Friday, October 6, 2006

Os Nativos Digitais e nós, os Imigrantes Digitais

Em artigo intitulado “O Trabalho do Professor e as Novas Tecnologias”, publicado na revista TEXTUAL de setembro de 2006 (SINPRO-RS, vol. 1, nº8), Eliane Schlemmer, professora da Universidade do Vale do Sinos (UNISINOS) e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a autora faz uma colocação interessante a respeito do papel do professor em um dos temas mais debatidos no atual cenário da educação brasileira: a interação entre ensino tradicional e novas tecnologias. Falando sobre o “internetês”, ela relembra que a atual geração de professores foi criada em um ambiente analógico, no qual a tecnologia era vista como algo que nós “não podíamos tocar” porque era limitado às pessoas autorizadas para tal (lembro-me que nos últimos anos da década de 1980 eu estudava inglês em um curso livre de idiomas no qual havia recentemente chegado a grande novidade dos videocassetes e das câmeras de vídeo e, como diz Schlemmer, havia um funcionário da escola que era o único autorizado a usar ambos os aparelhos, e uma sala especificamente criada para que eles fossem disponibilizados; entrar lá era algo meio místico, ficávamos, nós e a professora, com medo de quebrar alguma coisa). Schlemmer chama-nos, a nós que vivemos naqueles anos e nas décadas anteriores, de a geração “não mexe que estraga”.

A nova geração, por sua vez, é a geração do “para aprender, tem que mexer”. Internet, Wikipedia, Google, MSN, Blog, Orkut e tantas outras ferramentas que entraram recentemente em nosso mundo não exigiram das novas gerações nenhum curso específico ou formação continuada - ao contrário do que aconteceu com alguns de nós, que no início da expansão digital fizemos algum curso para aprender a mexer no Word ou a acessar a Internet… Nossos alunos aprenderam tudo isso de forma interativa - perguntando aos amigos, virtuais ou não, como se trabalhava com esta ou aquela ferramenta; nenhum deles fez intensivão de Orkut ou tirou diploma de MSN.  Em resumo, nossos alunos são muito mais próximos à interatividade em ambientes digitais que nós mesmos, que vimos essa tecnologia surgir, que acompanhamos a transição entre a máquina de escrever e os primeiros - e limitadíssimos - computadores.

Decerto que falo de alunos que tem certo nível econômico e acesso ao mundo dos computadores, mas creio que esta é justamente a razão pela qual os governos e educadores preocupam-se com inclusão digital mesmo em um país como o nosso, no qual ainda há crianças fora da escola e um imenso número de analfabetos funcionais. É que não se pode esperar pela alfabetização de todos para, então, iniciar-se a “alfabetização digital”: é necessário empreender esforços em ambos os sentidos, até mesmo para que os novos alfabetizados adentrem naturalmente no meio digital, que é o presente e o futuro do mundo. Se hoje o analfabetismo é fonte de exclusão de um mundo regido pelas letras, amanhã o “analfabetismo digital” o será para um mundo cada vez mais controlado por bits e bytes.

Schlemmer refere-se aos jovens que já nasceram nesse mundo altamente “tecnologizado” como “nativos digitais”. Creio que o termo é genial; não sei se foi cunhado por ela, enfim, mas define perfeitamente o domínio e a facilidade com que crianças e adolescentes que trabalham desde pequenos com a tecnologia que hoje nos envolve lidam com todo este mundo que, para nós, professores, ainda é repleto de surpresas e novidades. Aliás, o termo que ela usa, com igual genialidade, para nos definir é “imigrantes digitais”, como pessoas que falam “uma outra língua” e se vêem em um novo país, tendo que aprender, muitas vezes sem qualquer suporte maior, a “língua” do novo. Como os imigrantes, muitos de nós acabam convivendo neste novo mundo de “uma forma um tanto quanto enviesada de se relacionar com esses meios, o que é facilmente evidenciado quando e-mails e textos são impressos para serem lidos, ou, após serem encaminhados, liga-se para saber se o sujeito recebeu”. Segundo Schlemmer, são os “imigrantes digitais” que tentam falar a “língua digital”, mas com “forte sotaque analógico”.

