Saturday, August 12, 2006

O Poder (Macabro) do Anonimato

Em um desses filmes da década de 1970, exibido dia desses em um canal de televisão universitário de Porto Alegre, havia uma cena na qual um respeitável juiz de uma pequena cidade, conhecido por sua ferrenha defesa da moral e dos bons costumes, é visto dando dinheiro para a cafetina do lugar que o permite, à contragosto, entrar em sua casa de tolerância pela porta dos fundos. Encaminhado por ela através de corredores estreitos e escuros, vê-se em seguida que o juiz é levado para uma sala oculta na penumbra e é sentado de frente para uma parede vazia. A sala ilumina-se, de repente, parcialmente, e nota-se que em verdade a parede é a parte de trás de um espelho: através desta muralha translúcida de vidro, há a visão completa de um dos quartos do lupanar, onde um homem de seus trinta anos irá, em seguida, proceder a violação de uma menina cuja virgindade havia sido leiloada, minutos depois, em uma sala oculta do lupanar. O juiz, naturalmente, nada faz para contornar a situação: ele está ali justamente para, como voyeur, apreciar de perto o crime que está a ser cometido.

A tela do computador passou a ser, na atualidade, esse espelho de fundo falso do filme de ficção. Ocultos pelo anonimado aparentemente garantido pela Internet, que permite ao usuário interagir à distância com outras pessoas e, desta forma, influenciar de uma forma ou outra a vida de seus interlocutores, muitos internautas assumem a postura de voyeurs inertes diante das mais terríveis situações que lhes chegam pela Rede Mundial de Computadores.

Há poucos dias, a história macabra do suicídio assistido de um jovem de Porto Alegre, a maior cidade da Região Sul do Brasil, tomou de assalto os noticiários locais. O adolescente de dezesseis anos - visto como um rapaz inteligente e talentoso - mantinha na Internet uma vasta rede de contatos, mantidos por mensagens eletrônicas, salas de bate-papo e fóruns de discussão sobre os mais diversos assuntos. O rapaz portoalegrense, fluente na língua inglesa, era conhecido em sites norte-americanos e canadenses - e foi justamente por meio de uma jovem adolescente canadense é que as características bizarras da morte do rapaz vieram à tona.

A menina canadense freqüentava fóruns de discussão sobre música nos quais o brasileiro divulgava suas composições musicais. Conversando com outros colegas internautas, ela descobriu que o portoalegrense estava a divulgar que iria cometer suicídio em dia e hora marcados, e pedia a colaboração de todos para que o acompanhassem em seu intento. Desesperada, a jovem procurou a sala de bate-papo indicada e constatou que, de fato, o jovem estava a publicar mensagens nas quais informava os passos que estaria seguindo para cometer suicídio e pedia orientações sobre como fazê-lo de forma efetiva e indolor. A canadense entrou em contato com a polícia local e um inspetor de polícia de seu país entrou em contato direto com o oficial de ligação da Interpol em Porto Alegre. O policial brasileiro acreditou na história contada pela menina e acionou as forças policiais locais, que chegaram ao endereço do rapaz - a canadense obtivera esta informação a partir de um outro internauta que dias antes havia enviado um CD para o brasileiro - mas, infelizmente, já o encontraram sem vida.

O lado mais sombrio e assustador dessa história é que, durante todo o período entre a preparação e a consumação do suicídio, o rapaz portoalegrense recebeu o incentivo e as orientações de outros internautas que, conectados na mesma sala de bate-papo que o brasileiros indicara, assistiram sem maiores problemas à morte do jovem. Durante o processo, o rapaz chegou a publicar fotografias digitais do ambiente no qual cometeria o ato de desespero, e recebeu como retorno frases de apoio para que se matasse e dicas técnicas de como fazê-lo.

Como no espelho de fundo falso, esses internautas colocaram-se em frente aos seus monitores naquele dia e hora para apreciar a morte de outro ser humano que, por estar distante, em outro país, por não lhe serem próximos consangüineamente ou por não serem seus conterrâneos, enfim, por alguma razão a distância aparente fornecida pelo mundo virtual fez com que essas pessoas deixassem de lado sua humanidade e encarassem o suicídio do rapaz como “mais um espetáculo bizarro na Internet”.

A história, por si só abjeta, torna-se ainda mais cruel diante das novas revelações oriundas da investigação policial - que, através do número de identificação dos computadores na Internet, localizou os participantes desse suicídio assistido à distância. Um dos usuários mais ativos na sessão rastreada pela polícia internacional, um dos que mais ajudaram o rapaz a cometer o ato extremo, seria um ex-bombeiro norte-americano. O rapaz brasileiro, que sofria de depressão e era assistido por psicólogos e psiquiatras há pelo menos dois anos, levou a cabo sua decisão de dar fim à própria vida incentivado por contatos que tivera com internautas como o ex-bombeiro e outros, os quais o indicaram para grupos de discussão sobre suicídio, nos quais os usuários costumam trocar informações sobre as diversas formas de cometer tal ato e até mesmo combinam dia, hora e local para realizarem o suicídio em conjunto.

Falharam os pais, que deixaram livre o acesso do filho a todos os conteúdos da Internet? Falharam os psicólogos e psiquiatras, que não foram capazes de identificar a gravidade do estado do adolescente? Falharam os policiais, que não conseguiram chegar à tempo de evitar o pior? Creio que não há que buscar culpados em um caso como este; a culpa maior talvez resida mesmo no ato de omissão - mais ainda no de incentivo - diante de um tema de tamanha gravidade. As palavras ferem, constróem e destróem, interrompem e motivam - para o bem e para o mal. Que dizer então da palavra dita levianamente, e por um meio frio e distante como uma sala de bate-papo na Internet, onde ninguém sabe da vida de ninguém com a profundidade necessária para qualquer tipo de aconselhamento - ainda mais um conselho como este, o de que a morte é a única saída? Os internautas que acompanharam a morte desse rapaz - sobretudo o ex-bombeiro, treinado justamente para salvar vidas - agiram com o mesmo hediondo comportamento de uma turba que se posicionasse no meio da rua a gritar para que um desesperado no terraço do prédio para que salte - pelo simples prazer de ver algo dramático e diferente acontecendo em suas vidas monótonas.

Como o juiz que assiste o estupro sem culpa, por saber-se oculto pela luz espelhada pelo lado cego do vidro escuro, muitos internautas assumem o ilusório anonimato da Rede Mundial de Computadores para viver seu lado mais sórdido e ignóbil. Por trás dessa ilusória máscara, eles dão golpes financeiros, humilham outros internautas, denigrem a imagem alheia, espalham boatos ou alimentam as fraquezas e neuroses de seu próximo. Mas os espelhos se quebram e, por sorte, também se desfaz o esconderijo desses verdadeiros criminosos virtuais que precisam ter seus dias contados.

Posted by Frizero at 20:07:25
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