Friday, October 27, 2006

O Poeta Revisitado

Diante das dificuldades de ser publicado, sobretudo em um gênero que parece cada vez mais fadado à periferia da literatura em termos de mercado editorial, tenho há tempos divulgado meus poemas na Rede Mundial de Computadores, no afã de conseguir leitores para a minha poesia e, assim, de alguma forma, perceber que tipo de comunicação esses meus textos poéticos estabelecem com um público que ainda lê pomas.  Antes de despertar para as facilidades de publicação do blog, esta ferramenta que possibilita a cada usuário ser seu próprio editor-chefe - para o bem ou para o mal - e divulgar de imediato suas visões sobre o mundo que o cerca, construí uma pequena página de poemas em que deixei abertos para a leitura oito textos de meu primeiro original, À Minha Memória, registrado em 1996 na Biblioteca Nacional.

Mais que encontrar leitores, a Internet fez-me travar contato com a rapidez com que as informações se espalham por esse mundo de virtualidades.  Em pouco tempo, fui descobrindo, cá e lá, meus poemas sendo divulgados em outros sites e blogs, dedicados ou não exclusivamente à poesia, com ou sem os créditos que me eram devidos de autoria.

Não me preocupo demasiadamente com essa ausência de meu nome relacionado àqueles textos, pois sei que muitas vezes é um mero esquecimento ou uma referência secundária - alguém que recebeu o texto de outrem já sem a autoria. Ainda assim, costumo sempre entrar em contato, por e-mail ou comentário nos blogs, pedindo cordialmente que me sejam devidamente creditados os poemas, no que sou geralmente atendido. Irritaram-me os casos em que encontrei meus poemas creditados ao autor do blog, fotolog ou site em que foram reproduzidos, por ser isso um indicativo de má-fé. Mas todas essas situações em que encontrei meus textos espelhados em outros sítios da Internet fizeram-me pensar um pouco sobre os limites da autoria de um texto poético - ou até que ponto essa autoria pode ser retrabalhada ao ponto de apagar a intenção original de qualquer texto.

Falo de situações em que encontrei meus poemas publicados em sites e blogs nos quais seus donos haviam inserido os textos em meio a uma profusão de imagens e cores e músicas de fundo que eu jamais imaginaria associadas aos meus versos, ou mesmo quando minha poesia era usada para justificar ou ilustrar idéias que eu jamais apoiaria.  Em uma das situações mais divertidas pelas quais passei, vi meu poema Abismo de Pássaros publicado em um blog de uma senhora de seus sessenta anos, que para enfeitá-lo rodeou-o com imagens de passarinhos e anjos esvoaçantes e corações que pulsavam e uma musiquinha melosa (executada continuamente pelo sintetizador do computador ao abrir-se a página) que emoldurava sonoramente a apresentação dos versos… O texto praticamente se perdia em meio a tantos elementos visuais, mas, enfim, era o retrato de como meu poema havia sido por ela lido.

Lembro-me de uma história de Mário Quintana, de quando o poeta foi prestigiar uma sessão de declamação de suas poesias em um evento no interior do estado.  Convidaram a melhor declamadora da cidade e, diante da presença viva do poeta maior do Rio Grande do Sul, a pobre senhora alongava e açucarava mais e mais cada verso de Quintana, a ponto de transformar mesmo alguns poemas melancólicos e algo amargos do poeta em uma quase redação juvenil de moças.  Quintana confidenciaria a amigos depois da sessão: “E eu que não sabia que era um fresco!”

Pois eu me senti algo estranho ao ver meus pássaros-poemas tão emplumados, faceiros e cantadores naquele blog repleto de meiguices femininas de uma senhora que estava a descobrir o prazer de comunicar-se por meio da Internet.  Mas, enfim, com que direitos eu poderia exigir que fosse diferente?  O colorido e o brilho infantil das imagens que ela colocou à serviço de meu poema não interferem menos na leitura dos versos que os elementos outros que circundam meus outros poemas espalhados em sites alheios pela Rede Mundial de Computadores.  Aqui, meu poema Solidão é incluído na seqüência de uma série de textos pessimistas e intimistas da autora do blog; acolá, Chopin é divulgado ao lado de uma bailarina animada ou o mesmo Abismo de Pássaros citado como uma boa explicação de poesia sem parecer aula de português… Até em um fotolog com dicas para conquistas amorosas eu já encontrei um poema meu, Bilhete em Silêncio, creditado como sendo do dono da página, autointitulado Don Juan!  Não serão todas essas novas contextualizações de meus poemas uma forma de interpretá-los, de algum modo? 