No ambiente escolar, essa inadequação entre “imigrantes digitais” - nós, professores - e os “nativos digitais” mostra-se ainda mais problemática. Para Schlemmer, um dos grandes erros dos professores é imaginar que a Tecnologia Digital (TD) deve ser “introduzida” no processo de ensino e aprendizagem - para ela, a TD não “entra, “ela está sempre presente, imbricada na ação dos ‘nativos digitais’; eles vivem e pensam com essa tecnologia”, por mais que na frente deles esteja um “imigrante digital” com um giz branco e um quadro negro. E o mundo digital é o mundo da interação, da construção conjunta e cooperativa, das trocas e da pesquisa hipertextual - todos estes são conceitos que o “nativo digital” buscará encontrar mesmo que a proposta do professor involva livros, papel, lápis e conversas “presenciais”.

Para Schlemmer, o erro dos professores é o de ainda encarar a tecnologia como um “ferramental” a ser incorporado à prática pedagógica como um complemento, “quem sabe freqüentando o laboratório de informática uma vez por semana”. O mundo digital trouxe para o ensino a necessidade de aprimorar, em verdade, “os espaços de comunicação, de interação, de construção coletiva, de aprendizagem, constituindo-se em verdadeiros espaços de convivência, a fim de provocar desenvolvimento humano - cognitivo, afetivo e social”. Nesse sentido, a autore recorda que não raro o professor foge das aulas em que o computador é usado como ferramenta (às vezes apenas para digitação de texto ou para uso de um CD-ROM que nem sempre é interativo, que muitas vezes tem uma proposta totalmente “analógica”), colocando-a ao encargo de um monitor, para substituir um professor que faltou naquele dia ou mesmo condicionando a ida dos alunos ao laboratório de informática àqueles que tiveram “bom comportamento durante a semana”. A TD é vista “como prêmio, passatempo ou tampão”.

Uma provocação de Schlemmer diz respeito aos alunos que copiam textos da Internet e entregam aos professores como resultado de tarefas a eles propostas. Para ela, o fato denota que os trabalhos solicitados não “mobilizam o sujeito a pensar”, no qual eu concordo em parte com a autora. Se a mera cópia de textos da World Wide Web pode servir para responder à atividade proposta pelo professor, é porque o que foi pedido era meramente informativo, não envolvia leitura crítica nem incentivava a autonomia do aluno - e minha concordância parcial reside apenas no temor que uma colocação como esta seja um incentivo à cola digital, já que mesmo as tarefas mais reflexivas que um professor possa propor já encontram respostas disponíveis na Rede e torna-se difícil muitas vezes para os educadores detectar a ação dos plagiadores digitais.

Para tornar o ensino algo estimulante e desafiador para as novas gerações, segundo Schlemmer, “é preciso saber identificar as metodologias que permitem tirar o máximo de proveito da TD em relação ao desenvolvimento humano”. A pesquisadora acredita que a interdisciplinaridade é uma das formas mais viáveis de desenvolver no ambiente escolar a inclusão da TD como instrumento de autonomia, de cooperação e de autodesenvolvimento de competências por parte dos alunos. “Para promover situações de aprendizagem ao nativo digital“, diz ela, “precisamos estabelecer com ele uma relação de parceria, de trocas de informações, de compartilhamento do conhecimento, de idéias, de projetos”. Nesse sentido, as instituições precisam sair da postura de entraves ao desenvolvimento da TD no ambiente escolar, dando aos professores respaldo e condições para tal; a própria formação docente precisa ser repensada de modo a gerar professores que, se não são ainda “nativos digitais”, pelo menos falem a “língua da tecnologia” com um sotaque menos carregado e cada vez mais próximo de um “nativo”.

Posted by Frizero at 15:07:50
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