Mãos Sujas de Sangue
Nunca houve uma guerra boa ou uma paz ruim.
Thomas Jefferson
Nunca pense que a guerra, não importa quão necessária ou justificável, não é um crime.
Ernest Hemingway
O Exército dos Estados Unidos da América começa a despertar para os efeitos colaterais da manutenção de um front de batalha distante das bases operacionais, sem perspectivas de término e em meio a uma guerra não-declarada: a falta de reservistas para suas fileiras de combatentes.
A primeira medida tomada para suprir tal carência de soldados foi o lançamento de campanhas de alistamento voltadas para uma grande massa de jovens desempregados comum nas cidades de pequeno e médio porte dos estados periféricos dos Estados Unidos. Tais armas de marketing ofereciam o serviço militar como uma oportunidade de carreira futura dentro das Forças Armadas mas, ainda que tentadores à primeira vista, seu efeito foi minado pelas primeiras notícias de mortes causadas por ataques terroristas, emboscadas e linchamentos de militares norte-americanos em território iraquiano.
Com a falta de novos recrutas em número suficiente, o governo dos Estados Unidos acenou aos imigrantes - legais ou ilegais - com a promessa da concessão do sonhado greencard, a permissão de trabalho em solo norte-americano, para todos os que se alistassem para atuar na Guerra do Iraque. A manobra foi bem sucedida, atraindo um grande número de jovens - em sua maioria, latinos - para o campo de combate no Oriente Médio, mas ainda assim o número de reservistas era insuficiente para suprir as necessidades da missão de manter posições no Iraque e impedir a retomada de poder por parte dos seguidores do antigo regime de Saddan Hussein enquanto um novo governo iraquiano tenta se estabelecer em termos mais democráticos.
A solução encontrada pelo Exército norte-americano foi temerária: reduziu-se o tempo de treinamento dos reservistas e diminuiu-se o nível de exigência para admissão - jovens com alguns tipos de registro em suas fichas criminais na polícia passaram a ser aceitos, o grau de escolaridade e a nota mínima no teste de aptidão solicitados foram reduzidos e mesmo os critérios que antes existiam para o desligamento de jovens que porventura não tivessem condições de suportar o estresse natural das situações de conflito bélico foram relaxados.
As primeiras conseqüências de tal decisão estratégica começam a surgir. A revista semanal estadunidense Newsweek, em sua edição de 07 de agosto de 2006 para a América Latina, narra o caso de um jovem soldado que, considerado um rapaz solitário e beberrão em sua cidade natal no Texas, foi aceito no Exército estadunidense apesar de sua personalidade agressiva. Filho de um lar desajustado, de pais alcoólatras, morando em diversos lares desde os quatro anos de idade, o jovem viu no alistamento militar as possibilidades de vida que ele não tinha: um lugar para morar, dinheiro, novos amigos, uma razão maior para sua vida e, em suas próprias palavras ditas a um grupo de amigos no dia de seu embarque para o treinamento militar básico, uma oportunidade de “ir lá e matar todos [os iraquianos]“. O que parecia uma frase de efeito para impressionar os amigos de bairro tornou-se, tristemente, uma realidade que ultrapassou as fatalidades da guerra. Em junho de 2006, o rapaz, juntamente com outros cinco colegas do mesmo regimento de infantaria, foi preso por ter cometido um terrível crime de guerra: uma noite, vestido em roupas escuras, ele e os outros cinco companheiros que conseguira arregimentar escaparam furtivamente de seu posto e foram até a casa de uma adolescente de quatorze anos. Lá, o jovem levou a família da menina - o pai, a mãe e o irmão de cinco anos de idade - para um cômodo na parte de trás da casa enquanto seus colegas detinham a menina na sala da casa. O rapaz do Texas, então, matou a família da adolescente a tiros de AK-47 e, voltando para a sala, estuprou a menina juntamente com outro soldado, enquanto os três outros cúmplices revezavam-se nas tarefas de vigiar a casa e segurar a menina para que os amigos cometessem o crime hediondo antes de, por fim, executarem a jovem iraquiana com três tiros na cabeça.
O ambiente de guerra é, por si só, enlouquecedor o bastante para levar as pessoas a cometerem atos cruéis que em suas vidas normais jamais imaginariam fazer. Que outros males poderão advir de uma guerra para a qual estão sendo mandados os mais despreparados, os menos aptos e os mais vulneráveis aos abusos que o horror da guerra sempre traz consigo? Decerto que não há como medir aptidão, preparo ou invulnerabilidade quando se trata de escolher os homens e mulheres que irão lidar com uma das mais imprevisíveis - e torpes - das ações humanas, a guerra. Mas o sangue daquela família iraquiana não repousa mais nas mãos do violento jovem texano que nas mãos dos generais que lhe permitiram seguir adiante mesmo sabendo de suas limitações, ou naquela dos Senhores da Guerra, dos homens de ambos os lados desse conflito sem fim, que em seus gabinetes respiram o prazer do poder de decidir sobre a vida e a morte e o alívio de estarem distantes do fragor das batalhas em que tantos inocentes, armados ou não, tombam diariamente.
Li seu texto sobre violência na escola (me foi enviado por amigos) e gostei muito. Sou dirigente do SinproRS e gostaria de saber quem são as pessoas que escrevem no blog - sobretudo o Frizero. Bom, não só os textos sobre educação são bons; os outros temas também, são muito bem redigidos. Att, Fátima Áli