Enquanto isso, sigo escrevendo poesia e divulgando meus poemas neste Locutório, à espera dos comentários e críticas de novos (e antigos) leitores.  E vez por outra ainda me surpreendo - e me divirto, e me sinto grato pela divulgação desinteressada - com as aparições renovadas que os poemas recebem na mata densa de registros da Internet.   

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Wednesday, October 18, 2006

Todos pela Educação?

A mais recente avaliação nacional sobre a Educação no país, a chamada Prova Brasil, constatou uma realidade desalentadora para os que pensam o Brasil com os olhos no futuro: em termos gerais, o aluno brasileiro é extremamente mal preparado e detém conhecimento muito inferior ao que seria esperado para a série em que está matriculado. 

A Prova Brasil é realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), uma autarquia do Ministério da Educação (MEC), em mais de cinco mil municípios de todas as unidades da Federação, avaliando mais de três milhões e trezentos mil alunos de 4ª e 8ª séries do ensino fundamental.  Esses alunos foram escolhidos por pertencerem a turmas de escolas públicas urbanas com mais de trinta alunos matriculados na série avaliada.  Para tal avaliação, são aplicadas provas de Língua Portuguesa, com foco na compreensão escrita, e Matemática, com questões concernentes ao conteúdo comum às séries avaliadas nos currículos de todas as unidades da Federação e nas recomendações dos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Essa avaliação constatou que, dos alunos matriculados na quarta série, sessenta e um por cento não conseguem identificar as principais idéias contidas em um texto simples e cerca de sessenta e cinco por cento não dominam as quatro operações matemáticas; dos alunos matriculados na oitava série, sessenta por cento foram incapazes de interpretar um texto dissertativo e também sessenta por cento desconheciam o conceito de porcentagem. 

Em um país no qual apenas 4,3% (quatro vírgula três por cento) do Produto Interno Bruto é investido em Educação, as constatações da Prova Brasil parecem apenas confirmar o descaso que os diversos governos, de todas as esferas, dispensam a esta área.  Fala-se muito em Educação, sobretudo à época das campanhas eleitorais, mas em geral a classe política brasileira refere-se ao tema como se a questão fosse resumida apenas ao número de vagas disponíveis na rede pública de ensino.  Fala-se muito, e a todo instante, em aumentar o número de escolas e ampliar as matrículas, e para tal já foram feitas as mais estapafúrdias experiências, desde a criação de um calendário rotativo até o fim da repetência escolar por força de regimento.  Pouco se pensa, contudo, sobre o cerne dos problemas enfrentados pelo país para implementar um modelo de Educação que seja eficiente em seus objetivos mais básicos - os de ensinar a ler e compreender o que se lê, de realizar operações matemáticas simples e de posicionar-se criticamente diante do mundo e no país em que se vive. 

A política do atual Governo Federal para o Ensino Superior é um exemplo dos mais significativos: a campanha da reeleição da atual gestão do Palácio do Planalto fala em quatro novas universidades federais abertas no atual governo, e das maravilhas que o ProUni está a fazer para que os filhos das classes mais baixas tenham acesso à educação superior - a qual, aliás, é um privilégio que, no Brasil, é atingido por tão-somente onze por cento das crianças que são matriculadas na primeira série do ensino fundamental.   O que o marketing político omite propositalmente é um olhar mais detalhado sobre a forma como isso está sendo construído no Brasil.  No caso das quatro novas universidades federais abertas pelo Governo Federal, por exemplo, não se divulga o fato de que algumas delas surgiram de uma vergonhosa compra, por parte do Poder Público, de faculdades privadas que estavam deficitárias por má gestão.  Tampouco se informa que os cursos que elas oferecem estão surgindo por conta do sucateamento de outros cursos já estabelecidos em universidades federais tradicionais: a UFRGS, por exemplo, perdeu cento e sessenta e cinco vagas de professor titular, as quais foram transferidas para as recém-criadas universidades federais em diversos estados do país; com isso, não há concurso para professor titular em vários cursos da UFRGS há alguns anos, e as vagas têm sido preenchidas por professores substitutos que assinam com a universidade contratos temporários de até dois anos e ganham salários muito inferiores aos dos professores titulares, tornando-se em alguns casos difícil para a própria instituição para conseguir novos professores de qualidade. 

