Os Bobos da Corte
“O PT errou. Aliás, companheiros do PT cometeram erros, mas não posso generalizar. Não é o PT inteiro que errou. Fidel Castro escreveu que a História um dia o absolverá. Eu não vou precisar esperar pela História. O povo vai me absolver agora” - disse Lula, que discursou de pé sobre um banquinho. (trecho de notícia publicada pelo jornal carioca O GLOBO de 25 de agosto de 2006)
A fala do atual Presidente da República e candidato a reeleição Luiz Inácio Lula da Silva é não só uma declaração de culpa diante dos escândalos que permearam sua administração e da participação de seu partido no esquema de corrupção que motivou a alcunha, dada pelo Procurador-geral da República em súa denúncia apresentada à Justiça, de “organização criminosa” aos altos membros do Partido dos Trabalhadores. As palavras de Lula são de um pedantismo típico dos que se acreditam acima do bem e do mal, dos que consideram que os fins justificam os meios, dos que imaginam que o mal está sempre do lado de fora de sua causa. Mas, a medir os acontecimentos todos desses últimos quatro anos da política nacional, em que se viu um partido que pregava a ética na política rasgar folha a folha o seu programa ideológico, as palavras do Presidente da República e símbolo maior do Partido dos Trabalhadores não é surpresa alguma.
O que realmente choca é imaginar que essas palavras foram pronunciadas diante de oitenta intelectuais e artistas reunidos na sala de visitas da casa do atual Ministro da Cultura, Gilberto Gil, em reunião da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição - e que as reações foram de apoio incondicional aos feitos e idéias do candidato. Nenhuma reprimenda, nenhuma contestação, nenhuma palavra contrária à tese que Lula levantava - a de que a reeleição apagará, qual mágica, toda e qualquer questiúncula - mensalão, sanguessugas, vampiros e afins - da história de seu mandato de 2003 a 2006.
Em uma crônica repleta de genuína indignação, a colunista de < São de Estado>, Dora Kraemer, descreve assim algumas das manifestações dos artistas naquela reunião de apoio a Lula:
Um verdadeiro espetáculo de equívocos, a começar da convocação do ator José de Abreu aos presentes para uma saudação a gente denunciada pelo procurador-geral da República como integrantes de uma “organização criminosa”, passando pelo lançamento do lema “política só se faz com mãos sujas”, de autoria do ator Paulo Betti, tendo como ponto alto a declaração do músico Wagner Tiso de condenação aos indignados com os escândalos. “Não estou preocupado com a ética do PT, ou com qualquer tipo de ética”, disse Wagner Tiso, informando ao respeitável público que só está preocupado “com o jogo do poder”. O festival de alienação, irresponsabilidade social e analfabetismo político teve sua culminância no dia seguinte, quando o produtor Luiz Carlos Barreto rasgou de vez a fantasia: “Se o fim é nobre, os fins justificam os meios”, afirmou. Para ele, “inaceitável é roubar”. E acrescentou: “Mensalão não é roubo, é jogo político.” Ao senhor Barreto parece não ter ocorrido que o dinheiro do mensalão não brotou em árvores; saiu de empresas estatais - algumas das quais lhes financiam os filmes - ou de bolsos privados em troca dos serviços prestados por tráfico de influência no serviço público. É roubo, portanto.
Em outras palavras, aqueles artistas e intelectuais pertencentes à intelligenzia brasileira consideram o maior esquema de corrupção já detectado no Poder Executivo Federal como “parte do jogo”. Luiz Carlos Barreto - produtor de cinema respeitado e um dos grandes beneficiários de patrocínios estatais para a consecução de seus projetos, declarou, por exemplo, que “o que [ele acha] inaceitável é roubar” e que “mensalão é do jogo político, não é roubo.” Paulo Betti, famoso ator que também é beneficiário de verbas públicas para seus espetáculos teatrais, defendeu Lula conclamando que ”não [sejamos] hipócritas; (…) não dá para fazer política sem sujar as mãos.” Wagner Tiso sintetizou as declarações dos demais ao dizer-se “não (…) preocupado com a ética do PT”, por achar que “o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o País.” Mas a pior das cenas daquela noite de apoio à corrupção, à ética torta e ao descaso com os desmandos feitos pelo Partido dos Trabalhadores com a verba pública, com o dinheiro do contribuinte, foi encenada pelo ator José de Abreu que, em meio à reunião dos oitenta apoiadores de Lula na classe artística, pediu uma salva de palmas em homenagem aos três “Josés” que foram os “mártires” do PT em meio aos escândalos recentes da política nacional - José Dirceu, José Mentor e José Genoino.
O editorial de “O Estado de São Paulo” sobre a famigerada reunião em casa de Gilberto Gil lançou uma interessante indagação: “Se não dá para fazer política sem sujar as mãos, dará para fazer Arte sujando a consciência? Na melhor das hipóteses, poder-se-ia desconfiar que esses artistas estão tão-somente defendendo o seu quinhão futuro de subsídios governamentais para seus projetos artísticos - talvez até assustados pelo exemplo de Regina Duarte, que após participar da campanha de José Serra para a Presidência da República não teve mais nenhum projeto teatral apoiado pelo Governo Federal de Luiz Inácio Lula da Silva. Na pior das hipóteses, essa é a crença verdadeira desses artistas em relação à política nacional - os fins justificando os meios, a corrupção e o descaminho das verbas públicas como forma natural do fazer político brasileiro, a ética como algo descartável de acordo com o momento - e estamos, então, como país, representados pelo pior agrupamento de pensadores e agitadores culturais que poderíamos imaginar para um momento tão obtuso como o que vivemos no cenário político nacional. Ou será que as notícias sobre o mensalão, sobre a máfia das sanguessugas, sobre os festins no casarão chamado de República de Ribeirão Preto, sobre o enriquecimento repentino do filho do Presidente da República e outras tantas que assombraram os eleitores nos últimos tempos - será que essas notícias não chegaram aos ouvidos de nossa classe artística?
Como Regina Duarte dizia, há razões para estarmos morrendo de medo.
O título do texto, “Os Bobos da Corte”, foi o termo usado pelo editorial de “O Estado de São Paulo” como referência àqueles artistas que apoiaram abertamente os desmandos do PT na tal reunião em casa de Gilberto Gil.