Monday, September 25, 2006

A eficiente (e a ineficiente) diplomacia brasileira

Há uma semana tivemos uma grande desilusão com os britânicos: uma grande amiga, que há dois anos não saía de férias, resolveu ir de viagem para Londres, uma cidade que há muito sonhava conhecer.  Estudante de inglês há pouco tempo, sonhava em aperfeiçoar um pouco seus conhecimentos - ou ao menos ganhar alguma confiança no uso da língua - e como tem amigos por lá, pensou que seria interessante unir o útil ao agradável: conhecer a Inglaterra, aprender um pouco mais do idioma e matar as saudades de pessoas queridas que há muito não via pessoalmente. 

Nossa amiga, que é empresária em Porto Alegre, juntou uma boa quantia em dinheiro para gastar na capital dos ingleses, reservou hotel para duas semanas e comprou passagem de ida e volta por uma das mais conceituadas - ou seja, mais caras - linhas aéreas européias.  Mas nada disso parece ter convencido a imigração britânica: nossa amiga foi retirada da fila de estrangeiros e interrogada por mais de cinco horas sobre seu interesse em viajar para o Reino Unido; durante o interrogatório, no qual teve que vencer a barreira do idioma com a ajuda de um tradutor português que desdenhava de suas respostas, foi chamada de mentirosa pela agente da Imigração que a escolheu para averiguações e teve até mesmo que engolir em seco a insinuação de que era mais uma garota de programa brasileira que tentava ludibriar as autoridades britânicas para se instalar em Londres e ganhar a vida

Para nós, que acompanhamos o caso à distância, do momento em que ela pôde telefonar pela primeira vez para o Brasil até o instante da deportação - depois de uma longa noite na qual ela ficou confinada em um cubículo sem janelas e mobiliado apenas com cadeiras comuns -, tudo não passou de preconceito da oficial britânica: nossa amiga, sendo brasileira, mulher, loira e bonita, elegante e bem vestida, deve ter causado alguma comoção naquela inglesa a ponto de seus próprios colegas de Imigração aparentemente discordarem de sua decisão.

Aqui de Porto Alegre, tudo o que pudemos fazer foi tentar acionar as autoridades brasileiras em Londres para buscar uma saída.  Telefonamos para a embaixada e para o consulado do Brasil em Londres, e o que conseguimos naquela tarde de domingo, depois de muito penar para obter o telefone correto da emergência do serviço diplomático brasileiro na capital britânica, foi deixar recados em uma secretária eletrônica cuja gravação era uma truncada mensagem, que a muitos deve confundir em um momento de desespero como era o nosso.  Aflita com a situação, minha esposa deixou uma mensagem em cada um dos números - um recado algo aflito, algo desaforado (afinal, que emergência era aquela que caía numa gravação?!?) pedindo que retornassem a ligação. 

O consulado brasileiro foi rápido em responder nosso chamado, é bem verdade: ligou-nos de Londres uma servidora, que ouviu nosso relato do caso e pediu-nos alguns minutos para tentar tomar providências.  Pouco tempo depois, a mesma oficial brasileira telefonou-nos para dizer que infelizmente o consulado não tinha muito o que fazer, que a decisão de deportação era soberana e que infelizmente os procedimentos aos quais nossa amiga fora submetida no Aeroporto de Heathrow eram de rotina - e que os investigados ficavam incomunicáveis, restando pouco a ser feito pelo consulado. 

Ainda que nada tivesse resolvido o nosso contato com o consulado brasileiro em Londres, as duas ligações serviram para acalmar e informar melhor a nós e à família de nossa amiga, que tinha em nós dois - professores de inglês - o único elo possível entre Porto Alegre e Londres.  Ao menos sabíamos que havia um serviço brasileiro em Londres pronto para entrar em ação caso necessário - e também estávamos agora cientes de que, apesar da humilhação de ser deportada, nossa amiga tinha seu regresso ao Brasil garantido por leis internacionais.

A surpresa, em verdade, tivemos hoje, dia vinte e cinco de setembro, exatos oito dias após o ocorrido: ao chegar em casa, haviam em nossa secretária eletrônica pelo menos cinco ligações não atendidas e dois recados desaforados gravados - era uma voz feminina, da Embaixada Brasileira em Londres, querendo falar com minha esposa (que havia deixado uma semana antes o tal recado gravado no telefone de emergência da embaixada) com urgência.  A voz, de uma arrogância indisfarçável, dizia para minha esposa (ou melhor, para nossa secretária eletrônica) algo como da mesma maneira que a senhora não conseguiu contato com a embaixada, também não estamos conseguindo contato com a senhora, então ligue para nós com urgência… Na segunda mensagem, a mesma voz de mulher é ainda mais desaforada, dizendo que continuamos esperando seu retorno para nosso número de emergência

Imaginem só se nós estivéssemos realmente dependendo daquela ligação em casos, como dizia a gravação automática dos números de emergência, de morte, crime ou prisão envolvendo brasileiros na Inglaterra!  A embaixada só se dignou a retornar a ligação oito dias depois da mensagem registrada - e seis dias depois do retorno de nossa amiga para Porto Alegre, com um documento no qual é declarada persona non grata para pisar em solo britânico até o ano de 2015.  E, ao fazer contato, depois de todo esse tempo, ainda o fez de modo não muito respeitoso…  Entre a presteza da ação - ainda que sem maiores efeitos - do consulado e a arrogância tardia da embaixada, creio que o melhor é esperar que nunca dependamos das representações diplomáticas do Brasil no exterior: corre-se o risco de ficar-se desamparado ou, quem sabe, até mesmo sofrer dos servidores da diplomacia brasileira o mesmo preconceito que a ignorância dos oficiais da imigração estrangeira por vezes dispensam aos brasileiros.

Posted by Frizero at 23:46:02 | Permalink | No Comments »