgiam.  No fundo, compartilhávamos, quietos, a sensação de termos acabado de assistir uma obra-prima da genialidade de um diretor ao qual é impossível ficar indiferente.           

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Tuesday, November 7, 2006

Ronda

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Posted by Frizero at 13:17:37 | Permalink | Comments (5)