Mistérios do Livro Negro de Amor e Perdição do Padre Dinis de Lisboa
Um acordo firmado entre duas emissoras de televisão - uma do Brasil e outra de Portugal - promete ser um marco na aproximação cultural do dois países. A Rede Bandeirantes de Televisão e a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP) acertaram uma parceria que resultará na co-produção da primeira telenovela luso-brasileira, uma iniciativa que é inédita em se tratando do produto televisivo de maior consumo em ambos os países.
Para tal projeto, as redes de televisão de ambos os países decidiram levar ao ar Paixões Proibidas, uma adaptação livre de três obras do escritor português Camilo Castelo Branco: Amor de Perdição, Mistérios de Lisboa e O Livro Negro do Padre Dinis. A previsão é de que a produção, que será transmitida simultaneamente para os dois países em 2007, terá 160 capítulos, nos quais será contada a trama que trará personagens dos três romances e terá como pano de fundo a vida em quatro localidades diferentes - Lisboa, Coimbra, Rio de Janeiro e na pequena Vila de Resende, interior do Brasil - no ano de 1805. A adaptação dos densos personagens de Camilo Castelo Branco para o ambiente brasileiro ficará à cargo de Aimar Labaki, conhecido dramaturgo paulistano com larga experiência em televisão; a direção caberá a Ignácio Coqueiro (Brasil) e Virgilio Castello (Portugal), este último também ator e que viverá na trama o próprio Padre Dinis do romance camiliano.
Ainda que seja um desafio interessante para ambas as emissoras a consecução de um projeto de telenovela que agrade tanto o gosto do público brasileiro quanto do português, a idéia de levar aos telespectadores de ambos os países a adaptação de obras de ficção de tamanha importância em nossa história literária merece um voto de confiança. Talvez seja este mais um passo para que a produção cultural de ambos os países aproxime-se um pouco mais. Já é conhecida a paixão que os portugueses têm em relação à música brasileira, que é presença constante nas rádios e palcos lusitanos, o interesse por nossas telenovelas e as temporadas que peças teatrais brasileiras costumam fazer de tempos em tempos nas cidades portuguesas. Mas há ainda uma resistência dos brasileiros em relação à música, ao teatro e a tantas outras formas de manifestação artística produzidas no rico panorama cultural português da atualidade. A única - e imensa - fenda que existe nesta muralha que nos distancia parece ser a literatura - e ainda assim impulsionada por grandes nomes do passado e do presente, de Fernando Pessoa a José Saramago, de Florbela Espanca a Eça de Queiroz, cuja obra sobrevive nas estantes de bibliotecas de todo o país graças ao esforço dos professores de literatura que vêem nos livros este poder especial de romper fronteiras.
Camilo Castelo Branco parece ser, por conta disso, uma acertada escolha para um projeto em conjunto das televisões brasileira e lusitana. Todas as vezes em que a televisão brasileira adaptou obras literárias de autores portugueses - há que se recordar “As Pupilas do Senhor Reitor” (SBT), “O Primo Basílio” e “Os Maias” (Globo) - o resultado artístico foi primoroso e o interesse do público, ainda que tardio, sempre justificou tais investidas.
A falta de acesso da produção cultural portuguesa aos brasileiros é, em muitos aspectos, difícil de compreender. Falamos a mesma língua, ainda que com variações que são o terror de alguns ouvidos menos acostumados, que rechaçam a prosódia portuguesa como se o português do Brasil fosse um código límpido e livre de sotaques em todas as partes do país. Não há como justificar o fato de os brasileiros preferirem ouvir uma língua estrangeira à sua própria, ainda que com diferenças de vocabulário e de pronúncia - a não ser pela condição nossa de colonizados culturais que somos da máquina de entretenimento dos países de língua inglesa. Mas o distanciamento brasileiro é fruto de fatores tão variados e isolados - pouco investimento brasileiro em educação e cultura, resistência dos meios de comunicação em apresentar ao público brasileiro a produção cultural portuguesa, invasão desenfreada da produção cultural em língua inglesa - que por vezes parece impossível que um projeto como Paixões Proibidas possa resistir incólume. Mas quem sabe não será esta uma iniciativa a ser reproduzida por outras emissoras e o início de um acostumar-se ao jeito português de ser lusófono. Com mais iniciativas deste tipo, aos poucos os brasileiros irão dar-se conta de quantas coisas temos em comum - de bom e de mal - com o modo de ver o mundo de nossos irmãos portugueses.