Inclusão Digital e Analfabetismo Funcional
Querem um exemplo? Semana passada, minha irmã foi ao posto da Receita Federal de Ipanema e presenciou o seguinte diálogo entre um senhor idoso que tentava requerer sua restituição e uma funcionária:
- O senhor precisa fazer o pedido via internet.
- Mas eu não tenho computador.
- O senhor pode fazer isso em qualquer cybercafé.
- Mas eu não sei mexer em computador.
- Pede pra qualquer pessoa fazer.
- E eu vou dar meu CPF e dados bancários pra qualquer pessoa?
- Então não posso fazer nada.
É isso aí, a Receita está lutando pela inclusão digital do contribuinte brasileiro. Com unhas e dentes. Doa a quem doer.
(João Ximenes Braga - jornal O Globo)
“O Brasil é um país de contrastes” - creio que não há frase mais revisitada que esta para tentar explicar o nosso país que vive entre a miséria de muitos e o primeiro-mundismo de poucos. Há entre esses dois extremos toda uma faixa da população que almeja um e abomina o outro lado dessa realidade - e em meio a esse turbilhão os governos nossos que querem caminhar em direção à modernidade mas têm a prender-lhes as correntes pesadas de uma herança de pobreza que não conseguem dirimir.
Lembro-me sempre de uma situação pitoresca envolvendo um recente ex-ministro da Educação. Uma grande emissora de televisão exibiu uma reportagem sobre uma professora no interior do Piauí que lecionava em um barracão sem iluminação, de chão batido e paredes de madeira, no qual abrigava diariamente vinte crianças das mais diversas séries escolares por várias horas do dia no esforço imensurável de levar-lhes o saber - que para ela também era pouco, já que se tratava de uma heroína que tinha apenas a quarta série primária mas enfrentava com bravura aquela tarefa que lhe rendia mensalmente a metade de um salário-mínimo. Como desfecho da reportagem, contundente e dura, aparecia o tal ministro respondendo ao repórter, de modo displicente, algo próximo a estas palavras:
“Estaremos ainda este mês estendendo o programa do laptop de cem dólares a diversos municípios do interior do país, em uma ação pioneira do governo federal.”
É bem verdade que não sabemos a pergunta que o repórter lhe dirigiu, talvez alguma coisa totalmente desconectada do caso da professora piauiense, mas é duro imaginar que o Ministério da Educação tenha preocupações tão modernizantes quanto a de municiar as pequenas escolas do interior do país com computadores portáteis antes mesmo de elas receberem paredes de alvenaria, pisos de cimento ou a sonhada luz elétrica. É difícil pensar que um ministro brasileiro desconheça a realidade das professoras primárias que sobrevivem com o que muitos de nós gastamos em uma tarde de compras no shopping center mais próximo. Mas a verdade é que a situação de indigência das várias esferas do Poder Público no Brasil está bem mais próxima de nós que imaginamos: ainda há atualmente, em Porto Alegre, uma das maiores capitais do país, escolas de primeiro e segundo grau nas quais professores usam mimeógrafos a álcool para preparar material de aula para os alunos na falta de livros didáticos que o Estado jamais mandou, apesar das promessas.
Como, meu Deus, forçar à população os resultados mais modernos da chamada inclusão digital quando os resultados do último Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), realizado pelo grupo Ibope, dizem que apenas 26% (vinte e seis por cento) da população brasileira entre 15 e 64 anos são plenamente alfabetizados?
Por isso, esses choques de modernidade e indigência social ainda irão pairar por muitos e muitos anos sobre a vida dos brasileiros: o importante é o anúncio das medidas governamentais, e não seu resultado prático, sua capacidade de responder às demandas reais da sociedade, sua adequação à vida dos brasileiros como um todo, sem exclusões ou preconceitos de qualquer sorte.