Também não se fala do que representa, de fato, o ProUni: no afã de abrir novas vagas para os jovens, o Governo Federal investe volumosos recursos para bancar a educação de universitários em faculdades privadas, muitas das quais sem qualquer qualidade de ensino que justificasse tal investimento.  Em alguns estados da federação, como o Mato Grosso do Sul, há denúnicas de que o ProUni financia vagas em instituições e cursos que o próprio Ministério da Educação estaria investigando para possível cassação de funcionamento.  Desnecessário dizer que o montante investido no ProUni poderia ser redirecionado para as próprias Universidades Federais, abrindo-se vagas no âmbito do próprio ensino superior público e gratuito para suprir o problema da carência de oportunidades para os que desejam cursar a universidade.

Por sorte, há brasileiros que querem pensar a educação com seriedade e preocupam-se com o futuro.  Em setembro passado, lançou-se o programa Todos pela Educação, fruto do trabalho de representantes da iniciativa privada, economistas, gestores de educação, comunicadores e pensadores das mais diversas áreas com um propósito simples mas de complexa composição: pensar nas diretrizes necessárias para a Educação do Brasil de modo a solucionar o problema do atraso educacional do país.  O Todos pela Educação estabelece metas a serem alcançadas em 2022, ano do bicentenário da Independência do Brasil, as quais deverão se tornar realidade a partir da ação de todos os brasileiros preocupados com o problema:

 

Toda criança e jovem de quatro a dezessete anos estará na escola;

Toda criança de oito anos saberá ler e escrever;

Todo aluno aprenderá o que é apropriado para a sua série;

Todos os alunos vão concluir o Ensino Fundamental e Médio;

O investimento em Educação Básica será garantido e bem gerido.

 

As metas do Todos pela Educação, de tão simples, parecem algo óbvio e fácil de alcançar, mas elas têm uma base sólida calcada nas necessidades mais prementes do país em termos educacionais, e até hoje não atendidas: a presença das crianças na escola é profilaxia para diversos problemas enfrentados hoje pela sociedade, e estima-se que ainda não é a realidade para mais de um milhão e meio de crianças em todo o país; ler e escrever, apesar do que leva a pensar a nossa estranha lei eleitoral que permite o voto ao analfabeto, são habilidades essenciais para que qualquer pessoa possa exercer sua cidadania em plenitude; aprender o que é apropriado para sua série é o mínimo que se espera para que a progressão do aluno na escola não seja meramente burocrática e tristemente ilusória; a conclusão do ensino fundamental e médio tem relação direta com a inclusão social e a construção do novo cidadão para um mercado de trabalho cada vez mais exigente e competitivo; a garantia e a boa gestão dos recursos para a Educação, por incrível que possa parecer, ainda não são uma realidade observável no Brasil, com raríssimas exceções cujos efeitos benéficos muitas vezes são estancados com a entrada de um novo governante no poder e com as mudanças que sempre costumam atingir a educação por uma simples questão de as lideranças políticas que ascendem aos cargos quererem ali imprimir a sua marca.

O Brasil carece imensamente de políticas de longo prazo, e em Educação isso é essencial, pois não há projeto educacional que consiga ser implementado e gerar frutos em apenas quatro anos de mandato.  Para construir essas políticas, contudo, necessitamos de políticos que consigam romper as disputas eleitorais e os interesses pessoais para que, em torno de uma mesa de estudos e negociações, tracem um plano suprapartidário para a Educação que possibilite sonhar com um futuro melhor.  Por ora, o que temos nas campanhas políticas ainda é o palavrório solto que mistura novas vagas, valorização do professor, novas escolas, distribuição de material escolar, merenda, vagas nas universidades e um sem-número de outros termos repetidos à exaustâo sem que se fale em como esperamos que seja o futuro que essa Educação irá nos devolver ao final dos anos todos de formação.  Oxalá a iniciativa dos que estão desatados dos interesses eleitoreiros consiga construir esse país do futuro que parece cada vez mais distante.

