Monday, July 3, 2006

A vida depois da Copa

E a França superou-nos a apatia pentacampeã nos noventa minutos de um jogo de futebol que nos pareceu, aos torcedores brasileiros, uma eternidade insuportavelmente lenta…

A vitória da seleção francesa sobre a equipe brasileira de futebol nas quartas-de-final da Copa do Mundo de Futebol tornou-se o assunto inevitável nos últimos dois dias em todas as rodas de amigos, nos telefonemas mais banais para parentes e conhecidos e, sobretudo, nos programas televisivos dos mais variados assuntos.  Camisetas foram celeremente guardadas e a decoração de bares, prédios públicos e lojas diversas foi rapidamente arrancada das paredes, como se sua visão se tornasse ofensiva de uma hora para a outra.  Após aquele nonagésimo minuto de partida, uma inversão extraordinária promoveu-se em nós, que passamos a achar odiosa aquela propaganda televisiva engraçadinha sobre a torcida brasileira ou obsoleta e de mau gosto aquela outra que falava de um sonhado hexacampeonato… Em um átimo de segundo, enfim, o que era propaganda se transforma em anti-propaganda para as empresas que anunciam nos intervalos televisivos. 

É interessante pensarmos um pouco de onde vem essa mística exacerbada que os brasileiros guardam em torno da Copa do Mundo de Futebol.  Decerto é algo que surgiu lá do fracasso de 1950, quando a Copa do Mundo realizada no Brasil terminou em um doloroso vice-campeonato contra o pequeno país vizinho, o Uruguai, em pleno maior estádio do mundo construído especialmente para a competição, o Maracanã, no Rio de Janeiro.  Daquele dia aziago surgiu um vilão, Barbosa, o goleiro que não conseguiu defender o gol da vitória dos cisplatinos, e uma mania nacional de buscar em uma competição como esta a vitória acima de qualquer outro resultado.  Três campeonatos quase consecutivos - na Suécia de 1958, no Chile de 1962 e no México de 1970 - encheram o país de uma aura de invencibilidade que carregariam por mais de uma década a cada Copa do Mundo disputada, e que, malgrado as derrotas anteriores, parecia se confirmar na vitória sofrida por pênaltis na final da competição nos EUA em 1994. 

Mas já então, desde a Copa do Mundo de 1970, essa competição internacional tornara-se uma mania nacional e, vergonhosamente, a única razão aparente para que os brasileiros de todos os rincões sintam orgulho de sua nacionalidade e carreguem em si o sentimento de pertencerem a este país.  Como em nenhuma outra data nacional, as ruas enfeitam-se de verde-amarelo e as pessoas adotam como moda pessoal essas cores difíceis de se combinar no vestuário; passa-se a saber de cor, mentalmente, os dias e horários dos jogos da seleção brasileira e muitos acompanham com afinco outros jogos de nenhuma importância, apenas para saber de antemão quem serão nossos possíveis adversários.  No campo, no dia de jogo do Brasil, parece voltar do passado um certo espírito guerreiro que o país jamais alimentou em sua história.

Mas a Copa continua além da eliminação brasileira, e a vida também continua além da Copa do Mundo de Futebol.  Apesar dessas verdades incontestáveis, a mística alimentada pelos meios de comunicação, pela imprensa em geral, parece querer segurar até o último minuto o leitor e o telespectador presos à importância (questionável) da competição.  A grade rede de televisão aberta que está a transmitir os jogos da Copa do Mundo da Alemanha, por exemplo, diante da eliminação brasileira já começou seu trabalho de convencimento de que os brasileiros devem, agora, torcer pela “esquadra lusa” comandada por Luiz Felipe Scolari, o técnico do pentacampeonato brasileiro que, sem dúvida, fez falta no comando de nossa atual seleção.  “Se não há Brasil, que torçam por um brasileiro”, parece ser o novo motto das televisões e jornais, que precisam seguir vendendo suas cotas de patrocínio, em geral contratadas até o final da competição.   “É a língua portuguesa indo adiante na competição”, chegou a proclamar ontem um pseudo-cronista televisivo em uma revista eletrônica dominical.  Lembro-me que em copas anteriores, quando o Brasil não era um dos finalistas, chegou-se a sugerir que o público deveria assistir a final da competição para “torcer pelo juiz brasileiro” que iria apitar o jogo, já que ele representava “o Brasil na final”.

Vivemos esta mística que faz alguns contarem os anos de quatro em quatro, anunciando em alguns reveillóns que “este ano nada acontece no Brasil, pois é ano de Copa do Mundo”.  Mais que com os próximos quatro anos de preparação para a próxima competição mundial de seleções de futebol, deveríamos agora, eliminados pelos franceses de Zidane e Henry, preocupar-nos com a seleção de senhores e senhoras que iremos escolher para comandar os rumos, nos próximos quatro anos, deste nosso país de tantos recordes lamentáveis no campo social.

Será que a escolha de um ano de Copa do Mundo para ser também o ano de eleições tão amplas como esta, que elege do Presidente da República ao Deputado Estadual, foi mera coincidência de calendário?  Daqui surge uma nova mística que tenta associar o resultado da Copa do Mundo com o das eleições majoritárias - mas prefiro seguir vivendo a vida após a Copa do Mundo sem pensar em mais essa possibilidade canhesta dos destinos de meu país. 

Posted by Frizero at 12:40:09 | Permalink | Comments (2)