Wednesday, July 5, 2006

Está na hora de apagar a velinha?

Esqueçam a menina que, com seu melhor vestido bordado, acabava sujando-o com um pedaço do bolo de chocolate e desatava a chorar.  Esqueçam a parada silenciosa dos pacotes abertos de presentes sobre a cama.  Esqueçam aquele primo traquinas que acabava sempre destruindo aquele brinquedo que você havia acabado de ganhar do seu padrinho.  Ah, e esqueçam também os balões, as línguas-de-sogra, o “Felicidades” escrito em letras maiúsculas de papel e unidos por um barbante estendido sobre o salão de festas, o disquinho de canções infantis tocando eternamente ao fundo, a briga saudável para ver quem chegava primeiro no prato de brigadeiros que só era liberado depois do “Parabéns a Você”.   Aliás, esqueça até mesmo o “Parabéns a Você”, pois no meio infantil dos dias correntes até mesmo a cançãozinha tola, que em língua portuguesa ganhou tradução tão simpática, tornou-se obsoleta, coisa de gente velha mesmo - velhos como eu e você, leitor. 

A nova moda - para as crianças mais abastadas, é claro - em termos de celebrações natalícias para as adolescentes entre nove e treze anos de idade é comemorar o aniversário em um salão de beleza.  A idéia é original: a aniversariante chama as amigas para uma tarde em um beauty parlor e, entre docinhos e salgadinhos, todas são convidadas a desfrutar das ofertas de tratamento de beleza do estabelecimento, que vão de unhas artísticas a lavagem de cabelos e escova, de massagem relaxante a banho com leite, rosas e ervas aromáticas - sem esquecer da maquiagem e dos apliques e acessórios capilares diversos. 

Em entrevista à revista VEJA São Paulo, o proprietário de um dos dois salões de beleza daquela cidade que já oferecem o serviço disse que “hoje em dia a vaidade é despertada cedo nas crianças e nós oferecemos as ferramentas de que elas precisam”.   Este culto à beleza é incentivado pelas mães de adolescentes paulistanas de classe alta , que têm feito os dois salões de beleza manter uma média de duas festas por semana; os custos não são nada modestos, variando entre R$ 80,00 e R$ 110,00 por convidada.  

Entre os meninos, os gostos são naturalmente diferentes: em grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo os pais têm optado por fechar LAN HOUSES - as famigeradas “casas de jogos eletrônicos”, onde os adolescentes podem jogar diversos games em rede por horas e horas e horas - apenas para os convidados do aniversariante, e o que seria uma festa de aniversário acaba por tornar-se uma silenciosa disputa entre os jovens, cada um no seu computador.  Sim, ainda há a torta de aniversário, os doces e salgadinhos, típicos de qualquer festa desse tipo - mas tudo controlado para não danificar os teclados e consoles, tampouco para atrapalhar a concentração dos competidores…  O custo do aluguel de uma LAN HOUSE para um grupo fechado de convidados não difere muito daquele do salão de beleza para as meninas, pois a versão masculina dessa nova moda em aniversários costuma se extender por muitas horas de competição entre um tiro - virtual - e outro.

Por um lado, o consumo e a vaidade - por outro, a alienação dos jogos eletrônicos… Parece que as festas de aniversário começam a refletir um pouco do que se passa na educação das novas gerações - tudo é permitido, tudo é direito adquirido, nada é contestado pelos pais sob a falsa idéia de que crianças e adolescentes não podem passar por frustrações.  As festas infantis, ao menos lá na minha longínqüa infância querida - que os tempos não trazem mais! -, eram um espaço de socialização de nós, pequenos, mas sempre sob a supervisão atenta dos pais.  Lembro-me, por exemplo, da lista enorme de recomendações que minha mãe fazia quando acontecia de eu ir a uma festa de aniversário sem a companhia de um adulto - era um desfiar eterno de um rosário de etiqueta e boas maneiras que parecia ser compartilhado por todas as mães e pais de meu círculo de relações.  Por mais enfadonho que me parecesse à época, foi ali que comecei a ser educado no salutar convívio em sociedade, onde o limite é medido pelo direito do outro.  A regra dessas novidades em termos de festas de aniversário é, ao contrário, que os pais estejam longe do ambiente do encontro - seja a LAN HOUSE ou o salão de beleza - e só apareça por lá para pagar a conta no final do dia… Regras de convivência?  Bem, um dia a vida lhes ensina. 

E pensar que meu mais louco devaneio de aniversário na infância era ter uma infantil e lúdica piscina de bolinhas de plástico! 

Posted by Frizero at 17:41:44
Comments

4 Responses to “Está na hora de apagar a velinha?”

  1. Bateu saudades de todas as coisas boas de minha infância e de mim mesma, naquela época. Havia poesia no ar e eu ainda não percebia. Hoje é tudo tão cibernético! Difícil reviver aqueles bons tempos. Mas, valeu relembrá-los.
    Por outro lado, são realmente precárias e deficientes as condições para a efetiva socialização dos jovens nos dias de hoje. Acho que vai resultar uma “tribo” muito individualista, estranha e desagradável. Não sei… Vamos esperar para ver.

  2. Richter says:

    Bah.. que saudades daquelas festas de aniversário! Você lembrou bem, Frizero, a gente quase não conseguia cantar o “Parabéns a Você” , pois os olhos e a atenção não saíam da mesa cheia de salgadinhos, docinhos e, claro, do bolo de chocolate. Coitadas das pobres crianças que preferem comemorar os seus aniversários fechadas em salões de beleza ou “lan houses”; elas nunca saberão como era bom brincar e inventar brincadeiras no pátio da casa do aniversariante. Espero que o meu sobrinho não passe por isso - o que talvez seja uma das poucas vantagens de Sta. Rosa do Tocantins: não há “lan house” por lá, nem tão cedo haverá.

  3. Iuri says:

    Inacreditável.

  4. Frizero says:

    Pois acredite, Iuri, pois é a pura verdade… É difícil imaginar o que será o futuro de uma geração acostumada a receber tudo pronto, em bandejas de prata, e só se recorda de seus direitos, jamais de seus deveres…

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