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Wednesday, October 11, 2006

Canção da espera

Este texto está indisponível até segunda ordem…

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Friday, October 6, 2006

Os Nativos Digitais e nós, os Imigrantes Digitais

Em artigo intitulado “O Trabalho do Professor e as Novas Tecnologias”, publicado na revista TEXTUAL de setembro de 2006 (SINPRO-RS, vol. 1, nº8), Eliane Schlemmer, professora da Universidade do Vale do Sinos (UNISINOS) e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a autora faz uma colocação interessante a respeito do papel do professor em um dos temas mais debatidos no atual cenário da educação brasileira: a interação entre ensino tradicional e novas tecnologias. Falando sobre o “internetês”, ela relembra que a atual geração de professores foi criada em um ambiente analógico, no qual a tecnologia era vista como algo que nós “não podíamos tocar” porque era limitado às pessoas autorizadas para tal (lembro-me que nos últimos anos da década de 1980 eu estudava inglês em um curso livre de idiomas no qual havia recentemente chegado a grande novidade dos videocassetes e das câmeras de vídeo e, como diz Schlemmer, havia um funcionário da escola que era o único autorizado a usar ambos os aparelhos, e uma sala especificamente criada para que eles fossem disponibilizados; entrar lá era algo meio místico, ficávamos, nós e a professora, com medo de quebrar alguma coisa). Schlemmer chama-nos, a nós que vivemos naqueles anos e nas décadas anteriores, de a geração “não mexe que estraga”.

A nova geração, por sua vez, é a geração do “para aprender, tem que mexer”. Internet, Wikipedia, Google, MSN, Blog, Orkut e tantas outras ferramentas que entraram recentemente em nosso mundo não exigiram das novas gerações nenhum curso específico ou formação continuada - ao contrário do que aconteceu com alguns de nós, que no início da expansão digital fizemos algum curso para aprender a mexer no Word ou a acessar a Internet… Nossos alunos aprenderam tudo isso de forma interativa - perguntando aos amigos, virtuais ou não, como se trabalhava com esta ou aquela ferramenta; nenhum deles fez intensivão de Orkut ou tirou diploma de MSN.  Em resumo, nossos alunos são muito mais próximos à interatividade em ambientes digitais que nós mesmos, que vimos essa tecnologia surgir, que acompanhamos a transição entre a máquina de escrever e os primeiros - e limitadíssimos - computadores.

Decerto que falo de alunos que tem certo nível econômico e acesso ao mundo dos computadores, mas creio que esta é justamente a razão pela qual os governos e educadores preocupam-se com inclusão digital mesmo em um país como o nosso, no qual ainda há crianças fora da escola e um imenso número de analfabetos funcionais. É que não se pode esperar pela alfabetização de todos para, então, iniciar-se a “alfabetização digital”: é necessário empreender esforços em ambos os sentidos, até mesmo para que os novos alfabetizados adentrem naturalmente no meio digital, que é o presente e o futuro do mundo. Se hoje o analfabetismo é fonte de exclusão de um mundo regido pelas letras, amanhã o “analfabetismo digital” o será para um mundo cada vez mais controlado por bits e bytes.

Schlemmer refere-se aos jovens que já nasceram nesse mundo altamente “tecnologizado” como “nativos digitais”. Creio que o termo é genial; não sei se foi cunhado por ela, enfim, mas define perfeitamente o domínio e a facilidade com que crianças e adolescentes que trabalham desde pequenos com a tecnologia que hoje nos envolve lidam com todo este mundo que, para nós, professores, ainda é repleto de surpresas e novidades. Aliás, o termo que ela usa, com igual genialidade, para nos definir é “imigrantes digitais”, como pessoas que falam “uma outra língua” e se vêem em um novo país, tendo que aprender, muitas vezes sem qualquer suporte maior, a “língua” do novo. Como os imigrantes, muitos de nós acabam convivendo neste novo mundo de “uma forma um tanto quanto enviesada de se relacionar com esses meios, o que é facilmente evidenciado quando e-mails e textos são impressos para serem lidos, ou, após serem encaminhados, liga-se para saber se o sujeito recebeu”. Segundo Schlemmer, são os “imigrantes digitais” que tentam falar a “língua digital”, mas com “forte sotaque analógico”.

