Monday, September 11, 2006

Onze de Setembro

Ouvi, há tempos, uma professora universitária que comentava que iria celebrar o Onze de Setembro.  O que aparentemente fora um lapso de linguagem tornou-se um comentário desagradável quando ela tentou contornar a frase infeliz dizendo que, apesar das mortes de pessoas inocentes, a data era realmente para ser celebrada, pois havia sido a primeira vez que um país hegemônico havia sofrido um ataque em seu próprio território.

Confesso que a idéia de comemorar um evento como o ataque terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque soa, para mim, cruel e incompreensível.  Talvez seja um defeito de minha parte, mas não consigo ver um ato de tamanha crueldade apenas por seu suposto caráter simbólico quando tantas vidas foram destruídas - sejam aquelas dos passageiros dos aviões comerciais usados como petardos, sejam as dos bombeiros que se aventuraram pelo interior do WTC para salvar pessoas desconhecidas pelo simples senso de dever, sejam as vidas dos familiares e amigos dos que pereceram naquele que foi o maior ataque terrorista de nossa história - em nome das idéias fundamentalistas de um grupo que não representa sequer os ideais da religião que dizem praticar.  Celebrar o Onze de Setembro, para mim, seria como abrir uma champanha no aniversário da Bomba de Hiroshima, ou vibrar diante da notícia da invasão de uma escola pública em Beslam por um grupo de ativistas checenos, ou sorrir diante da imagem dos hutus massacrados em Ruanda.  Há simbolismo bastante em cada um desses eventos, mas há também muito sangue derramado inutilmente, vidas inocentes ceifadas por conta das mais questionáveis idéias de poder e de correção. 

Por que então celebrarmos o Onze de Setembro por ele representar uma ferida no coraçãos dos norte-americanos?  O ataque ao WTC não foi uma ação de guerra - esta odiosa forma encontrada pelos homens para a solução de seus conflitos.  Em uma guerra, ao menos, há uma declarada intenção de destruição, e as pessoas de alguma forma preparam-se para o pior, para o inevitável.  O Onze de Setembro, assim como a invasão de um teatro no centro de Moscou ou a explosão dos trens na estação madrilenha de Atocha, foram ataques inesperados contra alvos civis enquanto eles se dirigiam para seus empregos, divertiam-se, levavam adiante sua calma rotina diária, pois o alvo do terrorismo jamais é um país: sua intenção é sempre o coração das pessoas, é a instalação do medo e da paranóia, é a vingança perpetrada em nome da mais antiga e obtusa das legislações humanas - o dente por dente, olho por olho.

Os que pensam neste dia como motivo para comemoração deveriam refletir um pouco sobre o futuro: desejarão eles, realmente, viver em um mundo onde o terror impere, onde os terroristas sejam o poder?  Creio ser difícil apoiar a interferência do governo norte-americano na política internacional, e sei que é incômoda a posição dos Estados Unidos da América, invejado pelo resto do mundo em seu poder bélico e sua riqueza.  Mas considero ainda mais incoerente a postura de defender o terror como aceitável arma de defesa de idéias - quaisquer que sejam elas, por mais justas e naturais que nos pareçam ser.

Posted by Frizero at 14:49:47 | Permalink | No Comments »