Vinte Anos Sem Josué Guimarães
O ano de 2006, celebrado no Rio Grande do Sul pelos cem anos de nascimento de seu maior poeta, Mário Quintana, é igualmente marcado por outra data não menos importante para a literatura brasileira: trata-se do vigésimo aniversário da morte do escritor gaúcho Josué Guimarães, cuja lembrança motivou a realização, em 22 e 23 de agosto deste ano, do Seminário Vinte Anos Sem Josué, promovido pela Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mais especificamente pelo Acervo Literário Josué Guimarães (ALJG), organizado e mantido desde então por esta universidade.
O evento, no qual professores universitários convidados e alunos de pós-graduação da PUCRS apresentaram diversos aspectos sobre a vasta obra do escritor nascido em São Jerônimo, serviu também de comemoração para os dez anos de existência do ALJG. Foi em abril de 1996, por iniciativa da viúva do escritor, Nydia Guimarães, que a PUCRS recebeu o material – dez caixas reunindo oito mil setecentos e cinqüenta e nove documentos – que, depois de passar pelos processos de catalogação e conservação, tornaram-se um acervo de consulta pública sobre a vida e a obra de Josué Guimarães, cujas peças foram naquele mesmo ano usadas em duas exposições que contaram com o apoio do então nascente ALJG: uma delas promovida conjuntamente com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – “Josué Guimarães: Nunca É Tarde Para Saber” –, e outra organizada para a Câmara Municipal de Porto Alegre – “Josué Guimarães: Um Homem do Sul”.
Diversas peculiaridades tornam a obra de Josué Guimarães importante no panorama literário do Rio Grande do Sul. A primeira delas é a forma como o escritor iniciou sua carreira literária, o que se deu quando ele tinha quarenta e nove anos, uma idade algo tardia para um começo na literatura; Guimarães já era, então, um jornalista de grande prestígio no país. Mesmo diante das perseguições e da vigilância ideológica que por muito tempo ainda sofreria como simpatizante das idéias socialistas e ex-integrante do governo João Goulart, ele foi premiado, em 1969, em um concurso de contos promovido pelo Governo do Estado do Paraná pelo conjunto de três textos – João do Rosário, Mãos Sujas de Terra e O Princípio e o Fim. No ano seguinte, em 1970, motivado pela acolhida desses seus primeiros escritos ficcionais, o autor lançou o livro de contos intitulado Os Ladrões.
Outro dado significativo na vida literária de Josué Guimarães é a extensão de sua obra, pois foram dezesseis anos de produção apenas, nos quais Josué Guimarães escreveu um volume considerável de textos ficcionais - seis romances, cinco novelas, dois volumes de contos e oito obras para o público infanto-juvenil, além de outros textos. Ainda que tenha escrito em diversos gêneros ficcionais, incluindo-se uma única investida pelo texto teatral, para o autor era o romance o gênero literário no qual via mais lugar para dizer o que [precisava] e o que [queria]. Ele próprio declarou que, embora haja publicado contos, [ele] não [se considerava] contista.
O interesse de Josué Guimarães, que ele via melhor representado por seus textos ficcionais mais extensos e densos, era uma (…) temática (…) sul-americana: o subdesenvolvimento, a miséria, o caldeamento de raças, a insegurança política e social, o caudilhismo, a passividade diante do destino, a ignorância, a doença, a crença de que ninguém muda nada. Nessa temática explicitada por Guimarães em seus livros reside, talvez, a maior razão para que seja celebrada sua memória neste ano de 2006. Não apenas por ter sido uma voz de insubmissão em tempos de ditadura militar - sua obra é profundamente marcada pela realidade política e social daqueles anos de repressão para as artes, para a imprensa e para os livre-pensadores brasileiros -, mas por ter colocado em sua ficção sua força de resistência e seu amor à liberdade; por ter retratado em suas histórias o momento que vivia, mas nelas também as formas possíveis de superá-lo. Em Camilo Mortágua, talvez seu mais conhecido romance, ele enche de humanismo a história que pode ser lida como o recordar de um homem velho em seus últimos dias de vida, mas faz também um retrato dos três primeiros dias do golpe militar de primeiro de abril de 1964. Em Tambores Silenciosos, ele transporta para o ano anterior do início da ditadura Vargas a história de um prefeito que quer calar as vozes de oposição ao retirar da população os meios de acesso às informações que não fossem o jornal oficioso do lugar, mas narra cada detalhe dos desmandos do prefeito de modo a retratar, igualmente, o momento difícil que vivia o Brasil dos anos 1970. Mesmo em seus contos - e recordo-me especialmente de um de seus primeiros textos, Mãos Sujas de Sangue, no qual dá voz a um pequeno agricultor rural envolvido em um crime nascido das tensões das lutas de terra que apenas muito tempo depois se tornariam alvo de debate na política e na imprensa brasileiras -, Josué Guimarães usava de sua arte para provocar no leitor - e cabe lembrar que falamos de um leitor brasileiro, que à época era um leitor de classe média, urbano, letrado e com acesso privilegiado aos meios de comunicação e cultura - a pensar o momento em que vivia.
Josué Guimarães era, acima de tudo, solidário e fiel ao seu ideário de igualdade. Ao término do Seminário Vinte Anos Sem Josué, a professora Heidrum Krieger Olinto, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCJR), fez um relato vivo e tocante que exemplifica bem tais qualidades do escritor: em 1962, ainda muito jovem, ela ajudou seu então namorado a fugir da perseguição do regime salazarista em Portugal, pois ele e um grupo de amigos se recusara a partir para a Guerra Colonial em Angola e, por consegüinte, tiveram todos os seus documentos, inclusive os escolares, retidos pelo governo português; refugiados na Suíça - Heidrum é alemã -, eles passavam por dificuldades quando ela conheceu o escritor, em uma situação totalmente inusitada - ela trabalhava como tradutora/balconista em uma loja de departamentos em Genebra e Josué Guimarães queria comprar uma caixinha de música para a esposa; a jovem alemã contou-lhe dos problemas enfrentados por ela e pelo noivo português e o escritor brasileiro comoveu-se de tal forma que, meses depois, o jovem casal embarcava para o Brasil por conta de um contrato de trabalho arranjado por Josué Guimarães para que eles pudessem imigrar para o Brasil mesmo sem ter o jovem português qualquer documentação - mais que isso, o escritor gaúcho hospedou-os em seu pequeno apartamento no Rio de Janeiro, onde morava com a esposa e a cunhada, até que os dois estrangeiros conseguissem se estabelecer no Brasil. Mesmo nos duros anos que se seguiram - dois anos depois da chegada de Heidrum ao Brasil, a chamada “Revolução de 1964″ deporia o presidente eleito João Goulart e iniciaria um período de trinta e um anos de cerceamento das liberdades civis no país -, mesmo tendo que viver na clandestinidade por ter sido membro do governo de Jango, Josué Guimarães continuou em contato e amparando os amigos estrangeiros, os então já casados Heidrum e Raul, em sua adaptação à nova vida na América Latina.
A generosidade de Josué Guimarães modificou a vida dessa alemã de nascimento que hoje é brasileira de coração e se tornou no Brasil um dos grandes nomes da História da Literatura no meio acadêmico. Seus livros seguem à disposição dos leitores que, ainda que afortunadamente distantes das agruras vividas naquele período de excessão em que tais textos foram escritos, certamente encontrarão neles elementos para reflexão - já que muitos dos problemas ali tratados seguem vivos na sociedade brasileira - e deleite na escrita desse que era um mestre em contar boas histórias.