No ambiente escolar, essa inadequação entre “imigrantes digitais” - nós, professores - e os “nativos digitais” mostra-se ainda mais problemática. Para Schlemmer, um dos grandes erros dos professores é imaginar que a Tecnologia Digital (TD) deve ser “introduzida” no processo de ensino e aprendizagem - para ela, a TD não “entra, “ela está sempre presente, imbricada na ação dos ‘nativos digitais’; eles vivem e pensam com essa tecnologia”, por mais que na frente deles esteja um “imigrante digital” com um giz branco e um quadro negro. E o mundo digital é o mundo da interação, da construção conjunta e cooperativa, das trocas e da pesquisa hipertextual - todos estes são conceitos que o “nativo digital” buscará encontrar mesmo que a proposta do professor involva livros, papel, lápis e conversas “presenciais”.

Para Schlemmer, o erro dos professores é o de ainda encarar a tecnologia como um “ferramental” a ser incorporado à prática pedagógica como um complemento, “quem sabe freqüentando o laboratório de informática uma vez por semana”. O mundo digital trouxe para o ensino a necessidade de aprimorar, em verdade, “os espaços de comunicação, de interação, de construção coletiva, de aprendizagem, constituindo-se em verdadeiros espaços de convivência, a fim de provocar desenvolvimento humano - cognitivo, afetivo e social”. Nesse sentido, a autore recorda que não raro o professor foge das aulas em que o computador é usado como ferramenta (às vezes apenas para digitação de texto ou para uso de um CD-ROM que nem sempre é interativo, que muitas vezes tem uma proposta totalmente “analógica”), colocando-a ao encargo de um monitor, para substituir um professor que faltou naquele dia ou mesmo condicionando a ida dos alunos ao laboratório de informática àqueles que tiveram “bom comportamento durante a semana”. A TD é vista “como prêmio, passatempo ou tampão”.

Uma provocação de Schlemmer diz respeito aos alunos que copiam textos da Internet e entregam aos professores como resultado de tarefas a eles propostas. Para ela, o fato denota que os trabalhos solicitados não “mobilizam o sujeito a pensar”, no qual eu concordo em parte com a autora. Se a mera cópia de textos da World Wide Web pode servir para responder à atividade proposta pelo professor, é porque o que foi pedido era meramente informativo, não envolvia leitura crítica nem incentivava a autonomia do aluno - e minha concordância parcial reside apenas no temor que uma colocação como esta seja um incentivo à cola digital, já que mesmo as tarefas mais reflexivas que um professor possa propor já encontram respostas disponíveis na Rede e torna-se difícil muitas vezes para os educadores detectar a ação dos plagiadores digitais.

Para tornar o ensino algo estimulante e desafiador para as novas gerações, segundo Schlemmer, “é preciso saber identificar as metodologias que permitem tirar o máximo de proveito da TD em relação ao desenvolvimento humano”. A pesquisadora acredita que a interdisciplinaridade é uma das formas mais viáveis de desenvolver no ambiente escolar a inclusão da TD como instrumento de autonomia, de cooperação e de autodesenvolvimento de competências por parte dos alunos. “Para promover situações de aprendizagem ao nativo digital“, diz ela, “precisamos estabelecer com ele uma relação de parceria, de trocas de informações, de compartilhamento do conhecimento, de idéias, de projetos”. Nesse sentido, as instituições precisam sair da postura de entraves ao desenvolvimento da TD no ambiente escolar, dando aos professores respaldo e condições para tal; a própria formação docente precisa ser repensada de modo a gerar professores que, se não são ainda “nativos digitais”, pelo menos falem a “língua da tecnologia” com um sotaque menos carregado e cada vez mais próximo de um “nativo”.

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